Poesia marginal: Palavra e livro

Literatura

09.09.13

O Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro abriu no dia 9 de agos­to a expo­si­ção Poesia mar­gi­nal — Palavra e livro, em car­taz até 10 de novem­bro, com cura­do­ria do poe­ta e con­sul­tor de lite­ra­tu­ra do IMS Eucanaã Ferraz. Estão expos­tas cer­ca de 60 publi­ca­ções, sobre­tu­do livros da déca­da de 1970, épo­ca em que a poe­sia mar­gi­nal teve sua gran­de expres­são. Na aber­tu­ra ocor­reu o encon­tro de duas gera­ções de poe­tas numa lei­tu­ra de poe­mas ao ar livre, infor­mal.

Poesia Marginal

Foi um gran­de bara­to! No últi­mo 9 de agos­to, o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro abriu a expo­si­ção Poesia mar­gi­nal — pala­vra e livro. Ao som de Gal Costa, Jorge Mautner, Jards Macalé, Novos Baianos, Rolling Stones e tan­tos outros, os visi­tan­tes de cabe­los gri­sa­lhos olha­vam, com nos­tal­gia e exci­ta­ção, as ima­gens de seus con­tem­po­râ­ne­os estam­pa­das no exte­ri­or da Pequena Galeria, enquan­to um públi­co mui­tís­si­mo jovem pare­cia vol­tar com entu­si­as­mo a um tem­po não vivi­do. Nas vitri­nes, as inven­ções de poe­tas que se divi­di­am entre a praia, o fute­bol e as livra­ri­as: cin­quen­ta e nove livri­nhos que, qua­tro déca­das depois, con­ver­te­ram-se em pre­ci­o­si­da­des. Uma lei­tu­ra de poe­mas — ou uma arti­ma­nha, como dizia o pes­so­al na Nuvem Cigana — tam­bém agru­pou dife­ren­tes gera­ções e dic­ções. O cli­ma favo­re­ceu as lem­bran­ças da déca­da, e aqui vão alguns depoi­men­tos colhi­dos naque­la noi­te.

Nicolas Behr, poe­ta

No final dos anos 70 eu tinha 20 anos. E o que me moti­va­va mes­mo den­tro da poe­sia mar­gi­nal era a espon­ta­nei­da­de. O movi­men­to era uma coi­sa não pro­gra­ma­da, mui­to de jovem pra jovem. Aliás, foi a pri­mei­ra vez que se fez poe­sia de jovem pra jovem, uma rup­tu­ra. Acho que oxi­ge­nou a lite­ra­tu­ra que se fazia e aumen­tou mui­to o públi­co lei­tor.

José Carlos Avellar, coor­de­na­dor de cine­ma do IMS

O final da déca­da de 60 e iní­cio de 70 era o momen­to em que tínha­mos um diá­lo­go mui­to for­te entre artes plás­ti­cas, lite­ra­tu­ra, poe­sia, cine­ma… Era uma coi­sa mui­to mis­tu­ra­da. Nessa épo­ca eu tra­ba­lha­va na cine­ma­te­ca do Museu de Arte Moderna. Ali era um pon­to de reu­nião para quem esta­va fazen­do arte nas mais dife­ren­tes lin­gua­gens pos­sí­veis. Você encon­tra­va pin­to­res, poe­tas, ato­res de tea­tro, ato­res de cine­ma, dire­to­res de fil­me. A par­tir des­sa tro­ca de idei­as, todos os mei­os de expres­são se enri­que­ce­ram. Eu me lem­bro espe­ci­al­men­te des­sa efer­ves­cên­cia, da tro­ca de influên­ci­as, como se um pro­ces­so artís­ti­co esti­ves­se desa­fi­an­do o outro, esti­mu­lan­do. Daí temos tex­tos em pro­sa ou poe­ma que pare­cem fil­mes, fil­mes que se pre­ten­dem poé­ti­cos. Por exem­plo, o Glauber esta­va mui­to jun­to com Oiticica, quer dizer, havia uma fusão. Quando a gen­te pen­sa na déca­da de 70, pen­sa real­men­te na for­ça cri­a­ti­va, por­que seria natu­ral que, com toda repres­são exis­ten­te, qual­quer cri­a­ti­vi­da­de fos­se impos­sí­vel. Mas se deu exa­ta­men­te o con­trá­rio. O que man­te­ve o país vivo foi a repres­são? Não, foi a cri­a­ção. Então nun­ca exis­tiu, na épo­ca da dita­du­ra, um domí­nio efe­ti­vo dos padrões do gover­no, do esta­do, sobre as pes­so­as. O que hou­ve, na expres­são cul­tu­ral, foi uma ati­vi­da­de. Por isso mes­mo se fala de arte poli­ti­za­da, de opo­si­ção ao esta­do polí­ti­co. Até podia exis­tir o esta­do polí­ti­co — a cen­su­ra -, mas o esta­do huma­no, e todo o res­to, era um esta­do de expres­são, um esta­do de cri­a­ção, o que aca­bou desar­ti­cu­lan­do a for­ça do poder.

