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Colunistas

23.12.15

Vou ao cine­ma assis­tir a Star Wars. Entre trai­lers de block­bus­ters, todos esban­jan­do super-heróis na luta con­tra o apo­ca­lip­se, é exi­bi­do um fil­me publi­ci­tá­rio que dis­cor­re, com o auxí­lio da voz emo­ci­o­na­da de uma atriz conhe­ci­da, sobre as boas coi­sas da vida, as boas lem­bran­ças, o amor, a ami­za­de, os êxi­tos, os encon­tros feli­zes da vida real con­tra a impes­so­a­li­da­de vir­tu­al da téc­ni­ca e das tec­no­lo­gi­as. Viro para o ami­go ao meu lado e per­gun­to, con­fu­so: “É pro­pa­gan­da de quê?” “De ban­co”, ele res­pon­de. “Mas onde é que foi parar o dinhei­ro?”.

Até há alguns anos, as pro­pa­gan­das de ban­co fala­vam de inves­ti­men­tos, finan­ci­a­men­tos, lucros, pou­pan­ça, segu­ros, garan­tia finan­cei­ra para o futu­ro etc. Por oca­sião das últi­mas elei­ções pre­si­den­ci­ais, o mes­mo ban­co já tinha pro­du­zi­do uma pro­pa­gan­da exor­tan­do o espí­ri­to naci­o­na­lis­ta dos bra­si­lei­ros, tam­bém sem falar em dinhei­ro. Lembrava a publi­ci­da­de cívi­ca dos tem­pos da dita­du­ra mili­tar.

O epi­só­dio VII de Star Wars é resul­ta­do de um negó­cio de bilhões de dóla­res, acom­pa­nha­do de uma espe­ta­cu­lar cam­pa­nha de mar­ke­ting. Só no pri­mei­ro fim de sema­na, o fil­me fatu­rou US$ 517 milhões de bilhe­te­ria no mun­do intei­ro. Mas o que o epi­só­dio VII exal­ta (e mui­to do seu suces­so vem daí) é a suca­ta e a reci­cla­gem, a impu­re­za, o dis­for­me, o huma­no, o frá­gil, o velho e o alter­na­ti­vo con­tra a assep­sia dos fas­cis­mos e a desu­ma­ni­za­ção de um mun­do regi­do pela téc­ni­ca, pelo des­per­dí­cio, por leis e inte­res­ses auto­crá­ti­cos, incon­se­quen­tes e fri­os (não para de nevar no pla­ne­ta do mal, enquan­to a jovem heroí­na tor­ra no deser­to, revi­ran­do o lixo para con­se­guir sobre­vi­ver).

Faz tem­po que as dis­to­pi­as do cine­ma ame­ri­ca­no exal­tam o mun­do sujo, irre­gu­lar, pobre, cri­a­ti­vo, caó­ti­co, diver­so, alter­na­ti­vo e sub­ter­râ­neo das resis­tên­ci­as demo­crá­ti­cas, a repú­bli­ca con­tra a assep­sia inu­ma­na do mal. É uma bela autoi­ma­gem da demo­cra­cia con­tra o ide­al nor­ma­ti­vo das auto­cra­ci­as fas­cis­tas. É cer­to que não fal­ta­rá quem veja aí um mani­queís­mo hipó­cri­ta, ou no míni­mo um imen­so opor­tu­nis­mo, já que essa ima­gem de diver­si­da­de é finan­ci­a­da por bilhões de dóla­res de uma indús­tria que não pri­ma por exal­tar a dife­ren­ça, ain­da mais quan­do ela é dema­si­a­do dife­ren­te, estran­gei­ra e pre­ci­sa de legen­das. O mun­do está cheio de con­tra­di­ções, mas não dei­xa de ser um modo sim­pá­ti­co de se ser­vir do dinhei­ro para a pro­du­ção de uma ima­gem poli­ti­ca­men­te inte­res­san­te do bem, na qual o papel sim­bó­li­co da reci­cla­gem vem se tor­nan­do cada vez mais cen­tral con­tra os cada vez mais insus­ten­tá­veis exces­sos sui­ci­das do capi­ta­lis­mo.

