Quem tem medo do lobo mau?

Literatura

23.01.13

Aos 70 anos redon­dos, o escri­tor por­tu­guês António Lobo Antunes casou há pou­co tem­po pela ter­cei­ra vez e está pro­fun­da­men­te apai­xo­na­do — por si mes­mo. Mas não se tra­ta de uma pai­xão novi­nha em folha: este xodó tem pre­ci­sa­men­te 70 anos. Criado no seio de uma famí­lia da alta bur­gue­sia lis­bo­e­ta, o roman­cis­ta aca­bou por her­dar um títu­lo de nobre­za do seu avô, que bran­de como uma cla­va. “A aris­to­cra­cia é de uma estu­pi­dez e incul­tu­ra total. Mas tem bons per­fu­mes, as suas mulhe­res são mui­to boni­tas e sabem rir no tom ade­qua­do. E isso é mui­to impor­tan­te.”

Verdade: Lobo Antunes se ama enter­ne­ci­da­men­te. Se per­gun­ta­do por que, acha­ria a per­gun­ta redun­dan­te:  “Ué, sim­ples ques­tão de bom gos­to!” A opi­nião de Lobo Antunes sobre Lobo Antunes não é nada con­sen­su­al: por exem­plo, não se con­si­de­ra nem um pou­co geni­o­so (geni­al, sem dúvi­da): “Não sei por que exis­te a ima­gem de que sou uma pes­soa difí­cil. Há pou­co tem­po dis­se­ram-me isso e fiquei estar­re­ci­do.” Claro que 99,9 por cen­to dos escri­to­res são nar­ci­sis­tas, mas ele ele­va a auto­es­ti­ma a uma for­ma de arte. Vendo a coi­sa pelo lado posi­ti­vo, nin­guém pode acu­sar Lobo Antunes de fal­sa modés­tia. E não só no âmbi­to lite­rá­rio. Compraz-se em apre­go­ar que era um pão na juven­tu­de (mas, quan­do a gen­te assi­na­la isso, fica uma onça: “Tenho a cer­te­za abso­lu­ta de que não falo mui­to nis­so!  Embora hoje veja que fui um bebê e um moço lin­do de mor­rer.”)

E, no fun­do, no fun­do des­con­fia que essa bele­za não se des­va­ne­ceu com­ple­ta­men­te (não dei­xa a pete­ca cair!). Porém, como a boa pin­ta não é tudo na vida, mui­to menos para um inte­lec­tu­al, ele nun­ca escon­de que seu tes­te de inte­li­gên­cia indi­cou um Q.I. igual ao de Einstein (180 cra­va­dos). E que as suas obras, no míni­mo, são tão pro­di­gi­o­sas como as de?mais nin­guém. “Compreendo Oscar Wilde quan­do lhe per­gun­ta­ram quais eram para ele os dez melho­res livros do sécu­lo e res­pon­deu: ?Você me faz uma per­gun­ta emba­ra­ço­sa por­que só escre­vi qua­tro.’” Antunes não sofre esse cons­tran­gi­men­to, pois já escre­veu 31. Sabe per­fei­ta­men­te quais são os 31 melho­res livros do sécu­lo pas­sa­do e já com o 21 de lam­bu­ja. Como expli­ca: “Não sou um homem modes­to, mas sou humil­de. Sou uma gali­nha que guar­da seus ovos.” Ovos Fabergé, cla­ro.

Mas tem um bom áli­bi: no seu caso, a mas­sa cin­zen­ta é mal de famí­lia. O pai dele era um médi­co pro­e­mi­nen­te e seus cin­co irmãos mais novos, todos varões, são expo­en­tes ilus­tres da soci­e­da­de por­tu­gue­sa: entre eles um diplo­ma­ta (Manuel), um arqui­te­to (Pedro), um pedi­a­tra (Nuno), um ani­ma­dor cul­tu­ral (Miguel, juris­ta do Tribunal Constitucional e ex-dire­tor do Instituto Português de Cinema), um neu­ro­lo­gis­ta (João) que aos 30 anos já era pre­si­den­te da Associação Mundial de Neurocirurgia, tam­bém autor de ensai­os que embol­sa­ram o bada­la­dís­si­mo prê­mio Pessoa.

