Que época pra se viver, diz aí

Correspondência

15.04.11

Velhinho,

Você falou, e eu fiquei lem­bran­do de como foi mas­sa todo o pro­ces­so de edi­ção da Cachalote. E sei que a gen­te se conhe­cia antes e tudo, mas não é coin­ci­dên­cia que tenha­mos fica­do real­men­te ami­gos duran­te o livro. Grande par­te dis­so foi por con­ta do Rafa, cla­ro. Você sabe tan­to quan­to eu que a per­so­na­li­da­de do Rafa é que ditou a manei­ra como tra­ba­lha­mos no rotei­ro e nas ilus­tra­ções. Digo isso no melhor dos sen­ti­dos. Algo da pre­sen­ça dele se embre­nhou na edi­ção, deter­mi­nou nos­sos méto­dos e nos apro­xi­mou. Acho, mas pode ser uma impres­são minha, que par­te des­sa dimen­são afe­ti­va está no livro, e con­si­go enxer­gar ali tuas via­gens a Garopaba com o Rafa, um tra­go fatal com ele no Aníbal, o dia em que pas­sa­mos o pri­mei­ro bone­co qua­dro a qua­dro. Nesse sen­ti­do, há algo de pes­so­al pra mim na Cachalote, que só foi ficar cla­ro quan­do já está­va­mos no lan­ça­men­to, naque­la via­gem a Ribeirão, enquan­to eu arras­ta­va uma mala de livros com o Mojo pela pra­ci­nha. Bicho, o Rafa dese­nhou qua­se tre­zen­tas pági­nas. Da pri­mei­ra reu­nião ? vin­te pági­nas de lápis, ele aba­nan­do os bra­ços e expli­can­do as tra­mas? a cen­te­nas de cópi­as de um tro­ço que eu vi ser fei­to em todas as eta­pas. Como eu dis­se, foi mas­sa.

Mas eu nun­ca tinha pen­sa­do em ser edi­tor, pare­cia tão dis­tan­te quan­to, sei lá, dar aula de capo­ei­ra. Eu esta­va me empur­ran­do para o jor­na­lis­mo, mas que­ria mes­mo era ser escri­tor. Nos pri­mei­ros tem­pos de edi­to­ra, isso esta­va cla­ro, só nos últi­mos anos que fui desis­tin­do da idéia. Mas quer saber? Há um tan­to de pre­gui­ça, inér­cia e mole­za do ser vital aí. De modo que nes­ses dias escre­vi mais uns pará­gra­fos da Múmia e estou ofi­ci­al­men­te ani­ma­do. E foi diver­ti­do pas­sar as ano­ta­ções. A pri­mei­ra, um rabis­co que deci­frei como “Eleanor Roosevelt Has a Penis Foundation”, ain­da resol­veu um pepi­no gran­de bem onde eu esta­va empa­ca­do. Quando che­gar num tama­nho acei­tá­vel, te man­do uma cópia. Será nos­sa opor­tu­ni­da­de de revi­ver a série “Mas nin­guém fala assim”, segui­da, even­tu­al­men­te, de “Foda-se, é meu livro e as pes­so­as falam como eu qui­ser”.

