Por onde andou Sophie Podolski?

Literatura

14.03.16

Na rea­li­da­de, ler é mui­to mais impor­tan­te que escre­ver.” Essa pode­ria ser uma fra­se de Roberto (Bobi) Bazlen, o ilus­tre des­co­nhe­ci­do escri­tor sem livros, feri­no con­sul­tor das edi­to­ras ita­li­a­nas Adelphi, Einaudi e Bompiani em sua fase glo­ri­o­sa. Se tives­se sido escri­ta por Bazlen, a coe­rên­cia e o sen­ti­do da fra­se esta­ri­am tran­qui­la­men­te garan­ti­dos. Ocorre que seu autor é um outro Roberto, o Bolaño. Em outra oca­sião, este mes­mo Roberto afir­ma­ria que “ler é mui­to mais pra­ze­ro­so que escre­ver”. A decla­ra­ção soa para­do­xal dian­te da vas­ta lite­ra­tu­ra escri­ta e publi­ca­da pelo autor, mas, para seus fiéis lei­to­res, faz todo o sen­ti­do.

Uma poé­ti­ca da lei­tu­ra encor­pa e dá for­ça à lite­ra­tu­ra de Bolaño – é algo per­cep­tí­vel des­de a juven­tu­de de poe­ta infrar­re­a­lis­ta no México até seu roman­ce pós­tu­mo, 2666. Tanto já foi dito sobre ele. Há uma sim­pa­tia em seu ros­to que con­fir­ma o tom de sua voz nar­ra­ti­va e nos apro­xi­ma dele, como se tam­bém nós lei­to­res tivés­se­mos sido ami­gos de Bolaño em algum momen­to fur­ti­vo da juven­tu­de. Acredito que mes­mo aque­les para quem a juven­tu­de ain­da não se tor­nou um pas­sa­do têm essa sen­sa­ção. Seus lei­to­res se reco­nhe­cem entre si como uma espé­cie rara de comu­ni­da­de que não teme expor o pra­zer daque­le con­ví­vio, estão mais pró­xi­mos dos ciné­fi­los que dos lei­to­res em geral.

Em cer­tas oca­siões, Bolaño fez da pro­sa uma téc­ni­ca par­ti­cu­lar de incor­po­rar ao rela­to fic­ci­o­nal as obses­sões pro­sai­cas de um lei­tor de poe­sia. Expôs assim os indí­ci­os de uma his­tó­ria lite­rá­ria por fazer, ou já per­di­da, assom­bra­da e fas­ci­na­da pelo fan­tas­ma de auto­res que o ante­ce­de­ram ou que viu desa­pa­re­cer. Em seus livros, Bolaño nos con­duz semi­ce­gos por um labi­rin­to de títu­los e nomes-enig­mas. Uma escri­ta de lei­tor, por­tan­to, e um dos raros casos que não joga a poe­sia con­tra a pro­sa, nem se guia pela von­ta­de de eli­mi­nar do pro­sai­co a fic­ção pre­cá­ria da vida, rumo ao céu do subli­me.

Como escre­veu Vitor Nogueira, “um agen­te secre­to pode ser qual­quer pes­soa”, de modo que o lei­tor de Bolaño, seja quem for, se con­ver­te­rá facil­men­te em espião, reco­lhen­do as pis­tas do pra­zer da lei­tu­ra alheia. Dos incon­tá­veis nomes dis­se­mi­na­dos nes­sa obra (com todos os cala­fri­os que a pala­vra “obra” ain­da pode pro­du­zir), há dois que nun­ca ces­sa­ram de me intri­gar: Sophie Podolski e o Montfaucon Research Center.

Sophie Podolski, garo­ta bel­ga que se sui­ci­dou aos 22 anos, mem­bro do Montfaucon Research Center. A ela Bolaño dedi­cou um poe­ma, incluí­do em La uni­ver­si­dad des­co­no­ci­da, e nele diz estar par­tin­do para o país de Sophie, país do nada e da meta­mor­fo­se lunar. Seu nome sur­ge tam­bém em “Vagabundo na França e na Bélgica”, nas pági­nas do diá­rio de Juan García Madero, de Os dete­ti­ves sel­va­gens, e em “Autores que se ale­jan”, incluí­do em Entre parén­te­sis. Neste, Bolaño se refe­re a Podolski e ao poe­ta fran­cês Matthieu Messagier como exem­plos daque­les auto­res estu­pen­dos que foram ama­dos e mui­to lidos, mas cujos livros esta­ri­am esgo­ta­dos, há mui­to tem­po ina­ces­sí­veis. Essa ideia de per­da e de uma arque­o­lo­gia impos­sí­vel da lite­ra­tu­ra per­cor­re tam­bém vári­os poe­mas de Bolaño: “Dentro de mil anos não fica­rá nada/ do que foi escri­to nes­te século./ Lerão fra­ses sol­tas, manchas/ de mulhe­res per­di­das”. Para que nem tudo se per­ca ou se esque­ça, Bolaño reco­lhe e espa­lha alguns dos ras­tros des­sa lite­ra­tu­ra em vias de extin­ção, como um Cro-Magnon dei­xan­do a mar­ca nega­ti­va de suas mãos no inte­ri­or das gru­tas para o pra­zer e o deses­pe­ro dos sel­va­gens arqueó­lo­gos do futu­ro.