O pró­prio escri­tor é psi­qui­a­tra, embo­ra essa não tenha sido exa­ta­men­te uma voca­ção irre­sis­tí­vel. Pelo con­trá­rio: aos sete anos, ao cir­cu­lar num táxi, deci­diu ser roman­cis­ta e pon­to final. “Comecei a escre­ver por cau­sa do Mickey, do Flash Gordon”.  Aos 16, quis matri­cu­lar-se na Faculdade de Letras. O pai deu a mai­or for­ça: “Beleza, Toninho!” No dia seguin­te, ins­cre­veu o filho em… Medicina. “Muito demo­crá­ti­co”, iro­ni­za Lobo Antunes. Por falar nis­so, o pai nun­ca deu um pio sobre a obra lite­rá­ria do pri­mo­gê­ni­to. Minto: hou­ve uma exce­ção, a res­pei­to do roman­ce A ordem natu­ral das coi­sas. Não se pode dizer que o comen­tá­rio tenha sido diti­râm­bi­co: “Não enten­di bulhu­fas”.

Mas o patri­ar­ca Antunes não era nenhum filis­teu. Obrigava os filhos a copi­ar qua­dros de Gauguin e ado­ra­va Velásquez e Vermeer. Quando António Lobo Antunes fez os seus ver­de­jan­tes 14 anos, o pre­sen­te pater­no foi a pri­mei­ra edi­ção de Viagem ao fim da noi­te, de Louis-Ferdinand Céline — não exa­ta­men­te uma aven­tu­ra de Harry Potter. O futu­ro autor gos­tou tan­to que escre­veu uma car­ta ao escri­tor mal­di­to (outro médi­co?). E Céline res­pon­deu! Lobo Antunes guar­da até hoje o enve­lo­pe: “A minha mai­or ale­gria não foi tan­to a car­ta, mas ver no enve­lo­pe o meu nome escri­to por ele.” Talvez por isso, mui­tos anos mais tar­de, Antunes se sai­rá com esta: “O nome do lei­tor é que devia vir na capa dos livros.”

No entan­to, a prin­ci­pal refe­rên­cia de Lobo Antunes na infân­cia e ado­les­cên­cia foi o seu avô Antonio, que lhe legou o nome pró­prio e o títu­lo de nobre­za. Quando o neti­nho tinha 13 anos, vovô o cha­mou e, a bei­ra de um piti, voci­fe­rou à quei­ma-rou­pa: “Você é bicha?” Tudo por­que o pré-ado­les­cen­te que­ria ser escri­tor. Seguramente, o zelo­so avô nun­ca lera Hemingway ou Norman Mailer, senão sabe­ria que a lite­ra­tu­ra tam­bém tem seus machos alfa até bem caver­ní­co­las.

Já a mãe de Lobo Antunes leu Proust intei­ri­nho, de fio a pavio. Em con­tra­par­ti­da, Lobo Antunes não se lem­bra de um míse­ro bei­jo que a mãe lhe tenha dado, nem de ras­pão. Dela, her­dou o apre­ço pela lei­tu­ra e, já na matu­ri­da­de avan­ça­da, a sur­dez — usa um Viennatone no ouvi­do direi­to. Um dia, a mãe sus­pi­rou: “Preferia ser cega, pois dos cegos nin­guém ri, enquan­to dos sur­dos todo mun­do goza.” Em Memória de ele­fan­te, seu roman­ce de estreia, o autor escre­ve: “E sen­tiu-se como expul­so e lon­ge de uma casa cujo ende­re­ço esque­ce­ra, por­que con­ver­sar com a sur­dez da mãe afi­gu­ra­va-se-lhe mais inú­til do que socar uma por­ta cer­ra­da para um quar­to vazio, ape­sar dos esfor­ços do via­na­to­ne atra­vés do qual ela man­ti­nha con­ta­to com o mun­do exte­ri­or, um con­ta­to dis­tor­ci­do e con­fu­so fei­to de ecos de gri­tos e de enor­mes ges­tos expli­ca­ti­vos de palha­ço pobre.”

