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No cinema

08.08.14

O mer­ca­do de notí­ci­as, docu­men­tá­rio de Jorge Furtado, é um fil­me opor­tu­no e neces­sá­rio. Poucas ins­ti­tui­ções têm sido tão dis­cu­ti­das nos últi­mos tem­pos quan­to a impren­sa, em suas vári­as for­mas: escri­ta, tele­vi­si­va, radi­ofô­ni­ca. Com o adven­to avas­sa­la­dor da inter­net, não é ape­nas a sus­ten­ta­ção econô­mi­ca de jor­nais, revis­tas e tele­no­ti­ciá­ri­os que está em xeque, mas prin­ci­pal­men­te a sua cre­di­bi­li­da­de – e é nes­se ner­vo que o docu­men­tá­rio vem tocar, com o enge­nho e a ver­ve habi­tu­ais de seu dire­tor. 

O pri­mei­ro acha­do do fil­me, em ter­mos de cons­tru­ção, é a alter­nân­cia entre o docu­men­tá­rio pro­pri­a­men­te dito e uma ence­na­ção da comé­dia O mer­ca­do de notí­ci­as (The Staple of News, 1626), do dra­ma­tur­go bri­tâ­ni­co Ben Jonson (1572–1637). A iro­nia feri­na com que Jonson retra­ta a impren­sa então nas­cen­te como um bal­cão de tro­ca de favo­res e de pro­li­fe­ra­ção de intri­gas vai impreg­nar todo o deba­te sobre a cri­se atu­al do setor.

Talvez o espec­ta­dor acos­tu­ma­do à inven­ti­vi­da­de de obras ante­ri­o­res de Furtado (seja na fic­ção de O homem que copi­a­va e Saneamento bási­co ou em meta­do­cu­men­tá­ri­os como Ilha das Flores e Esta não é a sua vida) sin­ta-se desa­pon­ta­do com o peso que assu­mem aqui os depoi­men­tos dos entre­vis­ta­dos, tre­ze jor­na­lis­tas entre os mais expe­ri­en­tes e res­pei­ta­dos do país. De fato, embo­ra sejam todos con­sis­ten­tes e ilu­mi­na­do­res, esses depoi­men­tos estão a um pas­so de fazer do fil­me uma daque­las cole­ções de “tal­king heads” que fazem as vezes de docu­men­tá­ri­os na TV paga.

Jorge Furtado e as atrizes da peça que é encenada dentro do filme

Compenetrado na seri­e­da­de da dis­cus­são, é como se o dire­tor não qui­ses­se dis­per­sá-la com as brin­ca­dei­ras meta­lin­guís­ti­cas que povo­am seus outros tra­ba­lhos. De vez em quan­do ele pare­ce se lem­brar de are­jar a con­ver­sa com um tre­cho diver­ti­do da peça ou com a inser­ção de um ou outro comen­tá­rio visu­al – como na ima­gem do qua­dro “O gri­to”, de Munch, quan­do o jor­na­lis­ta Geneton Moraes fala sobre a Nossa Senhora do Perpétuo Espanto, padro­ei­ra dos jor­na­lis­tas.

Farsas des­cons­truí­das

Mas o docu­men­tá­rio cres­ce e se jus­ti­fi­ca ple­na­men­te como cine­ma quan­do rea­li­za, ele pró­prio, uma inves­ti­ga­ção jor­na­lís­ti­ca sobre gran­des erros ou dis­tor­ções recen­tes de mídia infor­ma­ti­va. Isso acon­te­ce em par­ti­cu­lar­men­te dois momen­tos: na des­cons­tru­ção da nar­ra­ti­va tele­vi­si­va (e que os jor­nais e revis­tas eco­a­ram) do epi­só­dio da boli­nha de papel que atin­giu em 2010 o então can­di­da­to José Serra; e na expo­si­ção ao ridí­cu­lo de uma maté­ria da Folha de S. Paulo sobre uma supos­ta tela de Picasso (na ver­da­de uma repro­du­ção bara­ta, des­sas que se ven­dem em loji­nhas de museus) que esta­ria aban­do­na­da num gabi­ne­te do gover­no em Brasília.

Ao tomar para si aqui­lo que a impren­sa séria deve­ria fazer – ou seja, inves­ti­gar os fatos, con­tra­por ver­sões –, O mer­ca­do de notí­ci­as exi­be em todo o seu esplen­dor o poder crí­ti­co da ima­gem e da pala­vra, seu papel tan­to na cons­tru­ção como na des­trui­ção de mitos, no aco­ber­ta­men­to ou na reve­la­ção do que cha­ma­mos, tal­vez com dema­si­a­da licen­ça, de rea­li­da­de. Nesse fas­ci­nan­te bri­ca­bra­que, não se per­de nun­ca de vis­ta a ideia de que, no arma­zém de secos e molha­dos que é o jor­na­lis­mo des­de suas ori­gens, o ele­men­to deci­si­vo para dar algu­ma hones­ti­da­de a esse comér­cio é a éti­ca do jor­na­lis­ta.