Pueblo, a la carga

Correspondência

26.06.13

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Leia a pró­xi­ma car­ta.

Adele Fátima

 

Adele Fátima em Com as calças na mão (1975)

Ó Rei dos Pinhões,

Que fazeis na apra­zí­vel Gonçalves, em que jamais pisei sequer em sonhos, nun­ca vi mais gor­da, magra ou fri­o­ren­ta, mas que, ago­ra infor­ma­do, sei loca­li­zar-se no sul das Gerais, nas dobras da Mantiqueira, a 300 quilô­me­tros da Vila de Piratininga? Decerto não fos­tes aí para ser atro­pe­la­do.

Em que brah­mas, em que bru­mas meteu-se o nos­so Rei? A Glória está dan­do para todo mun­do, que his­tó­ria é essa? Quem é esse enxe­ri­do Corbières? Sem inter­net? No duro?  Há algu­ma cou­sa de mis­té­rio e sus­pen­se nes­se vos­so mer­gu­lho quei­ro­si­a­no, dig­no de “A cida­de e as ser­ras”, ale­go­ria irô­ni­ca, e atu­a­lís­si­ma, sobre o cul­to do pro­gres­so e das novi­da­des da ciên­cia e da tec­no­lo­gia.

Sacis, curu­pi­ras e mulas-sem-cabe­ça? Parece exa­ge­ro, sô. Tais cri­a­tu­ras fica­ram em San Pablo, que não iam per­der os pro­tes­tos que ora mono­po­li­zam as aten­ções do mun­do para o gigan­te rin­cão varo­nil e auri­ver­de.

Falai a ver­da­de. Não estais escon­di­do para dar uns tapas (sem duplo sen­ti­do, por favor) no novo roman­ce? Sei que gos­tais de reco­lhi­men­to na hora de pen­te­ar (com duplo sen­ti­do, por favor) um tex­to antes de dá-lo e dedá-lo a públi­co. Então é ver­da­de? Teremos em bre­ve, nas boas casas do ramo, expos­to e sara­do, um Reinaldo Moraes enfei­xa­do em folhas? Acaso per­gun­to, é por­que você — bas­ta de segun­das pes­so­as do plu­ral! — não ima­gi­na quan­ta gen­te me pediu para apu­rar se há baga­ça ou não há baga­ça à vis­ta. Lembra da que­ri­dís­si­ma e doce Renata Megale? Pois ela insis­tiu que fizes­se o papel do repór­ter que um dia eu fui e assun­tas­se. Assuntado está.

Atendido o ape­lo das mas­sas, pas­so a ques­tões mais come­zi­nhas. Os pro­tes­tos. Os que­bra-que­bras. Assim que ligo a TV e dou com aque­las ima­gens espe­ta­cu­la­res, não faço por menos. Lembro logo o “bogo­ta­zo”. Você conhe­ce a his­tó­ria: o fuzuê dos dia­bos se deu no dia 9 de abril de 1948 e dei­xou Bogotá arden­do em cha­mas. Nessa data Jorge Eliécer Gaitán, o líder polí­ti­co mais popu­lar da Colômbia, can­di­da­to dis­si­den­te do Partido Liberal e que fatal­men­te teria sido elei­to pre­si­den­te nas elei­ções daque­le ano, foi aba­ti­do a tiros em ple­no dia numa das ruas cen­trais da capi­tal, nas mãos de um faná­ti­co cha­ma­do Poa. Segundo notou Antonio Callado, Gaitán tinha “a cara páli­da de índio”.

Na oca­sião havia um gru­po de jor­na­lis­tas bra­si­lei­ros em Bogotá, entre os quais Callado, do Correio da Manhã, e Joel Silveira, do Diário de Notícias, cobrin­do uma con­fe­rên­cia pan-ame­ri­ca­na, que deu ori­gem à OEA. A fúria popu­lar come­çou ao meio-dia. Não se sabe como os revol­to­sos, em luta de mache­tes e fuzis pelas esqui­nas, con­se­gui­am dis­tin­guir os “godos” (con­ser­va­do­res) dos “libe­ra­les”. Trucidaram-se, dias segui­dos. “Pueblo, a la car­ga!”, o gri­to de guer­ra. Fidel Castro e Gabriel García Márquez, ambos na épo­ca estu­dan­tes (não os aman­tes que se tor­na­ri­am depois), anda­vam por lá e fize­ram rela­tos impres­si­o­nan­tes do que pre­sen­ci­a­ram.

