Quarto de despejo: a peça

Por dentro do acervo

11.03.14

No dia 14 de mar­ço de 2014 o IMS-RJ come­mo­rou o cen­te­ná­rio de nas­ci­men­to da escri­to­ra Carolina de Jesus, Conhecida por Quarto de des­pe­jo (1960), com o even­to Carolina é 100. Além da exi­bi­ção do docu­men­tá­rio iné­di­to Favela: a vida na pobre­za, que abor­da a vida de Carolina de Jesus na fave­la do Canindé (SP), acon­te­ceu um deba­te com Audálio Dantas, des­co­bri­dor da auto­ra, e da pro­fes­so­ra e crí­ti­ca lite­rá­ria Marisa Lajolo.

No ano seguin­te ao lan­ça­men­to de Quarto de des­pe­jo: diá­rio de uma fave­la­da, de Carolina Maria de Jesus, o crí­ti­co de tea­tro Decio de Almeida Prado deu notí­cia da adap­ta­ção da obra para tea­tro fei­ta pela escri­to­ra gaú­cha Edy Lima. Com Ruth de Souza no papel de Carolina, a peça teve dire­ção de Amir Haddad e cená­rio de Cyro Del Nero.

Ruth de Souza e Carolina Maria de Jesus na Favela do Canindé. São Paulo, 1961. Fotógrafo não identificado. Coleção Ruth de Souza

Para com­por a per­so­na­gem, Ruth de Souza visi­tou a Favela do Canindé, local onde resi­diu Carolina, em com­pa­nhia da auto­ra e de Audálio Dantas — o jor­na­lis­ta de Folha da Noite que a des­co­bri­ra. Em seu segun­do livro, Casa de alve­na­ria, Carolina rela­ta essa visi­ta: “Fui à cida­de. Vou sair com o repór­ter e a Ruth de Souza. Vamos na fave­la. A Ruth quer iden­ti­fi­car os tipos para repre­sen­tar no pal­co”.

Da esquerda para a direita: Carolina Maria de Jesus, Audálio Dantas e Ruth de Souza na Favela do Canindé. São Paulo, 1961. Fotógrafo não identificado. Coleção Ruth de Souza

É do arqui­vo pes­so­al da atriz o con­jun­to de fotos, de auto­ria não iden­ti­fi­ca­da, que se exi­be aqui por oca­sião do cen­te­ná­rio de nas­ci­men­to de Carolina de Jesus.

Ruth de Souza na Favela do Canindé. São Paulo, 1961. Fotógrafo não identificado. Coleção Ruth de Souza

Apresentada no Teatro Bela Vista, em São Paulo, a mon­ta­gem não agra­dou tan­to ao crí­ti­co pau­lis­ta, que na sua colu­na de O Estado de S. Paulo de 4 de maio de 1961 sen­tiu fal­ta “de um tra­ta­men­to mais demo­ra­do e mais apro­fun­da­do da maté­ria”.

Achou ele que o espe­tá­cu­lo incli­nou-se mais para a comé­dia que para o dra­ma, res­sal­tan­do as bri­gas e bate-bocas da fave­la. Faltou — acha ain­da Decio — trans­for­mar de fato o docu­men­to que é Quarto de des­pe­jo em arte tea­tral. De qual­quer manei­ra, Ruth de Souza, “a atriz sen­sí­vel de sem­pre”, trou­xe for­ça ao dra­ma.

Em Casa de alve­na­ria, Carolina des­cre­ve a noi­te de 27 de abril, noi­te da estreia da peça:

… O Teatro Bela Vista esta­va super­lo­ta­do. Pessoas de des­ta­que, por­que o espe­tá­cu­lo é bene­fi­cen­te. Os pau­lis­ta­nos bem ves­ti­dos cir­cu­la­vam pelo tea­tro. (…) Quando ini­ci­ou o espe­tá­cu­lo eu subi no pal­co para sor­te­ar uns prê­mi­os. Fui aplau­di­da. O espe­tá­cu­lo agra­dou. A cena mais como­ven­te foi a bri­ga com o ciga­no e o por­co que saiu do chi­quei­ro e ficou cir­cu­lan­do pelo pal­co. Ouvi uma voz humo­rís­ti­ca:

— Este por­co é ator.

Findo o espe­tá­cu­lo fui agra­de­cer os artis­tas. Para mim o espe­tá­cu­lo esta­va tris­te com a ausên­cia do repór­ter.

 

Capa do programa da peça Quarto de despejo, adaptação da obra de Carolina de Jesus por Edy Lima
Capa do programa da peça Quarto de despejo, adaptação da obra de Carolina de Jesus por Edy Lima

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