Privações produtivas

Literatura

27.01.12

Tá bom, vamos fazer o seguin­te jogo: eu digo as pala­vras “câno­ne”, “his­tó­ria do roman­ce”, “clás­si­cos”, “fun­da­do­res”. No que você pen­sa? A odis­seia, de Homero? Dom Quixote, de Cervantes, alar­de­a­do como “o pri­mei­ro roman­ce moder­no”? Provavelmente, não? É o que eu pen­sa­ria, ao menos. Quando se fala de câno­ne, pare­ce que pode­mos até omi­tir a pala­vra “oci­den­tal”, como se ela esti­ves­se implí­ci­ta.

No entan­to, nas aulas que cur­sei de lite­ra­tu­ra japo­ne­sa, sob ori­en­ta­ção do pro­fes­sor Andrei Cunha, conhe­ci uma his­tó­ria da lite­ra­tu­ra e um câno­ne mui­to dife­ren­te do oci­den­tal. Foi lá que entrei em con­ta­to com dois livros que me mar­ca­ram pro­fun­da­men­te: História de Genji, de Murasaki Shikibu, e O livro de tra­ves­sei­ro, de Sei Shonagon. Ambos os livros foram escri­tos por mulhe­res duran­te o perío­do Heian, no come­ço do sécu­lo XI, uma épo­ca em que mulhe­res escri­to­ras não eram vis­tas com bons olhos (algo que, con­ve­nha­mos, per­du­rou por mais um bom tem­po).

História de Genji é um roman­ce gigan­tes­co de mais de mil pági­nas, que nar­ra uma his­tó­ria de amor proi­bi­do envol­ven­do o filho do Imperador (e outros casos amo­ro­sos do rapaz). A tra­ma se pas­sa na cor­te e a nar­ra­ção uti­li­za deze­nas de recur­sos e arti­fí­ci­os que se popu­la­ri­za­ri­am sécu­los depois entre os roman­cis­tas oci­den­tais. Não é à toa que mui­tos apon­tam este livro como o ver­da­dei­ro “pri­mei­ro roman­ce moder­no”, e alguns até ousam tra­çar rela­ções entre a pro­sa de Shikibu e a de Marcel Proust, escri­ta qua­se mil anos depois. O livro, para lei­to­res con­tem­po­râ­ne­os, pode se reve­lar bas­tan­te enfa­do­nho em diver­sas par­tes (admi­to que sofri para ler e pulei tre­chos), ain­da mais para os que não são ver­sa­dos na anti­ga cul­tu­ra japo­ne­sa — o que inclui mui­tos lei­to­res japo­ne­ses con­tem­po­râ­ne­os. Apesar dis­so, guar­da um valor his­tó­ri­co ines­ti­má­vel, e há um tre­cho em par­ti­cu­lar no qual ocor­re uma dis­cus­são acer­ca da fun­ção da fic­ção que me pare­ceu, na épo­ca da lei­tu­ra, uma reve­la­ção.

 

O livro de tra­ves­sei­ro, de Sei Shonagon, não pode­ria ser mais dife­ren­te, ape­sar de ter sido escri­to na mes­ma épo­ca por uma mulher que, além dis­so, conhe­cia pes­so­al­men­te Murasaki Shikibu. A obra de Shonagon é com­pos­ta de peque­nas obser­va­ções coti­di­a­nas sobre a vida na cor­te, a natu­re­za, a cor do céu, as ves­ti­men­tas etc. O livro foi o pio­nei­ro no gêne­ro zuihit­su, isto é, uma cole­ção de ano­ta­ções casu­ais, des­pre­ten­si­o­sas, que se estru­tu­ram como peque­nos ensai­os lite­rá­ri­os, usan­do um esti­lo bem tra­ba­lha­do para falar de bana­li­da­des. Sei Shonagon pode estar lis­tan­do as mon­ta­nhas japo­ne­sas que acha mais boni­tas, não inte­res­sa, ela o fará com uma sen­si­bi­li­da­de ímpar, o que con­fe­re um tom sin­ge­lo ao que está sen­do nar­ra­do — ain­da que “nar­ra­ção” não seja a pala­vra ade­qua­da para clas­si­fi­car o que acon­te­ce nos frag­men­tos de O livro de tra­ves­sei­ro.