 

Creme de lua, de Charles Peixoto, e América, de Chacal

Creme de lua, de Charles Peixoto, e América, de Chacal

Rogério Martins (Dick), capis­ta

Da déca­da de 70 me lem­bro do Píer, das Dunas da Gal…Foi o tem­po em que o pes­so­al come­çou a escre­ver. Rolava mui­ta coi­sa no Rio de Janeiro. Tinha os even­tos da Nuvem Cigana, as fes­tas rega­das a Alert Limão. Dois Alerts e era um por­re na cer­ta. Até falei com o Charles [Peixoto]: “podia ter Alert Limão” aqui no lan­ça­men­to. Quanto à cen­su­ra, nun­ca vi um pro­ble­ma dire­to den­tro das arma­ções da Nuvem Cigana ou dos lan­ça­men­tos dos livros. A cen­su­ra não enten­dia nada daqui­lo mes­mo, então não via ame­a­ça. E a gen­te tam­bém não tinha mui­to com­pro­mis­so. Não tinha reu­niões pra deci­dir o que se fazia. Hoje em dia você vai fazer uma capa de livro, uma capa de dis­co, tem reu­nião pra apro­var? Nos anos 70 não, a gen­te quei­ma­va um base­a­do e vamos lá, pega­va uma foto que gos­ta­va… Por exem­plo, a capa de Creme de lua [de Charles Peixoto] é uma tia minha, tia Áurea, diri­gin­do aque­le car­ri­nho. Um bara­to, uma fan­ta­sia poé­ti­ca aque­la foto, aque­le car­ro. Você não sabe se é de ver­da­de ou se é de men­ti­ra, mas era um brin­que­do que anda­va, um car­ro, tinha motor­zi­nho e tudo. Peguei a foto, botei lá e ficou óti­mo. Não tinha com­pro­mis­so. O América, por exem­plo, do Chacal, eu cor­tei com faqui­nha, peguei um roli­nho, imi­tei silks­cre­en. A impres­são era com­ple­ta­men­te pobre, nin­guém tinha dinhei­ro pra fazer nada, as capas tinham, no máxi­mo, duas cores, depois é que sur­giu o do Bernardo Vilhena [Atualidades atlân­ti­cas], que é de silks­cre­en, e foi a mais rica de cores. E o for­ma­to era sem­pre aque­le for­ma­to­zi­nho mes­mo, peque­no.

 

