Pixinguinha por Pixinguinha

Música

14.04.14

A cai­xa Pixinguinha — Outras pau­tas, com tex­tos e par­ti­tu­ras, é uma publi­ca­ção do Instituto Moreira Salles, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e das Edições Sesc São Paulo. Seu lan­ça­men­to acon­te­ce­rá com o espe­tá­cu­lo Outras pau­tas — Pixinguinha em con­cer­to, reu­nin­do os 30 inte­gran­tes da Orquestra Pixinguinha na Pauta sob a batu­ta do maes­tro Pedro Aragão, e ten­do o can­tor Alfredo Del-Penho como apre­sen­ta­dor. Os shows acon­te­ce­rão no Sesc Vila Mariana, dias 22, 23 e 24 de abril, sem­pre às 21h. Ingressos à ven­da a par­tir do dia 14 no site do Sesc e nas bilhe­te­ri­as de suas diver­sas uni­da­des em São Paulo.

A fun­ção do arran­ja­dor é, mes­mo nos dias atu­ais, pou­co com­pre­en­di­da e assi­mi­la­da pelo públi­co em geral. No pro­ces­so de cri­a­ção, este pro­fis­si­o­nal atua numa posi­ção inter­me­diá­ria entre o com­po­si­tor e o intér­pre­te, mas tem seu papel qua­se sem­pre igno­ra­do por aque­les que rece­bem o pro­du­to final, seja ele uma gra­va­ção ou uma per­for­man­ce ao vivo. A pró­pria legis­la­ção sobre direi­tos auto­rais é falha no reco­nhe­ci­men­to des­ta fun­ção, rele­gan­do o arran­ja­dor ao absur­do papel de “pres­ta­dor de ser­vi­ço”, sem direi­tos garan­ti­dos sobre o fru­to de seu tra­ba­lho.

Na músi­ca de con­cer­to, o com­po­si­tor é o res­pon­sá­vel pela con­cep­ção da obra e pela pro­du­ção da par­ti­tu­ra que a leva­rá dire­ta­men­te ao intér­pre­te. Já na músi­ca popu­lar, o pro­ces­so cos­tu­ma se dar em duas eta­pas: o com­po­si­tor é o cri­a­dor da “músi­ca” — que mui­tas vezes pode se resu­mir a uma linha meló­di­ca — e o arran­ja­dor, como autên­ti­co coau­tor, con­ce­be o for­ma­to final e pro­duz a par­ti­tu­ra que será exe­cu­ta­da.

Mas… E se o autor popu­lar é tam­bém arran­ja­dor de sua pró­pria músi­ca? Nessas con­di­ções, tal­vez pos­sa­mos afir­mar, há uma atu­a­ção ple­na do com­po­si­tor, con­ce­ben­do sua obra por intei­ro.

Ao entre­gar a Pixinguinha, em 1947, a dire­ção musi­cal do pro­gra­ma O Pessoal da Velha Guarda, Almirante leva­va para o audi­tó­rio da Rádio Tupi um dos mais emble­má­ti­cos músi­cos bra­si­lei­ros de todos os tem­pos, com ple­no domí­nio de todas as fun­ções que se suce­dem na cadeia cri­a­ti­va: com­po­si­tor geni­al, arran­ja­dor bri­lhan­te, ins­tru­men­tis­ta vir­tu­o­so. E todos esses “Pixinguinhas” foram con­tem­pla­dos, pro­gra­ma a pro­gra­ma, em atu­a­ções memo­rá­veis.

Destaque espe­ci­al era dado, não por aca­so, às com­po­si­ções de Pixinguinha trans­pos­tas para orques­tra. Em Pixinguinha na pau­ta — que publi­ca­mos em 2010, tra­zen­do 36 arran­jos do mes­tre — esta­vam seis delas: “Assim é que é”, “Concerto de bate­ria”, “Conversa fia­da”, “Marreco quer água”, “Tô fra­co” e “Vou andan­do”. Vejam o tex­to com que Almirante apre­sen­ta uma das exe­cu­ções des­ta pol­ca:

Pixinguinha, ouvin­tes, o mais bra­si­lei­ro dos músi­cos bra­si­lei­ros, um dos rarís­si­mos ins­tru­men­ta­do­res que con­ser­vam pure­za e bra­si­li­da­de em seus tra­ba­lhos, é o autor de núme­ros em que não sabe­mos o que mais admi­rar, se a for­ça da ins­pi­ra­ção meló­di­ca, se a gra­ça da tra­ma ins­tru­men­tal. Os ouvin­tes da Velha Guarda não ficam indi­fe­ren­tes a essas qua­li­da­des, tan­to que nos pedem sem­pre músi­cas do gran­de Pixinga. Vamos aten­der ago­ra a João Lousada, anti­go con­tra­bai­xis­ta e cho­rão do Rio, e a Ricardo M. de Souza, da cida­de de Castro, no Paraná, fazen­do exe­cu­tar pelo Pessoal da Velha Guarda, sob a batu­ta do pró­prio Pixinguinha, a sua ale­gre pol­ca “Vou andan­do”.

A fusão entre com­po­si­tor e arran­ja­dor, cap­ta­da com tan­ta sen­si­bi­li­da­de por Almirante, con­ver­te-se num dos pon­tos altos do pro­gra­ma, esti­mu­lan­do em Pixinguinha uma pro­du­ção vol­ta­da para o reper­tó­rio auto­ral. Se vári­os des­ses arran­jos havi­am sido escri­tos em fases ante­ri­o­res de sua car­rei­ra, o pro­gra­ma O Pessoal da Velha Guarda veio pos­si­bi­li­tar a atu­a­li­za­ção des­sas par­ti­tu­ras e sua adap­ta­ção àque­la for­ma­ção ins­tru­men­tal cri­a­da por ele — sua “orques­tra dos sonhos”.

Buscando pri­vi­le­gi­ar este momen­to, a cai­xa Pixinguinha — Outras pau­tas reú­ne mais 44 par­ti­tu­ras de arran­jos de Pixinguinha, 19 deles escri­tos para com­po­si­ções pró­pri­as. Estão no reper­tó­rio clás­si­cos como “Lamentos” e “Ainda me recor­do”, o arran­jo sinfô­ni­co para “Carinhoso” e até uma com­po­si­ção iné­di­ta, a irre­sis­tí­vel pol­ca “Cercando fran­go”.

Veja o trai­ler dos con­cer­tos de lan­ça­men­to:

https://www.youtube.com/watch?v=BNNxlMIwIwU

Bia Paes Leme é coor­de­na­do­ra de músi­ca do IMS.

, ,