O avô que o escri­tor tan­to vene­ra­va, tam­bém um António, nas­ceu adi­vi­nhem onde? Quem res­pon­deu em Belém do Pará acer­tou em cheio na tes­ta da mos­ca. Daí que Lobo Antunes tenha se fami­li­a­ri­za­do  pre­co­ce­men­te com os clás­si­cos bra­si­lei­ros, como José de Alencar, Aluísio de Azevedo, Machado de Assis, Monteiro Lobato? Ainda assim, não mor­re de amo­res pelo Brasil — con­quan­to este­ja ago­ra em uma fase já não de aver­são mas de con­ver­são. Em uma Flip, este Lobo uivou: “Sei mui­to bem que vocês gos­tam mais do outro.” O outro, cla­ro, era José Saramago, então ain­da vivo e pro­ver­bi­al nême­sis de Antunes. Com o seu coto­ve­lo em esta­do de coma, Lobo Antunes propôs uma meia-sola no Tratado de Tordesilhas: “Ele que fique com o Brasil, que eu fico com o res­to do pla­ne­ta.” E faz ques­tão de sen­ten­ci­ar: “Angola é mui­to mais boni­ta do que o Brasil.”

Claro que está cho­ran­do de bar­ri­ga cheia. Traduzido em deze­nas de paí­ses, não lhe fal­ta reco­nhe­ci­men­to nem tie­ta­gem. É um favo­ri­to crô­ni­co ao Nobel. Jogando em casa, gar­fou o prê­mio Camões, hoje o mais pres­ti­gi­a­do da lín­gua por­tu­gue­sa. E o Neruda e o Internacional Íbero-Americano. Mas jura que não está nem aí. “Não pen­so em prê­mi­os. Se calhar está vin­do outro hoje ou ama­nhã. Não tem impor­tân­cia nenhu­ma. É bom quan­do tem mui­to gra­na.” Na Alemanha, as edi­ções das suas obras che­gam a ven­der meio milhão de exem­pla­res a cada títu­lo. Na França é ido­la­tra­do: o minis­té­rio da Cultura atri­buiu-lhe as insíg­ne­as de Comendador das Artes e das Letras Francesas. Há dois anos rea­li­zou uma excur­são lite­rá­ria pelos Estados Unidos, tipo pop star — de avião, trem, táxi, limu­si­ne. Na sala api­nha­da da New York Public Library, leu um excer­to da tra­du­ção de Que farei quan­do tudo arde. Apesar da repu­ta­ção de iras­cí­vel, quan­do quer Lobo Antunes sabe ser espi­ri­tu­o­so e afá­vel. Naquele dia, na bibli­o­te­ca nova-ior­qui­na, resu­miu assim a his­tó­ria de Ulisses, na Odisseia: “Vou che­gar tar­de em casa.”

Em 1970, o mes­mo ano em que casou pela pri­mei­ra vez, Lobo Antunes par­tiu para a guer­ra do Ultramar, como ficou conhe­ci­do o con­fli­to que cul­mi­nou na inde­pen­dên­cia das colô­ni­as por­tu­gue­sas na África e, por fim, aju­dou a dar um che­ga prá lá na caqué­ti­ca dita­du­ra de Salazar. Serviu como tenen­te médi­co e só regres­sou em 1973, pro­fun­da­men­te trans­fi­gu­ra­do pela car­ni­fi­ci­na. Portugal per­deu a guer­ra colo­ni­al, e Lobo Antunes per­deu a paz para sem­pre. Em com­pen­sa­ção, ganhou um tema fecun­do, ao mes­mo tem­po rea­lis­ta e meta­fó­ri­co. Embora tenha com­ba­ti­do com bra­vu­ra, devi­do às cir­cuns­tân­ci­as do con­fli­to — que se des­ti­na­va a con­ser­var um impé­rio encar­qui­lha­do e a impe­dir a eman­ci­pa­ção das suas satra­pi­as — o tenen­te Lobo Antunes aca­ba­ria por subs­cre­ver George Orwell: “A manei­ra mais rápi­da de aca­bar com uma guer­ra é per­dê-la.”

