Posições sobre a forma partida

Colunistas

01.10.14

O ver­bo par­tir car­re­ga uma impres­si­o­nan­te polis­se­mia na lín­gua por­tu­gue­sa. A par­tir dele, pos­so falar em iní­cio, como na for­mu­la­ção com a qual come­ço essa fra­se; ou naque­le que par­tiu, por­que foi embo­ra ou por­que divi­diu algo; e tam­bém naqui­lo que se des­faz em múl­ti­plos peda­ços, se que­bra ou se des­faz em inú­me­ras par­tes. Aquilo que está par­ti­do está tam­bém frag­men­ta­do. No entan­to, o dici­o­ná­rio ensi­na que o ter­mo par­ti­do equi­va­le ain­da a: “orga­ni­za­ção soci­al espon­tâ­nea que se fun­da­men­ta numa con­cep­ção polí­ti­ca ou em inte­res­ses polí­ti­cos e soci­ais comuns e que se pro­põe alcan­çar o poder, asso­ci­a­ção de pes­so­as em tor­no dos mes­mos ide­ais, inte­res­ses, obje­ti­vos”. Às vés­pe­ras do pri­mei­ro tur­no das elei­ções, depois que uma gran­de gama de par­ti­dos nos pediu votos em tro­ca de repre­sen­ta­ção nas esfe­ras polí­ti­cas de orga­ni­za­ção soci­al, dis­cu­tir a for­ma de fazer polí­ti­ca por meio de par­ti­dos – e tudo que neles há de pre­ten­são de repre­sen­ta­ção – pode ser outro jei­to de obe­de­cer à obri­ga­ção do voto.

Cartaz exibido durante os protestos de junho de 2013

Penso em um deba­te que ultra­pas­sa a esco­lha des­ta ou daque­la can­di­da­ta, da rejei­ção des­te ou de outro par­ti­do, da afir­ma­ção de novos par­ti­dos. Escolhemos can­di­da­tos de deter­mi­na­dos par­ti­dos – pala­vra que está lon­ge de poder desig­nar união, esta­bi­li­da­de, comu­ni­da­de, por tudo que nela con­tém de que­bra, divi­são, rup­tu­ra, esti­lha­ça­men­to – como se os par­ti­dos nos garan­tis­sem uni­da­de em um pro­gra­ma de gover­no ou em um pro­je­to de país. Votar com essa expec­ta­ti­va é con­ti­nu­ar votan­do a par­tir de uma for­mu­la­ção ana­crô­ni­ca de demo­cra­cia. Partidos polí­ti­cos são, na melhor das hipó­te­ses, asso­ci­a­ções frag­men­ta­das por inte­res­ses diver­sos, e nes­se sen­ti­do, fazem jus­ti­ça aos múl­ti­plos usos do ver­bo par­tir. O mai­or equí­vo­co do momen­to demo­crá­ti­co tal­vez seja ain­da espe­rar votar em par­ti­dos que unam, uni­fi­quem, tota­li­zem. Partidos estão par­ti­dos inter­na­men­te e são ape­nas o ajun­ta­men­to de for­ças diver­sas orga­ni­za­das em tor­no de um pro­je­to de poder.

Quando me refi­ro a “momen­to demo­crá­ti­co” tenho em men­te um amplo con­jun­to de pen­sa­men­tos crí­ti­cos ao mode­lo de demo­cra­cia repre­sen­ta­ti­va, que se for­ta­le­ce­ram nas duas últi­mas déca­das a fim de enfren­tar a hege­mo­nia ide­o­ló­gi­ca do dis­cur­so que toma a demo­cra­cia como valor últi­mo abso­lu­to, em nome do qual tudo pode ser fei­to, mes­mo que “tudo” sig­ni­fi­que ações de Estado que con­tra­di­zem a pró­pria ideia de demo­cra­cia. Tomo como pon­to de par­ti­da as mani­fes­ta­ções de rua que var­re­ram o mun­do – do Egito a Londres, do Rio de Janeiro a Wall Street – com o obje­ti­vo não ape­nas de crí­ti­ca ao poder ins­ti­tuí­do, mas prin­ci­pal­men­te de pro­tes­to con­tra as for­mas exclu­den­tes de orga­ni­za­ções de Estado domi­na­das por eli­tes polí­ti­cas e econô­mi­cas há mui­to con­ven­ci­das de sua repre­sen­ta­ção per­fei­ta dos ansei­os do povo. Convencimento que só pode advir de uma con­cep­ção de povo que man­tém a for­ma par­ti­da da demo­cra­cia: povo é aque­le que vota no repre­sen­tan­te de um par­ti­do cuja capa­ci­da­de de gover­nar em nome dos que o ele­ge­ram deve se man­ter inques­ti­o­ná­vel, em nome da sobre­vi­vên­cia da demo­cra­cia.

