Pra dizer adeus — Santuza Cambraia Naves (1952 — 2012)

Música

18.04.12

A minei­ra de Boa Esperança Santuza Cambraia Naves (1952 — 2012) con­tri­buiu como pou­cos para o deba­te recen­te acer­ca da musi­ca popu­lar bra­si­lei­ra. Sua tra­je­tó­ria inte­lec­tu­al e pro­fis­si­o­nal arti­cu­lou pes­qui­sa e ensi­no, inves­ti­ga­ção e for­ma­ção. Suas aulas e tex­tos, além de sua per­so­na­li­da­de agre­ga­do­ra e pro­du­ti­va lega­ram para todos nós uma série de cami­nhos e cabe­ças pron­tas para os novos tem­pos.

Antropóloga dedi­ca­da à pes­qui­sa da músi­ca e da arte, foi fun­da­do­ra do Núcleo de Estudos Musicais, cuja atu­a­ção duran­te qua­se dez anos no Centro de Estudos Sociais Aplicados (CESAP) da Universidade Candido Mendes resul­tou em livros, teses, arqui­vos e docu­men­ta­ções fun­da­men­tais para uma série de pes­qui­sa­do­res naci­o­nais e inter­na­ci­o­nais que se dedi­cam ao tema da MPB e da músi­ca popu­lar em geral.

Santuza foi tam­bém pro­fes­so­ra na PUC des­de 1994, onde minis­trou deze­nas de cur­sos mar­can­tes para seus estu­dan­tes, tan­to na gra­du­a­ção quan­to na pós-gra­du­a­ção. Orientou diver­sas teses e dis­ser­ta­ções, além de ser inter­lo­cu­to­ra de pes­qui­sa­do­res em cam­pos diver­sos como Artes Visuais, História, Comunicação,  Literatura e Filosofia. Publicou livros impor­tan­tes como, entre outros, O Violão Azul (1998), Da Bossa Nova à Tropicália (2001), A MPB em dis­cus­são (com Tatiana Bacal e Frederico Coelho, 2006) e o mais recen­te, Canção popu­lar no Brasil (2010).

Os tra­ba­lhos de Santuza, vis­tos no seu con­jun­to, tinham algu­mas linhas for­tes de inte­res­se. Entre eles, a can­ção popu­lar moder­na fei­ta no sécu­lo XX bra­si­lei­ro, o deba­te moder­nis­ta acer­ca des­sa can­ção (tema que, ao lado de nomes como José Miguel Wisnik, Carlos Sandroni e Elizabeth Travassos, deu con­tri­bui­ção deci­si­va), o diá­lo­go entre o cons­tru­ti­vis­mo bra­si­lei­ro, a músi­ca popu­lar e a músi­ca eru­di­ta, os emba­tes e inven­ções ocor­ri­dos na tran­si­ção entre a Bossa Nova e a Tropicália, a defi­ni­ção con­cei­tu­al de uma can­ção crí­ti­ca que emer­ge des­se perío­do de emba­tes fér­teis para nos­sa músi­ca popu­lar, e as novas for­mas musi­cais da vira­da dos sécu­los XX/XXI, com ênfa­se nas rea­pro­pri­a­ções que o rap e outros gêne­ros ele­trô­ni­cos fize­ram do nos­so arqui­vo musi­cal popu­lar. Todos esses focos têm, sem dúvi­da algu­ma, como seu cer­ne, o seu chão, a can­ção bra­si­lei­ra em trans­for­ma­ção per­ma­nen­te atra­vés de nos­sa his­tó­ria. Santuza era, antes de mais nada, uma aman­te da boa can­ção.

Suas aná­li­ses ele­gan­tes, equi­li­bra­das, gene­ro­sas, par­ti­am da pers­pec­ti­va antro­po­ló­gi­ca, ofí­cio que abra­çou por fim em uma car­rei­ra cuja for­ma­ção entre gra­du­a­ção e pós gra­du­a­ção per­cor­reu os três cam­pos de saber das Ciências Sociais. Ela era gra­du­a­da em Ciência Política (UNB), Mestre em Antropologia (Museu Nacional) e Doutora em Sociologia (IUPERJ). A esco­lha defi­ni­ti­va pelo olhar etno­grá­fi­co ficou defi­ni­do pelo gos­to das entre­vis­tas, pelo incen­ti­vo per­ma­nen­te da neces­si­da­de do tra­ba­lho de cam­po, pela impor­tân­cia que dava à rela­ti­vi­za­ção crí­ti­ca (nun­ca gra­tui­ta) dos valo­res cul­tu­rais que cir­cu­lam no deba­te sobre a músi­ca e o pen­sa­men­to soci­al bra­si­lei­ro — outra área que Santuza se apro­fun­dou a par­tir de suas pes­qui­sas sobre o Modernismo, prin­ci­pal­men­te sobre o par Mário/Oswald de Andrade e sua con­tri­bui­ção para os temas do nos­so tem­po.

O pen­sa­men­to e os temas tra­ba­lha­dos por Santuza são sola­res, pois nos apre­sen­tam o que de mais poten­te se pro­du­ziu em uma deter­mi­na­da épo­ca da arte bra­si­lei­ra. Seus tex­tos bem escri­tos, sua fala doce e, ao mes­mo tem­po, fir­me, sua aber­tu­ra para o novo e para as idei­as dos novos, fez de sua pas­sa­gem entre nós um imen­so pra­zer. Sua per­da é pro­fun­da­men­te sen­ti­da não só pela sua ausên­cia entre os que con­vi­vi­am com ela, mas prin­ci­pal­men­te pelo fres­cor que ela inse­ria per­ma­nen­te­men­te em encon­tros, con­ver­sas, aulas e tex­tos com sua par­ti­ci­pa­ção. Assim como seu pen­sa­men­to, Santuza fica­rá res­so­an­do entre nós por mui­tos e mui­tos anos quan­do falar­mos sobre a músi­ca popu­lar bra­si­lei­ra de ontem, de hoje e de além.

* Frederico Coelho é pes­qui­sa­dor, ensaís­ta e pro­fes­sor de Literatura Brasileira e Artes Cênicas da PUC-Rio. Trabalhou com Santuza duran­te oito anos no Núcleo de Estudos Musicais (NUM) e hoje é mem­bro do Núcleo de Literatura e Música (NELIM). Publicou ao lado de Santuza Naves e Tatiana Bacal, o livro MPB — Entrevistas (Editora UFMG,2005).

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