Repito: o escri­tor lutou com valen­tia, não se limi­tan­do à sua fun­ção espe­ci­a­li­za­da (ampu­tar per­nas e bra­ços, ope­rar em con­di­ções pre­cá­ri­as, com infec­ções fer­vi­lhan­do e balas sil­van­do no ouvi­do). Quantas pes­so­as matou? “Não sei. Era mui­ta gen­te dis­pa­ran­do para o mes­mo lado.” Naturalmente, os que­bra-paus béli­cos são um assun­to sem­pi­ter­no da lite­ra­tu­ra, da Ilíada a Os nus e os mor­tos, de Os ser­tões a Guerra e paz. Mas Lobo Antunes con­ju­ga o para­dig­ma e o arqué­ti­po das bata­lhas, a História e a Necessidade, o con­ti­gen­te e o uni­ver­sal. A guer­ra não selou só sua bio­gra­fia, mas tam­bém a sua éti­ca e a sua esté­ti­ca —  seu pathos, seu ethos e sua poé­ti­ca. Múltiplos ava­ta­res lusos do capi­tão Kurtz — o ator­men­ta­do per­so­na­gem de O cora­ção das tre­vas, de Conrad — bru­xu­lei­am em suas pági­nas, eco­an­do “o hor­ror, o hor­ror.” Em O esplen­dor de Portugal e em Conhecimento do infer­no, ele des­cre­ve uma região encan­ta­do­ra, cha­ma­da Baixa do Cassange, para onde os bata­lhões eram con­du­zi­dos quan­do esta­vam exaus­tos e depois de mui­tas bai­xas. “Ali não havia guer­ra, só ame­a­ça, e os sol­da­dos come­ça­ram a sui­ci­dar-se. Quando vivi­am a pre­sen­ça da mor­te não se sui­ci­da­vam e quan­do a ame­a­ça das bom­bas e as embos­ca­da se ate­nu­ou come­ça­ram a se matar”. Astúcias de Tânatos , com o seu pla­no B. “Como eu pode­ria não ter muda­do com essa expe­ri­ên­cia? Falava-se em par­ti­das de fute­bol nas quais a bola eram cabe­ças huma­nas… E eram subs­ti­tuí­das com toda a natu­ra­li­da­de: ?Essa bola já não dá, outra cabe­ça!’”.

A guer­ra aca­bou há mui­to, mas Lobo Antunes esper­neia con­tra trin­chei­ras de ini­mi­gos em sua pró­pria ter­ra. O roman­ce As naus cons­ti­tuiu a gota d’água e foi hos­ti­li­za­dís­si­mo quer pela direi­ta quer pela esquer­da, por ser “con­tra Portugal”. A luta con­ti­nua. Porque ele não se ren­de: dá uma boi­a­da para entrar em uma bri­ga, e a espé­cie bovi­na intei­ra para não sair dela. Ameaçou aban­do­nar Portugal para sem­pre e ir viver meta­de do ano nos EUA e a outra meta­de… no Brasil. Em Os cus de Judas, des­cre­ve uma cena atroz da qual foi tes­te­mu­nha ocu­lar: em Angola, duran­te a guer­ra, um agen­te da PIDE (a polí­cia polí­ti­ca de Salazar) apro­xi­mou-se de uma negra grá­vi­da e, como for­ma de apre­sen­ta­ção, lhe deu um bai­ta pon­ta­pé no ven­tre.  Claro que reve­la­ções des­se teor não con­tri­buí­ram para a popu­la­ri­da­de do autor nos mei­os cas­tren­ses.

Além do con­teú­do dos seus roman­ces, hou­ve um recen­te esto­pim para a cris­pa­ção dos mili­ta­res vete­ra­nos: o livro Uma lon­ga con­ver­sa com Lobo Antunes, do jor­na­lis­ta João Céu e Silva. Numa das pas­sa­gens mais con­tro­ver­sas, ele con­ta: “Eu esta­va numa zona onde havia mui­tos com­ba­tes e para poder mudar para uma região mais cal­ma tinha de acu­mu­lar pon­tos. Uma arma apre­en­di­da ao ini­mi­go valia pon­tos, um pri­si­o­nei­ro ou um ini­mi­go mor­to outros tan­tos pon­tos. E para poder­mos mudar, fazía­mos de tudo: matar cri­an­ças, mulhe­res, homens. Tudo con­ta­va e, como quan­do esta­vam mor­tos vali­am mais pon­tos, então não fazía­mos pri­si­o­nei­ros.” O hor­ror, o hor­ror. “Lembro-me de um sol­da­do negro que excla­mou: ?Boa noi­te, senho­res!’ — e deu um tiro na pró­pria têm­po­ra.”