As mani­fes­ta­ções de rua, no entan­to, escan­ca­ra­ram como a for­ma par­ti­do está par­ti­da, esti­lha­ça­da, con­sequên­cia da cri­se da repre­sen­ta­ção, enten­di­da no seu sen­ti­do mais polí­ti­co e ao mes­mo tem­po mais amplo. Crise cuja his­tó­ria gira em tor­no da impos­si­bi­li­da­de de repre­sen­ta­ção de um obje­to ao sujei­to, do mun­do a um eu, de um uma rea­li­da­de a um con­cei­to; cri­se que tem nos obri­ga­do a pen­sar novas for­mas de fazer polí­ti­ca. Não ape­nas pela neces­si­da­de de crí­ti­ca à for­ma par­ti­do, como a um de seus obje­ti­vos ine­ren­tes ao seu for­ma­to uni­fi­ca­do: tomar o poder e, uma vez ali, repro­du­zir os mes­mos meca­nis­mos de exclu­são que se pre­ten­dia com­ba­ter.

Nesse sen­ti­do, a filo­so­fia de Jacques Derrida nos faz pen­sar sobre a for­ma par­ti­do, recu­sa­da por ele em prol de toma­das de posi­ções polí­ti­cas sobre inú­me­ros temas con­tem­po­râ­ne­os. “Só se deve apoi­ar uma posi­ção e nun­ca uma toma­da de par­ti­do, pois quan­do uma posi­ção se tor­na um ‘par­ti­do’ ela já está se fazen­do repre­sen­tar nos mes­mos mol­des do ‘opres­sor’ que tan­to fora com­ba­ti­do pelo recém-for­ma­do ‘par­ti­do’”, escre­ve Rafael Haddock-Lobo (UFRJ), a fim de res­sal­tar o valor das posi­ções polí­ti­cas como estra­té­gi­as que em si con­fi­gu­ram um meca­nis­mo de recu­sa das estru­tu­ras de repre­sen­ta­ção. Quem diz posi­ções, diz con­tin­gên­cia, evo­ca pala­vras como aci­den­tal, for­tui­to, ale­a­tó­rio, impre­vi­sí­vel, inde­ter­mi­na­do. São for­mas que não cabem em par­ti­dos polí­ti­cos cujas pre­mis­sas devem estar pre­vi­a­men­te esta­be­le­ci­das em pla­ta­for­mas fecha­das.

Há mais de 20 anos, a filó­so­fa nor­te-ame­ri­ca­na Judith Butler ques­ti­o­nou a pos­si­bi­li­da­de de não mais fazer das mulhe­res o motor da polí­ti­ca femi­nis­ta. Se a par­tir dali pare­cia que ela anun­ci­a­ra o fim do femi­nis­mo, de fato suas pro­vo­ca­ções esta­vam apon­tan­do um para­do­xo impor­tan­te: de nada adi­an­ta­va pri­mei­ro exi­gir das mulhe­res uma con­fi­gu­ra­ção esta­bi­li­za­da em uma iden­ti­da­de para depois pre­ten­der liber­tá-las. Era pre­ci­so, argu­men­ta­va Butler em Problemas de gêne­ro, publi­ca­do nos EUA em 1989, inter­ro­gar as pró­pri­as exi­gên­ci­as de iden­ti­da­de.

Por ana­lo­gia, a for­ma par­ti­da nos mos­tra par­ti­dos inca­pa­zes de nos repre­sen­tar, é por­que tal­vez a polí­ti­ca fei­ta a par­tir dos par­ti­dos pri­mei­ro exi­ja uma tota­li­za­ção a par­tir da qual a polí­ti­ca pas­sa a ser fei­ta por lide­ran­ças par­ti­dá­ri­as, ins­tân­ci­as de repre­sen­ta­ção de um con­jun­to que foi for­ja­do a fim de cri­ar a lide­ran­ça. E, como dis­se um mani­fes­tan­te na Praça Tahrir, no Egito: “Não esta­mos pro­cu­ran­do um líder que nos gover­ne, mas uma cons­ci­ên­cia”. Propostas de demo­cra­cia dire­ta, for­ma­ção de con­se­lhos popu­la­res, reco­nhe­ci­men­to de um par­la­men­to pau­ta­do prin­ci­pal­men­te pelos seus pró­pri­os inte­res­ses são só alguns dos sinais – não exclu­si­vos da polí­ti­ca bra­si­lei­ra – de que par­tir, que­brar, frag­men­tar, fra­tu­rar cami­nham ao lado de desig­na­ções como dar iní­cio, come­çar, lan­çar-se, pôr-se a cami­nho de um cer­to des­ti­no. 

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