Imaginação visual — quatro perguntas a Miguel Del Castillo

Quatro perguntas

21.01.15

Miguel Del Castillo publi­ca até o fim de janei­ro, pela Companhia das Letras, sua obra de estreia, Restinga, com­pos­ta de dez con­tos e uma nove­la inti­tu­la­da “Laguna”. Ex-mora­dor do Rio de Janeiro, Miguel faz da praia e do mar cená­ri­os de con­tos bre­ves, sutis e reple­tos de silên­cio. Eleito pela revis­ta Granta um dos vin­te melho­res jovens escri­to­res bra­si­lei­ros, o autor con­ver­sa com o Blog do IMS sobre o seu pri­mei­ro livro.

Foto: Carolina Ribeiro (Divulgação)

1) Uma das prin­ci­pais mar­cas esti­lís­ti­cas de Restinga é a des­cri­ção de cená­ri­os — não que seja um livro reple­to de des­cri­ções à moda anti­ga, mas diga­mos que há uma aten­ção espe­ci­al a isso. Você é for­ma­do em arqui­te­tu­ra e edi­ta livros de foto­gra­fia na Cosac Naify. Como você acha que essas duas áre­as — a arqui­te­tu­ra e a foto­gra­fia — aju­da­ram a mol­dar o seu esti­lo?

Acho que minha ima­gi­na­ção é mui­to visu­al, sim, e a for­ma­ção que esco­lhi e meu tra­ba­lho atu­al só refor­çam isso, o que aca­ba se refle­tin­do na manei­ra como pen­so e, por con­se­guin­te, escre­vo. Na facul­da­de, sem­pre achei curi­o­sa a escri­ta dos cha­ma­dos “memo­ri­ais” dos pro­je­tos: o que era para ser um tex­to bre­ve e sin­té­ti­co aca­ba­va se tor­nan­do geral­men­te algo buro­crá­ti­co, com pala­vras repe­ti­das por todos (“espa­ços amplos”, por exem­plo); a pró­pria crí­ti­ca de arqui­te­tu­ra é conhe­ci­da por ter pou­cos auto­res que de fato escre­vem bem. Meu tra­ba­lho de con­clu­são de cur­so foi teó­ri­co, uma ten­ta­ti­va ama­do­ra de apro­xi­mar lite­ra­tu­ra e arqui­te­tu­ra de modo a influ­en­ci­ar a escri­ta arqui­tetô­ni­ca, tex­tu­al­men­te, e bus­car uma nar­ra­ti­va dife­ren­te sobre os pro­je­tos. A rela­ção com a foto­gra­fia veio mais recen­te­men­te, por con­ta de um espa­ço que sur­giu na edi­to­ra, embo­ra sem­pre tives­se sido algo que me cha­ma­va aten­ção. Então acho que esse viés visu­al vai sem­pre estar pre­sen­te naqui­lo que eu vier a escre­ver, por­que é assim que a minha cabe­ça fun­ci­o­na.

Com rela­ção ao Restinga, mais que os cená­ri­os em si, minha von­ta­de era que de cada con­to emer­gis­se uma ima­gem. Essa ima­gem às vezes é uma pai­sa­gem natu­ral e pode ter impli­ca­ções mais, diga­mos, sim­bó­li­cas, como a pró­pria res­tin­ga do títu­lo – um dis­cre­to bra­ço de ter­ra que avan­ça no mar, algo que pare­ce frá­gil, mas ao mes­mo tem­po é for­te –, ou como a lagu­na da nove­la no fim, que osci­la, enchen­do e esva­zi­an­do. Mas pode ser ape­nas uma ima­gem, como as idei­as de colô­nia (agru­pa­men­to) e arrai­al (ocu­pa­ção tem­po­rá­ria), que são títu­los de outros con­tos, ou mes­mo um lugar em vol­ta do qual os even­tos acon­te­cem, como o lago Paranoá de outro tex­to.

O geó­gra­fo fran­cês Jean-Marc Besse diz que a pai­sa­gem “é da ordem da ima­gem, seja esta ima­gem men­tal, ver­bal, ins­cri­ta sobre uma tela ou rea­li­za­da sobre o ter­ri­tó­rio”. Concordo com ele, e acho inte­res­san­te isso de você olhar para uma pai­sa­gem des­sas e ela te reme­ter a coi­sas que não estão ali, que tal­vez este­jam ape­nas na memó­ria.

2) A praia e o mar são ambi­en­tes recor­ren­tes nos con­tos, a tal pon­to que se pode dizer que é o ele­men­to uni­fi­ca­dor. Qual a sua rela­ção com esses locais?

Desde que vim morar em São Paulo, todo mun­do sem­pre me per­gun­ta, para puxar assun­to, se sin­to fal­ta da praia. Digo que sim, mas se meus ami­gos do Rio me ouvis­sem falan­do isso tal­vez des­sem risa­da – sem­pre fui o mais bran­que­lo dos cari­o­cas. Ocorre que não sin­to sau­da­de de ir à praia. O que me faz fal­ta é ter o mar ali por per­to, ao alcan­ce, à dis­po­si­ção; de vê-lo como fim de linha, mar­can­do onde a cida­de ter­mi­na. 

