Precisamos falar sobre imagens

Artes

15.12.14

O títu­lo des­te tex­to não é um cha­ma­do, um ape­lo, cre­do ínti­mo ou esté­ti­co, ape­nas a cons­ta­ta­ção banal de que ima­gens, mui­tas delas, nos impe­lem a falar. E, como se não bas­tas­se a eloquên­cia visu­al de que mui­tas são por­ta­do­ras, fala­mos tam­bém por elas, em seu lugar, como se com­pe­li­dos à tra­du­ção que trans­for­ma o visí­vel em legí­vel. Falamos tan­to e tal­vez, entre outras razões, por­que, ape­sar da enxur­ra­da coti­di­a­na a que somos sub­me­ti­dos e para a qual tam­bém con­tri­buí­mos, a defi­ni­ção de ima­gem seja ain­da escor­re­ga­dia e sua per­cep­ção, pro­ble­má­ti­ca. Ora dedu­zi­mos das foto­gra­fi­as aqui­lo que esta­ria atrás do que mos­tram, como um sub­tex­to a ser extraí­do e expli­ci­ta­do, ora as uti­li­za­mos para fazer calar os dis­cur­sos pela for­ça de uma evi­dên­cia visu­al que jul­ga­mos indis­cu­tí­vel.

A his­tó­ria recen­te do olhar é tam­bém a his­tó­ria do olho ame­a­ça­do pelo exces­so de visí­vel e pela fal­ta de ima­gens. A foto­gra­fia elo­quen­te, atra­vés da qual algo fala, e a foto­gra­fia como ele­men­to com­pro­ba­tó­rio, muda e ini­bi­do­ra do ver­bo, são ape­nas dois dos pos­sí­veis modos de nos con­fron­tar­mos com o visí­vel que nos rodeia. E, ain­da assim, tal­vez não se tra­te ain­da de ima­gens num sen­ti­do mais ple­no ou radi­cal, se acei­tar­mos que a exis­tên­cia de uma ima­gem depen­de não tan­to de sua capa­ci­da­de de afir­mar o visí­vel, mas de fazer com que o olhar hesi­te dian­te daqui­lo que vê. Daí a situ­a­ção para­do­xal na qual, mes­mo em exces­so, a ima­gem, como algo que se des­ta­ca do visí­vel, con­ti­nua a fazer fal­ta.

Tomo como exem­plo o Facebook, esse espa­ço de mur­mú­ri­os e lamen­tos, sem entra­das ou saí­das, jar­dim de nos­sos nar­ci­sos em flor, pul­sões escó­pi­cas coti­di­a­nas e com­pul­si­vos com­par­ti­lha­men­tos de links em geral mais efi­ca­zes para a sobre­vi­da da infor­ma­ção do que para seu meta­bo­lis­mo. Lugar tam­bém do desa­cor­do, do desa­gra­vo, da gri­ta­ria, da cita­ção e dos gatos. O que pode­ria ser – e às vezes é – um dis­po­si­ti­vo de enla­ce crí­ti­co ou poé­ti­co entre tex­to e ima­gem aca­ba redu­zi­do ao caco­e­te da redun­dân­cia ilus­tra­ti­va ou da legen­da­gem infi­ni­ta, pre­fe­ren­ci­al­men­te sob a for­ma lapi­dar do comen­tá­rio bre­ve. O layout dos murais ver­ti­cais incen­ti­va, ou pelo menos não impe­de, o ten­si­o­na­men­to de ima­gens e tex­tos.