Atualidades atlânticas, de Bernardo Vilhena

Atualidades atlânticas, de Bernardo Vilhena

Numa Ciro, can­to­ra, com­po­si­to­ra e artis­ta per­for­má­ti­ca

Eu me casei no final de 1968 e saí de Campina Grande para morar em Recife. Durante o perío­do em que mora­va lá, entrei na uni­ver­si­da­de pra fazer psi­co­lo­gia, na Faculdade de Filosofia de Recife. Eu fazia psi­co­lo­gia, pas­sei a ler Carmen da Silva, que nos apon­tou para Simone de Beauvoir e todos os movi­men­tos da França e dos Estados Unidos daque­la épo­ca. Ganhei uma gran­de cons­ci­ên­cia sobre o papel da mulher, sobre a liber­ta­ção femi­ni­na. Toda vez que as pes­so­as não são ouvi­das elas gri­tam, fazem baru­lho, depois é que você pode con­ver­sar. Essa me pare­ce que foi a coi­sa que mexeu mais comi­go no come­ci­nho dos anos 70. Depois, em 76, pela pri­mei­ra vez no Brasil, des­de que hou­ve o gol­pe da dita­du­ra mili­tar, abri­ram-se os dire­tó­ri­os aca­dê­mi­cos e eu fui a pri­mei­ra pre­si­den­te do dire­tó­rio da minha facul­da­de. Foi mui­to inte­res­san­te esse momen­to tam­bém pra mim: a des­co­ber­ta da esquer­da, do comu­nis­mo, da luta de clas­ses… E um dia, que tem a ver com o dia de hoje, che­go numa gran­de livra­ria, cha­ma­da Livro Sete, em Recife, e encon­tro a anto­lo­gia 26 poe­tas hoje, de Heloísa Buarque de Holanda. Eu com­prei aque­le livro em 76 e des­co­bri todo esse movi­men­to mar­gi­nal daqui do Rio de Janeiro. Incrível! Em 2009 defen­di uma tese cha­ma­da Nas que­bra­das da voz — o lugar e a mãe na crô­ni­ca poé­ti­ca do rap, e quem foi minha ori­en­ta­do­ra? Heloísa. Eu e ela cri­a­mos a Universidade das Quebradas a par­tir des­sa tese. E ela me dá um autó­gra­fo mais de 30 anos depois. Esse livro veio comi­go a vida intei­ra. Então estou arre­pi­a­da, por­que o 26 poe­tas hoje me acom­pa­nha, me faz estar aqui com Eucanaã, nes­se lan­ça­men­to impor­tan­te, nes­sa noi­te. Estou aqui por­que me sin­to mar­gi­nal tam­bém e tudo isso tem a ver comi­go.

António Pinto Ribeiro, pro­fes­sor, con­fe­ren­cis­ta e pro­gra­ma­dor cul­tu­ral

Em 70 eu esta­va no Liceu de Portugal, estu­dan­do, e a coi­sa mais mar­can­te foi a Revolução de Abril, a Revolução dos Cravos. Foi um acon­te­ci­men­to ines­pe­ra­do, com­ple­ta­men­te sur­re­a­lis­ta. E todas as ima­gens e recor­da­ções que tenho des­sa épo­ca são de ocu­pa­ção do espa­ço públi­co, ocu­pa­ção de casas para dar às pes­so­as sem teto, ocu­pa­ção de quin­tas agrí­co­las para ofe­re­cer aos tra­ba­lha­do­res. Lembro tam­bém de que de repen­te toda a gen­te come­çou a fazer tea­tro, por­que tea­tro pare­cia uma for­ma mui­to revo­lu­ci­o­ná­ria e, ao mes­mo tem­po, peda­gó­gi­ca para expli­car nas empre­sas, por exem­plo, o que era capi­ta­lis­mo. E expli­cá­va­mos às empre­ga­das de casa o que era o mar­xis­mo atra­vés de peças. Havia ale­gria nas pes­so­as que rece­bi­am o tea­tro nas esco­las, nas fábri­cas, e até dan­ça con­tem­po­râ­nea para as gran­des empre­sas de side­rur­gia naci­o­nal. Com fran­que­za, a ence­na­ção não era neces­sa­ri­a­men­te boa, mas o ímpe­to da cri­a­ção didá­ti­ca era mui­to boni­to. Depois sur­gi­ram pes­so­as fan­tás­ti­cas des­ses gru­pos. Outra coi­sa inte­res­san­te é que tudo era mui­to anár­qui­co. Às vezes, as reu­niões demo­ra­vam sete, dez, quin­ze horas, por­que não havia lide­ran­ça, então tinha que ser dis­cu­ti­do. Essa ideia de par­ti­ci­pa­ção foi impor­tan­te para as pes­so­as apren­de­rem a rei­vin­di­car, recla­mar, dis­cu­tir no espa­ço públi­co. Foi um acor­dar para um mun­do que não conhe­cía­mos, por­que nada daqui­lo esta­va pre­vis­to, cada dia se cons­truin­do, se inven­tan­do? Você não sabia o que ia fazer no dia seguin­te. Nessa épo­ca, tam­bém, Portugal era uma mira­gem para os paí­ses da América Latina, que vivi­am qua­se todos em regi­me fas­cis­ta. Então um mon­te de chi­le­nos foi viver em Portugal, bra­si­lei­ros, argen­ti­nos, ten­tan­do rea­li­zar o que em seus paí­ses não podi­am, e a comu­ni­da­de por­tu­gue­sa aca­bou rece­ben­do mui­ta influên­cia. E a cor que a gen­te lem­bra mais é o ver­me­lho, cla­ro.

