Andrzej Wajda

Divulgação

Andrzej Wajda

Política com olhar caloroso

No cinema

14.10.16

O polo­nês Andrzej Wajda, que mor­reu aos 90 anos no últi­mo dia 9, é tal­vez o nome mais impor­tan­te de uma cine­ma­to­gra­fia for­tís­si­ma, que deu ao mun­do cri­a­do­res como Kawalerowicz, Zanussi, Polanski, Zulawski e Kieslowski. Por sor­te ou casu­a­li­da­de, seu últi­mo fil­me, Afterimage (2016), sobre um artis­ta dis­si­den­te que desa­fi­ou os parâ­me­tros do “rea­lis­mo soci­a­lis­ta”, está pas­san­do no Festival do Rio, e a Mostra Internacional de São Paulo, que come­ça no dia 20, pro­gra­mou uma retros­pec­ti­va com dezes­se­te títu­los do dire­tor. O pró­prio Wajda tinha con­fir­ma­do que viria a São Paulo para rece­ber o Prêmio Humanidade, con­fe­ri­do pela Mostra.

Ainda é pos­sí­vel ver Afterimage em duas ses­sões do fim de sema­na: sába­do, dia 15, às 21h20, no Reserva Cultural Niterói, e domin­go às 15h no Odeon. Na Mostra de São Paulo esta­rão pre­sen­tes todos os prin­ci­pais fil­mes de Wajda, como Cinzas e dia­man­tes, Terra pro­me­ti­da, O homem de már­mo­re, Sem anes­te­sia, Danton e Katyn.

É cine­ma polí­ti­co por exce­lên­cia. Não um cine­ma dou­tri­ná­rio, “de pre­ga­ção”, mas, pelo con­trá­rio, um cine­ma de ques­ti­o­na­men­to e crí­ti­ca, de des­mas­ca­ra­men­to de idei­as e ima­gens de opres­são. Há uma coe­rên­cia bási­ca nes­sa tra­je­tó­ria artís­ti­ca, por mai­or que seja a vari­e­da­de de seus temas e a abran­gên­cia (inclu­si­ve geo­grá­fi­ca) de seu esco­po.

Polônia dila­ce­ra­da

No cen­tro de tudo está a con­di­ção dila­ce­ra­da da Polônia, divi­di­da entre a Alemanha e a Rússia, entre a Europa e a Ásia, his­to­ri­ca­men­te inva­di­da e saque­a­da por povos e impé­ri­os. Como cons­truir des­sas ruí­nas um país? E que país seria esse? Tais per­gun­tas pare­cem estar embu­ti­das em boa par­te da fil­mo­gra­fia de Wajda, des­de a “tri­lo­gia da resis­tên­cia” anti­na­zis­ta (Geração, Kanal e Cinzas e dia­man­tes, dos anos 1950), pas­san­do por O homem de már­mo­re (1977) e O homem de fer­ro (1981), des­cons­tru­ções das men­ti­ras do “soci­a­lis­mo real”, e desem­bo­can­do em Katyn (2007), esse fil­me extra­or­di­ná­rio que mes­cla o dra­ma pes­so­al (o pai de Wajda foi um dos milha­res de ofi­ci­ais polo­ne­ses exe­cu­ta­dos pelos sovié­ti­cos) com a tra­gé­dia his­tó­ri­ca.

Mesmo quan­do abor­dou temas “estran­gei­ros”, como em Danton (1983) e Os pos­ses­sos (1988), a pre­o­cu­pa­ção evi­den­te de Wajda era com o seu país. Ambientado nos anos do ter­ror jaco­bi­no da Revolução Francesa (1793–94), Danton na ver­da­de dis­cu­tia vela­da­men­te (mas não mui­to) o con­fron­to entre o líder ope­rá­rio Lech Walesa e o então pri­mei­ro-minis­tro da Polônia, Wojciech Jaruzelski. O pri­mei­ro seria aná­lo­go ao impe­tu­o­so Danton; o segun­do, ao impla­cá­vel Robespierre.

Baseado no roman­ce homô­ni­mo de Dostoiévski (tam­bém tra­du­zi­do como Os demô­ni­os), com rotei­ro de Jean-Claude Carrière, Os pos­ses­sos tra­ta de um tema caro a Wajda, a frá­gil fron­tei­ra entre o ide­a­lis­mo polí­ti­co e o fana­tis­mo. Da uto­pia ao tota­li­ta­ris­mo é um pas­so, pare­cem nos adver­tir esse fil­me e, de cer­to modo, toda a fil­mo­gra­fia do dire­tor. Do mes­mo ele­men­to são fei­tos o dia­man­te e as cin­zas.

A par das inqui­e­ta­ções polí­ti­cas e filo­só­fi­cas, Wajda cons­truiu uma lin­gua­gem cine­ma­to­grá­fi­ca sóli­da, um rea­lis­mo robus­to pon­tu­a­do aqui e ali por um grão de lou­cu­ra, por um toque de humor negro (ou não seria polo­nês). Um esti­lo visu­al que com­bi­na­va o domí­nio dis­cre­to do enqua­dra­men­to e da ilu­mi­na­ção expres­si­o­nis­tas com o uso com­pe­ten­te da pro­fun­di­da­de de cam­po do cine­ma moder­no.

Uma sequên­cia-cha­ve de Cinzas e dia­man­tes (1958), com legen­das em inglês, pode dar uma ideia da rique­za esté­ti­ca e poé­ti­ca de sua arte. Trata-se de uma cena em que o mili­tan­te da resis­tên­cia Maciek (Zbigniew Cybulski, “o James Dean polo­nês”) con­ver­sa nas ruí­nas de uma igre­ja bom­bar­de­a­da com a jovem gar­ço­ne­te Krystyna (Ewa Kryzewska) sobre seus dile­mas pes­so­ais e sua difi­cul­da­de com o amor. É o pri­mei­ro dia depois do fim da Segunda Guerra, e o ator­men­ta­do Maciek tem como mis­são matar um líder dis­tri­tal comu­nis­ta:

O que dis­tin­gue a abor­da­gem polí­ti­ca de Wajda é um olhar calo­ro­so diri­gi­do aos indi­ví­du­os, com suas fra­que­zas e con­tra­di­ções, e um olhar des­con­fi­a­do dian­te das gran­des idei­as, pro­mes­sas e sis­te­mas. Por isso seu cine­ma segue mais vivo do que nun­ca.

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