Polêmica!

Música

10.09.12

Ao final do post, há uma play­list com as músi­cas do Acervo do IMS que apa­re­cem subli­nha­das no tex­to.

Higiene poé­ti­ca do sam­ba

“Eu tenho orgu­lho em ser tão vadio!” — can­ta­va Sylvio Caldas, acom­pa­nha­do pelo con­jun­to Diabos do Céu de Pixinguinha, no lado B de uma bola­cha de 78 rota­ções por minu­to lan­ça­da pela Victor em outu­bro de 1933. O sam­ba, cha­ma­do “Lenço no pes­co­ço” e assi­na­do por um obs­cu­ro Mário Santoro, era um deli­ci­o­so autor­re­tra­to de um malan­dro cari­o­ca — do figu­ri­no (cha­péu do lado, taman­co arras­tan­do, len­ço no pes­co­ço, nava­lha no bol­so) à ide­o­lo­gia (“eu vejo quem tra­ba­lha andar no mise­rê”, “eu sou vadio por­que tive incli­na­ção”).

Apesar de enqua­dra­dos aqui e ali pela Lei da Vadiagem, os malan­dros — espé­cie de her­dei­ros da capo­ei­ra­gem de fins do sécu­lo XIX remo­de­la­dos pelos fil­mes de gângs­ter nor­te-ame­ri­ca­nos das déca­das de 1920 e 30 — ain­da davam seus rabos-de-arraia com con­si­de­rá­vel liber­da­de pelo Rio de Janeiro dos anos 1930. “Lenço no pes­co­ço” não era o pri­mei­ro sam­ba a retra­tá-los, nem seria o últi­mo. Também não era o mais viru­len­to — ouça “Amor de malan­dro” (Francisco Alves, Freire Júnior e Ismael Silva, 1929) ou “Mulher de malan­dro” (Heitor dos Prazeres, 1931), e me diga. Mas foi pego para cris­to pela Confederação Brasileira de Radiodifusão — cri­a­da por empre­sá­ri­os para defen­der os inte­res­ses das emis­so­ras de rádio -, que desig­na­ra uma comis­são de cen­su­ra com pode­res para vetar qual­quer músi­ca “em nome da mora­li­da­de e do res­pei­to às auto­ri­da­des cons­ti­tuí­das”. No dia 10 de outu­bro de 1933, fez-se a pri­mei­ra víti­ma: o sam­ba de Santoro, que teve sua vei­cu­la­ção proi­bi­da.

 

Rótulo do dis­co com “Lenço no pes­co­ço” ain­da cre­di­ta­do a Mário Santoro.

Dois meses antes, o com­po­si­tor Orestes Barbosa cha­ma­ra a aten­ção para o sam­ba, em sua colu­na do jor­nal A Hora:

“Causou má impres­são o novo sam­ba de Sylvio Caldas. O malan­dro, hoje, não usa mais len­ço no pes­co­ço, como no tem­po dos nago­as e guai­a­mus. Além dis­so, no momen­to em que se faz a higi­e­ne poé­ti­ca do sam­ba, a nova pro­du­ção de Sylvio Caldas, pre­gan­do o cri­me por músi­ca, não tem per­dão.”

(Por risí­vel iro­nia do des­ti­no, o segun­do veto higi­e­ni­za­dor da comis­são de cen­su­ra cai­ria sobre “No Morro de São Carlos” — sam­ba do pró­prio Orestes em par­ce­ria com Hervê Cordovil.)

Muito embo­ra por outros moti­vos, quem tam­bém estri­lou con­tra “Lenço no pes­co­ço” foi o com­po­si­tor Noel Rosa — que na épo­ca já era um car­taz.

