Por um Brasil mais russo

Literatura

19.03.13

Nikolai Leskov é um per­so­na­gem de fic­ção”, um ami­go meu cer­ta vez argu­men­tou. “Todo mun­do em qual­quer cur­so de Letras pre­ci­sa ler aque­le ensaio do Walter Benjamin sobre o nar­ra­dor de Leskov. Mas será que esse Leskov exis­te mes­mo? Deve ser inven­ção. Nunca vi um livro dele nas livra­ri­as.” Com a recen­te publi­ca­ção de A frau­de e outras his­tó­ri­asHomens inte­res­san­tes e outras his­tó­ri­as pela Editora 34, não res­ta dúvi­da: Leskov exis­te.

Focada na publi­ca­ção de auto­res do Leste Europeu, a Coleção Leste da Editora 34 tor­nou-se um mar­co no mer­ca­do edi­to­ri­al bra­si­lei­ro por publi­car, sem­pre em tra­du­ção dire­ta, nomes impor­tan­tís­si­mos do câno­ne como Dostoiévski e Tchekhov, ao lado de auto­res menos conhe­ci­dos, como István Örkény (as duas nove­las incluí­das em A expo­si­ção das rosas inau­gu­ra­ram a cole­ção). Coordenada ini­ci­al­men­te por Nelson Ascher, hoje em dia a cole­ção — que con­ta com 40 títu­los — é coman­da­da por Cide Piquet e seus com­pa­nhei­ros da edi­to­ra. Com meros 35 anos, Piquet é um dos prin­ci­pais res­pon­sá­veis pela publi­ca­ção de lite­ra­tu­ra rus­sa no Brasil.

Raskólnikov sai da Bahia

Natural de Salvador, o edi­tor cres­ceu em um ambi­en­te fami­li­ar que não dava mui­ta aten­ção à cul­tu­ra livres­ca. Começou a se inte­res­sar por lite­ra­tu­ra atra­vés dos volu­mes que vinham na assi­na­tu­ra do Círculo do Livro. Enquanto se entre­ti­nha com as his­tó­ri­as de Sherlock Holmes, des­co­briu por aca­so A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade, e pela pri­mei­ra vez sen­tiu que havia algo a mais no uni­ver­so dos livros. Aos 17 anos, pas­sou no ves­ti­bu­lar para Letras, com ênfa­se em ale­mão, na USP. Foi a manei­ra de sair da paca­ta vida fami­li­ar na Bahia, onde tra­ba­lha­va com o pai des­de os 14.

No pri­mei­ro sebo que entrou em São Paulo, com­prou, meio às cegas, dois livros: O mito de Sísifo, refle­xão de Albert Camus sobre o sui­cí­dio, e Crime e cas­ti­go, de Dostoiévski. Este últi­mo lhe con­su­miu qua­tro dias inten­sos de lei­tu­ra, nos quais não fez nada além de dedi­car-se ao dra­ma de Raskólnikov. Piquet apai­xo­nou-se pela vita­li­da­de do roman­ce, e tam­bém se iden­ti­fi­cou com o pro­ta­go­nis­ta, que, como ele, era um jovem estu­dan­te, numa cida­de gran­de, lon­ge da famí­lia e pas­san­do por agru­ras finan­cei­ras.

E foram as agru­ras finan­cei­ras que, de cer­to modo, o fize­ram aban­do­nar a facul­da­de e entrar no mun­do edi­to­ri­al. Aos 19 anos, Piquet teve uma filha, e come­çou a fazer cada vez menos dis­ci­pli­nas e dedi­car-se mais a bicos de revi­são e tra­du­ção do inglês e do espa­nhol. A con­vi­te do ami­go Alexandre Barbosa de Souza, entrou como revi­sor na Editora 34, onde depois se tor­nou edi­tor assis­ten­te e, por fim, edi­tor em 2006.

Piquet ensai­ou um retor­no ao mun­do aca­dê­mi­co, vol­tan­do a cur­sar Letras, des­ta vez com ênfa­se em Latim, mas aban­do­nou em um ano e meio. Como vári­os outros edi­to­res de sua gera­ção, apren­deu qua­se tudo que sabe de lite­ra­tu­ra e lín­guas sen­do auto­di­da­ta. “Não que eu não sin­ta fal­ta, às vezes, de ter uma for­ma­ção aca­dê­mi­ca. Ainda pen­so oca­si­o­nal­men­te em vol­tar para poder fazer um mes­tra­do em tra­du­ção”, comen­ta Piquet. E, ape­sar dis­so, tem par­ti­ci­pa­do fre­quen­te­men­te de sim­pó­si­os e even­tos aca­dê­mi­cos, já ten­do dado aulas na USP como pro­fes­sor con­fe­ren­cis­ta.

