Quando eu era vivo e o sono da razão

No cinema

31.01.14

Os fil­mes de gêne­ro não cos­tu­mam ser cul­ti­va­dos no Brasil pelo cha­ma­do “cine­ma de autor”, isto é, por aque­le cine­ma cujas pre­ten­sões vão além do entre­te­ni­men­to ime­di­a­to e impes­so­al. No caso do ter­ror, as exce­ções con­fir­mam a regra: os fil­mes do Zé do Caixão e o “ter­rir” paró­di­co de Ivan Cardoso são pra­ti­ca­men­te gêne­ros em si mes­mos, sem des­cen­den­tes.

É nes­ta sea­ra pou­co explo­ra­da que Marco Dutra pare­ce dis­pos­to a se embre­nhar. Se seu lon­ga de estreia, Trabalhar can­sa (codi­ri­gi­do por Juliana Rojas), tan­gen­ci­a­va o sus­pen­se e o hor­ror, como que tate­an­do o ter­re­no, em Quando eu era vivo ele mer­gu­lha fun­do no gêne­ro, mani­pu­lan­do de modo mui­to pes­so­al suas regras e con­ven­ções.

http://www.youtube.com/watch?v=Nrf6R1nwSxM

Uma sinop­se pos­sí­vel, sem pre­ju­di­car as sur­pre­sas e des­co­ber­tas do espec­ta­dor, seria a seguin­te: depois de se sepa­rar da mulher, Júnior (Marat Descartes, extra­or­di­ná­rio), um homem na fai­xa dos trin­ta, vol­ta à casa do pai viú­vo (Antônio Fagundes), o mes­mo apar­ta­men­to pau­lis­ta­no em que pas­sou a infân­cia. Só que ago­ra o quar­to em que ele e o irmão dor­mi­am está ocu­pa­do por uma hós­pe­de, a estu­dan­te de músi­ca Bruna (Sandy), que veio de Avaré. Júnior fica na sala.

Signos do pas­sa­do

Aos pou­cos, o per­so­na­gem vai explo­ran­do o apar­ta­men­to, reen­con­tran­do em seus recôn­di­tos as mar­cas de um pas­sa­do mui­to for­te e, ao que tudo indi­ca, sinis­tro. Com sua aju­da, é como se a pró­pria casa reto­mas­se seus direi­tos, ou antes sua vida ante­ri­or, sob a égi­de da figu­ra da mãe (Helena Albergaria). Esta é oni­pre­sen­te nas lem­bran­ças do filho — res­ga­ta­das em fitas VHS e em obje­tos escon­di­dos pelo apar­ta­men­to — e tam­bém em seus sonhos, aliás apre­sen­ta­dos com uma tex­tu­ra seme­lhan­te à dos velhos víde­os.

É com inte­li­gên­cia e suti­le­za que Dutra (ins­pi­ra­do no roman­ce A arte de pro­du­zir efei­to sem cau­sa, de Lourenço Mutarelli) tra­ça ao mes­mo tem­po a tra­je­tó­ria (para)psicológica de Júnior, recons­trói frag­men­ta­ri­a­men­te o pas­sa­do da famí­lia, rede­se­nha o espa­ço da casa e lan­ça os per­so­na­gens em novos impas­ses.

Uma refe­rên­cia evi­den­te (admi­ti­da como ins­pi­ra­ção pelo pró­prio Marat Descartes em entre­vis­ta na Mostra de Cinema de Tiradentes, onde o fil­me teve sua pri­mei­ra exi­bi­ção públi­ca) é a trans­for­ma­ção do per­so­na­gem de Jack Nicholson em O Iluminado, mas é líci­to pen­sar tam­bém em cer­tos fil­mes de Polanski, como Repulsa ao sexo, O bebê de Rosemary e sobre­tu­do O inqui­li­no, obras em que o ambi­en­te pare­ce tomar pos­se de seus ocu­pan­tes. O espa­ço físi­co como pro­je­ção dos per­so­na­gens e vice-ver­sa. Aqui, uma cena expres­si­va de O inqui­li­no, obra-pri­ma hoje meio esque­ci­da:

http://www.youtube.com/watch?v=Sb-OKQjCnDw

O fato é que, assim como em todos os exem­plos cita­dos, em Quando eu era vivo pare­ce­mos tri­lhar um ter­re­no no limi­ar entre o psi­co­ló­gi­co (ou psi­có­ti­co) e o sobre­na­tu­ral, entre o “aqui-ago­ra” e o além. O sono da razão pro­du­zin­do mons­tros, como na céle­bre fra­se de Goya. De cer­to modo é o pró­prio cine­ma que, por um par de horas, pode indu­zir esse sono da razão, pro­pi­ci­an­do a emer­gên­cia do sonho, ain­da que sob a for­ma de pesa­de­lo.

