O contágio literário — quatro perguntas a Lina Meruane

Quatro perguntas

06.03.15

Sangue no olho é a pri­mei­ra obra da escri­to­ra chi­le­na radi­ca­da nos Estados Unidos Lina Meruane a ser publi­ca­da no país. O roman­ce lan­ça­do pela Cosac Naify nar­ra a angus­ti­an­te his­tó­ria de uma mulher que des­co­bre pos­suir uma doen­ça que pode levá-la à ceguei­ra com­ple­ta. A per­so­na­gem prin­ci­pal tem o mes­mo nome e com­par­ti­lha mui­tas mar­cas bio­grá­fi­cas da auto­ra, num arti­fí­cio comu­men­te cha­ma­do de “auto­fic­ção”, e nos con­duz por um pesa­de­lo labi­rín­ti­co de con­sul­tó­ri­os médi­cos e rela­ções fami­li­a­res ten­sas. Lina Meruane, que pes­qui­sa na uni­ver­si­da­de os pon­tos de con­ta­to entre lite­ra­tu­ra e doen­ça, con­ver­sou com o Blog do IMS sobre a sua obra.

A autora Lina Meruane (foto de Guillermo Barquero) 

1) Por que você optou por usar a si mes­ma como per­so­na­gem prin­ci­pal do roman­ce, con­si­de­ran­do que os even­tos des­cri­tos — a per­da da visão — não che­ga­ram a ocor­rer em sua vida?

Durante o lon­go perío­do de escri­ta do roman­ce, fiquei refle­tin­do sobre a pos­si­bi­li­da­de de incluir o meu nome pró­prio, que nes­te roman­ce é o “nome lite­rá­rio” da pro­ta­go­nis­ta, Lucina. E fiz isso por­que tinha pen­sa­do, de iní­cio, em escre­ver uma memó­ria de um acon­te­ci­men­to recen­te: a per­da de visão que, por sor­te, foi tran­si­tó­ria. O fato é que me empe­nhei em escre­ver uma memó­ria, mas o tex­to ia para outro lugar, des­lo­ca­va-se rumo à fic­ção, e logo com­pre­en­di que esta­va, mais uma vez, escre­ven­do um roman­ce. Mas um roman­ce no qual esta­va urdi­do um peda­ci­nho de expe­ri­ên­cia pró­pria. Pensei que Lina Meruane pre­ci­sa­va apa­re­cer, mes­mo se fos­se numa espé­cie de cameo, para indi­car que, por um lado, havia algo de ver­da­dei­ro, mas, por outro, que o acon­te­ci­men­to está fic­ci­o­na­li­za­do: por isso o nome Lina Meruane é o “outro nome” de Lucina, para sina­li­zar essa dupli­ci­da­de na ori­gem do livro.

2) Você pes­qui­sa acer­ca das rela­ções entre lite­ra­tu­ra e doen­ça. O quan­to a sua pes­qui­sa aca­dê­mi­ca influ­en­ci­ou a sua escri­ta fic­ci­o­nal?

Sempre dei aten­ção ao cor­po, seus gozos e suas dores, seus exces­sos e suas fal­tas. Quando resol­vi come­çar a estu­dar lite­ra­tu­ra, o tema que sur­giu no mes­mo ins­tan­te foi o da repre­sen­ta­ção da doen­ça – a aids, a gran­de epi­de­mia dos anos 1980 que levou tan­tos auto­res mar­gi­nais de nos­so câno­ne lati­no-ame­ri­ca­no. As lei­tu­ras que fui empre­en­den­do me per­mi­ti­ram ver de que for­ma a doen­ça era pen­sa­da e escri­ta, e me per­mi­ti­ram unir os meus inte­res­ses, assim como bus­car manei­ras alter­na­ti­vas de repre­sen­ta­ção. Então não é uma influên­cia teó­ri­ca, e sim um con­tá­gio lite­rá­rio: o melhor dos con­tá­gi­os. 

3) Sangue no olho é sua pri­mei­ra obra publi­ca­da no Brasil. Como ela se rela­ci­o­na com o res­tan­te de sua obra ain­da iné­di­ta em por­tu­guês?

Todos os meus livros, pen­so, são dife­ren­tes; cada um foi res­pon­den­do, ou ten­tan­do res­pon­der, a uma per­gun­ta que, no momen­to, era urgen­te. Comecei tra­ba­lhan­do no ter­ri­tó­rio da infân­cia femi­ni­na, exa­mi­nan­do as manei­ras como as meni­nas são edu­ca­das para serem mulhe­res, o dis­ci­pli­na­men­to feroz pelo qual pas­sa­mos: eu esta­va inte­res­sa­da em mos­trar essa zona obs­cu­ra e indis­ci­pli­na­da da infân­cia. Nisto se encai­xam os meus três pri­mei­ros livros escri­tos no Chile, e tal­vez não seja tão estra­nho o fato de que eu os escre­vi nes­te país, pois a dis­ci­pli­na tam­bém faz par­te da dita­du­ra na qual cres­ci. A saí­da do Chile há quin­ze anos intro­du­ziu novos cená­ri­os (Chile e Estados Unidos como pai­sa­gens dis­tin­tas, mas tam­bém como vasos comu­ni­can­tes. Bem ou mal, o meu país foi um labo­ra­tó­rio de expe­ri­men­tos neo­li­be­rais dos anos oiten­ta) e novos temas, o que você men­ci­o­nou antes, o da doen­ça. Talvez o que todos os meus livros tenham em comum é que no cen­tro há o cor­po de uma mulher que resis­te a cer­tas nor­mas, que leva as lógi­cas impe­ran­tes a extre­mos que podem ser pra­ze­ro­sos e reden­to­res, mas tam­bém sinis­tros.

4) Você mora nos EUA há anos. Você se enxer­ga mais pró­xi­ma da lite­ra­tu­ra lati­no-ame­ri­ca­na ou da tra­di­ção nor­te-ame­ri­ca­na?

Sempre pres­tei mui­ta aten­ção à pro­du­ção lite­rá­ria da América Latina, e me mudei para Nova York para fazer um dou­to­ra­do em lite­ra­tu­ra lati­no-ame­ri­ca­na. Essa é, por­tan­to, a tra­di­ção que conhe­ço melhor, e com a qual con­ti­nuo dia­lo­gan­do. Leio cer­tos auto­res nor­te-ame­ri­ca­nos (e vejo suas peças e seus fil­mes), mas não mais do que os euro­peus de modo geral, e com cer­te­za leio menos nor­te-ame­ri­ca­nos do que fran­ce­ses. Mas não impor­ta tan­to o lugar de onde se escre­ve: o que me inte­res­sa em um autor não é seu local de ori­gem e sim a sua manei­ra de enten­der o lite­rá­rio, o modo de escre­ver, sua rela­ção com cer­tas tra­di­ções. Para mim, Faulkner é tão gran­de quan­to Beckett, Woolf como Gertrude Stein, Mishima como Celine etc. No con­tem­po­râ­neo os temas e os ecos da lite­ra­tu­ra de nos­so con­ti­nen­te res­so­am mais em mim, e minha escri­ta se arti­cu­la com e cer­ta­men­te con­tra essa tra­di­ção.

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