Pra que cantar canções que nunca vão te ouvir?”

Colunistas

15.04.15

Passei as últi­mas sema­nas ouvin­do o novo dis­co de Sufjan Stevens, Carrie & Lowell. Não sei mais o que fazer com tan­ta tris­te­za. O mila­gre do pop é trans­for­mar as mai­o­res pla­ti­tu­des em reve­la­ções. Eu pode­ria dizer a mes­ma coi­sa da melhor poe­sia ou das expe­ri­ên­ci­as com subs­tân­ci­as que alte­ram a cons­ci­ên­cia. Ou das reli­giões que com­bi­nam dro­gas com expe­ri­ên­cia mís­ti­ca. E não deve ser for­tui­to que gran­des momen­tos da músi­ca pop tenham resul­ta­do de uma com­bi­na­ção entre poe­sia (nem sem­pre boa), dro­gas e algum tipo de êxta­se.

Sufjan (pro­nun­cia-se Sufian) Stevens fler­ta com uma expe­ri­ên­cia reli­gi­o­sa da qual ele pre­fe­re não falar e que ele defi­ne em linhas gerais como “cris­tã”, mas que exa­la, além do humor apa­ren­te­men­te ingê­nuo, uma sen­su­a­li­da­de típi­ca dos êxta­ses mís­ti­cos que o Papa não hesi­ta­ria em exco­mun­gar: “Íamos à igre­ja Metodista, por­que era a que fre­quen­ta­va minha bisa­vó. Eu ser­via de acó­li­to encar­re­ga­do de acen­der as velas. Era mui­to exci­tan­te. Na infân­cia, eu que­ria ser padre ou pas­tor. Eu estu­da­va a Bíblia e lia pas­sa­gens do Novo Testamento para a famí­lia antes das refei­ções. Eles acei­ta­ram isso duran­te um tem­po, não sem algu­ma resis­tên­cia. Eu era fas­ci­na­do por aqui­lo. Tive algu­mas das minhas mais pro­fun­das expe­ri­ên­ci­as espi­ri­tu­ais e sexu­ais numa colô­nia de féri­as Metodista” (entre­vis­ta à revis­ta ele­trô­ni­ca Pitchfork, dis­po­ní­vel na inter­net).

Sufjan (aque­le que traz a espa­da, em ára­be e far­si) rece­beu seu nome por indi­ca­ção do guru da comu­ni­da­de que os pais fre­quen­ta­vam quan­do ele nas­ceu há qua­ren­ta anos (o pai aca­bou lhe pedin­do des­cul­pas e o auto­ri­zan­do a tro­car de nome por algo mais nor­mal e pro­nun­ciá­vel). A letra de “Vesuvius” (uma das fai­xas do ele­trop­si­co­dé­li­co The Age of ADZ, seu dis­co ante­ri­or) diz bas­tan­te sobre essa espi­ri­tu­a­li­da­de que mis­tu­ra voca­ção mes­si­â­ni­ca com nar­ci­sis­mo e infan­ti­li­da­de na cri­a­ção de uma mito­lo­gia pró­pria, eclé­ti­ca e mui­tas vezes, como no caso de Sufjan, bem-humo­ra­da. A can­ção exor­ta o can­tor, cha­ma­do pelo nome exó­ti­co que ele deci­diu man­ter, a “seguir seu cora­ção, seguir a cha­ma ou se jogar no chão”.

Sufjan Stevens ao vivo, tocando banjo com asas pregadas nas costas

Nunca vou esque­cer o show da tur­nê euro­peia de The Age of ADZ que eu vi de quei­xo caí­do, em Berlim, em 2011, enquan­to Stevens pula­va no pal­co, com imen­sas asas pre­ga­das nas cos­tas ou ves­ti­do de Jaspion fos­fo­res­cen­te. Carrie & Lowell dá uma gui­na­da de 180 graus, de vol­ta ao uni­ver­so “indie” do can­tor do Meio Oeste ame­ri­ca­no, aban­do­nan­do a alu­ci­na­ção psi­co­dé­li­ca e a expe­ri­men­ta­ção ele­trô­ni­ca de The Age of ADZ, assim como seu ima­gi­ná­rio espa­ci­al, de fic­ção cien­tí­fi­ca mam­bem­be, ins­pi­ra­do no artis­ta esqui­zo­frê­ni­co e auto-pro­cla­ma­do pro­fe­ta Royal Robertson (1933–97). Carrie & Lowell res­ga­ta o folk dos dis­cos pre­ce­den­tes, mas já não des­ti­la o roman­tis­mo pós-Simon and Garfunkel que con­sa­grou Stevens em álbuns como Illinoise. Desta vez, não há con­ces­são artís­ti­ca nem ape­tre­chos; Stevens cor­ta no osso. A voz, o ban­jo e o pia­no ser­vem ape­nas para depu­rar e sim­pli­fi­car, para dizer o que deve ser dito, por mais her­mé­ti­cas que pos­sam ser as pala­vras: “Com esse dis­co, eu pre­ci­sa­va sair fora des­se ambi­en­te de faz-de-con­ta. (…) Não estou ten­tan­do pro­var nada nem dizer nada novo. (…) Não é meu pro­je­to artís­ti­co; é minha vida” (ain­da em entre­vis­ta à Pitchfork). Carrie & Lowell fala da mor­te da mãe do can­tor, em 2012: “Pra que can­tar can­ções que nun­ca vão te ouvir?”, ouve-se em uma delas.

