Proletários de todo o mundo

No cinema

06.09.13

"O emprego", Ermanno Olmi

O mun­do do tra­ba­lho ins­pi­rou des­de sem­pre fil­mes extra­or­di­ná­ri­os. A par­tir de hoje (6 de setem­bro), o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro vai exi­bir uma dúzia deles na mos­tra “O cine­ma em bus­ca de empre­go”.

Em meio a clás­si­cos obri­ga­tó­ri­os, mas bas­tan­te repri­sa­dos, como Tempos moder­nos (Charles Chaplin, 1936) e Ladrões de bici­cle­tas (Vittorio de Sica, 1948), a pro­gra­ma­ção inclui algu­mas rari­da­des, como o argen­ti­no Bolívia (2001), de Israel Adrián Caetano, e o qua­se esque­ci­do O empre­go (1961), de Ermanno Olmi, que o IMS está lan­çan­do em DVD.

http://www.youtube.com/watch?v=iYJwm4DlKU0

O fil­me de Olmi, ausen­te há déca­das das telas bra­si­lei­ras, é nada menos que uma obra-pri­ma. Já se dis­se que ele é uma espé­cie de con­ti­nu­a­ção natu­ral de Ladrões de bici­cle­ta, como se a desa­for­tu­na­da famí­lia roma­na apre­sen­ta­da por De Sica tives­se subi­do na vida com a recons­tru­ção do país e ago­ra vives­se num con­jun­to habi­ta­ci­o­nal pro­le­tá­rio (um upgra­de em rela­ção ao cor­ti­ço ante­ri­or) numa cida­de-saté­li­te de Milão.

Fundo his­tó­ri­co e dra­ma pes­so­al

O pro­ta­go­nis­ta é Domenico Cantoni (Sandro Panseri), um rapaz de 17 anos que faz tes­tes numa gran­de cor­po­ra­ção mila­ne­sa em bus­ca do que seu pai cha­ma de un pos­to sicu­ro per tut­ta la vita. O dia das pro­vas para a con­quis­ta do empre­go, que inclu­em ques­ti­o­ná­rio, reda­ção e um impa­gá­vel “exa­me psi­co­téc­ni­co” (feti­che moder­no­so da épo­ca), ocu­pa meta­de do fil­me. É nes­se dia que Domenico conhe­ce outra garo­ta pos­tu­lan­te a um pos­to sicu­ro na empre­sa, Antonietta Masetti (Loredana Detto), e nas­ce entre os dois um esbo­ço de namo­ro.

A par­tir des­sa situ­a­ção Olmi cons­trói uma nar­ra­ti­va que com­bi­na obser­va­ção soci­al, sáti­ra de cos­tu­mes, roman­ce de for­ma­ção e his­tó­ria de amor. Filmando num lím­pi­do pre­to e bran­co e tiran­do par­ti­do da pro­fun­di­da­de de cam­po e de movi­men­tos pre­ci­sos de câme­ra, o dire­tor, como quem não quer nada, dá a ver simul­ta­ne­a­men­te o fun­do his­tó­ri­co (a moder­ni­za­ção de Milão e da Itália, a for­te emer­gên­cia da soci­e­da­de de con­su­mo à ame­ri­ca­na, as dis­cre­pân­ci­as soci­ais e cul­tu­rais do país) e o dra­ma exis­ten­ci­al (as aspi­ra­ções e angús­ti­as juve­nis, a escas­sez de sen­ti­do do dia a dia, a melan­co­lia da velhi­ce e da soli­dão). Aqui, uma des­cri­ção do tra­ba­lho maçan­te numa repar­ti­ção, com um humor silen­ci­o­so e um sen­ti­do do absur­do que lem­bram Jacques Tati:

http://www.youtube.com/watch?v=Z9NQpdx_9L4

Boa par­te da obser­va­ção da vida urba­na se dá pelos olhos do ingê­nuo Domenico, o que lhe con­fe­re ares de “des­co­ber­ta do mun­do”. Daí vem mui­to do fres­cor do fil­me, que alguns apro­xi­mam da Nouvelle Vague, com seus jovens erran­do ale­gre­men­te pelas ruas da metró­po­le, inven­tan­do a vida.

Algumas cenas são abso­lu­ta­men­te memo­rá­veis, como aque­la em que, ao final do dia de tes­tes e do pas­seio com Antonietta, Domenico entra num vagão vazio e can­ta soli­tá­rio uma bala­da român­ti­ca, sem se dar con­ta de que o car­ro esta­va desa­tre­la­do do trem que par­te para o subúr­bio. Em outro momen­to, quan­do mor­re um opa­co fun­ci­o­ná­rio buro­crá­ti­co da fir­ma e as gave­tas de sua mesa são esva­zi­a­das, des­co­bri­mos que ele escre­via em segre­do um cau­da­lo­so roman­ce.

