Queixas e reclamações

Cinema

24.10.11

Leon Cakoff em fren­te ao palá­cio do Festival de Cannes, em 1988

Muitas vezes vi Leon com cara de pou­cos ami­gos. Muitas vezes vi Leon cer­ca­do de ami­gos.

Quase sem­pre zan­ga­do com o que não anda­va cer­to, quei­xa­va-se à boca peque­na. Reclamava com voz enco­lhi­da, fala sus­sur­ra­da igual à que usa­va para fazer ami­za­des. Queixava-se de coi­sas ruins e quei­xa­va-se até mes­mo das coi­sas boas, que, ape­sar de boas, pode­ri­am ser melho­res. Sofria as afli­ções e os con­ten­ta­men­tos da dedi­ca­ção qua­se exclu­si­va ao fes­ti­val que inven­tou para tra­zer à cida­de o bom cine­ma que (eis aqui um bom moti­vo para quei­xas e recla­ma­ções) não encon­tra espa­ço no mer­ca­do bra­si­lei­ro.

Tinha o espí­ri­to de um espec­ta­dor apai­xo­na­do, mas a prin­ci­pal recor­da­ção que guar­do dele é a de um dia em que deci­diu não ir ao cine­ma.

Certa manhã de Cannes, a cami­nho do palá­cio do fes­ti­val para ver o ses­são das oito e meia da manhã, Leon pas­sou por Luis Buñuel, que saía do hotel para cami­nhar ao lon­go da praia. Desistiu do fil­me, apre­sen­tou-se a Buñuel, per­gun­tou se pode­ria cami­nhar ao lado dele e segui­ram jogan­do con­ver­sa fora pela Croisette. Caminhada lon­ga, Leon não viu o fil­me das oito e meia nem o das onze da manhã. Quando nos encon­tra­mos, no meio da tar­de, na sala de impren­sa do fes­ti­val, tra­zia um sor­ri­so enor­me — quer dizer: o sor­ri­so enor­me de Leon era tão enco­lhi­do quan­to sua voz — mais que con­ten­te com o pas­seio com Buñuel.

Não me lem­bro ao cer­to, creio que foi em 1975. Buñuel esta­va em Cannes ou para uma qual­quer con­ver­sa em sobre o fil­me fei­to no ano ante­ri­or, O fan­tas­ma da liber­da­de, ou sobre o que iria fazer no ano seguin­te, Esse obs­cu­ro obje­to do dese­jo. Mas lem­bro bem, ouvi a his­tó­ria duas vezes. De noi­te no peque­no res­tau­ran­te da rua do Comandante André em que cos­tu­má­va­mos jan­tar depois da últi­ma ses­são, tar­de da noi­te, Leon con­tou o pas­seio com Buñuel para Pierre, Catherine e Sylvie, os donos do res­tau­ran­te e a filha deles. Contou con­for­ta­vel­men­te sen­ta­do no meio da sala e com os pés numa bacia de água quen­te.

Ou por­que o dono de nos­so res­tau­ran­te era um admi­ra­dor de Buñuel, ou por­que admi­ra­va a fala sus­sur­ra­da de Cakoff no meio do voze­rio estri­den­te dos outros bra­si­lei­ros, Catherine con­cor­da­ra em tra­zer uma bacia de água quen­te para os pés can­sa­dos de Leon — não sei se da cami­nha­da com Buñuel ou da imo­bi­li­da­de no lon­go tem­po em que per­ma­ne­cía­mos sen­ta­dos, ven­do três ou qua­tro fil­mes por dia, às vezes mais.

Não me lem­bro de qua­se nada do que Leon con­tou do pas­seio com Buñuel, mas jamais esque­ci a his­tó­ria que ele con­tou de tar­de e não vol­tou a con­tar de noi­te no res­tau­ran­te. A cer­ta altu­ra da cami­nha­da pas­sa­ram por Glenda Jackson e Buñuel, com um fin­gi­do tom de zan­ga, quei­xou-se a meia voz para Leon: esta­va erra­do, Glenda não era uma mulher boni­ta mas era abso­lu­ta­men­te sen­su­al. E quei­xou-se de novo, esta­va tudo mais erra­do ain­da: a sen­su­al que nem era boni­ta e que lhe fala­va tan­to pas­sa­va por ele e não dizia nada. Nem sequer olhou para ele. Tarde da noi­te, no res­tau­ran­te, os pés repou­sa­dos em água quen­te, como um crí­ti­co que comen­ta um fil­me que somen­te ele, ele e nin­guém mais, viu, Leon não vol­tou a esse tre­cho de seu tra­vel­ling com Buñuel na Croisette. Contou outros peda­ços da con­ver­sa e, dis­cre­to, não retor­nou ao cla­ro obje­to de dese­jo Buñuel tal­vez por­que Catherine e Sylvie esti­ves­sem ali.

Lembrei-me des­sa his­tó­ria ao ver Esse obs­cu­ro obje­to do dese­jo. Lembrei-me dela outras vezes, quan­do encon­tra­va Leon em um qual­quer fes­ti­val de cine­ma. Há três ou qua­tro anos, no México de Buñuel, no fes­ti­val de Guadalajara, vol­ta­mos a ela num diver­ti­do jan­tar, sem água quen­te nos pés mas com tequi­la na cabe­ça. Das vezes em que vi Leon sor­rir, nenhum sor­ri­so me pare­ceu tão con­ten­te quan­to aque­le depois do pas­seio com Buñuel. O sor­ri­so daque­la tar­de de Cannes con­ti­nua na memó­ria como um con­vi­te a ima­gi­nar Leon, que fala­va bai­xi­nho, e Luis, que não ouvia bem, recla­man­do con­tra Deus e o mun­do ao lon­go da Croisette.

A zan­ga de Cakoff con­tra tudo o que não lhe pare­cia jus­to ou cer­to, tal­vez tenha algo em comum com a zan­ga de Buñuel con­tra o que não lhe pare­ceu cer­to (por­que tan­ta sen­su­a­li­da­de se não é boni­ta?) ou jus­to (por­que não fala comi­go se me diz tan­to?).

A Mostra de Cinema de São Paulo não exis­tia. Talvez tenha nas­ci­do de uma recla­ma­ção de Leon pare­ci­da com a de Luis (por que não vemos fil­mes como os que pas­sei­am na Croisette?). Talvez. Mas uma coi­sa é cer­ta: só é pos­sí­vel pro­por uma ima­gem assim (incor­re­ta) de Leon, como um sor­ri­so enco­lhi­do por recla­ma­ções, por­que aqui, no meio da Mostra que ele cri­ou, esta­mos todos movi­dos por uma enor­me von­ta­de de recla­mar mais que ele, mais que Buñuel: não é cer­to, é absur­do, não é jus­to que Leon não este­ja mais aqui.

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