Praia do futuro e suas coordenadas

No cinema

16.05.14

Quanto melhor o fil­me, quan­to “mais cine­ma­to­grá­fi­co” ele for, mais vã será a ten­ta­ti­va de redu­zi-lo a uma sinop­se. Tentar tra­du­zir em pala­vras um Blow-up ou um Terra em tran­se é como pre­ten­der repro­du­zir com uma cane­ta Bic uma tela de Leonardo, ou dar con­ta de uma sin­fo­nia de Beethoven can­ta­ro­lan­do sua melo­dia.

Pois bem. Praia do futu­ro, de Karim Aïnouz, é um des­ses fil­mes cujo entre­cho ser­ve ape­nas como esbo­ço, como plan­ta (no sen­ti­do arqui­tetô­ni­co) a par­tir da qual se ergue sua sutil cons­tru­ção.

Nessa his­tó­ria em três atos de um sal­va-vidas de Fortaleza (Wagner Moura) que vai a Berlim atrás de seu aman­te ale­mão (Clemens Schick), o que enche a tela e impreg­na os sen­ti­dos do espec­ta­dor são as sen­sa­ções con­tra­di­tó­ri­as de iso­la­men­to e bus­ca de con­ta­to, de potên­cia e vul­ne­ra­bi­li­da­de, afe­to e inco­mu­ni­ca­bi­li­da­de.

Deslocamento e mer­gu­lho

Num sen­ti­do ain­da mais essen­ci­al, qua­se grá­fi­co, o fil­me pode ser vis­to como a con­ju­ga­ção de dois movi­men­tos: um hori­zon­tal, de des­lo­ca­men­to geo­grá­fi­co, e outro ver­ti­cal, de mer­gu­lho inte­ri­or. Já na pri­mei­ra sequên­cia, empol­gan­te e sem pala­vras, essas duas coor­de­na­das espa­ci­ais e dra­má­ti­cas apa­re­cem com for­ça: dois ami­gos atra­ves­sam de moto uma exten­são de dunas, depois mer­gu­lham no mar e um deles se afo­ga, ape­sar da ten­ta­ti­va deses­pe­ra­da de sal­va­men­to.

É des­se vazio, des­sa lacu­na — lite­ral, já que o cor­po do moto­quei­ro mor­to não é encon­tra­do — que se ori­gi­na todo o movi­men­to do pro­ta­go­nis­ta. É sob o sig­no da ausên­cia e da incom­ple­tu­de que se dará a sua tra­je­tó­ria.

Em vári­os momen­tos se expres­sa lin­da­men­te essa qua­li­da­de um tan­to espec­tral do per­so­na­gem: quan­do ele cami­nha sozi­nho por um deso­la­do par­que ber­li­nen­se, de árvo­res sem folhas; quan­do con­ver­sa com uma aten­den­te de bar, sem que um com­pre­en­da o outro; quan­do entra numa sala de aula vazia e ten­ta deci­frar o que está escri­to num qua­dro, sob a bron­ca incom­pre­en­sí­vel de um vigia.

Duas ima­gens for­tís­si­mas e con­tras­tan­tes ficam impreg­na­das na reti­na e, a meu ver, bali­zam for­mal­men­te o fil­me: o ver­ti­gi­no­so aquá­rio ver­ti­cal em que o pro­ta­go­nis­ta é reen­con­tra­do pelo irmão (Jesuíta Barbosa) em Berlim; e a “praia sem mar” que se esten­de a per­der de vis­ta na névoa, hori­zon­ta­li­da­de pura em que os irmãos des­gar­ra­dos final­men­te se recon­ci­li­am.

Arquitetura em movi­men­to

Rotular Praia do futu­ro de “fil­me gay”, além de empo­bre­cer o seu alcan­ce, tam­bém dis­tor­ce o seu sen­ti­do, pois, ape­sar de pre­va­le­ce­rem nele de modo fran­co e cora­jo­so as rela­ções homo­e­ró­ti­cas, o vín­cu­lo fun­da­men­tal ali não é entre o sal­va-vidas Donato e seu namo­ra­do ale­mão, mas sim entre Donato e o irmão caçu­la.

Aquaman e Speed Racer, ape­li­dos que eles dão um ao outro, ins­pi­ra­dos nos dese­nhos ani­ma­dos, não dei­xam de ser uma for­ma de sin­te­ti­zar as duas linhas mes­tras do fil­me — o des­lo­ca­men­to e o mer­gu­lho, a bus­ca de con­ta­to e a intros­pec­ção, o hori­zon­te e as pro­fun­de­zas.

Há em Praia do futu­ro algo do Antonioni de A aven­tu­ra e de O pas­sa­gei­ro, Profissão: repór­ter (aten­ção: isto não é uma com­pa­ra­ção, só uma refe­rên­cia), não tan­to pela peram­bu­la­ção angus­ti­a­da dos per­so­na­gens, mas prin­ci­pal­men­te pela con­fi­gu­ra­ção do espa­ço físi­co como ele­men­to dra­má­ti­co. Nessa arqui­te­tu­ra em movi­men­to não há um úni­co enqua­dra­men­to frou­xo, des­ne­ces­sá­rio ou mera­men­te orna­men­tal. O ambi­en­te não é mero cená­rio onde se desen­ro­la o dra­ma: ele é o dra­ma. A isso damos o nome de cine­ma.

Humberto Mauro

Começa na pró­xi­ma quin­ta-fei­ra (22 de maio) em Belo Horizonte uma mos­tra pre­ci­o­sa para quem se inte­res­sa por cine­ma bra­si­lei­ro: uma gran­de retros­pec­ti­va da obra do pio­nei­ro Humberto Mauro (1897–1983), aque­le que dis­se que “cine­ma é cacho­ei­ra”, uma das mais belas defi­ni­ções des­sa arte que com­bi­na movi­men­to, potên­cia, bele­za, ris­co e des­co­ber­ta.

Na pro­gra­ma­ção, os sete lon­gas-metra­gens pre­ser­va­dos do cine­as­ta (dos quin­ze que ele diri­giu) e vári­os dos mais de tre­zen­tos docu­men­tá­ri­os cur­tos que rea­li­zou para o Instituto Nacional do Cinema Educativo, além de pro­du­ções de outros cine­as­tas das quais Humberto Mauro par­ti­ci­pou, como Anchieta, José do Brasil (Paulo Cezar Saraceni, 1977) e Como era gos­to­so o meu fran­cês (Nelson Pereira dos Santos, 1971), para os quais escre­veu os diá­lo­gos em tupi-gua­ra­ni, A noi­va da cida­de (Alex Viany, 1978), que ele rotei­ri­zou, e Memória de Helena (David Neves, 1969), em que apa­re­ce como ator.

O gran fina­le do even­to será a exi­bi­ção, nos dias 10 e 11 de junho, do clás­si­co Ganga bru­ta (1933), com acom­pa­nha­men­to ao vivo da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, no gran­de tea­tro do Palácio das Artes. Em tem­po: os fil­mes da mos­tra serão exi­bi­dos, apro­pri­a­da­men­te, no Cine Humberto Mauro, no mes­mo Palácio das Artes.

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