Atenção aos detalhes divinos — quatro perguntas a Jorio Dauster

Quatro perguntas

26.11.15

Antes de lan­çar Lolita, em 1955, Vladimir Nabokov deu aula de lite­ra­tu­ra no Wellesley College e na Universidade Cornell, nos Estados Unidos. Quarenta anos depois, os cur­sos foram orga­ni­za­dos e reu­ni­dos em dois volu­mes. O pri­mei­ro, Lições de lite­ra­tu­ra rus­sa, foi lan­ça­do no Brasil no ano pas­sa­do. O segun­do, Lições de lite­ra­tu­ra, aca­ba de sair, tam­bém pela edi­to­ra Três estre­las. Neste últi­mo, sete clás­si­cos dos sécu­los XIX e XX são ana­li­sa­dos: Mansfield Park, de Jane Austen; A casa sotur­na, de Charles Dickens; Madame Bovary, de Gustave Flaubert; O médi­co e o mons­tro, de Robert Louis Stevenson; No cami­nho de Swann, de Marcel Proust; A meta­mor­fo­se, de Franz Kafka; e Ulysses, de James Joyce. 

Abaixo, o IMS faz qua­tro per­gun­tas a Jorio Dauster, tra­du­tor con­sa­gra­do que ver­teu para o por­tu­guês oito obras de fic­ção de Nabokov. Dauster comen­ta os gos­tos e des­gos­tos de Nabokov, que acre­di­ta­va que “nin­guém podia ser ensi­na­do a escre­ver fic­ção, a menos que já pos­sua talen­to lite­rá­rio”, e defi­nia a obra de arte como “a cri­a­ção de um novo mun­do”: “a pri­mei­ra coi­sa a fazer é estu­dar esse novo mun­do tão de per­to quan­to pos­sí­vel”.

As minu­ci­o­sas des­cri­ções do espa­ço onde as cenas dos livros se desen­ro­lam têm enor­me impor­tân­cia nas aulas. Exemplo dis­so é, em Médico e o mons­tro, a pre­o­cu­pa­ção em esmiu­çar deta­lhes da facha­da, do hall de entra­da e dos cor­re­do­res, a pon­to de ane­xar uma plan­ta bai­xa da casa de dr. Jekyll, dese­nha­da por um alu­no. Por que será que a per­cep­ção visu­al rece­be tan­ta aten­ção no cur­so de Nabokov?

Nabokov não gos­ta­va de músi­ca, embo­ra seu filho vies­se a ser um can­tor de ópe­ra. No entan­to, o que lhe fal­ta­va em maté­ria de ouvi­do era mais que com­pen­sa­do pela extra­or­di­ná­ria per­cep­ção visu­al que lhe per­mi­tia des­cre­ver a cor da som­bra de uma fru­ta. Tendo estu­da­do dese­nho como cri­an­ça, pen­sou em ser pin­tor de pai­sa­gens, o que lhe ser­viu para retra­tar as bor­bo­le­tas que estu­da­va no Museu de Zoologia Comparada de Harvard, além das inven­ta­das com que enfei­ta­va car­tas para sua mulher, Véra. Assim, a pre­o­cu­pa­ção em regis­trar os cená­ri­os onde se desen­ro­lam as ações dos livros deri­va em lar­ga medi­da de seu inte­res­se em visu­a­li­zar per­fei­ta­men­te o que foi des­cri­to pelo autor. Mas há outras duas razões impor­tan­tes. De um lado, como no caso da des­cri­ção minu­ci­o­sa da casa do dr. Jekyll, as duas entra­das – uma rica e bem cui­da­da, a outra decré­pi­ta e qua­se assus­ta­do­ra – refle­tem a dupla per­so­na­li­da­de do pro­pri­e­tá­rio, que assim ganha tam­bém uma sig­ni­fi­ca­ti­va repre­sen­ta­ção grá­fi­ca. Algo seme­lhan­te ocor­re na aula sobre Kafka, em que a dis­po­si­ção dos apo­sen­tos em tor­no do quar­to de Samsa é impor­tan­te no desen­ro­lar do pesa­de­lo que afe­ta os demais mem­bros da famí­lia em A meta­mor­fo­se. Por outro lado, a aten­ção aos “deta­lhes divi­nos” que Nabokov reco­men­da­va a seus alu­nos ser­ve para refor­çar sua repug­nân­cia pelos roman­ces que con­têm men­sa­gens ou expõem teses soci­ais. Aliás, nes­sa aten­ção aos por­me­no­res, Nabokov se apro­xi­ma do Joyce de Ulisses, que leva o lei­tor a pas­se­ar pelas ruas de Dublin como se fos­se um mora­dor de lon­ga data.