São pou­cas refe­rên­ci­as a Podolski, e sem­pre elíp­ti­cas, daí cer­ta­men­te tam­bém seu poder vibra­tó­rio. Teria Bolaño conhe­ci­do Sophie Podolski pes­so­al­men­te? Pouco pro­vá­vel. E tal­vez não impor­te. É pos­sí­vel que tenha lido Podolski na revis­ta fran­ce­sa Tel Quel, que publi­cou os escri­tos dela em três de suas edi­ções: núme­ro 53, na pri­ma­ve­ra de 1973; núme­ro 55, no outo­no de 1973; e, pos­tu­ma­men­te, núme­ro74, no inver­no de 1978. Ao que se sabe, cou­be ao escri­tor Philippe Sollers, um dos edi­to­res da revis­ta, a publi­ca­ção de tre­chos do ori­gi­nal de Le Pays où tout est per­mis. Outra hipó­te­se é que Bolaño tenha toma­do conhe­ci­men­to des­ses tex­tos atra­vés da revis­ta bel­ga Luna Park, edi­ta­da por Marc Dachy, que che­ga a citar em Entre parén­te­sis.

Em 2009, a Luna Park publi­cou um retra­to de Sollers rea­li­za­do por Podolski acom­pa­nha­do de uma car­ta que come­ça­va por “Philippe Sollers, te lan­ço gran­des sig­nos de lon­ge sobre patim de rodi­nhas. toda ver­di­nha des­li­zan­do sobre o teto enquan­to gri­ta o mun­do flu­tua etc.… che­gan­do jun­to de você você me con­ta a estra­nha aven­tu­ra. deci­di­mos pro­cu­rá-la no cór­re­go onde ela repou­sa na mag­ni­fi­cên­cia dos seus últi­mos tra­je­tos […]”. A car­ta é de 29 de novem­bro de 1972, Sophie tinha 19 anos. Não sabe­mos como se deu o con­ta­to entre os edi­to­res da Tel Quel, sedi­a­da em Paris, e o Montfaucon Research Center, que exis­tiu em Bruxelas, do qual Sophie era mem­bro. A his­tó­ria da rela­ção entre as lite­ra­tu­ras fran­ce­sa e bel­ga nem sem­pre é mui­to cla­ra, mas uma pos­sí­vel pis­ta pode estar con­ti­da na exten­sa cor­res­pon­dên­cia (1958–2008) amo­ro­sa entre Philippe Sollers e a escri­to­ra bel­ga Dominique Rolin, recen­te­men­te depo­si­ta­da na Biblioteca Real da Bélgica.

DEZ ANOS ANTES 

Em 2006, fui a Barcelona a tra­ba­lho. Hospedaram-me em uma espé­cie de escon­de­ri­jo que se abria a par­tir de uma por­ta secre­ta loca­li­za­da numa pare­de fal­sa do Instituto Francês, Carrer de Moià, 8. Se che­gas­se ao ins­ti­tu­to depois do expe­di­en­te, pre­ci­sa­va desar­mar um enge­nho­so sis­te­ma de alar­me. Caso con­trá­rio, a polí­cia do bair­ro seria ime­di­a­ta­men­te aci­o­na­da. No ter­cei­ro dia, já pro­ce­dia sem medo, sen­tin­do-me o pró­prio MacGyver. O escon­de­ri­jo era na ver­da­de um agra­dá­vel apar­ta­men­to de dois quar­tos, e lá per­ma­ne­ci por alguns dias na com­pa­nhia de uma cura­do­ra fran­ce­sa. Certa noi­te, ao pas­se­ar após o jan­tar, nos sur­pre­en­de­mos com peque­nas livra­ri­as mui­to sim­pá­ti­cas ain­da aber­tas per­to de meia-noi­te. Em uma delas com­prei Amberes, de Roberto Bolaño. Dois dias depois, esta­va em um trem rumo a Antuérpia, onde fica­ria por um mês com uma bol­sa do Vlaanderen Pen Center.