Nesse ambi­en­te, porém, toda ima­gem já fun­ci­o­na de ante­mão como comen­tá­rio — e aí não impor­ta mui­to se o tema é a últi­ma novi­da­de fute­bo­lís­ti­ca, a catás­tro­fe urba­na do dia, o menu do almo­ço de domin­go ou a meni­na toman­do banho de esgo­to na sua cida­de. As con­di­ções de visi­bi­li­da­de de uma ima­gem na rede são pre­cá­ri­as, entre tan­tos moti­vos, por­que o ambi­en­te midiá­ti­co de com­par­ti­lha­men­to tem como mode­lo a infor­ma­ção jor­na­lís­ti­ca, a men­sa­gem. Por mais dis­tin­tas que sejam as fotos dis­se­mi­na­das, tudo fica nive­la­do pela ilu­são de trans­pa­rên­cia e pelo ime­di­a­tis­mo da codi­fi­ca­ção soci­al. Assim, o mun­do das ima­gens é fre­quen­te­men­te toma­do por ima­gem do mun­do, atra­vés de fotos que afir­mam o que mos­tram e mos­tram o que afir­mam.

Kunsthistorisches Museum, Viena, 1987

Rijksmuseum, Amsterdam, 2014

As duas fotos aci­ma cons­ti­tu­em cenas de lei­tu­ra de ima­gens em ambi­en­tes muse­o­ló­gi­cos. Uma delas faz par­te de meu arqui­vo pes­so­al, a outra vira­li­zou recen­te­men­te nas redes soci­ais por apre­sen­tar um gru­po de jovens de cos­tas para A ron­da notur­na, de Rembrandt, e não só isso, mas tam­bém o mag­ne­tis­mo das peque­nas telas de seus celu­la­res, enquan­to a gran­de tela fica evi­den­ci­a­da ali atrás por aban­do­no. Nesse caso, pare­ce que, ao com­par­ti­lhar a ima­gem, com­par­ti­lha­va-se tam­bém a ideia de que cer­to mun­do per­cep­ti­vo teria che­ga­do ao fim. Jovens ali­e­na­dos, não se fazem mais espec­ta­do­res como anti­ga­men­te etc. O olhar tátil, da con­cen­tra­ção imer­si­va, da capa­ci­da­de de expe­ri­men­tar uma pin­tu­ra gran­di­o­sa em sua potên­cia plás­ti­ca e esté­ti­ca se per­deu. É o fim do mun­do, ou pelo menos, o fim de cer­to mun­do em que ain­da éra­mos capa­zes de detec­tar a ver­da­dei­ra ima­gem no bre­jo da medi­o­cri­da­de cir­cun­dan­te.

Essa melan­co­lia não é com­ple­ta­men­te infun­da­da. Entretanto, se abrir­mos mão do seu catas­tro­fis­mo, recu­an­do um pou­co na lei­tu­ra, tal­vez a foto nos diga bem menos sobre o fim dos tem­pos do que sobre a con­di­ção per­cep­ti­va em tem­pos de hiper­me­di­a­ção do visí­vel. Diante dela, como dian­te de uma cena fla­gra­da em deter­mi­na­do ins­tan­te, tal­vez o que se mos­tre seja não mais do que um gru­po de jovens mui­to lou­ros, pro­va­vel­men­te estu­dan­tes do ensi­no médio ou secun­dá­rio, sen­ta­dos per­to uns dos outros e com os olhos vol­ta­dos para seus celu­la­res. Ao fun­do, uma gran­de tela escu­ra com homens “de anti­ga­men­te” pro­cu­ran­do alguém ou algu­ma coi­sa num ambi­en­te de som­bras atin­gi­do por um fei­xe de luz.

Não entra­rei aqui na his­tó­ria do qua­dro, cujo títu­lo é uma espé­cie de fal­sa legen­da, já que não se tra­ta ali de uma ron­da pro­pri­a­men­te dita nem de uma cena notur­na. A foto­gra­fia me atrai por dois moti­vos: em pri­mei­ro lugar por­que a pin­tu­ra sem­pre retor­na para assom­brar a ima­gem digi­tal, e é exa­ta­men­te assim, como coi­sa assom­bro­sa, ao mes­mo tem­po dis­tan­te e pre­sen­te, que o qua­dro com­pa­re­ce na foto; por outro lado, a cena é emble­má­ti­ca de um pro­ble­ma bas­tan­te con­tem­po­râ­neo: como che­gar a fazer com que uma ima­gem seja reco­nhe­ci­da em sua potên­cia, seja real­men­te vis­ta em meio à alga­zar­ra do visí­vel? O desa­fio da for­ma­ção de públi­co se encon­tra aí com o pro­ble­ma ain­da mais escor­re­ga­dio da for­ma­ção do olhar.