Nesse sen­ti­do, até que pode­ria haver algu­ma sin­to­nia entre o fil­me e a pro­pa­gan­da do ban­co que o pre­ce­de, se ela não seguis­se pro­mo­ven­do uma for­ma de assep­sia, sob o pre­tex­to de mos­trar o melhor da vida. E isso a come­çar pela ausên­cia de qual­quer refe­rên­cia ao dinhei­ro (que, afi­nal, é o pro­du­to que ali se ven­de), ago­ra vis­to como coi­sa suja. Ao con­trá­rio do epi­só­dio VII de Star Wars, nin­guém é pobre, nem esfar­ra­pa­do, nem feio nes­se mun­do do melhor da vida que o ban­co sele­ci­o­nou para você antes de dizer que é ban­co.

Num jan­tar recen­te, quan­do vati­ci­nei do alto da minha igno­rân­cia bêba­da e cons­pi­ra­tó­ria um futu­ro som­brio para a polí­ti­ca bra­si­lei­ra, uma senho­ra me inter­rom­peu com uma fra­se cujo deses­pe­ro denun­ci­a­va a sua fal­ta de con­vic­ção: “Os ban­quei­ros não vão dei­xar!”. Fiquei sem pala­vras. Estávamos falan­do de polí­ti­ca e reli­gião, de modo que o medo da mulher me levou ime­di­a­ta­men­te a um para­le­lis­mo inu­si­ta­do: os neces­si­ta­dos bus­cam nas igre­jas o mes­mo que os remu­ne­ra­dos nos ban­cos. Cada um recor­re ao que pode.

Há mui­to que a car­ti­lha econô­mi­ca é a Bíblia dos remu­ne­ra­dos. E, como na Bíblia, há coi­sas que não se dis­cu­tem. Algumas são mais fáceis de enten­der do que outras. Todo mun­do já enten­deu, por exem­plo, que o pro­ble­ma do rebai­xa­men­to da nota do Brasil pelas agên­ci­as de ava­li­a­ção de ris­co tem a ver com fato­res con­jun­tu­rais da cri­se e de uma polí­ti­ca econô­mi­ca desas­tro­sa: o ris­co da infla­ção e do desem­pre­go, as medi­das fis­cais que deve­ri­am ter sido toma­das e não foram por razões de ordem polí­ti­ca etc. Um pou­co mais difí­cil é enten­der a razão pela qual as mes­mas agên­ci­as, que devem levar em con­ta as con­di­ções estru­tu­rais da eco­no­mia de um país antes de fazer suas ava­li­a­ções, não se inte­res­sa­ri­am pelo lon­go pra­zo. Até outro dia, o país vivia sob a lógi­ca da impu­ni­da­de e da cor­rup­ção endê­mi­ca e nin­guém rebai­xa­va nota nenhu­ma por cau­sa dis­so. Será silo­gis­mo con­cluir que o com­ba­te à cor­rup­ção faz mal à eco­no­mia? Basta o imen­so sis­te­ma de cor­rup­ção que asso­la a eco­no­mia bra­si­lei­ra há déca­das come­çar a ruir de for­ma espe­ta­cu­lar para que se per­ca a con­fi­an­ça no país? Mas não é um bom sinal? E não faz o país pas­sar a outro pata­mar de trans­pa­rên­cia e demo­cra­cia? Ou a leni­ên­cia em rela­ção à cor­rup­ção era a garan­tia da esta­bi­li­da­de econô­mi­ca? Uma coi­sa não tem nada a ver com a outra? É pre­ci­so parar o pro­ces­so de denún­cia e puni­ção de todos os envol­vi­dos antes que seja tar­de, antes que haja envol­vi­dos demais? Vamos lem­brar as coi­sas boas da vida?

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