Tenho uma memó­ria vaga do que te falei da Múmia, mas lem­bro bem da oca­sião em que tive­mos a con­ver­sa, pos­to que foi duran­te um acon­te­ci­men­to gran­di­o­so, o matrimô­nio de nos­sos ami­gos João Carlos e Isabel. Nos últi­mos dois anos, fui ten­tan­do recom­por as peças daque­le fim de sema­na, e ano­tei de cabe­ça algu­mas coi­sas que eu sei que acon­te­ce­ram: conhe­ci o Scott, tive uma lon­ga con­ver­sa com ele, fica­mos ami­gos ime­di­a­ta­men­te e, mais tar­de, tive­mos a mes­ma con­ver­sa, nos apre­sen­ta­mos de novo, fica­mos ami­gos, lem­bra­mos que já nos conhe­cía­mos; dan­cei com Joana, Renata, Ivana, Bebel (ela riu de meu sam­ba rock), Juliana e Francisco; eu e você bebe­mos um bal­de de uís­que; vol­ta­mos numa van, umas quin­ze pes­so­as em silên­cio, ouvin­do o funk “Vou cair na sacanagem/ nas casas de mas­sa­gem”; apren­di e domi­nei os movi­men­tos do for­ró; desis­ti de ir embo­ra na penúl­ti­ma van e ganhei uma dan­ça com a noi­va; fui pelo menos cinqüen­ta vezes ao banhei­ro; me per­di pelo menos três vezes, uma com ris­co sério de que­da no lago; bateu a níti­da sen­sa­ção de que tinha vali­do a pena via­jar até Fortaleza, não sucum­bir ao medo de avião, agüen­tar o calor pas­to­so da cida­de, ven­cer a rela­ti­va fal­ta de inti­mi­da­de com qua­se todos os con­vi­da­dos e me meter nas con­ver­sas e nas rodas de for­ró; guar­dei no pale­tó um bei­ji­nho de moran­go, três bem-casa­dos, duas colhe­res, aque­la segun­da entra­da que ser­vi­ram, tipo um pas­tel­zi­nho, mais um canu­do e um gelo; fui con­ven­ci­do, por um ven­de­dor na praia, a adqui­rir um des­ses san­tos de madei­ra que, quan­do têm a cabe­ça pres­si­o­na­da, exi­bem uma vigo­ro­sa ere­ção; me arre­pen­di de ter adqui­ri­do o san­to, ten­do em vis­ta que eu só que­ria um pro­te­tor solar fator 50; fumei dois maços, e ain­da cer­rei uns cigar­ros do Ronaldo; fiquei esti­ra­do naque­la mure­ta ao lado da pis­ta de dan­ça, um retra­to com­ple­to da ruí­na, todo sua­do, os cabe­los de qual­quer jei­to, a cami­sa bran­ca infec­ta gru­dan­do, um mias­ma de nico­ti­na e drinks refres­can­tes, e tive­mos uma cri­se de riso simul­tâ­nea, está­va­mos ali com os pou­cos ami­gos que tinham sobra­do, todo mun­do arrui­na­do e esti­can­do o momen­to e acho que a gen­te ain­da con­ti­nu­ou rin­do um tem­pão dis­so, e deu um abra­ço podre, e eu tinha aca­ba­do de deci­dir o títu­lo do livro, te con­tei, a gen­te foi beber pra cele­brar; eu tomei cui­da­do e bebi bas­tan­te água duran­te a noi­te, o que não adi­an­tou nada mas no míni­mo me deu um sen­so de pro­pó­si­to; fumei um cigar­ro apa­ga­do na chu­va; tive a dor de cabe­ça mais filha da puta de todos os tem­pos assim que vol­tei ao hotel, peguei um táxi, andei uma qua­dra, des­ci na far­má­cia, com­prei cafi­as­pi­ri­na, entrei no táxi, vol­tei para o hotel; o moto­ris­ta da van que ia nos levar ao casa­men­to se per­deu, não tinha o ende­re­ço, e nós está­va­mos car­re­gan­do dois padri­nhos, o Francisco ia come­çar o dis­cur­so a qual­quer momen­to, e a Joana e a Renata toma­ram as réde­as da situ­a­ção, des­co­bri­ram toda a rota da van, indi­ca­ram os cami­nhos pro cara, che­ga­mos no minu­to final, os padri­nhos cor­re­ram para o palan­que e o Joca e a Bel casa­ram.

Não sei se você tam­bém con­se­gue ver uma rela­ção entre essas coi­sas, mas pra mim é mui­to cla­ro: o casa­men­to, a Cachalote, o livro do Joca, o Rafa aba­nan­do os bra­ços, a via­gem a Ribeirão, o cigar­ro apa­ga­do na chu­va. Esses aca­sos foram se mul­ti­pli­can­do em outros aca­sos, uma vin­da do Cardoso a São Paulo, um fru­to velho que eu fui chu­tan­do com o Emilio e o Michel em Paraty, Nesky comen­do seu pri­mei­ro tema­ki, uma par­ti­da de Street Fighter com o Mojo, Emiliano imi­tan­do freio de ôni­bus, Teteco e o caso da ban­dei­ra do esta­do de Alagoas, a tor­ra­da no bol­so de Alex Rod, tudo que o Parada diz, tudo que o Hermano faz, o Marcelo total­men­te neu­ras­tê­ni­co. É mui­to bom (e raro) ter ami­gos como vocês.

Aproveita aí o tem­po de reclu­são, qual­quer cou­sa man­da um “tor­pe­do”. Também vou dar uma puxa­da no tra­ba­lho e avan­çar na Múmia, tenho pilhas de livros para edi­tar até o fim do ano e pre­ci­so adi­an­tar o ser­vi­ço. Mas sei que nada dis­so vale: logo você arru­ma uma des­cul­pa para vir a São Paulo, eu dou um jei­to de ir a Porto Alegre, e alguém há de se casar nes­se meio tem­po. Mas na ver­da­de o que eu que­ria dizer era o seguin­te: aca­ba teu livro, eu aca­bo o meu, o Rafa vai estar ter­mi­nan­do Mensur e acho sin­ce­ra­men­te que a gen­te devia fazer outra HQ. Porque foi mas­sa. Porque sim.

Que épo­ca pra se viver, diz aí.

Abraços,

André.

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