Do pro­sai­co ao sobre­na­tu­ral

Isso “no ata­ca­do”. No “vare­jo”, isto é, na cons­tru­ção da atmos­fe­ra de cada cena, de cada pla­no, o fil­me paga tri­bu­to a cer­tas con­ven­ções do gêne­ro, como a exten­são do lap­so de tem­po entre a aber­tu­ra de uma por­ta e a entra­da em qua­dro do per­so­na­gem que a abriu, ou os tra­vel­lings len­tos acom­pa­nha­dos de uma músi­ca de vibra­ção gra­ve quan­do algum ser ou obje­to está para ser reve­la­do, ou ain­da o uso exa­cer­ba­do e expres­si­o­nis­ta dos ruí­dos. Mas qua­se sem­pre o desen­la­ce não é exa­ta­men­te o que se espe­ra. Como reco­men­da­va Hitchcock, Dutra par­te do cli­chê para che­gar a algo ori­gi­nal — e não o con­trá­rio, que é o que faz a mai­o­ria dos dire­to­res.

Como nos fil­mes de David Lynch, pare­ce sem­pre haver algo pul­san­do fora do qua­dro ou nos seus can­tos obs­cu­ros. Com pou­cos recur­sos, suge­rem-se outras dimen­sões, ame­a­ças ocul­tas, men­sa­gens cifra­das.

Tomemos dois exem­plos sin­ge­los, as duas sequên­ci­as ini­ci­ais do fil­me. Na pri­mei­ra, Júnior ain­da meni­no, fil­ma­do em VHS pelo irmão, lê com uma lan­ter­na uma men­sa­gem escri­ta pela mãe, sob uma col­cha de tricô — uma daque­las caba­ni­nhas que as cri­an­ças fazem na cama. De repen­te, o pai apa­re­ce na por­ta, eles apa­gam a luz e vemos ape­nas o vul­to do pai pelas fres­tas da col­cha. Quanta coi­sa está con­ti­da nes­se bre­ve tre­cho: a cum­pli­ci­da­de entre os irmãos e a mãe, a figu­ra estra­nha e ame­a­ça­do­ra do pai, o segre­do, o mis­té­rio.

Na sequên­cia seguin­te, já no tem­po pre­sen­te, Júnior arras­ta sua mala de rodi­nhas pela cal­ça­da, à noi­te, e toca o inter­fo­ne do pré­dio do pai. Este des­ce para rece­bê-lo, ini­ci­an­do um diá­lo­go desa­jei­ta­do e lacu­nar. Quando eles vão entrar, ouvem-se os gri­tos ama­lu­ca­dos e pun­gen­tes de um sem-teto. “É o lou­co da rua”, expli­ca o pai, e pas­sa a falar sobre as mudan­ças recen­tes no pré­dio: luz que acen­de por meio de sen­sor de pre­sen­ça, ele­va­dor moder­no. Esse jogo entre o pro­sai­co e a lou­cu­ra à esprei­ta con­du­zi­rá todo o fil­me.

Música nar­ra­ti­va

O papel da músi­ca na cons­tru­ção de Quando eu era vivo mere­ce­ria um tex­to à par­te. A tri­lha sono­ra dos irmãos Guilherme e Gustavo Barbato, com a par­ti­ci­pa­ção do pró­prio Marco Dutra em diver­sas com­po­si­ções (e do cine­as­ta Caetano Gotardo em algu­mas letras), é essen­ci­al não ape­nas para cri­ar o cli­ma emo­ci­o­nal do fil­me, mas tam­bém para con­tar a pró­pria his­tó­ria e mul­ti­pli­car seus sen­ti­dos.

A pre­sen­ça de Sandy entre os pro­ta­go­nis­tas, que sur­pre­en­deu tan­ta gen­te, pode ser com­pre­en­di­da não ape­nas nes­se con­tex­to musi­cal, mas naque­le sen­ti­do mais amplo men­ci­o­na­do aci­ma, o de “par­tir do cli­chê para che­gar a algo ori­gi­nal”. Sandy entra em cena como a moci­nha doce e ange­li­cal que pare­ce saí­da de uma série ame­ri­ca­na das anti­gas e se trans­for­ma jun­to com o fil­me. Da interação/entrechoque des­ses três ato­res de gera­ções e estir­pes dife­ren­tes (Fagundes, Marat e Sandy) sur­ge algo novo, for­te, inde­fi­ní­vel e belo — como o fil­me de Marco Dutra.

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