Dancing Apollo

Em 1929, o fenô­me­no Noel Rosa con­quis­ta­ra a cida­de a bor­do de “Com que rou­pa?”. Tinha 18 anos e o sam­ba era tão somen­te sua ter­cei­ra gra­va­ção como can­tor e com­po­si­tor (o que me leva a pen­sar que cada épo­ca tem a reve­la­ção teen que mere­ce). Quatro anos depois, quan­do Sylvio Caldas teve a audá­cia de ves­tir o “Lenço no pes­co­ço” — que reve­lou-se, na ver­da­de, ser de auto­ria do nova­to Wilson Baptista -, Noel já não era uma for­te pro­mes­sa, mas uma cons­ta­ta­ção.

Mesmo fre­quen­tan­do pato­tas dife­ren­tes, Wilson e Noel já se conhe­ci­am vaga­men­te, do tea­tro musi­ca­do da Praça Tiradentes e das noi­tes boê­mi­as da Lapa. Seus cami­nhos, no entan­to, se cru­za­ri­am com mais inten­si­da­de a par­tir daque­le 1933. Um dos pri­mei­ros suces­si­nhos de Wilson, “Desacato”, foi gra­va­do em julho e, emble­ma­ti­ca­men­te, como lado B do “Feitio de ora­ção” de Noel. Talvez nes­se momen­to Noel tenha repa­ra­do que aque­le mula­ti­nho miú­do e magre­la, emi­gra­do de Campos dos Goytacazes, já esta­va come­çan­do a mos­trar ser­vi­ço. Não espe­ra­va é que o ver­da­dei­ro desa­ca­to de Wilson vies­se logo em segui­da: con­quis­tar o cora­ção de uma dan­ça­ri­na do Dancing Apollo (situ­a­do à Rua Mem de Sá, 34, na Lapa) que Noel tam­bém anda­ra asse­di­an­do.

 

Capa da par­ti­tu­ra de “Desacato” (Wilson Baptista e Murillo Caldas), que foi lan­ça­do em dis­co como lado B de “Feitio de Oração” (Vadico e Noel Rosa), em 1933. Era a pri­mei­ra vez que Wilson e Noel “divi­di­am” um dis­co.

Na ten­ta­ti­va de bai­xar a cris­ta de Wilson, seu rival nos cari­nhos da more­na do Apollo, Noel compôs o sam­ba “Rapaz fol­ga­do”, em que deto­na­va, ver­so a ver­so, a empá­fia de “Lenço no pes­co­ço”: “E tira do pes­co­ço o len­ço bran­co / Compra sapa­to e gra­va­ta / Joga fora essa nava­lha / Que te atra­pa­lha”. Sem saber, pro­cu­ra­va sar­na para se coçar: era tudo o que o cava­dor Wilson Baptista podia que­rer.

Desafio e ami­za­de

Quando ouviu “Rapaz fol­ga­do”, can­ta­do por Noel no Programa Casé e eco­a­do por cole­gas nas rodas de com­po­si­to­res, Wilson deu o tro­co — por gai­a­ti­ce e sen­so de opor­tu­ni­da­de — com “Mocinho da Vila”, em que acon­se­lha­va Noel a cui­dar de seu micro­fo­ne e dei­xar quem era malan­dro em paz. No bre­que final do sam­ba, orgu­lha­va-se: “modés­tia à par­te, eu sou rapaz” (fol­ga­do?). Em “Feitiço da Vila”, líri­ca par­ce­ria com Vadico gra­va­da no ano seguin­te por João Petra de Barros, Noel pare­ce redi­men­si­o­nar o orgu­lho de Wilson — “modés­tia à par­te, eu sou da Vila” (Isabel), diz ele. Coincidência? O fato é que Wilson vol­tou à car­ga com “Conversa fia­da”, ques­ti­o­nan­do cada ima­gem de supe­ri­o­ri­da­de do bair­ro con­ti­da no sam­ba de Vadico e Noel. Oficialmente, con­si­de­ra-se o clás­si­co “Palpite infe­liz” (lan­ça­do em dis­co por Aracy de Almeida) uma res­pos­ta de Noel ao “Conversa fia­da” de Wilson — e tudo leva a crer que tenha sido mes­mo, ape­sar da vee­mên­cia com que com­po­si­to­res do Salgueiro rei­vin­di­ca­ram o sam­ba, ao lon­go dos anos, como um pito des­ti­na­do, na ver­da­de, ao len­dá­rio Antenor Gargalhada, sam­bis­ta que tam­bém andou às tur­ras com o Poeta da Vila. Infelizmente, Noel não dei­xou decla­ra­ções a res­pei­to.