Da saca­da do Hotel Regina, Callado viu os desor­dei­ros, chei­os de pis­co na ideia, che­ga­rem com latas de gaso­li­na. Se man­dou, car­re­gan­do a máqui­na de escre­ver Hermes, e ain­da a tem­po de levar a cha­ve do quar­to, “pie­za 5”, que con­ser­vou como recor­da­ção do hor­ror. O Regina, segun­do ele, no dia seguin­te virou “um arca­bou­ço car­bo­ni­za­do”.

Usando uma ban­dei­ra bra­si­lei­ra como cober­tu­ra, o gru­po de jor­na­lis­tas con­se­guiu che­gar à nos­sa embai­xa­da. E é nes­se tre­cho que eu que­ria, tam­bém, che­gar. Estava em Bogotá o diplo­ma­ta João Guimarães Rosa, o Joãozito, assim conhe­ci­do mes­mo ten­do publi­ca­do, dois anos antes, em 1946, os con­tos de Sagarana. Bom repór­ter, Antonio Callado não per­deu a chan­ce de per­gun­tar a Guimarães Rosa se ele havia acom­pa­nha­do o levan­te nas ruas. “Ora, Callado, o que eu tenho de escre­ver está tudo na minha cabe­ça. Não pre­ci­so ver coi­sa algu­ma… Já fiz um livro e estou fazen­do outros”, res­pon­deu o escri­tor minei­ro. Inconformado, Callado insis­tiu: “Mas o que você fez enquan­to Bogotá pega­va fogo?” “Reli Proust”, dis­se Rosa, na lata.

Ando, aqui e ali, enquan­to o pau come Brasil afo­ra, relen­do um autor de minha pre­di­le­ção. Tem a ver com tra­ba­lho, meu caro Reinaldo, pois de um dia para outro me des­co­bri­ram “espe­ci­a­lis­ta” em Rubem Braga, ai de nós! De enco­men­da, escre­vo arti­gos e apre­sen­ta­ções de livro, com­pa­re­ço a bate-papos em bibli­o­te­cas e cen­tro cul­tu­rais. Outro dia, dei uma entre­vis­ta para a tele­vi­são, na mura­da do Forte de Copacabana. Morri de sede, esta­va de res­sa­ca. Mas não recla­mo, há manei­ras pio­res de ganhar a vida. Vendedor daque­las más­ca­ras do fil­me V de vin­gan­ça, por exem­plo.

Em minha recen­te con­di­ção de scho­lar, per­mi­to-me bolar umas tese­zi­nhas, cuja efi­cá­cia gos­ta­ria de tes­tar com você, antes de apre­sen­tá-las ao dis­tin­to públi­co. Avisa se achar o papo fura­do demais, para que eu não pas­se ver­go­nha.

A prin­ci­pal saca­da é a seguin­te: Rubem Braga nun­ca con­se­guiu des­li­gar-se de Cachoeiro de Itapemirim, onde nas­ceu, mes­mo ten­do vivi­do em capi­tais sofis­ti­ca­das como Rio e Paris dos anos 1950. Negócio dele era achar o mato den­tro da cida­de gran­de.

Não é de estra­nhar, por­tan­to, que se encan­tas­se com o que jul­ga­va ser um pé de milho que nas­ceu no quin­tal do seu apar­ta­men­to em Copacabana, o mes­mo em que morou na com­pa­nhia de Paulo Mendes Campos, outro cro­nis­ta da pesa­da, tão ou mais bri­lhan­te que o com­pa­nhei­ro de sala e cozi­nha. Os ami­gos des­men­ti­am o Braga: aqui­lo era sim­ples capim, no máxi­mo um pé de cana (com duplo sen­ti­do, a tur­ma era che­ga­da num uís­que nas pedras). Mas ele insis­tiu e viu cres­cer o pé de milho, alcan­çan­do dois metros e lan­çan­do suas folhas além do muro. “E eu não sou mais um medío­cre homem que vive atrás de uma cha­ta máqui­na de escre­ver: sou um rico lavra­dor da Rua Júlio de Castilhos”, con­clui o Sabiá na crô­ni­ca “Um pé de milho”, títu­lo do livro lan­ça­do em 1948 (mes­mo ano do “bogo­ta­zo”, veja as coin­ci­dên­ci­as que nada que­rem dizer).