Traduções dire­tas, tra­du­ções indi­re­tas

Crime e cas­ti­go foi o pri­mei­ro gran­de suces­so da Coleção Leste, e o roman­ce mos­trou que há inte­res­se do públi­co bra­si­lei­ro por novas tra­du­ções de Dostoiévski. Atualmente, o livro se encon­tra na sex­ta edi­ção, ten­do pas­sa­do por dez reim­pres­sões. Além do clás­si­co, outras 16 obras de Dostoiévski saí­ram pela 34. Mas foram as edi­ções rea­li­za­das a par­tir de tra­du­ções indi­re­tas, do fran­cês ou do inglês, que tan­to for­ma­ram escri­to­res.

“Um gran­de autor e um gran­de livro sobre­vi­ve até a uma má tra­du­ção, sal­vo exce­ções, casos onde a for­ma tem uma rele­vân­cia radi­cal. Poesia mal tra­du­zi­da não ser­ve para nada”, refle­te Piquet. “Isso expli­ca o suces­so das tra­du­ções do fran­cês. Os fran­ce­ses maqui­a­ram o esti­lo de Dostoiévski. A tra­du­ção indi­re­ta, além do mais, fal­seia aspec­tos da for­ma e do con­teú­do da obra. Há ain­da o pro­ble­ma de per­pe­tu­ar erros de pri­mei­ra tra­du­ção e de se dis­tan­ci­ar, cada vez mais, das suti­le­zas do esti­lo do autor”.

Porém, Piquet con­cor­da que alguns lei­to­res podem sofrer uma decep­ção com as novas tra­du­ções: “Conforme a for­ma­ção da pes­soa, do gos­to, alguém que está acos­tu­ma­do com o Dostoiévski do fran­cês pode se frus­trar com a tra­du­ção dire­ta. É um esti­lo mais trun­ca­do, menos poli­do. Mas o tra­du­tor tem que tra­du­zir o tex­to que está lá. O tra­du­tor tem que fazer um tra­ba­lho à altu­ra do ori­gi­nal, o mais pró­xi­mo pos­sí­vel. Não é uma ques­tão de cer­to ou erra­do, mas de apu­ro e sen­si­bi­li­da­de até para per­ce­ber quan­do uma incor­re­ção pode ser coe­ren­te com a natu­re­za da obra. E isso é mui­to difí­cil de per­ce­ber”.

Mesmo ten­do se tor­na­do conhe­ci­do por coor­de­nar tan­tas publi­ca­ções de auto­res rus­sos, Cide Piquet não fala a lín­gua. Entrou em um cur­so de rus­so ao mes­mo tem­po em que estu­da­va ale­mão, mas pre­fe­riu conhe­cer a lín­gua ale­mã a fun­do antes de se aven­tu­rar no ter­ri­tó­rio de Tolstói. Como edi­tar auto­res de uma lín­gua na qual não se é ver­sa­do? “É com­pli­ca­do, mas não é impos­sí­vel”, diz Piquet. “O que sem­pre fiz foi o cote­jo indi­re­to, a com­pa­ra­ção com outras tra­du­ções. Não é o ide­al. Quando você lê um tex­to tra­du­zi­do, o seu pri­mei­ro mapa é o tex­to em si. Ler com aten­ção, com pro­fun­di­da­de, para todas as cama­das do tex­to. Quando se lê com aten­ção, per­ce­be-se onde pode haver pro­ble­mas de tra­du­ção. O tra­ba­lho de edi­ção de tex­to é uma lei­tu­ra apro­fun­da­da e des­con­fi­a­da. Se você con­fi­ar que a tra­du­ção está cer­ta, sem erros, você não vai levan­tar nenhum pro­ble­ma e não vai mexer no tex­to. Mexerá só na cama­da mais super­fi­ci­al. É um tra­ba­lho inves­ti­ga­ti­vo tam­bém, de cer­ta for­ma”.

Ao tra­ba­lhar com Dostoiévski, cote­ja­va com as tra­du­ções em inglês, ita­li­a­no e espa­nhol. “Você come­ça a sen­tir os caco­e­tes de tra­du­ção de cada lín­gua. Franceses têm a ten­dên­cia a embe­le­zar a tra­du­ção dos rus­sos do sécu­lo XIX. Há casos famo­sos de edi­to­res que alte­ra­vam real­men­te o livro, de como acres­cen­ta­vam, cor­ta­vam etc. Os angló­fo­nos são mais prag­má­ti­cos, e fre­quen­te­men­te atro­pe­lam as suti­le­zas ou zonas obs­cu­ras do tex­to. As tra­du­ções do espa­nhol dei­xa­vam mui­to a dese­jar e parei de usar. Os ita­li­a­nos eram, de lon­ge, os melho­res tra­du­to­res do rus­so, coi­sa que apren­di com o tem­po.” Ao se depa­rar com um pro­ble­ma, dia­lo­ga com o tra­du­tor. Antes, a Editora 34 depen­dia qua­se exclu­si­va­men­te de Paulo Bezerra e Boris Schnaiderman. Hoje, con­ta com cer­ca de vin­te tra­du­to­res bas­tan­te ati­vos e con­tra­tou duas pes­so­as flu­en­tes em rus­so: Lucas Simone e Cecília Rosas.