Sendo ou não o alvo de “Palpite infe­liz”, Wilson virou moti­vo de cha­co­ta entre as xicri­nhas do Café Nice — pon­to de encon­tro de com­po­si­to­res, na Avenida Rio Branco, 168–170. Muy ami­gos como Germano Augusto e Kid Pepe ati­ça­vam os âni­mos, afir­man­do que Noel pre­pa­ra­va uma série de sam­bas arra­sa­do­res con­tra ele (tam­bém fazi­am o inver­so com Noel). O suces­so de “Palpite infe­liz” no car­na­val seguin­te (1936) tor­nou a situ­a­ção ain­da mais humi­lhan­te para Wilson.

 

Noel Rosa em 1936, ano em que “Palpite infe­liz” arra­sou quar­tei­rões.

Na expec­ta­ti­va de ser nova­men­te espi­na­fra­do, Wilson encheu gave­tas com sam­bas de debo­che a Noel que ele mes­mo — erra­da­men­te, diga-se — jul­ga­va “boro­co­chôs” (fra­cos). Vieram “Frankenstein da Vila” (em que deli­ci­o­sa­men­te rimou “Frankenstein” com “um cer­to alguém” e deu um gol­pe bai­xo em Noel mexen­do com o seu quei­xo defei­tu­o­so) e “Terra de cego”. Ambos foram can­ta­dos em rádio, por nomes como Léo Vilar, Mário Moraes e Os Quatro Diabos, mas não che­ga­ram a ser gra­va­dos. Aliás, nem foram fei­tos para isso — eram ape­nas pia­das.

Alheio àque­les que que­ri­am ver o cir­co pegar fogo, Noel resol­veu emen­dar o dita­do: mes­mo poden­do com o “ini­mi­go”, jun­tou-se a ele. Encontrando Wilson por aca­so num café no cen­tro da cida­de (uns dizem que foi no Café Club, outros no Leitão), tomou a ini­ci­a­ti­va de fazê-lo seu par­cei­ro. O que, para pre­juí­zo de todos nós, acon­te­ceu essa úni­ca vez. A par­tir da melo­dia de “Terra de cego”, Noel cri­ou uma nova letra, mudan­do o nome do sam­ba de Wilson para “Deixa de ser con­ven­ci­da”. “Todos sabem qual é teu velho modo de vida”, diz um tre­cho da par­ce­ria. O reca­do tinha des­ti­no cer­to: uma cer­ta more­na do Dancing Apollo, pági­na vira­da na vida de ambos.

Pouco mais se viram. Wilson e um ami­go — Erasmo Silva — havi­am for­ma­do a dupla vocal Verde e Amarelo e embar­ca­ram em mea­dos do ano seguin­te para Buenos Aires, como can­to­res da orques­tra bai­a­na Os Almirante Jonas. Ficariam dois anos fora do Rio de Janeiro, emen­dan­do a gig por­te­nha com uma lon­ga esta­dia em São Paulo, como atra­ções fixas das rádi­os Record e Tupi.

 

A Dupla Verde e Amarelo, de Wilson Baptista e Erasmo Silva, em car­taz de show rea­li­za­do em Pelotas (RS), em 1937.

