#primaveradasmulheres

Colunistas

16.12.15

O verão está qua­se che­gan­do, mas a cha­ma­da #pri­ma­ve­ra­das­mu­lhe­res resis­te a dar lugar à nova – e supe­res­ti­ma­da – esta­ção. Na pri­ma­ve­ra, como apren­de­mos des­de cedo, a natu­re­za (re)floresce depois de ter mor­ri­do no outo­no. Na #pri­ma­ve­ra­das­mu­lhe­res, reflo­res­ce­ram as pau­tas polí­ti­cas que já havi­am ani­ma­do outras ondas femi­nis­tas do sécu­lo 20, como a denún­cia da vio­lên­cia sexu­al, o “meu cor­po, minhas regras” e “o pri­va­do tam­bém é polí­ti­co”, tão bem recu­pe­ra­do nes­te arti­go da eco­no­mis­ta Lena Lavinas.

A #pri­ma­ve­ra­das­mu­lhe­res nas ruas fez eco com minhas angús­ti­as femi­nis­tas de juven­tu­de e me ins­pi­rou a retru­car um argu­men­to con­ser­va­dor que está em voga des­de o iní­cio do sécu­lo 21: as mulhe­res já havi­am con­quis­ta­do tudo que que­ri­am, os femi­nis­mos esta­vam obso­le­tos e pode­ri­am aca­bar. Foi com a filo­so­fia de Judith Butler que con­se­gui encon­trar cami­nhos para res­pon­der a essa fal­sa afir­ma­ção. Meu inte­res­se foi na sua insis­tên­cia em reno­var a teo­ria e os movi­men­tos femi­nis­tas jus­ta­men­te quan­do ambos esta­vam sob ata­que cer­ra­do das for­ças con­ser­va­do­ras.

A novi­da­de da #pri­ma­ve­ra­das­mu­lhe­res é nos obri­gar a pen­sar em novas for­mas de fazer polí­ti­ca. Não se tra­ta mais de femi­nis­tas inte­lec­tu­ais repre­sen­tan­do ati­vis­tas, de mulhe­res bran­cas falan­do em nome de mulhe­res negras, de mulhe­res urba­nas repre­sen­tan­do mulhe­res rurais, de mulhe­res bur­gue­sas falan­do por mulhe­res pro­le­tá­ri­as. Não se tra­ta de cri­ar hie­rar­qui­as entre dife­ren­tes for­mas de luta, por­que tra­ta-se de uma filo­so­fia polí­ti­ca femi­nis­ta que rejei­ta hie­rar­qui­as.

Butler me ensi­nou que, quan­do o sujei­to mulher dei­xa de ser a razão de ser do movi­men­to femi­nis­ta, pas­sa-se a fazer polí­ti­ca em tor­no de “fun­da­men­tos con­tin­gen­tes”, sin­tag­ma que  tem  algo de pro­vo­ca­dor. Quem diz con­tin­gên­cia diz posi­ções, evo­ca sig­ni­fi­can­tes como aci­den­tal, for­tui­to, ale­a­tó­rio, impre­vi­sí­vel, inde­ter­mi­na­do. Contingência se arti­cu­la com co-liga­ções, liga­ções sem estru­tu­ras hie­rár­qui­cas, rizo­má­ti­cas para ficar com o ter­mo con­sa­gra­do por Deleuze e tão em voga em tem­pos de ati­vis­mo nas redes soci­ais.

Protesto de mulhe­res con­tra Eduardo Cunha

A mim pare­ce que esses fun­da­men­tos con­tin­gen­tes podem ser arti­cu­la­dos a par­tir de  duas cate­go­ri­as: a con­di­ção de pre­ca­ri­e­da­de de todo sujei­to, ques­tão que do meu pon­to de vis­ta mar­ca um pon­to de vira­da na filo­so­fia de Butler, e a con­di­ção de subal­ter­ni­da­de pen­sa­da prin­ci­pal­men­te Gaiatri Spivak. A par­tir da con­di­ção pre­cá­ria, con­si­go me incluir, eu, mulher, bran­ca, hete­ros­se­xu­al, pro­fes­so­ra uni­ver­si­tá­ria, em posi­ção que não é de supe­ri­o­ri­da­de, por­que a minha pre­ca­ri­e­da­de é intrín­se­ca à minha con­di­ção de ter uma vida viví­vel. Posso então reco­nhe­cer que foram as rela­ções soci­ais, cul­tu­rais e fami­li­a­res que me supor­tam que me per­mi­ti­ram cum­prir uma tra­je­tó­ria pro­fis­si­o­nal e aca­dê­mi­ca que me trou­xe aqui, a esta colu­na, a este blog. A par­tir da minha con­di­ção pre­cá­ria, pos­so me reco­nhe­cer e, por­tan­to, tal­vez pos­sa tam­bém ser reco­nhe­ci­da como alguém cuja vida depen­de de mui­tos outros. Se aban­do­no qual­quer fan­ta­sia indi­vi­du­a­lis­ta, a par­tir da qual a minha vida seria ape­nas resul­ta­do da minha auto­no­mia, pos­so con­fun­dir uma pola­ri­da­de his­tó­ri­ca que divi­de, de um lado, libe­rais que enten­dem a vida como algo úni­co do indi­ví­duo, iso­la­do de tudo que o com­põe, e de outro, comu­ni­ta­ris­tas  para os quais não pode haver vida sepa­ra­da dos laços afe­ti­vos, rela­ções fami­li­a­res e soci­ais que a cons­ti­tui.