As polê­mi­cas notas

É comum, no meio edi­to­ri­al, se depa­rar com tra­du­to­res que abo­mi­nam o uso de notas de roda­pé, e argu­men­tam que a que­bra de flui­dez na lei­tu­ra não com­pen­sa a expli­ca­ção. Além do mais, qual­quer lei­tor tem fácil aces­so a uma Wikipédia para pes­qui­sar o que não sabe. Muitos livros da Editora 34, como Os irmãos Karamazov, no entan­to, estão reple­tas de notas. “As notas são defi­ni­das na con­ver­sa tra­du­tor-edi­tor. Se o tra­du­tor é vio­len­ta­men­te con­tra notas, os edi­to­res acei­tam”, afir­ma Piquet. “A nota, em algu­mas situ­a­ções de tra­du­ção de refe­rên­ci­as cul­tu­rais, não che­ga a ser indis­pen­sá­vel. Você pode dei­xar lá, e se o lei­tor não enten­der, dei­xa pra lá. Mas a nota cola­bo­ra mui­to. Muitos lei­to­res man­dam e-mail elo­gi­an­do notas. Pessoalmente, não sou con­tra. Acho que no caso de cul­tu­ras mui­to dis­tan­tes, enri­que­ce a lei­tu­ra.”

Para ques­tões mais lin­guís­ti­cas, como um pro­vér­bio que não faz sen­ti­do ser tra­du­zi­do lite­ral­men­te, os tra­du­to­res bus­cam um equi­va­len­te em por­tu­guês. “O ide­al é solu­ci­o­nar no tex­to”, argu­men­ta o edi­tor. “A nota só deve entrar quan­do é incon­tor­ná­vel. Em últi­ma aná­li­se, ela é dis­pen­sá­vel. Você pode dei­xar o lei­tor com aque­la dúvi­da. Mas isso tam­bém rom­pe a flui­dez”.

O futu­ro é con­tem­po­râ­neo

O aumen­to de inte­res­se pela lite­ra­tu­ra rus­sa é pal­pá­vel: não ape­nas se refle­te nas ven­das, como a equi­pe da Editora 34 per­ce­be no con­ta­to dos lei­to­res, pelo volu­me de e-mails. Além dis­so, aumen­tou a pro­cu­ra pelo cur­so de rus­so nos últi­mos anos na USP, como rela­ta Bruno Gomide, coor­de­na­dor do cur­so de pós-gra­du­a­ção em rus­so na Universidade, o mai­or da área na América Latina. A pós tem cri­a­do uma nova gera­ção de tra­du­to­res de peso — se antes pou­cos nomes além de Paulo Bezerra e Boris Schnaiderman se arris­ca­vam na tare­fa, hoje há deze­nas de jovens que não ape­nas ver­tem ao por­tu­guês nomes impor­tan­tes da lite­ra­tu­ra, como tam­bém refle­tem sobre o ofí­cio da tra­du­ção.

E qual é o futu­ro, então, da Coleção Leste, ago­ra que está bem esta­be­le­ci­da no mer­ca­do edi­to­ri­al? Não ficar ape­nas no câno­ne, arris­car-se mais inves­tin­do em auto­res menos conhe­ci­dos — e isso inclui sair do sécu­lo XIX e entrar no mun­do con­tem­po­râ­neo. A Nova anto­lo­gia do con­to rus­so abran­ge tex­tos de 1792 a 1998, ou seja, inclui auto­res vivos. A anto­lo­gia foi orga­ni­za­da por Bruno Gomide e, nas pala­vras do orga­ni­za­dor, refle­te um “tra­ba­lho cole­ti­vo, no qual os tra­du­to­res e edi­to­res suge­ri­ram tex­tos para inte­grar a anto­lo­gia”. Entre as aqui­si­ções recen­tes de direi­tos da 34, estão obras de Varlam Chalamov e Andrei Platonov.

“Publicar auto­res menos conhe­ci­dos é uma apos­ta comer­ci­al”, comen­ta Piquet. Com o êxi­to da cole­ção, a apos­ta pare­ce ficar cada vez menos arris­ca­da.

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