Elizabeth Pessoa, coor­de­na­do­ra do cen­tro cul­tu­ral IMS-RJ

Entrei na facul­da­de, na ECO, em 73, e o Chacal era meu cole­ga de clas­se. A gen­te ia a mui­tos shows, mui­tas fes­tas, mui­ta músi­ca boa, ao Píer de Ipanema. A vida era mui­to feliz no Rio de Janeiro. A gen­te con­se­guia ter uns esca­pis­mos, seja pela poe­sia, seja pela músi­ca, seja pelo tea­tro, para poder sobre­vi­ver àqui­lo tudo. Nessa épo­ca fiz uma via­gem pela América Latina  e come­cei a ter aces­so à lite­ra­tu­ra que era proi­bi­da aqui. Apesar de toda a cen­su­ra, a gen­te dri­bla­va isso mui­to bem. Lembro de não ter aula na facul­da­de, era bar­ra pesa­da. E a gen­te, naque­le momen­to, se reu­nia. As pes­so­as eram uni­das, numa ten­ta­ti­va de viver de uma manei­ra mais leve. Por isso havia um cli­ma de soli­da­ri­e­da­de, os gru­pos, os cole­ti­vos, que até pode­mos ver na expo­si­ção.

Hiluz del Priore, jor­na­lis­ta

Em 1970 eu fazia jor­na­lis­mo na PUC e esta­va na reda­ção do Correio da Manhã. O dops fica­va ao lado e as pes­so­as na reda­ção às vezes se per­gun­ta­vam: “cadê fula­no?” Foi tomar um café e nun­ca mais vol­tou. Era uma épo­ca mui­to boa, ape­sar da gen­te não saber exa­ta­men­te quem era quem. Minha mãe, bur­gue­so­na, fica­va apa­vo­ra­da, mas era uma mara­vi­lha. Ainda peguei os gran­des jor­na­lis­tas na reda­ção. A mídia impres­sa na épo­ca era sen­sa­ci­o­nal, impor­tan­tís­si­ma. O Jornal do Brasil era qua­se alter­na­ti­vo, O Globo era aque­la coi­sa empo­ei­ra­da e o Correio da Manhã vivia da gló­ria dos tem­pos áure­os. Minha ida para o Correio foi uma entra­da num mun­do novo, real­men­te espe­ta­cu­lar. Gabeira, a essa altu­ra, esta­va no JB, tinha aca­ba­do de seques­trar um embai­xa­dor, e foi meu pro­fes­sor tam­bém. Eu me lem­bro de Torquato Neto e Nelson Rodrigues irem à reda­ção. A poe­sia do Waly Salomão, do Torquato, vei­cu­la­vam ali da mes­ma for­ma que o Lêdo Ivo escre­via edi­to­ri­al. Mas eu olha­va pelo bura­co da fecha­du­ra, não por uma ques­tão de ida­de, mas por­que eu não era da mar­gi­na­li­da­de, era da PUC, da bolha. Complicado, mas é isso.

Galeria de ima­gens do even­to, com fotos de Paulo Jabur:

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