Para não nos alon­gar­mos mais nes­se tipo de com­pa­ra­ção, que abun­da na obra do Braga, vale lem­brar só o títu­lo de mais uma de suas sele­tas de crô­ni­ca: A cida­de e a roça, publi­ca­da em 1957, que depois o autor muda­ria para O verão e as mulhe­res (sem dúvi­da, melhor) por con­si­de­rar que lem­bra­va demais o do roman­ce A cida­de e as ser­ras, de Eça de Queiroz (cita­do pela segun­da vez nes­ta epís­to­la, um recor­de). Note-se: não havia no livro tex­to cha­ma­do “A cida­de e a roça”. Na mai­o­ria deles, porém, a temá­ti­ca é inequí­vo­ca: “O outro Brasil”, “O homem dos bur­ros”, “Caçada de paca”, “Buchada de car­nei­ro”, “O lavra­dor”.

Velho Braga. Gostava de ser tra­ta­do des­sa manei­ra. Com algum exa­ge­ro, ami­gos mais che­ga­dos — como o jor­na­lis­ta Otto Lara Resende e o poe­ta Vinicius de Moraes — garan­ti­am que ele era velho, soli­tá­rio, cas­mur­ro, car­ran­cu­do, res­mun­gão, e que tinha aque­las gros­sas sobran­ce­lhas e os bigo­des em for­ma de tra­pé­zio des­de meni­no de cal­ças cur­tas.

Para Manuel Bandeira, quan­do Rubem Braga tinha assun­to, era sem­pre bom; mas quan­do não tinha, era óti­mo. Seu domí­nio do pon­to e vír­gu­la era assom­bro­so. Poucos usa­ram o difí­cil recur­so da lín­gua escri­ta melhor do que ele. O pon­to e vír­gu­la pare­ce ter sido inven­ta­do para o gas­to do Braga e o pra­zer de seus lei­to­res.

Ateu e anti­cle­ri­cal. No iní­cio da déca­da de 1930 o pen­sa­dor cató­li­co Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde, propôs a ado­ção do voto femi­ni­no, cuja res­tri­ção só foi ofi­ci­a­li­za­da, defi­ni­ti­va­men­te, no Código Eleitoral Brasileiro de 1932. Qual não foi a sur­pre­sa quan­do o Braga se mos­trou con­tra. Sua argu­men­ta­ção era que, do púl­pi­to, os padres e a Igreja iri­am mani­pu­lar as mulhe­res, fazen­do com que votas­sem em can­di­da­tos apoi­a­dos “pelo maqui­a­vé­li­co e sedu­tor car­de­al Sebastião Leme e pelo pró­prio dou­tor Alceu”.

Deve ter sido a úni­ca vez na vida que se com­por­tou de manei­ra hos­til com mulhe­res. Foi um homem de mui­tas pai­xões. O casa­men­to com Zora Seljan é o úni­co em sua bio­gra­fia. Conheceu Tônia Carrero no esplen­dor na bele­za, e ini­ci­a­ram um caso em Paris (você conhe­ceu algu­ma Tônia Carrero em seus tem­pos de Paris, Reinaldo?). Com Danuza Leão teve um envol­vi­men­to platô­ni­co. Com Bluma Wainer (por coin­ci­dên­cia, como Danuza, mulher de Samuel Wainer, e aí come­ço a achar que as coin­ci­dên­ci­as que­rem dizer algu­ma coi­sa), o lan­ce foi bem mais sério. Para viver com ele, ela che­gou a se sepa­rar do mari­do, engra­vi­dou, e o namo­ra­do, que no fun­do não que­ria uma liga­ção defi­ni­ti­va, fugiu para Porto Alegre. Bluma deci­diu abor­tar. Depois da sua mor­te, Rubem enco­men­dou a Alfredo Ceschiatti uma escul­tu­ra dela, que plan­tou no jar­dim da cober­tu­ra de Ipanema.