Morei até os oito anos num con­do­mí­nio hori­zon­tal de apar­ta­men­tos gemi­na­dos que se debru­ça sobre a praia da Joatinga, no Rio. A gen­te dor­mia com o baru­lho do mar. Depois minha mãe se mudou para a Barra da Tijuca, bair­ro tam­bém na cos­ta. No Rio, se você vive ou tra­ba­lha em algum lugar mais ou menos per­to do mar, aca­ba pla­ne­jan­do sua vida em fun­ção dele: des­de pen­sar que vai pre­ci­sar tro­car os ele­tro­do­més­ti­cos com mais frequên­cia até tomar deci­sões de loco­mo­ção – esco­lher ir pela ave­ni­da Niemeyer ven­do o mar (um cami­nho mais lon­go) ou pelo túnel Dois Irmãos, por exem­plo, ou se vai sair mais cedo de casa pois seu com­pro­mis­so é bem no horá­rio de saí­da de praia (quan­do o trân­si­to pio­ra).

No livro, acon­te­ce algo pare­ci­do: é como se os con­tos se orga­ni­zas­sem em tor­no da água do mar. A praia está lá, às vezes só no biquí­ni de uma ex-namo­ra­da de um per­so­na­gem, mas sem­pre apa­re­ce de algum jei­to. Quando escre­vi os pri­mei­ros con­tos, foi um pou­co sem que­rer dei­xar o mar sem­pre pre­sen­te, mas depois aca­bou se tor­nan­do uma opção, che­gan­do a ser, como você dis­se, um fio con­du­tor for­te entre os con­tos. Não à toa aca­bei esco­lhen­do como uma das epí­gra­fes um tre­cho de A vida des­cal­ço, do Alan Pauls, que é o ensaio mais geni­al sobre estar na praia que eu já li. Ele diz que todos que vamos à praia pro­cu­ra­mos nela uma espé­cie de tabu­la rasa, como cená­rio tan­to do que “o mun­do era antes que a mão do homem deci­dis­se rees­cre­vê-lo” quan­to do que ele pode­ria ser após um apo­ca­lip­se. Talvez por isso a praia se pres­te tan­to à fic­ção, e seja tão foto­gra­fa­da.

3) Em Restinga, pre­do­mi­na o con­to bre­ve. Há vári­os tex­tos com menos de 10 pági­nas. Por que a esco­lha pela con­ci­são?

Não sei se foi uma esco­lha mui­to cons­ci­en­te. Com a mai­o­ria des­ses con­tos, acon­te­ceu de eu achar que já esta­va bom, que mais per­so­na­gens ou mais acon­te­ci­men­tos atra­pa­lha­ri­am algo impor­tan­te que esta­va sur­gin­do ali, daque­le jei­to. Reescrevi mui­to, mudei fra­ses e even­tos de lugar, mas foram pou­cas as vezes que aumen­tei subs­tan­ci­al­men­te algum con­to depois de escri­to. Já me per­gun­ta­ram tam­bém se eu pre­ten­do seguir sen­do con­tis­ta. Não sei res­pon­der, real­men­te, tenho uma ideia para um pró­xi­mo livro que acho que fica­ria bem como roman­ce, mas tam­bém gos­to mui­to do gêne­ro do con­to. Diria que, nes­sa pri­mei­ra incur­são, o con­to foi tam­bém uma manei­ra de poder expe­ri­men­tar dife­ren­tes tipos de nar­ra­ti­va, e essa pos­si­bi­li­da­de foi mui­to impor­tan­te. 

4) Dos vin­te auto­res sele­ci­o­na­dos pela revis­ta Granta, você era um dos pou­cos que nun­ca havia publi­ca­do um livro. A sua estreia já che­ga, por­tan­to, com um cer­to grau ele­va­do de expec­ta­ti­va. Você está rece­o­so de que a crí­ti­ca leva­rá mui­to em con­ta a sua inclu­são na lis­ta?

Imagino que todo escri­tor que publi­ca um livro fica ansi­o­so com a crí­ti­ca, e eu estou, é cla­ro. Mas não diria que estou rece­o­so espe­ci­fi­ca­men­te por ter fei­to par­te da sele­ção da Granta. Todo mun­do que tem algu­ma cla­re­za sabe da gran­de impor­tân­cia da revis­ta, mas tam­bém enten­de que aque­la é uma sele­ção entre outras, um recor­te fei­to por algu­mas (mui­to qua­li­fi­ca­das) pes­so­as. A Granta pos­si­bi­li­tou diver­sas coi­sas para mim, sem dúvi­da; a prin­ci­pal, além da visi­bi­li­da­de, foi come­çar a de fato levar a sério a ideia de escre­ver um livro. Foi depois da publi­ca­ção da Granta em inglês que come­cei a escre­ver os outros con­tos, pro­cu­ran­do fios con­du­to­res nos seguin­tes, pen­san­do a sequên­cia, a mon­ta­gem.

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