Cheguei a Antuérpia com pla­nos vagos de escre­ver algo sobre Paul Van Ostaijen, o poe­ta tuber­cu­lo­so, autor de um belo poe­ma grá­fi­co em home­na­gem à máqui­na de cos­tu­ra Singer. Mas logo a lei­tu­ra do peque­no livro de Bolaño me pôs em esta­do de sel­va­ge­ria dete­ti­ves­ca, de modo que pas­sei aque­le mês relen­do o livro vári­as vezes, na ten­ta­ti­va, cer­ta­men­te tola, de enten­der a rela­ção entre o mis­te­ri­o­so títu­lo e as cenas sol­tas de que é fei­to. A úni­ca men­ção efe­ti­va à cida­de apa­re­cia no capí­tu­lo inti­tu­la­do Amberes, em que Bolaño men­ci­o­na um aci­den­te entre um cami­nhão de por­cos que teria bati­do con­tra um car­ro, matan­do o moto­ris­ta des­te últi­mo e vári­os por­cos. Procurei (em vão) nos arqui­vos da cida­de notí­cia do aci­den­te envol­ven­do um cami­nhão de por­cos na déca­da de 1970. Outra pis­ta era o nome da poe­ta bel­ga Sophie Podolski, cujo sui­cí­dio aos 22 anos é comen­ta­do pelo nar­ra­dor com uma mes­cla de lamen­to e iden­ti­fi­ca­ção.

Amberes foi escri­to em 1980, ime­di­a­ta­men­te antes da pas­sa­gem do poe­ta Bolaño à pro­sa. Alguns crí­ti­cos viram nele a irrup­ção da fic­ção no inte­ri­or de uma escri­ta poé­ti­ca esti­lha­ça­da. Na intro­du­ção, o pró­prio Bolaño afir­ma que o livro foi escri­to numa épo­ca de mui­to café e fumo, rai­va, orgu­lho e vio­lên­cia – aque­le tipo de vio­lên­cia que inclui a auto­des­trui­ção e o espí­ri­to crí­ti­co impi­e­do­so –, uma épo­ca em que ele ain­da lia mui­to mais poe­sia do que pro­sa. É um livro de tran­si­ção, que arti­cu­la o mate­ri­al fic­ci­o­nal com o modo aber­to de sua poe­sia.

Bolaño pode ter sido atraí­do pela ten­são entre uma escri­ta poé­ti­ca e deli­ran­te e o impul­so nar­ra­ti­vo em Podolski. É uma escri­ta de difí­cil lei­tu­ra, no con­tra rit­mo, em fra­ses e pen­sa­men­tos que des­li­zam uns sobre os outros e se aban­do­nam. O cora­ção está alo­ja­do no cére­bro, e o pul­mão, no fíga­do, tudo mui­to eró­ti­co e tóxi­co, algo beat­nik, e algo estra­nha­men­te sin­ge­lo irrom­pen­do no ambi­en­te de uma lin­gua­gem asfi­xi­an­te.

Sophie Podolski publi­cou ape­nas um livro, além de tex­tos espar­sos em revis­tas. O livro, Le Pays où tout est per­mis, foi escri­to duran­te o perío­do em que viveu e tra­ba­lhou no Montfaucon Research Center. A pri­mei­ra edi­ção saiu pelas edi­ções Montfaucon em 1972, em fac-sími­le, e dois anos depois o livro foi ree­di­ta­do pela Belfond, que o publi­cou acom­pa­nha­do de um pre­fá­cio de Phillipe Sollers.

Mas o que era exa­ta­men­te o Montfaucon Research Center e que tipo de pes­qui­sa seus mem­bros rea­li­za­vam? Eis uma his­tó­ria ain­da por con­tar. As infor­ma­ções são escas­sas, em geral notas sem fon­te ou men­ções duvi­do­sas. Alguns se refe­rem a ele como uma comu­ni­da­de hip­pie, outros se refe­rem ape­nas aos fil­mes rea­li­za­dos entre mea­dos dos anos 1970 e iní­cio dos 1980. Na rubri­ca Montfaucon do site do Centro Georges Pompidou cons­ta ape­nas o nome de Joëlle de la Casinière. Deleuze, em Mil platôs, inse­re uma nota de pé de pági­na em que se refe­re ao tra­ba­lho cine­ma­to­grá­fi­co de Joëlle de la Casinière e cita o Montfaucon. Em nota bio­grá­fi­ca, Joëlle atri­bui a fun­da­ção do gru­po a si mes­ma “e outros nôma­des que gos­ta­vam de poe­sia grá­fi­ca e da arte de viver”. Na mes­ma nota, lê-se: “Montfaucon, c’est rien qu’un gibet pour les pen­dre, Research, par­ce qu’ils ne trou­ve­ront jamais, et Center, tiens jus­te­ment il n’y a pas de cen­tre […]”.Um blog men­ci­o­na­va outros dois mem­bros do gru­po: Alberto Raposo e Pidwell Tavares. Estes seri­am dois poe­tas per­di­dos nas dobras da lite­ra­tu­ra por­tu­gue­sa, não fos­sem na ver­da­de uma úni­ca pes­soa: Alberto Raposo Pidwell Tavares, mais conhe­ci­do no mun­do lite­rá­rio por Al Berto, fale­ci­do em 1997.