Carrie Stevens aban­do­nou o mari­do e os filhos quan­do Sufjan tinha um ano. Diagnosticada como esqui­zo­frê­ni­ca, sofria de cri­ses de depres­são, vivia à base de medi­ca­men­tos, era alcoó­la­tra e abu­sa­va de dro­gas. O can­tor e os irmãos foram cri­a­dos pelo pai, tam­bém alcóo­la­tra, e pela madras­ta, em Michigan. Quando Sufjan tinha cin­co anos, sua mãe foi viver com Lowell Brams (o Lowell do títu­lo do novo dis­co), um livrei­ro do Oregon. E duran­te os cin­co anos seguin­tes, o tem­po que durou o casa­men­to entre Carrie e Lowell, Sufjan e os irmãos tive­ram mais con­ta­to com a mãe do que em qual­quer outro perío­do de suas vidas. Muito do que é can­ta­do no dis­co, como ele­gia a um paraí­so per­di­do, se refe­re à ima­gem da mãe que o músi­co guar­dou das pou­cas féri­as que pas­sa­ram jun­tos, no Oregon, no iní­cio dos anos 80.

Carrie & Lowell é ilus­tra­do por fotos des­sa bre­ve con­vi­vên­cia. São ima­gens mar­ca­das pelo tem­po. Em todas elas, Carrie apa­re­ce com os olhos bai­xos, como se esti­ves­sem fecha­dos, o que só con­tri­bui para a aura espec­tral da sua pre­sen­ça. O que se can­ta aqui é a impos­si­bi­li­da­de do amor, ou melhor, as for­mas con­tra­di­tó­ri­as do amor. E é um ver­da­dei­ro des­lum­bra­men­to: “Quando eu tinha três anos, tal­vez quatro,/ela nos esque­ceu na loja de vídeos./(…) Quando eu tinha três e esta­va livre para explorar,/ vi seu ros­to atrás da por­ta” (na fai­xa “Should Have Known Better”).

Capa do disco Carrie & Lowell, com foto do casal Carrie Stevens e Lowell Brams

Como nos poe­mas mís­ti­cos, Sufjan Stevens con­fun­de Deus e o obje­to do seu amor. Outras vezes, é o pró­prio can­tor que se con­fun­de com a voz da mãe: “Espírito do meu silên­cio, eu pos­so te ouvir/ mas tenho medo de ficar ao seu lado (…). Que can­ção é essa que você can­ta para os mor­tos? (…) Eu te per­doo, mãe, eu pos­so te ouvir. (…) Você nun­ca mais vai nos ver” (em “Death With Dignity”).

E esse amor, cujo obje­to é tão ins­tá­vel, incor­pó­reo e fugaz, só pode se expres­sar por uma fal­ta imen­sa: “Agora, tudo de mim faz pou­co de você/ (tudo de mim quer tudo de você)” (em “All of Me Wants All of You”); “Como é que eu vivo com o seu fantasma?/ (…) Devo arran­car meu cora­ção agora?/ (…) Devo arran­car meus olhos agora?/ Tudo o que eu vejo vol­ta de algum jei­to pra você” (em “The Only Thing”); “Assim que tive ida­de pra falar/ eu dis­se alarmado/ que uma par­te de mim esta­va per­di­da na manga/ onde você escon­dia seus cigarros./ Não, nun­ca vou esquecer/ que eu só que­ro estar com você./ (…) Pra que can­tar canções/ que nun­ca vão te ouvir?” (em “Eugene”).

Em “Fourth of July”, é a mãe que afi­nal o acon­se­lha: “Te deram bas­tan­te amor, meu pombinho/ Por que você está chorando?/ Me des­cul­pe se eu fui embora,/ pode não parecer/ mas foi melhor assim,/ meu peque­no Versalhes./ (…) Por que você está chorando?/ Tire o melhor da vida/ enquan­to ela for pródiga,/ enquan­to ela for luz”.

Quando o casa­men­to com Lowell aca­bou, Carrie sumiu de novo. Sufjan pas­sou a ver a mãe espo­ra­di­ca­men­te, na casa da avó, nas raras oca­siões em que calha­va de irem visi­tá-la ao mes­mo tem­po. Lowell, por sua vez, man­te­ve-se pre­sen­te na vida dos filhos da ex-mulher. Encarnou a figu­ra do pai. Ele e Sufjan tor­na­ram-se par­cei­ros e, jun­tos, cri­a­ram o selo musi­cal do can­tor, Asthmatic Kitty.

Stevens esta­va no hos­pi­tal, ao lado da mãe, quan­do ela mor­reu, em dezem­bro de 2012, de um cân­cer no estô­ma­go. Muitas das can­ções do dis­co falam da difi­cul­da­de des­se momen­to de pro­fun­da inti­mi­da­de e dor ao lado de alguém que no fun­do ele não conhe­cia e por quem nutria os sen­ti­men­tos mais con­tra­di­tó­ri­os. 

Na entre­vis­ta à Pitchfork, Stevens diz: “Foi pelo nos­so bem que ela nos aban­do­nou. Deus a aben­çoe por ter fei­to isso e por ter tido cons­ci­ên­cia do que ela não era capaz. (…) O amor é incon­di­ci­o­nal e incom­pre­en­sí­vel. E eu acre­di­to que seja pos­sí­vel amar sem res­pei­to mútuo”.

Como é que se recon­ci­lia com esse amor? Invocando-o por meio de can­ções que dari­am tudo para ouvi-lo de novo.

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