A reve­la­ção desen­ca­de­ou um tur­bi­lhão de pro­tes­tos em blogs e che­gou uma quei­xa-cri­me ao che­fe do Estado-Maior do Exército, que men­ci­o­na “uma série de men­ti­ras infa­mes.” O Estado-Maior res­pon­deu que se tra­ta­va de uma “obra de fic­ção”. Lobo Antunes con­cor­da: “Quanto mais sim­bó­li­ca é a lin­gua­gem, mais ver­da­dei­ra se tor­na.” Lobo Antunes, cuja memó­ria de ele­fan­te (o títu­lo do pri­mei­ro roman­ce não foi por aca­so) é len­dá­ria, admi­ra e per­fi­lha a fra­se de Scott Fitzgerald: “Toda vida é um pro­ces­so de demo­li­ção.” A pro­pó­si­to, a sua memó­ria ele­fan­ti­na é para­do­xal: “Sou capaz de memo­ri­zar sem me dar con­ta cen­te­nas de poe­mas intei­ros; no entan­to, não me recor­do de uma úni­ca linha que eu tenha escri­to.” Azar dele.

O manus­cri­to de Memória de ele­fan­te, seu livro de estreia, rolou de edi­to­ra em edi­to­ra, aos tran­cos e bar­ran­cos, sen­do suces­si­va­men­te esno­ba­do, até sair numa casa peque­na. O roman­ce é de 1979, e evo­ca os pre­cei­tos da antip­si­qui­a­tria de Cooper e Lang (hoje fos­si­li­za­dos), segun­do a qual todo mun­do é lou­co, menos os lou­cos. Com o suces­so edi­to­ri­al, Antunes foi aos pou­cos aban­do­nan­do as con­sul­tas. Por fim, pas­sou a ir ao hos­pi­tal só para escre­ver suas obras, na sua cali­gra­fia minús­cu­la e cunei­for­me (letra de médi­co!), sen­ta­do a um can­to. Ocasionalmente, ain­da aten­dia os paci­en­tes anti­gos. Depois almo­ça­va na can­ti­na e vol­ta­va para casa.

Ao regres­sar de Angola, tra­ba­lhou em um hos­pi­tal de cri­an­ças can­ce­ro­sas, onde se enco­le­ri­zou com Deus — ape­sar de ser ateu. Estava inter­na­do um meni­no de cin­co anos, com leu­ce­mia. Na opi­nião do escri­tor, “Deus não tem o direi­to de pôr uma cri­an­ça a gri­tar por mor­fi­na.” O garo­to mor­reu e vie­ram dois homens com uma maca, mas como o cadá­ver era mui­to peque­no, bas­tou um deles enro­lá-lo num len­çol e levá-lo ao colo pelo cor­re­dor — porém um pé do meni­no saiu do len­çol e Lobo Antunes viu o pé se afas­tan­do, balan­çan­do no ar. “Nesse dia deci­di: vou escre­ver para aque­le pé.” E fixou uma ideia sobre o Todo-Poderoso em que não crê: “Acho que Deus gos­ta mui­to de paler­mas, por­que não para de fazê-los.”

Lobo Antunes não se impor­ta nem um pou­co em alfi­ne­tar — com um arpão — as tri­bos lite­rá­ri­as por­tu­gue­sas. Numa Feira do Livro, em Paris, flan­que­a­do por qua­ren­ta cole­gas lusos, decla­rou que, para o liris­mo e a sáti­ra, os seus com­pa­tri­o­tas ain­da dão para o gas­to, mas não sabem ana­li­sar nem estru­tu­rar um roman­ce. “Em par­te por pre­gui­ça, em par­te por inca­pa­ci­da­de natu­ral, assim como não temos filó­so­fos, nem com­po­si­to­res nem pin­to­res.” Naturalmente, toda regra tem uma exce­ção: por coin­ci­dên­cia, ele.