Em rela­ção às esco­lhas: sen­do o pai de Nabokov um gran­de conhe­ce­dor de Charles Dickens, por que ele sele­ci­o­nou um livro “menor” do autor, A casa sotur­na? E, em sua opi­nião, por que os escri­to­res pre­fe­ri­dos de Nabokov – Herman Melville e Nathaniel Hawthorne – não vira­ram temas de suas aulas?

O pai de Nabokov era um rico aris­to­cra­ta libe­ral, advo­ga­do e jor­na­lis­ta, que bus­ca­va nas obras de Dickens sobre­tu­do mate­ri­al a ser usa­do em sua cam­pa­nha con­tra a pena de mor­te na Rússia cza­ris­ta. Nas féri­as de verão que a famí­lia pas­sa­va no cam­po, ele lia para os filhos, nas tar­des de chu­va, o livro Grandes espe­ran­ças em inglês – o que, como Nabokov con­fes­sou déca­das depois, tal­vez o tives­se impe­di­do de vol­tar a ler Dickens como adul­to. Para as Lições de lite­ra­tu­ra, a esco­lha de A casa sotur­na e Mansfield Park cor­res­pon­deu a reco­men­da­ções de Edmund Wilson, que Nabokov sem dúvi­da aca­tou para lison­je­ar quem tan­to lhe aju­da­va a se fazer conhe­ci­do nos mais refi­na­dos cír­cu­los lite­rá­ri­os nor­te-ame­ri­ca­nos. (Depois bri­ga­ram, como sói acon­te­cer com dois egó­la­tras, por­que Wilson teve a ousa­dia de cri­ti­car publi­ca­men­te a tra­du­ção para o inglês que Nabokov fez de Eugene Onegin, de Pushkin.) O cur­so na uni­ver­si­da­de de Cornell que deu ori­gem às atu­ais Lições de lite­ra­tu­ra era inti­tu­la­do “Ficção euro­peia”, não caben­do assim os nor­te-ame­ri­ca­nos Melville e Hawthorne.

Ao comen­tar o esti­lo de Proust, ele diz que, “em ter­mos de gene­ro­si­da­de ver­bal, ele é um ver­da­dei­ro Papai Noel”. Além do sar­cas­mo, quais outros ele­men­tos você diria que estão pre­sen­tes tan­to nas aulas quan­to nos livros de Nabokov?

Nesse livro, a mai­or demons­tra­ção do sar­cas­mo de Nabokov pode ser encon­tra­da nas obser­va­ções que faz a res­pei­to de Jane Austen no iní­cio das aulas sobre Dickens. Não sen­ti que o humor mui­tas vezes cor­tan­te de Nabokov tenha sido usa­do con­tra Proust, que, jun­ta­men­te com Flaubert e Joyce, foram seus auto­res pre­di­le­tos fora da Rússia. Mas ele era impla­cá­vel com escri­to­res que con­si­de­ra­va meno­res e cujo êxi­to, com cer­to grau de inve­ja, con­si­de­ra­va ime­re­ci­do, como foi o caso de Boris Pasternak com seu Doutor Jivago.

Em car­ta a Edmund Wilson, Nabokov diz que não gos­ta de Jane Austen e que tem “par­ti pris com rela­ção a todas as escri­to­ras”, pois elas per­ten­ce­ri­am a “outra clas­se”. Esse tom ran­zin­za fica cla­ro na aná­li­se de Mansfield Park, quan­do o escri­tor con­si­de­ra as ima­gens do livro “pou­co vívi­das”, “bas­tan­te limi­ta­das”. Por que você acha que ele deci­diu falar sobre Austen mes­mo assim? E o que, na sua opi­nião, jus­ti­fi­ca­ria esse “par­ti pris” com as escri­to­ras?

Alguns dizem que essa dis­cri­mi­na­ção con­tra as escri­to­ras é uma carac­te­rís­ti­ca que ele her­dou da cul­tu­ra lite­rá­ria rus­sa, mas pes­so­al­men­te des­con­fio que Nabokov era mes­mo um bom machis­ta, o que trans­pa­re­ce inclu­si­ve no tra­ta­men­to cru­el que dá a mui­tas per­so­na­gens femi­ni­nas de seus roman­ces. No entan­to, isso sig­ni­fi­ca­ria levá-lo pos­tu­ma­men­te ao divã e, como Nabokov tinha hor­ror de Freud (em suas pala­vras, o “char­la­tão de Viena”), acho melhor ir fican­do por aqui.

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