O psicanalista Jacques Lacan (1901-1981)

O psicanalista Jacques Lacan (1901-1981)

Quando as palavras mudam

Filosofia

08.05.17

Sem come­ter gran­de exa­ge­ro, pos­so dizer que a nos­sa rela­ção com as pala­vras mudou ao lon­go do sécu­lo XX. Aprendemos, em dado momen­to da cha­ma­da “vira­da lin­guís­ti­ca”, que as pala­vras não repre­sen­tam as coi­sas nem podem esta­be­le­cer com elas um sig­ni­fi­ca­do dire­to e trans­pa­ren­te. Com filó­so­fos como o Michel Foucault de As pala­vras e as coi­sas e Jacques Derrida de Gramatologia, esta­mos car­re­gan­do, des­de o final dos anos 1960, o peso des­sa rup­tu­ra radi­cal. Não bas­tas­se isso, o psi­ca­na­lis­ta Jacques Lacan insis­tiu na ideia de que o incons­ci­en­te se estru­tu­ra como lin­gua­gem, nos deli­ne­an­do pelas pala­vras que esco­lhe­mos dizer e por aque­las que esco­lhe­mos não dizer.

Toda essa dis­cus­são ain­da não está supe­ra­da, em gran­de medi­da, por tra­zer em si o pon­to de par­ti­da para outras rup­tu­ras, tal­vez ain­da mais radi­cais. Penso, por um lado, na arte, na rela­ção pro­pos­ta pela filo­so­fia de Giorgio Agamben entre a poe­sia e lin­gua­gem (“A poe­sia é aqui­lo que faz a escri­ta regres­sar até o lugar de ile­gi­bi­li­da­de de onde pro­vém, aon­de ela con­ti­nua se diri­gin­do”), e na últi­ma fase do pen­sa­men­to de Lacan – já afas­ta­do do sig­ni­fi­can­te e liga­do ao que ele cha­mou de “lalan­gue”. Penso tam­bém, por outro lado, na nos­sa estra­nha rela­ção com um voca­bu­lá­rio pre­de­ter­mi­na­do pelos dis­po­si­ti­vos ele­trô­ni­cos que “apren­dem” a nos­sa gra­má­ti­ca, como acon­te­ce, por exem­plo, na expe­ri­ên­cia de escri­ta de men­sa­gens de what­sapp.

Se era ver­da­de que a esco­lha de cada sig­ni­fi­can­te dizia algu­ma coi­sa a meu res­pei­to, hoje pra­ti­ca­men­te pos­so escre­ver men­sa­gens de tex­to intei­ras em que a esco­lha das pala­vras se dá pelos algo­rit­mos que ensi­na­ram o sis­te­ma a repe­tir o meu reper­tó­rio. Assim, bas­ta come­çar a digi­tar “co…” e o what­sapp já sabe­rá que a seguir virá o ver­bo “con­se­guir” em algu­ma for­ma de con­ju­ga­ção ver­bal (foi assim que des­co­bri ser esse o meu ver­bo mais recor­ren­te). Aos pou­cos, pas­sei a poder redi­gir men­sa­gens com o menor núme­ro de esco­lhas pos­sí­vel, acei­tan­do as suges­tões do sis­te­ma, recor­ren­do aos sig­ni­fi­can­tes arma­ze­na­dos na memó­ria do apa­re­lho, sem pre­ci­sar com isso me impli­car em novas deci­sões. O ato falho vai sen­do, assim, subs­ti­tuí­do pelo erro do “auto­com­ple­tar”. Se com Freud havía­mos apren­di­do a “repe­tir, ela­bo­rar, recor­dar”, um sécu­lo depois tal­vez a tría­de este­ja sen­do supe­ra­da por novas for­mas de sub­mis­são aos algo­rit­mos.

Em para­le­lo, outro per­cur­so da nos­sa rela­ção com a lin­gua­gem exa­cer­ba a mar­ca da ausên­cia de sen­ti­do das pala­vras para trans­for­má-las em obje­to, tra­ço, ras­tro, rabis­co, rasu­ra, letra, con­tor­no, ris­co. É, por exem­plo, a pro­po­si­ção laca­ni­a­na de “lalan­gue”, “lalín­gua” ou “a-lín­gua” (ain­da não há uma tra­du­ção esta­be­le­ci­da para o ter­mo), afas­ta­men­to do sig­ni­fi­can­te em dire­ção a uma gra­má­ti­ca sin­gu­lar de cada sujei­to e des­lo­ca­men­to do con­cei­to de lin­gua­gem como aqui­lo que com­par­ti­lha­mos para nos fazer enten­der. Uma lin­gua­gem que admi­te nela mes­ma a sua impos­si­bi­li­da­de de comu­ni­car, o seu indi­zí­vel.

Dito tudo isso, gos­ta­ria de jus­ti­fi­car meu títu­lo: quan­do as pala­vras mudam, se modi­fi­cam, se trans­for­mam, dizem elas, as pala­vras, mui­to de nós. E quan­do as pala­vras mudam, emu­de­cem, fazem silên­cio, se per­dem em ope­ra­ções tex­tu­ais auto­ma­ti­za­das, tam­bém dizem elas, as pala­vras, mui­to de nós. Dizem tal­vez da nos­sa impos­si­bi­li­da­de de per­ma­ne­cer dizen­do, enun­ci­an­do, ela­bo­ran­do.  Embora pos­sam pare­cer pro­ces­sos opos­tos – mudar e emu­de­cer –, vejo um pon­to de con­ta­to no qual o sig­ni­fi­ca­do desa­pa­re­ce para dar lugar a outras expe­ri­ên­ci­as de lín­gua, a da arte e a do dis­po­si­ti­vo, a da poe­sia e a do algo­rit­mo.  Mudar e emu­de­cer sem se per­der são dois dos mui­tos dos desa­fi­os do mun­do con­tem­po­râ­neo, inun­da­do de pala­vras e sub­mer­so na ausên­cia de sen­ti­do.

 

Este tex­to foi escri­to sob ins­pi­ra­ção da expo­si­ção Escritas insig­ni­fi­can­tes, reu­nião de tra­ba­lhos dos artis­tas Amanda Rocha, Ana Hupe, Karla Gravina, Khalil Andreozzi, Leila Danziger, Malu Pessoa Loeb, Nina Papaconstantinou, Rafa Eis, Rosana Ricalde e Vera Bernardes, sob cura­do­ria de Marcelo Reis de Mello, em car­taz no Centro de Artes da UFF até o pró­xi­mo domin­go, 14 de maio. 

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