Além das res­so­nân­ci­as morais e emo­ci­o­nais da guer­ra, a obra de Antunes se ocu­pa tam­bém do com­ple­xo rito de pas­sa­gem do fim do Estado Novo auto­crá­ti­co para a implan­ta­ção da demo­cra­cia em Portugal, com os sola­van­cos soci­ais dita­dos pela ero­são dos valo­res tra­di­ci­o­nais e o adven­to da moder­ni­da­de, atra­vés da ade­são do país à União Europeia. Cessara abrup­ta­men­te a uto­pia rea­ti­va de Salazar, de uma nação arcá­di­ca, de pas­to­res e agri­cul­to­res, “orgu­lho­sa­men­te só”. Esse pro­ces­so de mudan­ça soci­al ace­le­ra­da, de ins­ta­bi­li­da­de polí­ti­ca e de alte­ra­ção dos para­dig­mas econô­mi­cos,  das men­ta­li­da­des e dos cos­tu­mes é refle­ti­do nas rela­ções fami­li­a­res. Os roman­ces de Lobo Antunes são povo­a­dos de clãs dis­fun­ci­o­nais, em que o indi­ví­duo per­deu suas refe­rên­ci­as e a comu­ni­ca­ção entre seus mem­bros é super­fi­ci­al ou nula. Os pro­ta­go­nis­tas — qua­se sem­pre anti-heróis — exer­cem pro­fis­sões libe­rais e são oriun­dos de “boas estir­pes”, espe­lhan­do a pró­pria matriz do autor.

Outro tema recor­ren­te na obra de Antunes, sobre­tu­do na pri­mei­ra fase, é a memó­ria reve­ren­ci­al de sua pri­mei­ra mulher, Maria José, com quem teve duas filhas. Depois de sepa­rar-se dela relu­tan­te­men­te, o escri­tor vol­tou ao con­ví­vio con­ju­gal, quan­do sou­be que Maria José esta­va com um cân­cer ter­mi­nal. Apesar do deses­pe­ro — ela che­gou a pesar 27 qui­los -, Antunes des­cre­ve até hoje esse perío­do como “dias feli­zes”. Casou mais duas vezes (a segun­da com uma ex-minis­tra da Cultura e a ter­cei­ra recen­te­men­te, com a dire­to­ra de uma “revis­ta do cora­ção”), mas “Zezinha” é ain­da ago­ra úni­ca espo­sa de quem fala. Depois da mor­te de Maria José, pas­sou a escre­ver todas as tar­des, por anos a fio, na casa em que ambos tinham vivi­do. A sepa­ra­ção da pri­mei­ra mulher, com o  des­fe­cho trá­gi­co, é tal­vez o lugar geo­mé­tri­co da obra de Antunes, real­çan­do sua inca­pa­ci­da­de em supe­rar esse trau­ma obses­si­vo. Um dos moti­vos para essa fixa­ção — entre outros, para não cair­mos no redu­ci­o­nis­mo uni­di­men­si­o­nal — pode ter sido o apoio ina­ba­lá­vel que Maria José pres­tou ao mari­do, então numa eta­pa de afir­ma­ção lite­rá­ria e natu­ral inse­gu­ran­ça cri­a­ti­va. Uma dádi­va que ele valo­ri­zou aci­ma de tudo, pois subs­cre­ve­ria ale­gre­men­te a opi­nião de Nabokov: “A lite­ra­tu­ra é tudo ou não vale uma hora de can­sei­ra.” Quem pen­sa o con­trá­rio não pas­sa de um daque­les paler­mas da lin­nha de mon­ta­gem de Deus.

Apesar dis­so, Lobo Antunes é um mulhe­ren­go, embo­ra recu­se o rótu­lo de liber­ti­no. Pelo con­trá­rio, defi­ne-se ino­pi­na­da­men­te como “um puri­ta­no”. Na sua infân­cia, a bibli­o­te­ca fami­li­ar con­ti­nha “livros per­mi­ti­dos” e outros que eram tran­ca­dos com cha­ve. Em seus roman­ces, nun­ca há cenas de sexo. E ele assu­me aque­la con­di­ção: “Sim, sou um puri­ta­no. Não enten­do os cha­ma­dos des­vi­os sexu­ais. Posso com­pre­en­de-los inte­lec­tu­al­men­te, mas afe­ti­va­men­te não os com­pren­do. Tenho uma par­te de con­ser­va­dor que é mui­to for­te. Quando se rea­li­zou essa espé­cie de liber­ta­ção sexu­al, depois da Revolução dos Cravos, fazi­am-se camas redon­das e eu nun­ca quis nada dis­so.” Em suma, um qua­dra­do.

