Preto não entra

Colunistas

03.12.14

Muitos anos atrás, quan­do um ami­go fran­cês veio a São Paulo, a pri­mei­ra coi­sa que me per­gun­tou, enquan­to sobre­voá­va­mos os Jardins na rota de apro­xi­ma­ção do aero­por­to de Congonhas, foi se aque­le imen­so qua­dri­lá­te­ro de árvo­res era o par­que cen­tral da cida­de.  “Não, é um lote­a­men­to”, res­pon­di.

Se São Paulo fos­se Nova York, como mui­tos pau­lis­ta­nos gos­ta­ri­am de crer, aqui­lo seria de fato um par­que e as pes­so­as que vivem ali teri­am que se con­ten­tar em pagar os olhos da cara para viver ao redor do par­que, com a vis­ta do par­que, o que já seria bem melhor do que pagar os olhos da cara para viver com vis­ta para o esgo­to, que é o que mui­tas delas fazem hoje quan­do, por razões de segu­ran­ça ou por prag­ma­tis­mo (para poder enfim des­fru­tar de um shop­ping cen­ter no tér­reo, no lugar da por­ta­ria, por exem­plo), deci­dem se mudar de suas casas para con­do­mí­ni­os às mar­gens de um dos rios que cor­tam a cida­de.

Um casal de ami­gos, mora­do­res dos Jardins, resol­veu come­mo­rar o ani­ver­sá­rio de um ano das filhas numa pra­ci­nha do bair­ro. A ideia de uma fes­ta em pra­ça públi­ca não podia ser mais sim­pá­ti­ca. Me lem­brou os fins de sema­na em Berlim, quan­do a velha pis­ta de Tempelhof, o anti­go aero­por­to de Hitler, hoje desa­ti­va­do, se trans­for­ma na mai­or con­fra­ter­ni­za­ção de chur­ras­quei­ros do mun­do – ou se trans­for­ma­va. Durante mui­tos anos, Berlim foi uma exce­ção mun­di­al, uma metró­po­le alter­na­ti­va, ao mes­mo tem­po cos­mo­po­li­ta, pobre e aces­sí­vel. Tempelhof resis­tiu até recen­te­men­te, mas pare­ce que ago­ra tam­bém a sor­te dos chur­ras­quei­ros ber­li­nen­ses já está ame­a­ça­da pela espe­cu­la­ção imo­bi­liá­ria.

Na fes­ta das filhas dos meus ami­gos, reen­con­trei gen­te sim­pá­ti­ca, que eu não via há anos, como uma anti­ga che­fa a quem devo meus pri­mei­ros fios de cabe­lo bran­co e que se espan­tou ao me rever depois de tan­to tem­po: “Mas você está com­ple­ta­men­te gri­sa­lho!”.

Também encon­trei gen­te que eu não conhe­cia e que me pare­ceu mui­to sim­pá­ti­ca à pri­mei­ra vis­ta, como um casal sexa­ge­ná­rio que pas­se­a­va com uma cade­li­nha Jack Russell pelo bair­ro e que foi atraí­do pelas cai­pi­ri­nhas ser­vi­das num bal­cão arma­do num can­to da pra­ça. Não sei se é por­que essa raça de cães me faz lem­brar alguém que conhe­ci e de quem tenho boas lem­bran­ças, mas o fato é que de uns tem­pos pra cá come­cei a cogi­tar em adqui­rir um Jack Russell. E aca­bei dis­su­a­di­do da ideia pela recor­rên­cia de rela­tos que insis­ti­am em asso­ci­ar o peque­no ani­mal ao pro­ta­go­nis­ta de uma ver­são cani­na de O médi­co e o mons­tro.

Um cão da raça Jack Russell

Mais uma razão para me sur­pre­en­der com o fato de o casal pas­se­ar sua cade­li­nha sem colei­ra pelos Jardins.  Me apro­xi­mei e fui dire­to ao que me inte­res­sa­va. Perguntei se a cade­li­nha, apa­ren­te­men­te tão ado­rá­vel quan­to os donos, não era no fun­do o demô­nio. “No iní­cio, sim. Destruiu a casa intei­ra. Mas ago­ra se acal­mou. No come­ço, a gen­te tra­zia ela pra cá e dei­xa­va ela cor­rer até ficar exaus­ta. Tá ven­do? Acabou man­ca de tan­to cor­rer na infân­cia”, res­pon­deu a mulher, enquan­to o mari­do pedia um drink ao bar­man.