 


Em 1937, quan­do sou­be da mor­te de Noel, Wilson (ain­da em São Paulo) fez um sam­ba em home­na­gem ao cole­ga, cha­ma­do “Grinalda”. Cantou-o em rádio, mas nun­ca che­gou a gra­vá-lo. Até fale­cer em 1968, reve­ren­ci­ou Noel como um ído­lo em deze­nas de entre­vis­tas. E citou-o em pelo menos oito sam­bas: “Terra boa” (1942), “Waldemar (Quero um sam­ba)” (1943), “Chico Viola” (1952), “Garota dos dis­cos” (1952), “Skindô” (1962), “Parabéns, Rio” (1965), “A nova Lapa” (1968) e “Transplante de cora­ção” (1968).

 

Wilson Baptista dian­te do micro­fo­ne da PRF-9 (Rádio Difusora Porto-ale­gren­se) em 1937, aos 24 anos.

A Polêmica ganha for­ma

Em 1951, o apai­xo­na­do “homem de rádio” e pes­qui­sa­dor Almirante pro­du­ziu e apre­sen­tou uma série radi­ofô­ni­ca de gran­de suces­so, No tem­po de Noel Rosa, que desa­gua­ria anos depois numa bio­gra­fia do com­po­si­tor. Era o iní­cio do res­ga­te da memó­ria de Noel, depois de uma déca­da de rela­ti­vo esque­ci­men­to.

Com sua atu­a­ção nos anos 1950 cada vez mais redu­zi­da ao car­na­val, Wilson não espe­ra­va mui­to dos mei­os de comu­ni­ca­ção. Talvez por isso tenha lhe pare­ci­do lison­jei­ro par­ti­ci­par do pro­gra­ma, no epi­só­dio sobre a polê­mi­ca musi­cal ocor­ri­da quin­ze anos antes — mes­mo que isso sig­ni­fi­cas­se com­pac­tu­ar com a ver­são “rear­ran­ja­da” por Almirante para ir ao ar. Sintonizado com o gos­to de seus ouvin­tes — em geral donas de casa com um olho no fer­ro de pas­sar e o outro na lei­tei­ra qua­se fer­ven­do -, Almirante jogou a more­na do Dancing Apollo para bai­xo do tape­te e dig­ni­fi­cou a moti­va­ção de Noel ao ini­ci­ar a con­ten­da com Wilson. Segundo o radi­a­lis­ta, Noel res­pon­de­ra a “Lenço no pes­co­ço” movi­do “por um lou­vá­vel inte­res­se pela rege­ne­ra­ção dos temas poé­ti­cos da músi­ca popu­lar”. Logo quem. Amigo de malan­dros peri­go­sos como Baiaco, Meia Noite e Zé Pretinho, Noel Rosa — para deses­pe­ro da mamãe D. Martha — vivia a léguas do poli­ti­ca­men­te cor­re­to (con­cei­to que, aliás, nem exis­tia). Seu fas­cí­nio pela malan­dra­gem está pre­sen­te em sam­bas como “Capricho de rapaz sol­tei­ro”, gra­va­do por Mário Reis no mes­mo ano em que Sylvio Caldas gra­vou o “Lenço no pes­co­ço” de Wilson: “Nunca mais essa mulher / Me vê tra­ba­lhan­do / Quem vive sam­ban­do / Leva a vida para o lado que quer / De fome não se mor­re / Nesse Rio de Janeiro / Ser malan­dro é um capri­cho / De rapaz sol­tei­ro”.

Ao cri­ar um can­to cla­ro para Noel no rin­gue da Polêmica, tiran­do de cena a dan­ça­ri­na do Apollo, Almirante não se per­gun­tou: a quem cabe­ria o can­to escu­ro?