Diante da per­da de pres­tí­gio cul­tu­ral do cam­po artís­ti­co, mui­tos museus rede­fi­ni­ram sua mis­são cul­tu­ral ten­tan­do e tes­tan­do o ajus­te entre essas duas ques­tões – vale lem­brar que o Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR) cri­ou a sua Escola do Olhar –, ali­an­do a neces­si­da­de de for­ma­ção de públi­co a cer­ta peda­go­gia do olhar. Sem dimi­nuir a impor­tân­cia des­ses pro­gra­mas, em alguns dos quais já par­ti­ci­pei como artis­ta, e reco­nhe­cen­do o impor­tan­te desa­fio que assu­mem, há tam­bém na pro­li­fe­ra­ção veloz des­sas ini­ci­a­ti­vas o ris­co de trans­for­ma­ção dos museus em enti­da­de peda­gó­gi­ca e da arte em aula infi­ni­ta.

Independentemente da clas­se soci­al ou do públi­co que se pre­ten­de atrair para den­tro dos museus, nem sem­pre os pro­ce­di­men­tos pro­pi­ci­am de fato uma expe­ri­ên­cia do olhar. Ocorre mui­to quan­do, desa­jei­ta­da ou apres­sa­da­men­te, ten­ta-se faci­li­tar a com­pre­en­são das obras lan­çan­do mão de recur­sos lúdi­cos não tão cui­da­do­sa­men­te for­mu­la­dos como deve­ri­am. Nos pio­res casos, a arte se trans­for­ma em pre­tex­to luxu­o­so para ati­vi­da­des cola­te­rais que infan­ti­li­zam o espec­ta­dor. O espec­ta­dor eman­ci­pa­do fica apri­si­o­na­do nos pro­je­tos de eman­ci­pa­ção do seu pró­prio olhar.

Voltando aos jovens visi­tan­tes do Rijksmuseum, o fato de esta­rem de cos­tas e desa­ten­tos ao qua­dro não sig­ni­fi­ca que este­jam rejei­tan­do a pin­tu­ra de Rembrandt. Irritados com os comen­tá­ri­os agres­si­vos, fun­ci­o­ná­ri­os do Rijksmuseum escla­re­ce­ram no Facebook que aque­las pes­so­as esta­vam na ver­da­de con­sul­tan­do em seus celu­la­res o novo apli­ca­ti­vo do museu, por­tan­to con­ti­nu­a­vam inte­res­sa­das no qua­dro, pro­va­vel­men­te em sua his­tó­ria, poden­do tam­bém ampli­ar par­tes e deta­lhes, con­for­me as pos­si­bi­li­da­des do apli­ca­ti­vo.

Podemos ques­ti­o­nar a per­ti­nên­cia, a neces­si­da­de ou a impor­tân­cia des­se tipo de apli­ca­ti­vo para a for­ma­ção do olhar, mas, ape­sar da indig­na­ção gene­ra­li­za­da, é bem pou­co pro­vá­vel que o novo app do Rijksmuseum seja mais noci­vo do que um audi­o­guia mal pre­pa­ra­do ou um tex­to de pare­de exces­si­va­men­te peda­gó­gi­co. Lembro de um pro­fes­sor que acom­pa­nha­va minha tur­ma do Liceo Gaudenzio Ferrari à Galleria degli Uffizzi, em Florença, e fala­va tan­to que des­vi­a­va nos­sos olhos. É cla­ro, a voz de um pro­fes­sor tam­bém é capaz de apro­xi­mar o olho da potên­cia do que é vis­to, assim como os novos apli­ca­ti­vos tam­bém têm per­mi­ti­do aos pes­qui­sa­do­res e pro­fes­so­res de História da Arte uma visu­a­li­za­ção dos mean­dros da pin­tu­ra ampli­an­do deta­lhes como nun­ca antes havia sido pos­sí­vel. Oferecem a pos­si­bi­li­da­de de um con­ta­to visu­al explo­ra­tó­rio, qua­se arque­o­ló­gi­co.