Mas essa raça não cos­tu­ma ata­car outros cachor­ros?”, eu insis­ti.

Bobagem. São uma doçu­ra.”

De fato, a cade­li­nha cor­ria de um lado para o outro, con­fra­ter­ni­zan­do com todos, sem dis­cri­mi­na­ção entre huma­nos e ani­mais. Até apa­re­cer um cachor­ro pre­to, tam­bém mui­to sim­pá­ti­co, que tinha o dobro do tama­nho da cade­li­nha e que pas­se­a­va desa­vi­sa­do, na colei­ra, ao lado da dona. A cade­li­nha Jack Russell notou ime­di­a­ta­men­te o recém-che­ga­do e se apro­xi­mou, como vinha fazen­do com os outros seres vivos na pra­ça. Mas em pou­cos segun­dos já esta­va engal­fi­nha­da com o pobre cachor­ro, depois de ter avan­ça­do no pes­co­ço dele com fúria assas­si­na, latin­do e ros­nan­do, como se esti­ves­se num tes­te para o fil­me A pro­fe­cia.

O cachor­ro ten­ta­va enten­der e se defen­der como podia da vio­lên­cia do ata­que. Quando a dona da cade­li­nha enfim se adi­an­tou para apar­tar a bri­ga, como se tudo aqui­lo fos­se a coi­sa mais natu­ral do mun­do, o mari­do, já com a cai­pi­ri­nha na mão, virou-se pra mim e dis­se, com um sor­ri­so maro­to de cum­pli­ci­da­de: “Basta pre­to que­rer entrar na fes­ta”. Como eu demo­rei a enten­der, ele repe­tiu, para não haver dúvi­da: “Ela não dei­xa pre­to entrar na fes­ta”.

Eu não sabia como rea­gir. Decidi sair de per­to. Continuo incon­for­ma­do com a  cara-de-pau do sujei­to que con­ta a um estra­nho na rua a mes­ma pia­da que deve ser suces­so garan­ti­do entre os ami­gos que ele rece­be no acon­che­go do lar. Que é que faz um sujei­to supor que outro bran­co, por ser bran­co, numa fes­ta de cri­an­ças nos Jardins (na qual havia negros entre os con­vi­da­dos), deve ser neces­sa­ri­a­men­te racis­ta, como ele?

O epi­só­dio acon­te­ceu pou­cas sema­nas antes de um júri nos Estados Unidos deci­dir não indi­ci­ar o poli­ci­al bran­co Darren Wilson pela mor­te de um jovem negro desar­ma­do, Michael Brown, em Ferguson, Missouri, desen­ca­de­an­do uma série de pro­tes­tos con­tra a dis­cri­mi­na­ção raci­al, nas prin­ci­pais cida­des do país. 

A pro­pó­si­to do caso, a escri­to­ra de ori­gem hai­ti­a­na Edwidge Danticat publi­cou no blog da The New Yorker uma peque­na lis­ta com os nomes de víti­mas negras da arbi­tra­ri­e­da­de poli­ci­al ame­ri­ca­na dos quais ela se lem­bra des­de que se mudou para os Estados Unidos, supon­do que mui­tos outros nomes nun­ca che­ga­ram nem che­ga­rão à mídia ou aos seus ouvi­dos. Fiquei ten­tan­do me lem­brar do nome de algu­ma víti­ma da dis­cri­mi­na­ção raci­al da polí­cia bra­si­lei­ra. Em vão. E fiquei pen­san­do se o fato de eu não me lem­brar (de não saber) de nenhum nome e de nun­ca ter pen­sa­do nis­so não me faz, mes­mo a con­tra­gos­to, um can­di­da­to natu­ral a ouvin­te das pia­das do dono da cade­li­nha Jack Russell.

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