Assim  encon­tro a opor­tu­ni­da­de de abrir cami­nhos para a cons­tru­ção de coli­ga­ções – a par­tir de fun­da­men­tos con­tin­gen­tes – com aque­les cujo reco­nhe­ci­men­to da pró­pria pre­ca­ri­e­da­de me per­mi­te tra­çar laços, vín­cu­los, ali­an­ças, afe­tos, aqui no sen­ti­do mais estri­to do ter­mo, afe­to como aqui­lo que me toca, afe­ta­ção dos efei­tos do outro em mim. Se acei­ta­mos que a con­di­ção de pre­ca­ri­e­da­de mar­ca a con­di­ção huma­na, pode­mos acei­tar tam­bém que par­ti­lha­mos essa pre­ca­ri­e­da­de, ain­da que alguns de nós sejam mais pre­cá­ri­os que outros.

Num tex­to clás­si­co dos estu­dos subal­ter­nos, outra teó­ri­ca femi­nis­ta, a  indi­a­na Gaiatri Spikav per­gun­ta: “pode o subal­ter­no falar?” Sua res­pos­ta – não – é um per­fo­ma­ti­vo, por­que dizer não já é dizer algo. Quando ela diz que o subal­ter­no não pode falar, tam­bém diz que não há, e eu cito, “valor algum atri­buí­do à mulher como um item impor­tan­te nas lis­tas de pri­o­ri­da­de glo­bais, o que dá a mulhe­res inte­lec­tu­ais uma tare­fa mui­to espe­cí­fi­ca a cum­prir”. Sobre essa subal­ter­ni­da­de, ale­ga Spivak, nenhu­ma estru­tu­ra de repre­sen­ta­ção pode dar con­ta. No con­tex­to da pro­du­ção colo­ni­al, o sujei­to subal­ter­no não tem his­tó­ria, não pode falar, e é irre­me­di­a­vel­men­te hete­ro­gê­neo. Quando Spivak diz não, o subal­ter­no não pode falar, aca­ba por dizer tam­bém que toda fala do subal­ter­no é sinal de insur­gên­cia. No con­tex­to colo­ni­al lati­no-ame­ri­ca­no, o sujei­to subal­ter­no femi­ni­no é ain­da mais pro­fun­da­men­te igno­ra­do, invi­sí­vel, silen­ci­a­do. E no con­tex­to bra­si­lei­ro, o sujei­to subal­ter­no femi­ni­no negro, a mulher negra, é ain­da mais pro­fun­da­men­te igno­ra­da, invi­sí­vel, silen­ci­a­da e explo­ra­da. É um ges­to polí­ti­co fun­da­men­tal reco­nhe­cer que a subal­ter­ni­da­de da mulher negra e pobre é dife­ren­te da subal­ter­ni­da­de da mulher bran­ca. Que exis­te subal­ter­ni­da­de mas­cu­li­na nas rela­ções capi­ta­lis­tas, que é dife­ren­te da femi­ni­na. Que a subal­ter­ni­da­de do homem homos­se­xu­al é dife­ren­te da subal­ter­ni­da­de da lés­bi­ca, que essas dife­ren­ças são mar­ca­das pelas espe­ci­fi­ci­da­des das con­di­ções de pre­ca­ri­e­da­de den­tro des­ses gru­pos e não é homo­gê­nea den­tro dos gru­pos.

Precariedade e subal­ter­ni­da­de tal­vez pos­sam, jun­tos, for­mar “fun­da­men­tos con­tin­gen­tes” da #pri­ma­ve­ra­das­mu­lhe­res. Com os fun­da­men­tos con­tin­gen­tes entre pre­ca­ri­e­da­de e subal­ter­ni­da­de, pos­so pro­mo­ver coli­ga­ções entre todos e todas que pre­ci­sem lutar con­tra as mais diver­sas for­mas de vio­lên­cia de esta­do, tare­fa urgen­te no Brasil do sécu­lo XXI. Por que a revo­lu­ção será femi­nis­ta ou não será revo­lu­ção, como pro­põe #apar­ti­dA e como mos­tra a for­ça da jovem Marcela Nogueira dos Reis, 18 anos, em sua emble­má­ti­ca resis­tên­cia à repres­são da Polícia de São Paulo con­tra a ocu­pa­ção das esco­las.