Com ou sem cama redon­da, após algum tem­po de viu­vez o roman­cis­ta mudou-se para um apar­ta­men­to per­to do Cassino Estoril. Lá, pre­ci­pi­tou-se duran­te dois anos numa espé­cie de catar­se dupla e per­ver­sa: uma ati­vi­da­de sexu­al qua­se priá­pi­ca e o jogo com­pul­si­vo (“Como com­pre­en­do O joga­dor, de Dostoiévski…Conheço gen­te que pede aos por­tei­ros dos cas­si­nos que não os dei­xem entrar.”). A pro­mis­cui­da­de foi tan­ta que che­gou a ter “cli­en­tes sexu­ais”: “Elas fala­vam entre si, as que tinha esta­do comi­go e as que não tinham esta­do, e eu rece­bia pro­pos­tas… Sexualmente era mui­to esti­ma­do.” Uma noi­te, Lobo Antunes foi bus­car o escri­tor e ami­go José Cardoso Pires a um bar. Quando o viu, a dona do esta­be­le­ci­men­to apro­xi­mou-se e excla­mou, ron­ro­nan­do: “Você é a melhor cama de Lisboa!”

Segundo as suas filhas, o pai pre­fe­re as mulhe­res do tipo mane­quim, esgui­as como escul­tu­ras de Giacometti. Porém, na tal excur­são lite­rá­ria pelos Estados Unidos, ele deu uma recei­ta de mulher dife­ren­te, que não cor­res­pon­de em nada àque­la de Vinicius de Moraes (“As fei­as que me per­do­em…” etc.): “Gosto das mulhe­res por­tu­gue­sas, peque­ni­nas e de bigo­de. ” Todavia, por mais sedu­tor que tenha sido ou ain­da seja, Lobo Antunes reco­nhe­ce uma ver­da­de uni­ver­sal: todos os homens são lei­gos em mulhe­res — nem Freud des­lin­dou este con­ti­nen­te des­co­nhe­ci­do, entre­gan­do os pon­tos e pedin­do água. Antunes tam­bém dá a mão à pal­ma­tó­ria: “Para mim elas con­ti­nu­am um mis­té­rio. Nunca sabe­rei o que é ter um filho, nem o que sig­ni­fi­ca a pri­mei­ra mens­tru­a­ção, nem como é um orgas­mo femi­ni­no… Na rea­li­da­de, não sei nada.” O que não o impe­de de entrar na dan­ça todo lam­pei­ro: “A sexu­a­li­da­de sem­pre foi mui­to impor­tan­te para mim — e con­ti­nua a ser.”

Talvez por isso (pela esté­ti­ca é que não foi) ele xere­tou a coque­lu­che brega/lasciva Cinquenta tons de cin­za. E depois escu­lham­bou: “Fala de par­tes do cor­po que eu, médi­co e escri­tor, nem sabia que exis­ti­am… Agora sério: a quan­ti­da­de de coi­sas — e isso real­men­te igno­ra­va — que se podem enfi­ar em vári­as par­tes do cor­po! Achei aqui­lo com­ple­ta­men­te ofen­si­vo para as mulhe­res.”

Sobre o amor, Antunes diva­ga — no seu tim­bre pau­sa­do e melan­có­li­co — com uma sen­si­bi­li­da­de de sis­mó­gra­fo. Não fos­se ele o autor de um roman­ce inti­tu­la­do (para­fra­se­an­do Descartes) “Tratado das Paixões da Alma”. “A noção de amor varia de pes­soa para pes­soa. Muitas vezes esta­mos apai­xo­na­dos ou esta­re­mos agra­de­ci­dos por gos­ta­rem de nós? Ou será que o outro é ape­nas alguém jun­to de quem nos sen­ti­mos menos sozi­nhos? Não sei bem o que é a ver­da­de acer­ca do amor e duvi­do que haja quem sai­ba. Só tenho per­gun­tas, não tenho res­pos­tas. Até que pon­to o amor não é ape­nas a ide­a­li­za­ção de um outro e de nós mes­mos? E uma coi­sa é o amor, outra a rela­ção. Não sei se, quan­do duas pes­so­as estão na cama, não esta­rão de fato qua­tro: as duas que estão mais as duas que um e outro ima­gi­nam.”