Interessa tam­bém não des­co­lar total­men­te o deba­te em tor­no das tec­no­lo­gi­as de visão do con­tex­to uni­ver­si­tá­rio do ensi­no de arte, já que no Brasil depen­de­mos for­te­men­te da repro­du­ção de ima­gens. Assim, o pro­ble­ma se des­vi­a­ria da recu­sa eno­ja­da ou do des­lum­bra­men­to fútil com os novos apa­ra­tos de visu­a­li­za­ção, levan­do em con­ta que visu­a­li­zar não é o mes­mo que per­ce­ber. Tanto o olhar supersô­ni­co quan­to o exces­so de infor­ma­ção bio­grá­fi­ca não garan­tem por si sós uma per­cep­ção mais apu­ra­da nem um encon­tro deci­si­vo com um fato ou obje­to artís­ti­co. Se o pro­ble­ma da for­ma­ção do olhar depen­des­se exclu­si­va­men­te do incre­men­to óti­co, não pre­ci­sa­ría­mos das his­tó­ri­as da arte, da arque­o­lo­gia, dos antro­pó­lo­gos da ima­gem ou da pró­pria crí­ti­ca.

Por outro lado, é ingê­nuo acre­di­tar que somos capa­zes de uma expe­ri­ên­cia pura­men­te visu­al do visí­vel. Não exis­te uma tal ilha da pure­za sen­so­ri­al fora da con­di­ção medi­a­da da ima­gem na qual, por bem ou por mal, esta­mos ins­ta­la­dos. Não há como esca­par intei­ra­men­te dos “apli­ca­ti­vos” que ori­en­tam a com­pre­en­são de uma ima­gem, sejam eles os tra­di­ci­o­nais gui­as turís­ti­cos, os dis­cur­sos his­tó­ri­cos, as fer­ra­men­tas con­cei­tu­ais da teo­ria da arte, a peda­go­gia muse­o­ló­gi­ca ou nos­sa pró­pria inér­cia per­cep­ti­va.

O aces­so à por­ção invi­sí­vel do visí­vel não pas­sa neces­sa­ri­a­men­te pelo aumen­to da capa­ci­da­de óti­ca ou pela eru­di­ção desen­fre­a­da, mas por cer­ta cau­te­la dian­te da ima­gem. Como suge­re John Berger, tal­vez seja uma boa hora para per­gun­tas ingê­nu­as cujas res­pos­tas podem ser tudo menos sim­ples. O que impe­le a pin­tar, des­de o Paleolítico até os nos­sos dias? O que toda pin­tu­ra têm em comum? Talvez um olhar digres­si­vo, uma apro­xi­ma­ção ao mun­do ima­gi­nal – nas bre­chas entre o mate­ri­al e o espi­ri­tu­al – dos íco­nes bizan­ti­nos, um olhar demo­ra­do sobre o retra­to espan­to­sa­men­te pró­xi­mo de uma jovem do pri­mei­ro sécu­lo em El Fayoum, ou o espan­to pro­du­zi­do pelas pin­tu­ras pré-his­tó­ri­cas cada vez mais recu­a­das no tem­po, aju­dem a desar­mar algu­mas arma­di­lhas do visí­vel que nos rodeia.

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