Bonito, não acha? O que me leva a outra escul­tu­ra, de car­ne, osso e for­mo­su­ra, e per­mi­te con­ti­nu­ar nos­so momen­to varan­dão da sau­da­de em tor­no das musas dos anos 1970/80. Estive uma úni­ca vez fren­te a fren­te com Adele Fátima, imor­ta­li­za­da não só no comer­ci­al das Sardinhas 88 como tam­bém em algu­mas por­no­chan­cha­das clás­si­cas e no suin­gue Adelita (Ela é mag­né­ti­ca), de Jorge Benjor: “Quando ela pas­sa por aqui/ e me olha com esse olhar inocente/ puro, ado­ci­ca­do e primaveril/ Eu me sin­to des­lo­ca­do que passo/ da ida­de do lobo pra ida­de pue­ril”.

Magnética! Fui ter com a mula­ta — uma das mulhe­res mais gos­to­sas do pla­ne­ta! — em minha humil­de con­di­ção de repór­ter. Não lem­bro a pau­ta. Coisa de nume­ro­lo­gia, ela deci­di­ra assi­nar Adelle de Fattimma, ou algo pare­ci­do. Cheguei cedo, e o por­tei­ro do pré­dio onde ela mora­va no Jardim Botânico me pediu para aguar­dar um minu­to. Eis que sur­ge uma moça gor­di­nha, de lar­gas cami­se­tas bran­cas e jeans, sua­da e car­re­gan­do saco­las de super­mer­ca­do. Me sor­riu, eu dis­se: “Prazer, estou aguar­dan­do a Adele…”. Ela: “Mas sou eu mes­ma, meu anjo, não está me reco­nhe­cen­do?!”.

Não sabia onde enfi­ar a cara. É que, como dizia o Rubem Braga, “ulti­ma­men­te têm pas­sa­do mui­tos anos”. Mas depois o papo com Adele foi óti­mo, ela fez o mari­dão ser­vir cro­que­tes de car­ne, riso­les de cama­rão e cer­ve­ji­nha gela­da, o cara só fal­ta­va usar aven­tal…

Com tal pape­lão, des­pe­ço-me, na espe­ran­ça de que os pinhões de Gonçalves lhe sejam bre­ves ao estô­ma­go e ao espí­ri­to,

Do teu ami­go atra­pa­lha­do,

Marecha

PS: A gíria “pei­xão” está abo­na­da na pro­sa dos mai­o­res esti­lis­tas da lín­gua por­tu­gue­sa. Em A bra­si­lei­ra de Prazins, de Camilo Castelo Branco, con­ta-se a his­tó­ria de amor de Marta de Prazins (a tal bra­si­lei­ra, alcu­nha­da des­sa tor­pe manei­ra por­que está pro­me­ti­da pelo pai a um tio que fez for­tu­na em Pernambuco). Logo nas pri­mei­ras pági­nas, tas­ca Camilo: “Os outros estu­dan­tes, rapa­zo­las ver­me­lha­ços, refei­tos, gran­des par­va­jo­las, com gran­des nacos de boroa nas algi­bei­ras das vés­ti­as de sara­go­ça de varas, e os velhos Virgílios ense­ba­dos em saqui­tos de esto­pa suja, dizi­am gra­ço­las a Marta — cha­ma­vam-lhe boa peque­na, fran­ga e pei­xão”. Tem rit­mo o por­tu­ga, não? E safa­de­za na cabe­ça: “sara­go­ça de varas” é for­te.

PS 2: Projeto Bambolês Simultâneos em mar­cha. Pus na fita um mui res­pei­ta­do empre­sá­rio da noi­te cari­o­ca, ben­quis­to e influ­en­te nas boa­tes Flórida, Escandinávia, Barbarella, Kiss, Inferno da Dantas e outras menos cota­das. Estamos na fase dos tes­tes com fitas métri­cas, sele­ci­o­nan­do can­di­da­tas a inter­pre­tar a cro­o­ner Missiva Levanta. Uma prin­ce­sa gita­na não garan­to que a gen­te arran­je, mas uma pri­ma bam­bo­le­an­te de Brás de Pina, há de se con­se­guir. Vai dar mó pedal.

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