São dois livros inte­res­san­tes e impor­tan­tes, mas não é exa­ta­men­te deles que que­ro falar, e sim de uma carac­te­rís­ti­ca bas­tan­te pecu­li­ar da épo­ca e do meio em que foram pro­du­zi­dos. Naquele perío­do his­tó­ri­co do Japão, as mulhe­res eram proi­bi­das de escre­ver nos gêne­ros “nobres” de poe­sia, reser­va­dos aos homens. E qual foi o resul­ta­do dis­so? Sei Shonagon e Murasaki Shikibu inven­ta­ram novos gêne­ros nar­ra­ti­vos, uma com o seu belo livro dia­res­co de obser­va­ções pes­so­ais; a outra, com um esqui­si­to e com­ple­xo roman­ce com per­so­na­gens mar­ca­dos por for­tes tra­ços psi­co­ló­gi­cos. Se elas pos­suís­sem direi­tos iguais, tal­vez não tives­sem revo­lu­ci­o­na­do a lite­ra­tu­ra japo­ne­sa.

A proi­bi­ção gerou pode­ro­sos fru­tos na his­tó­ria da arte. Basta obser­var, por exem­plo, todos os livros e can­ções e qua­dros pro­du­zi­dos sob regi­mes dita­to­ri­ais. Muitos artis­tas rea­gi­ram viru­len­ta­men­te à cas­tra­ção de suas liber­da­des, cri­an­do, assim, obras de arte poten­tes e cora­jo­sas. Na opi­nião de um dos “homens hedi­on­dos” de David Foster Wallace, não ape­nas a pri­va­ção, mas uma expe­ri­ên­cia de sofri­men­to extre­mo e trau­má­ti­co pode ser pro­du­ti­va. O per­so­na­gem de Wallace argu­men­ta que, se não fos­se pela Segunda Guerra Mundial, não tería­mos O homem em bus­ca de sen­ti­do, de Viktor Frankl, uma gran­de obra lite­rá­ria fru­to da expe­ri­ên­cia do autor em um cam­po de con­cen­tra­ção.

Não que­ro, de modo algum, fazer uma apo­lo­gia à dita­du­ra ou à domi­na­ção mas­cu­li­na. Ninguém gos­ta­ria de retor­nar a um perío­do no qual as mulhe­res não têm liber­da­de de escre­ver o que qui­se­rem ou no qual os artis­tas são cen­su­ra­dos. Ninguém, só um imbe­cil por com­ple­to. O que não muda o fato obser­vá­vel de que mui­tas das obras mais inte­res­san­tes da huma­ni­da­de sur­gi­ram em con­tex­tos de gran­de adver­si­da­de.

Escrevo do pon­to de vis­ta de um homem bran­co de clas­se média que nas­ceu um ano antes do fim da dita­du­ra. O mun­do con­ti­nua cheio de pro­ble­mas, pro­ble­mas difu­sos e com­ple­xos. Entretanto, nun­ca sofri nenhu­ma espé­cie de pri­va­ção radi­cal. Minha situ­a­ção é bas­tan­te simi­lar à dos meus cole­gas de gera­ção em qua­se todo o Ocidente. Grandes obras podem sur­gir nes­te con­tex­to, cla­ro. Mas nada dis­so impe­de que eu me per­gun­te, por sim­ples e puro exer­cí­cio inte­lec­tu­al, como seri­am as coi­sas se ain­da vivês­se­mos, diga­mos, sob um regi­me tota­li­tá­rio, se tivés­se­mos um ini­mi­go cla­ro, se sofrês­se­mos proi­bi­ções e pri­va­ções. E, depois des­sa espe­cu­la­ção, pos­so res­pi­rar ali­vi­a­do saben­do que tudo não pas­sou de um mero exer­cí­cio de ima­gi­na­ção.

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