Vilão da Polêmica

A par­ti­ci­pa­ção de Wilson num dos capí­tu­los de No tem­po de Noel Rosa, com direi­to a apres­sa­da pali­nha de seus mai­o­res suces­sos, é, iro­ni­ca­men­te, um dos pou­cos regis­tros de sua voz fala­da. Ele ves­tia ali, com inde­vi­da humil­da­de, uma cara­pu­ça ade­ren­te, ven­den­do-se como um anti-Noel. E o que tinha sido ape­nas uma chan­cha­da entre cole­gas na dis­pu­ta por um rabo-de-saia, res­tri­ta à galho­fa das rodas de com­po­si­to­res, ganha­ria, com o pas­sar dos anos, cores de um due­lo qua­se épi­co, ren­den­do aná­li­ses soci­o­ló­gi­cas pro­fun­das que con­tra­pu­nham Vila Isabel x Estácio, Branco x Negro, Civilização x Malandragem. Num pro­ces­so simi­lar ao de Carmen Miranda (dadas as roliu­di­a­nas pro­por­ções), em que a Carmen-can­to­ra foi ofus­ca­da pelo bri­lho de seus arra­nha-céli­cos tur­ban­tes, o Wilson-cra­que-da-com­po­si­ção foi sen­do empur­ra­do para a som­bra pelo paté­ti­co Wilson-vilão-da-Polêmica.

A Odeon sai na fren­te

A ideia de gra­var a Polêmica na ínte­gra (como fora apre­sen­ta­da no pro­gra­ma de Almirante) ganhou for­ça a par­tir do adven­to do dis­co de dez pole­ga­das, em mea­dos da déca­da de 1950. O for­ma­to — em geral, qua­tro fai­xas de cada lado — era per­fei­to para abri­gar a série de sam­bas que com­pu­nham o “due­lo musi­cal”, dos quais per­ma­ne­ci­am iné­di­tos em dis­co “Mocinho da Vila”, “Conversa fia­da”, “Frankenstein da Vila”, “Terra de cego” (todos de Wilson) e “Deixa de ser con­ven­ci­da” (de Wilson e Noel).

Em 1953, a Revista do Rádio anun­ci­ou que Wilson Baptista pla­ne­ja­va “regra­var os desa­fi­os que fez com o sau­do­so Noel Rosa”. Mas só no final do ano seguin­te a coi­sa pare­ceu andar: segun­do um Diário Carioca de novem­bro de 1954, o dis­co se cha­ma­ria Polêmica, sai­ria pela Continental, e teria suas gra­va­ções ini­ci­a­das no mês seguin­te — com Aracy de Almeida, e não Wilson, ao micro­fo­ne. Meses depois, a impren­sa ain­da noti­ci­a­va o dis­co como um pro­je­to a ser rea­li­za­do. Seria o ter­cei­ro de Aracy devo­ta­do a Noel na Continental — a can­to­ra já lan­ça­ra Aracy de Almeida apre­sen­ta sam­bas de Noel Rosa (1954) e Canções de Noel Rosa com Aracy de Almeida (1955). Mas a Odeon pas­sou a fren­te e frus­trou os pla­nos de Aracy.

Diz a revis­ta Radiolândia em junho de 1955: “O cro­nis­ta Alberto Rego, conhe­ci­do cai­ti­tu (gíria para divul­ga­dor musi­cal), tan­to fez e mexeu que con­se­guiu uma coi­sa que toda gen­te jul­ga­va difí­cil: a gra­va­ção da famo­sa polê­mi­ca musi­cal entre Wilson Baptista e o fale­ci­do Noel Rosa. Esse dis­co, que a Continental che­gou a anun­ci­ar, será fei­to pela Odeon, que que­bra­rá assim um velho encan­to. E viva o Borocochô (ape­li­do de Rego)!” Nos pri­mei­ros meses de 1956, de fato, Polêmica che­gou às lojas, com o selo da Odeon impres­so na lin­da capa ilus­tra­da por Nássara e os can­to­res Francisco Egydio e Roberto Paiva dan­do voz a Noel e Wilson, res­pec­ti­va­men­te. Em pou­cos anos, se tor­na­ria um item de cole­ci­o­na­dor.

 

Capa do dis­co Polêmica (Odeon MODB 3.033), com cari­ca­tu­ras de Noel e Wilson assi­na­das por Nássara (par­cei­ro musi­cal de ambos).