Poética do espa­ço

É notá­vel o modo como Olmi pre­ser­va a pla­ta­for­ma bási­ca do neor­re­a­lis­mo (a fil­ma­gem nas ruas, o regis­tro dire­to da vida soci­al, a uti­li­za­ção de ato­res não pro­fis­si­o­nais) mas a enri­que­ce, por um lado, com um humor sen­sí­vel ao absur­do do coti­di­a­no e, por outro, com uma refi­na­da poé­ti­ca do espa­ço que lem­bra Antonioni. Aqui, os pla­nos gerais com foco pro­fun­do cum­prem um papel dra­má­ti­co essen­ci­al. As lar­gas ave­ni­das e os can­tei­ros de obras de Milão, bem como os gran­des ambi­en­tes com pés-direi­tos altís­si­mos e lon­gos cor­re­do­res, são espa­ços alter­na­da­men­te ame­a­ça­do­res, intri­gan­tes ou opres­si­vos. Combina-se com tudo isso um liris­mo pun­gen­te, dig­no dos melho­res fil­mes de Valerio Zurlini.

Em suma, não é pou­ca coi­sa esse tra­ba­lho de Olmi, que tem dois outros títu­los na mos­tra do IMS: A árvo­re dos taman­cos (1978) e A len­da do san­to beber­rão (1988). Para con­cluir, duas curi­o­si­da­des sobre O empre­go. O crí­ti­co e rotei­ris­ta Tullio Kezich, bió­gra­fo de Fellini, faz no fil­me o papel do psi­có­lo­go que apli­ca o temi­do “psi­co­téc­ni­co”. E a atriz Loredana Detto, então com 15 anos, se casa­ria dois anos depois com Olmi, com quem vive até hoje.

Cigarra e for­mi­ga

Se nos fil­mes da mos­tra do IMS, de A nós a liber­da­de (René Clair, 1931) a O homem que virou suco (João Batista de Andrade, 1981), pas­san­do por A clas­se ope­rá­ria vai ao paraí­so (Elio Petri, 1971), pre­va­le­ce a ideia do tra­ba­lho ali­e­na­do, embru­te­ce­dor do homem, em Esse amor que nos con­so­me, que entra dis­cre­ta­men­te em car­taz hoje nos cine­mas, não há divór­cio entre tra­ba­lho e pra­zer, labu­ta e cri­a­ção — cigar­ra e for­mi­ga final­men­te con­ci­li­a­das.

http://www.youtube.com/watch?v=_fu2KmEIAL4

O fil­me de Allan Ribeiro é um mis­to de docu­men­tá­rio e fic­ção cen­tra­do no dia a dia de Rubens Barbot, que em 1990 cri­ou no Rio a pri­mei­ra com­pa­nhia negra de dan­ça con­tem­po­râ­nea, e Gatto Larsen, seu par­cei­ro artís­ti­co e amo­ro­so.

Do velho casa­rão ame­a­ça­do de des­pe­jo que lhes ser­ve de mora­dia, ate­liê, salão de dan­ça e cen­tro cul­tu­ral, os dois e sua tru­pe espa­lham afe­to e arte pela cida­de. A câme­ra regis­tra as andan­ças pelas ruas e pra­ças, o tra­ba­lho arte­sa­nal na fabri­ca­ção de rou­pas e ade­re­ços, as per­for­man­ces de dan­ça em luga­res como um cais semi­a­ban­do­na­do, a luta diá­ria pela sobre­vi­vên­cia mate­ri­al e espi­ri­tu­al. Um fil­me belís­si­mo, se o espec­ta­dor se dei­xar levar pela mão nes­sa aven­tu­ra de des­co­ber­ta e entre­ga.

Mais Ermanno Olmi

Uma vida sem sonhos e sem ambi­ções, por Mariarosaria Fabris — “O empre­go mos­tra toda a esqua­li­dez de uma vida con­di­ci­o­na­da por uma roti­na metó­di­ca e repe­ti­ti­va”.

Esquecer para lem­brar, por José Carlos Avellar — Olmi “pro­cu­ra esque­cer tudo o que sabe para rea­pren­der a ver o mun­do a par­tir do ges­to do dia a dia das pes­so­as comuns”.

 

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