Que horas ela volta?, a arquitetura como drama

No cinema

28.08.15

Que horas ela vol­ta?, de Anna Muylaert, tem tudo para se tor­nar um mar­co no cine­ma bra­si­lei­ro con­tem­po­râ­neo, como foram, em outros con­tex­tos, Central do Brasil e Cidade de Deus. É um fil­me em ple­na sin­to­nia com o “pul­so” do país. Encara com ori­gi­na­li­da­de e cora­gem um momen­to de trans­for­ma­ções soci­ais mais ou menos pro­fun­das, mais ou menos trau­má­ti­cas – e, por favor, não esta­mos falan­do aqui de dis­pu­tas par­ti­dá­ri­as ou pro­gra­mas ime­di­a­tos de gover­no ou de opo­si­ção. 

A figu­ra cen­tral na arqui­te­tu­ra nar­ra­ti­va do fil­me, como se sabe, é a da empre­ga­da domés­ti­ca, aque­la tra­ba­lha­do­ra que dor­me na casa dos patrões e é como que uma des­cen­den­te da muca­ma da épo­ca da escra­vi­dão e tam­bém do “agre­ga­do”, tão fre­quen­te na obra de Machado de Assis. É aque­la que “é pra­ti­ca­men­te da famí­lia” – des­de que conhe­ça o seu lugar e se con­for­me com ele.

E é exa­ta­men­te esse “lugar”, ou a sua rede­fi­ni­ção em nos­sa épo­ca, que o fil­me de Anna Muylaert vai obser­var, com um olhar ao mes­mo tem­po argu­to, sutil e amo­ro­so. Quem o ocu­pa é a domés­ti­ca Val (Regina Casé), que mora na casa dos patrões no Morumbi e aju­dou a cri­ar o filho do casal, Fabinho (Michel Joelsas), hoje um rapa­gão aspi­ran­te a uma vaga na uni­ver­si­da­de.

O dra­ma e a comé­dia (nos fil­mes da dire­to­ra, os dois vêm sem­pre jun­tos) come­çam quan­do Val rece­be a visi­ta ines­pe­ra­da da filha, Jéssica (Camila Márdila), que vem a São Paulo pres­tar ves­ti­bu­lar para arqui­te­tu­ra.

Dramaturgia dos espa­ços

A che­ga­da de Jéssica traz ins­ta­bi­li­da­de a um ter­re­no que pare­cia sóli­do e imu­tá­vel. Os espa­ços ame­a­çam tor­nar-se inde­fi­ni­dos, con­fu­sos, inse­gu­ros. Tudo, no fun­do, é uma ques­tão de arqui­te­tu­ra, e por isso boa par­te des­sa his­tó­ria é con­ta­da pelos ambi­en­tes: o quar­ti­nho de Val, a cozi­nha, a pis­ci­na, o quar­to de hós­pe­des, o ate­liê do patrão (Lourenço Mutarelli). Cada um des­ses locais adqui­re um sen­ti­do soci­al, cul­tu­ral e dra­má­ti­co pro­fun­do no desen­ro­lar da nar­ra­ti­va.

Também os obje­tos dizem mui­to: o sor­ve­te de Fabinho, o jogo de café que Val dá de pre­sen­te à patroa (Karine Teles), a ban­de­ja de pra­ta da bisa­vó. Nada é gra­tui­to ou supér­fluo.

Nesse con­tex­to nar­ra­ti­vo con­cen­tra­do, em que tudo “sig­ni­fi­ca”, não há de ser casu­al que os luga­res de São Paulo que o patrão galan­te­a­dor apre­sen­ta a Jéssica – o edi­fí­cio Copan e o pré­dio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP – sejam obras de arqui­te­tos comu­nis­tas (res­pec­ti­va­men­te, Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas) que apos­ta­vam, ao menos em tese, na uto­pia dos espa­ços livres e igua­li­tá­ri­os, na abo­li­ção das bar­rei­ras e hie­rar­qui­as soci­ais. Não é por aca­so tam­bém que o pon­to de encon­tro entre o patrão e a filha da domés­ti­ca se dá no ate­liê dele, uma edí­cu­la sepa­ra­da da par­te prin­ci­pal da casa e como que à mar­gem de sua estra­ti­fi­ca­ção espa­ci­al.

Opressão cor­di­al

Falou-se mui­to, e com razão, do desem­pe­nho mar­can­te de Regina Casé no papel prin­ci­pal. Quando bem diri­gi­da e des­pi­da das estri­dên­ci­as tele­vi­si­vas, é de fato uma atriz extra­or­di­ná­ria, senho­ra abso­lu­ta do rit­mo, da pro­só­dia, das modu­la­ções de voz. A sequên­cia em que ela ensaia a mon­ta­gem do jogo de café na ban­de­ja é dig­na de qual­quer anto­lo­gia.

Mas o res­tan­te do elen­co não des­toa. Camila Márdila encar­na à per­fei­ção a jovem de uma clas­se soci­al emer­gen­te, que não mais se encai­xa pas­si­va­men­te numa ordem dis­cri­mi­na­tó­ria, humi­lhan­te. Suas ati­tu­des, des­res­pei­tan­do as regras táci­tas que os pobres “já nas­cem saben­do”, como diz sua mãe, são mais elo­quen­tes que qual­quer dis­cur­so polí­ti­co.

Houve quem cri­ti­cas­se a óti­ma atriz Karine Teles por com­por, no papel da patroa, uma “mege­ra de tele­no­ve­la”. Discordo. A com­pe­tên­cia da atriz está jus­ta­men­te em mos­trar as ati­tu­des da per­so­na­gem como expres­são de uma espé­cie de inter­na­li­za­ção de seu papel soci­al, for­ma­do por sécu­los de domi­na­ção dis­far­ça­da, de “opres­são cor­di­al”.

Ao sor­rir de sur­pre­sa quan­do ouve que Jéssica pres­ta­rá ves­ti­bu­lar para a FAU, a patroa está, sem per­ce­ber, sen­do tão vio­len­ta quan­to ao man­dar lim­par a pis­ci­na depois que a mes­ma Jéssica entrou nela de rou­pa e tudo. Há toda uma edu­ca­ção para o “man­do demo­crá­ti­co e libe­ral” con­den­sa­da nes­sa per­so­na­gem. De res­to, nos­sa clas­se média está reple­ta de “mege­ras de tele­no­ve­la”. Basta olhar em vol­ta.

Detectar a per­sis­tên­cia do arcai­co de nos­sa for­ma­ção sob as apa­rên­ci­as do moder­no tem sido a mar­ca de uma cer­ta linha­gem de fil­mes, em que se des­ta­cam O som ao redor e Casa gran­de. Que horas ela vol­ta? faz par­te des­sa famí­lia cine­ma­to­grá­fi­ca, com a dife­ren­ça, tal­vez, de colo­car a ênfa­se nas for­ças de mudan­ça. Além dis­so, entre­la­ça à ques­tão soci­al um pode­ro­so melo­dra­ma sobre a con­di­ção mater­na, o que aumen­ta seu poder de comu­ni­ca­ção com o públi­co. Tudo indi­ca que a reper­cus­são será gran­de.

, , , ,