 

 

Anúncio do dis­co Polêmica em jor­nais de 1956.

Rua do Rezende

“Foi um dis­co apres­sa­do” — lem­bra Roberto Paiva, memó­ria tinin­do aos 91 anos de ida­de. “Fui con­vi­da­do pelo Lentine, dire­tor artís­ti­co da Odeon. Me pas­sa­ram as par­ti­tu­ras, ensai­ei com um pia­nis­ta ami­go, da Rádio Nacional, e em pou­cos dias esta­va gra­van­do. Gravei todas as músi­cas de uma vez só, num estú­dio pro­vi­só­rio, bem pre­cá­rio, que a Odeon teve na Rua do Rezende, qua­se esqui­na com Mem de Sá, antes de se mudar pro Edifício São Borja, na (Avenida) Rio Branco.”

Não havia bair­ro melhor que a Lapa para eter­ni­zar as músi­cas de Wilson, lape­a­no de car­tei­ri­nha. Quanto às de Noel, diz Roberto, foram gra­va­das por Egydio no estú­dio da Odeon em São Paulo. Roberto e Egydio não esti­ve­ram jun­tos — somen­te meses depois, quan­do can­ta­ram a Polêmica em um pro­gra­ma de TV pau­lis­ta. Wilson Baptista, então com 43 anos incom­ple­tos, não foi ao estú­dio assis­tir à gra­va­ção de suas músi­cas, nem se envol­veu dire­ta­men­te. Roberto o conhe­cia de vis­ta do Nice, e só se tor­na­ram mais che­ga­dos na déca­da seguin­te, duran­te uma via­gem a Salvador. Mas isso é outra his­tó­ria.

Infelizmente, Roberto não se lem­bra de quem fez os arran­jos musi­cais do dis­co, nem dos músi­cos que par­ti­ci­pa­ram. Nenhum deles é cre­di­ta­do. Pelo tra­ba­lho, ganhou um bom cachê. E não fica­ria mui­to tem­po lon­ge do estú­dio da Rua do Rezende. Meses depois, con­vi­da­do por Aloysio de Oliveira, ali retor­na­ria para gra­var outro clás­si­co: Orfeu da Conceição — sim­ples­men­te a estréia em dis­co da par­ce­ria musi­cal de Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes.

Dona Vitrolina cho­rou!

Polêmica não foi bem rece­bi­do pela crí­ti­ca. Ouvi-lo, hoje, é ouvir a um dis­co deli­ci­o­so e his­tó­ri­co, ape­sar de serem difí­ceis de enten­der algu­mas de suas falhas — ain­da mais em se tra­tan­do de um pro­je­to aca­len­ta­do por tan­to tem­po, envol­ven­do um dos pro­ta­go­nis­tas (Wilson) e uma tes­te­mu­nha dire­ta (Nássara).

O prin­ci­pal erro foi a inclu­são de “João Ninguém” no reper­tó­rio — um sam­ba de Noel que nada teve a ver com a dis­pu­ta musi­cal -, em detri­men­to de “Deixa de ser con­ven­ci­da”, a par­ce­ria de Wilson e Noel que coro­ou a série selan­do a ami­za­de dos dois. “Dona Vitrolina”, crí­ti­ca musi­cal de Radiolândia, foi impla­cá­vel:

“Dona Vitrolina cho­rou!… ouvin­do a Polêmica do Noel Rosa e Wilson Baptista, lan­ça­da em LP pela Odeon. Levou-se tan­to tem­po para con­cre­ti­zar tão boa ideia e afi­nal fize­ram um negó­cio sem expres­são, apres­sa­do, aquém das tra­di­ções daque­la dis­cus­são musi­cal. Por que não puse­ram um bom nar­ra­dor expli­can­do os lan­ces, músi­ca após músi­ca?”