Esta, sim, uma pis­ta sur­pre­en­den­te.

Com Joëlle e outros jovens artis­tas e músi­cos, Al Berto fun­dou em 1972 o Montfaucon, situ­a­do no núme­ro 25 da rue de L’Aurore, no bair­ro de Ixelles, em Bruxelas.

Curiosamente, é nos livros de Al Berto que estão as mais pre­ci­o­sas res­pos­tas para o enig­ma do Montfaucon Research Center. Sophie Podolski, úni­co mem­bro nas­ci­do em Bruxelas, se jun­ta­ria ao gru­po em 1973, após conhe­cê-los em um mer­ca­do. Os outros mem­bros de que se tem notí­cia são Michel Bonnemaison, o peru­a­no Carlos Ferrand, a ita­li­a­na Olimpia Hruska e o músi­co Jacques Lederlin. À pro­cu­ra do ven­to num jar­dim d’agosto, de 1977, con­si­de­ra­do mui­tas vezes o pri­mei­ro livro de Al Berto, é na rea­li­da­de seu segun­do livro; a estreia deu-se alguns anos antes, com Projectos 69, publi­ca­do em 1972 pelo pró­prio Montfaucon Research Center, sob a super­vi­são de Joëlle.

Projectos 69 é uma espé­cie de álbum de ima­gens, com esté­ti­ca de fan­zi­ne, con­ten­do diver­sas pro­pos­tas de ações e per­for­man­ces den­tro dos pró­pri­os espa­ços da casa onde vivi­am na rue de L’Aurore. São expe­ri­men­tos grá­fi­cos e ima­gens, entre as quais algu­mas lem­bram os tra­ba­lhos de Antonio Dias nos anos 1970. Bernardo de Montfaucon, cujo nome deve ter ins­pi­ra­do o batis­mo do gru­po, foi um bene­di­ti­no do sécu­lo XVII, conhe­ci­do como inven­tor da pale­o­gra­fia. É autor de uma impor­tan­te obra de his­tó­ria do alfa­be­to gre­go. É pro­vá­vel que por isso tenha exer­ci­do for­te atra­ção naque­le gru­po de artis­tas-poe­tas, que expe­ri­men­ta­vam a letra em seu limi­te grá­fi­co. Havia todo um ambi­en­te de iden­ti­fi­ca­ção e influên­cia mútua entre os mem­bros, de modo que mui­tos dese­nhos de Podolski se pare­cem com dese­nhos de Al Berto. A ela Al Berto tam­bém dedi­cou um poe­ma, incluí­do em sua obra com­ple­ta, O medo (Assírio & Alvim):

abre a jane­la debru­ça-te

dei­xa que o mar inun­de os órgãos do cor­po

espa­lha lume na pon­ta dos dedos e toca

ao de leve aqui­lo que deve ser pre­ser­va­do.

Al Berto che­gou a Bruxelas em 1967, exi­la­do, pro­cu­ran­do esca­par do ser­vi­ço mili­tar por­tu­guês. Estudaria pin­tu­ra na École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels (La Cambre), onde pro­va­vel­men­te conhe­ceu alguns dos ami­gos com quem fun­da­ria o Research Center. O Montfaucon não era um cole­ti­vo artís­ti­co no sen­ti­do atu­al, não havia a efi­ci­ên­cia da pro­du­ção, e a cola­bo­ra­ção não esta­va pre­vi­a­men­te defi­ni­da. Importava mais o ambi­en­te e a inten­si­da­de do con­ví­vio como dis­pa­ra­do­res cri­a­ti­vos, impor­ta­va a vida ali vivi­da, em geral em seus limi­tes drás­ti­cos, com mui­to sexo, heroí­na, cer­ve­ja, haxi­xe, náu­sea, vômi­tos, per­das de si, lou­cu­ra real e via­gens sem retor­no. Não se olha­vam no espe­lho e esta­vam sem­pre pron­tos para ofe­re­cer a si mes­mos o direi­to à mor­te. Os pró­pri­os cômo­dos da casa ser­vi­am como espa­ços per­for­má­ti­cos e expe­ri­men­tais. A jul­gar pelos tex­tos de Al Berto, eles liam uns aos outros do mes­mo modo como amo­res e cor­pos se dei­xa­vam atra­ves­sar.

