Quem tem medo de mulher pelada?

No cinema

10.12.13

Azul é a cor mais quente, Abdellatif Kechiche (2013)

Assim como O últi­mo tan­go em Paris ficou famo­so — e estig­ma­ti­za­do — por cau­sa da “cena da man­tei­ga”, Azul é a cor mais quen­te está ganhan­do fama e estig­ma por cau­sa de uma lon­ga cena de sexo entre as duas pro­ta­go­nis­tas, Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux). Falaremos des­sa pas­sa­gem mais adi­an­te. Por enquan­to, cabe dizer que o fil­me de Abdellatif  Kechiche é mui­to mai­or do que os tão fala­dos minu­tos de sexo sáfi­co, mas não pode ser com­pre­en­di­do ple­na­men­te sem eles.

http://www.youtube.com/watch?v=XyRw7iPfB5k

Reduzido ao entre­cho mais bási­co, Azul é a cor mais quen­te con­ta uma his­tó­ria de amor qua­se tri­vi­al, do tipo “boy meets girl etc.”, só que muda­da para “girl meets girl etc.”, o que faz toda a dife­ren­ça. Mas não é só essa mudan­ça de gêne­ro, ou de ori­en­ta­ção sexu­al, que tor­na o fil­me mais rico e inte­res­san­te que um dra­ma amo­ro­so con­ven­ci­o­nal. É, prin­ci­pal­men­te, o modo como ele obser­va os per­so­na­gens e suas trans­for­ma­ções — em par­ti­cu­lar Adèle, que come­ça a nar­ra­ti­va como uma meni­na e ter­mi­na como uma mulher.

Romance de for­ma­ção

Esse pro­ces­so de trans­for­ma­ção se dá em para­le­lo — ou amal­ga­ma­do — com a bus­ca de iden­ti­da­de da pro­ta­go­nis­ta. Identidade sexu­al, cla­ro (pois ela encon­tra o pri­mei­ro gran­de amor numa mulher alguns anos mais velha, e mui­to mais vivi­da, depois de um expe­ri­men­to insa­tis­fa­tó­rio com um rapaz), mas tam­bém soci­al, inte­lec­tu­al, polí­ti­co. Nesse sen­ti­do, é mais um “roman­ce de for­ma­ção”, ou uma “edu­ca­ção sen­ti­men­tal”, do que mera­men­te uma his­tó­ria de amor.

O títu­lo ori­gi­nal fran­cês (La vie d’Adèle) é uma refe­rên­cia evi­den­te ao livro que a pro­ta­go­nis­ta lê na esco­la no iní­cio do fil­me (La vie de Marianne, de Pierre de Marivaux). E não dei­xa de ser inte­res­san­te o para­le­lo sub­ter­râ­neo que se esta­be­le­ce entre a ascen­dên­cia inte­lec­tu­al de Emma sobre Adèle e a ascen­dên­cia inte­lec­tu­al des­ta sobre seu namo­ra­di­nho de ado­les­cên­cia.

O boni­to, no modo como Kechiche pers­cru­ta o desen­vol­vi­men­to de Adèle, é dei­xar que ela man­te­nha suas zonas de som­bra, sua opa­ci­da­de irre­du­tí­vel. Apesar de ela estar em cena duran­te as três horas de fil­me, saí­mos da ses­são não ape­nas com a impres­são de não conhe­cê-la ple­na­men­te, mas tam­bém com a sen­sa­ção de que ela pró­pria não se conhe­ce. Parece estar o tem­po todo pro­cu­ran­do sua tur­ma, sem che­gar a encon­trá-la de ver­da­de — e vai se cons­truin­do nes­se pro­ces­so de bus­ca. Nos momen­tos em que Adèle se sen­te ple­na (como no par­que, no pri­mei­ro encon­tro com Emma), uma luz estou­ra­da inun­da tudo, ofus­can­do os con­tor­nos da per­so­na­gem.

Igualmente notá­vel é o fres­cor com que entra na tela o entor­no da pro­ta­go­nis­ta, qua­se à manei­ra de um docu­men­tá­rio: a sala de aula, as boa­tes GLS, a pas­se­a­ta polí­ti­ca, a para­da gay, os jan­ta­res em famí­lia, a esco­la mater­nal, a fes­ta de artis­tas, tudo flui, tudo res­pi­ra com uma natu­ra­li­da­de impres­si­o­nan­te.

Sem cerimô­nia

Voltamos então às comen­ta­das cenas de sexo entre Adèle e Emma. Militantes femi­nis­tas e ati­vis­tas lés­bi­cas pro­tes­ta­ram, acu­san­do o dire­tor de explo­rar os cor­pos das atri­zes, ofe­re­cen­do-os ao voyeu­ris­mo (supos­ta­men­te mas­cu­li­no). Confesso que não enten­do. Numa ence­na­ção em que tudo é fil­ma­do de mui­to per­to e sem cerimô­nia — a pon­to de os cor­pos dos ato­res qua­se sem­pre serem vis­tos par­ci­al­men­te -, o que há de erra­do em mos­trar as duas pro­ta­go­nis­tas se aman­do apai­xo­na­da­men­te na cama?

Em outros momen­tos Adèle apa­re­ce: lim­pan­do a boca com a mão ao comer um lan­che; dor­min­do de boca aber­ta; cho­ran­do como uma cri­an­ça, com catar­ro escor­ren­do do nariz; erguen­do as cal­ças pela cin­tu­ra, fei­to uma meni­na cai­pi­ra. Por que não pode­ria apa­re­cer fazen­do sexo com a mulher que ama? Omitir isso seria o cúmu­lo da hipo­cri­sia. Edulcorar a cena com con­tra­lu­zes, fusões, câme­ra len­ta e músi­ca român­ti­ca seria, além de hipó­cri­ta, de pés­si­mo gos­to.

O incô­mo­do cau­sa­do pelas cenas de sexo de Azul é a cor mais quen­te, em par­ti­cu­lar pela mais lon­ga, é aná­lo­go às rea­ções sus­ci­ta­das pela tre­pa­da qua­se explí­ci­ta entre dois homens que está no cen­tro de Tatuagem, de Hilton Lacerda. Nos dois casos, mui­ta gen­te dis­se: “Isso não era neces­sá­rio”. Ora, o que é “neces­sá­rio” num fil­me?

Há algo erra­do num mun­do que con­si­de­ra natu­ral ver na tela cor­pos per­fu­ra­dos, muti­la­dos, tor­tu­ra­dos, mas jul­ga “des­ne­ces­sá­ria” uma cena de amor homo­e­ró­ti­co.

Truffaut cos­tu­ma­va dizer, tal­vez não total­men­te de brin­ca­dei­ra, que o papel do dire­tor de cine­ma é “mos­trar uma mulher boni­ta fazen­do coi­sas boni­tas”. Pois bem: Kechiche mos­trou logo duas, fazen­do a coi­sa mais lin­da que elas pode­ri­am fazer. Quem não qui­ser ver, que mude de canal, ou melhor, de sala.

MAIS

Vamos falar de sexo? — José Carlos Avellar escre­ve sobre Azul é a cor mais quen­te dire­to de Cannes.

, , , , ,