R. R., colu­nis­ta de O Jornal, não dei­xou por menos: a inclu­são de “João Ninguém” no dis­co era uma “aber­ra­ção”, os arran­jos, “de gos­to duvi­do­so”, e a inter­pre­ta­ção de Egydio, “pou­co reco­men­dá­vel” — fal­tan­do-lhe humor e sim­pli­ci­da­de. Finaliza R. R.: “É tam­bém alar­man­te o núme­ro de erros de revi­são que figu­ram no LP, e que pare­cem impli­car em cer­to des­cui­do por par­te da gra­va­do­ra, micros­sul­co que, de qual­que for­ma, é de gran­de impor­tân­cia.”

Mea cul­pa de Wilson

 

Wilson e o dis­co Polêmica em foto de divul­ga­ção, 1956.

Mesmo assim, o lan­ça­men­to de Polêmica pro­por­ci­o­nou algu­mas ale­gri­as a Wilson, que vol­tou a figu­rar com mais frequên­cia em jor­nais e a ser con­vi­da­do para par­ti­ci­par de pro­gra­mas de rádio e TV. Mas o pre­ço era alto: com uma obra de cer­ca de qui­nhen­tas músi­cas gra­va­das (reple­ta de suces­sos), cader­nos trans­bor­dan­do de músi­cas iné­di­tas e mil his­tó­ri­as para con­tar, Wilson via-se limi­ta­do a res­pon­der sem­pre às mes­mas per­gun­tas, em entre­vis­tas que come­ça­vam, inva­ri­a­vel­men­te, com uma pali­nha dos sam­bas da Polêmica, pas­sa­vam pela cons­ta­ta­ção de que Noel era um gênio e ter­mi­na­vam com Wilson se jus­ti­fi­can­do por ter brin­ca­do com o defei­to físi­co do “rival” em “Frankenstein da Vila”. Me espan­ta que a fixa­ção de todos pela polê­mi­ca entre Wilson e Noel tenha var­ri­do do mapa outras polê­mi­cas musi­cais, como a que hou­ve entre Pixinguinha e Sinhô em fins da déca­da de 1910, e que resul­tou em sam­bas nem sem­pre cor­di­ais. “Já te digo” (de Pixinguinha e seu irmão China) é um exem­plo de zoa­ção cru­el com a apa­rên­cia de Sinhô: “Ele é um cabra mui­to feio / Que fala sem receio / E sem medo do peri­go / Ele é alto, magro e feio / É des­den­ta­do / Ele fala do mun­do intei­ro / E já está ava­ca­lha­do / No Rio de Janeiro.” E não cons­ta que seus auto­res tenham pas­sa­do uma vida se des­cul­pan­do em pra­ça públi­ca.

 

Em 1964, Wilson ain­da era pro­cu­ra­do pela impren­sa para falar da Polêmica e “tirar o cha­péu para Noel”.

Apenas um deta­lhe

Num Sexta Super da Rede Globo exi­bi­do em 1977, depois de dizer que, na sua opi­nião, “Wilson Baptista é o mai­or sam­bis­ta bra­si­lei­ro de todos os tem­pos”, Paulinho da Viola apro­vei­tou a opor­tu­ni­da­de para puxar a ore­lha dos teles­pec­ta­do­res: “Pena que só é lem­bra­do quan­do se fala da polê­mi­ca com Noel. Na ver­da­de, a Polêmica na obra dele é ape­nas um deta­lhe.”

Um deta­lhe, ape­nas, den­tro de duas obras de gênio — as de Wilson e de Noel. Mas que todos nós, aman­tes do sam­ba, jamais dei­xa­re­mos de cul­tu­ar e ouvir. 

* Rodrigo Alzuguir é pro­du­tor, ator, músi­co e pes­qui­sa­dor. Prepara uma bio­gra­fia de Wilson Baptista, a ser lan­ça­da em 2013.

Veja mais:

Documentário da Rádio Batuta sobre Noel Rosa e hot­si­te espe­ci­al tam­bém sobre o can­tor e com­po­si­tor.

, , , , , , ,