Em 1989, já de vol­ta a Portugal, onde se esta­be­le­ceu defi­ni­ti­va­men­te, Al Berto publi­ca Lunário, bre­ve roman­ce auto­bi­o­grá­fi­co em que ree­la­bo­ra os tex­tos escri­tos em 1975 e nar­ra, de manei­ra mui­to mais sóbria, a expe­ri­ên­cia daque­les anos de Bruxelas. O que era um flu­xo psi­co­dé­li­co e frag­men­tá­rio em À pro­cu­ra do ven­to num jar­dim d’agosto ago­ra sur­ge com mui­to mais recuo, deli­ne­an­do per­so­na­gens e com uma voz mais está­vel que con­duz o lei­tor pelos cami­nhos da ami­za­de e de um amor bela­men­te nar­ra­do, e cuja lem­bran­ça é pro­pul­so­ra do dese­jo de nar­rar. É a his­tó­ria do jovem Beno, que dei­xa a casa dos pais e che­ga sozi­nho e com escas­sa baga­gem a uma cida­de não nome­a­da, onde irá fre­quen­tar assi­du­a­men­te o Lura, o bar onde tudo acon­te­ce e onde conhe­ce­rá Nému, por quem se apai­xo­na­rá e com quem irá viver na man­sar­da da rue de L’Aurore, com Alba, Kid, Zohía e seu amor, Alaíno.

Zohía evi­den­te­men­te é Sophie. O capí­tu­lo inti­tu­la­do “Quarto min­guan­te” é um dos mais belos rela­tos sobre alguém que vai se afas­tan­do de si mes­mo até se per­der com­ple­ta­men­te no delí­rio e se tor­nar o rumor sur­do de uma som­bra. É tam­bém um rela­to sobre o amor devas­ta­do pela lou­cu­ra. Al Berto nar­ra com mui­to tato e num equi­lí­brio ten­so e difí­cil o sofri­men­to psí­qui­co de Zohía até o momen­to em que será inter­na­da para sem­pre. Narra tam­bém a devas­ta­ção de Alaíno, o namo­ra­do, que a visi­ta na clí­ni­ca psi­quiá­tri­ca e cui­da de seus escri­tos. Já inter­na­da, Zohía pede que Alaíno lhe tra­ga seus cader­nos. “Julgava que, ao relê-los, tal­vez pudes­se regres­sar ao que esque­ce­ra qua­se por com­ple­to: a vida. Durante anos, ano­ta­ra com frequên­cia e minú­cia o que lhe acon­te­cia. Desenhara mui­to, iso­la­ra pala­vras em lis­tas infin­dá­veis, ou escre­ve­ra pági­nas e pági­nas rela­tan­do sua pai­xão por Alaíno. Encher cader­nos e folhas sol­tas, enve­lo­pes, peda­ços de pano com uma cali­gra­fia ora cer­ti­nha e legí­vel, ora total­men­te ile­gí­vel e mis­te­ri­o­sa.”

Em entre­vis­ta rea­li­za­da na épo­ca da publi­ca­ção de Lunário, Al Berto dizia ser este um livro de “cenas de ami­za­de, de lim­pi­dez. E outras de estúr­dia, de exces­so. E isso tem a sua bele­za. Uma espé­cie de bele­za mal­di­ta”. É essa bele­za mal­di­ta que reco­nhe­ce­mos nos tex­tos de Sophie Podolski. A ile­gi­bi­li­da­de de vári­os deles decor­re de uma inten­si­da­de que explo­de a escri­ta do diá­rio em vári­as dire­ções, explo­são que fala de um sujei­to des­pe­da­ça­do, que já não sabe cho­rar, foge mas já não sabe para onde, não pode pros­se­guir e não tem como vol­tar. Bolaño per­se­guia essa mes­ma bele­za mal­di­ta, e pode ser que tenha cru­za­do com Al Berto ou com Beno em Barcelona, mas isso tam­bém não é cer­to.

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(Agradeço a todos os bolañis­tas, alber­tis­tas e sim­pa­ti­zan­tes com quem dia­lo­guei duran­te essa bus­ca. Sofia de Souza e Silva, Leonel Velloso, Madalena Vaz Pinto e Rafael Gutierrez Giraldo)

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