Na casa do escri­tor (na zona his­tó­ri­ca de Lisboa), pre­vi­si­vel­men­te, os livros são como heras gal­gan­do pare­des e ame­a­çan­do os qua­dra­dos e retân­gu­los dos qua­dros do pin­tor por­tu­guês Júlio Pomar, seu ami­go do pei­to. A mor­te de Ivan Ilich, de Tolstói, Debaixo do vul­cão, de Malcolm Lowry, Tchekhov, Cortázar, Katherine Mansfield, Bulgakov, Bioy Casares, Lezama Lima. Hoje em dia, Lobo Antunes — que con­ti­nua  escre­ven­do a mão — está afas­ta­do de qual­quer mun­da­nis­mo soci­al. Praticamente não tem entre­te­ni­men­tos ou laze­res: não fre­quen­ta con­cer­tos, nem espe­tá­cu­los, não sai à noi­te nem visi­ta bares, não vai a lan­ça­men­tos, nem a fes­tas nem a rega­bo­fes lite­rá­ri­os. Segue fer­vo­ro­sa­men­te a divi­sa: a wri­ter wri­tes. É ver­da­de que apre­cia o fute­bol (é tor­ce­dor roxo  do Benfica: “Sofro hor­ro­res com esse time!”), mas não gos­ta de comer nem de beber. De vez em quan­do, dá um pas­seio a pé. Aonde vai? Às livra­ri­as, cla­ro. Acorda mui­to cedo e cer­ca de onze da noi­te já está na cama.

Confessa-se sem nenhum “sen­ti­do prá­ti­co da vida”, tal­vez para com­pen­sar o seu sen­ti­men­to trá­gi­co da vida — títu­lo de um influ­en­te ensaio do espa­nhol Miguel de Unamuno, que o escre­veu pen­san­do mais nos por­tu­gue­ses do que nos seus con­ter­râ­ne­os. Na infân­cia e ado­les­cên­cia, ouviu a mãe comen­tar mui­tas vezes: “Tão inte­li­gen­te para umas coi­sas e tão bes­ta para outras.” Durante anos a fio, quan­do Antunes ia ao super­mer­ca­do as filhas o acom­pa­nha­vam sem­pre, por­que ele nun­ca sabia o que deve­ria com­prar. “Toda a vida elas me olha­ram como se eu fos­se um invá­li­do.” Não sabe fazer um café nem um ovo cozi­do. Aliás, ali­men­ta-se como um car­ro que para numa bom­ba de gaso­li­na. “Não me inte­res­sa o pra­zer da mesa. Poderia comer a mes­mís­si­ma coi­sa duran­te uma sema­na. José Cardoso Pires, um ver­da­dei­ro gour­met,  gemia: ?Como pos­so ser ami­go de um homem que gos­ta de comi­da de avião?’” E é a pura ver­da­de: apre­cia não ape­nas a comi­da de bor­do como “aque­le ritu­al”. Coerentemente, tam­bém gos­ta do McDonald’s. Mas cur­te mes­mo seus gatos, que se esguei­ram fur­ti­va­men­te pela casa, com as cau­das em pon­to de inter­ro­ga­ção pin­ce­lan­do os móveis.

É que Lobo Antunes vive da lite­ra­tu­ra, para a lite­ra­tu­ra e pela lite­ra­tu­ra. “Se um dia não escre­vo, sin­to-me como se não tives­se toma­do banho. Escrever é como uma dro­ga. Começa-se por puro pra­zer e aca­ba-se por orga­ni­zar a vida como os dro­ga­dos, em tor­no do vício.” Uma depen­dên­cia que pode ser gra­ti­fi­can­te e dila­ce­ran­te: “Aos quin­ze anos des­co­bre-se que há uma dife­ren­ça entre boa e má escri­ta, aí come­ça o teu desas­sos­se­go, mas entre os vin­te e os vin­te e cin­co com­pre­en­des a dife­ren­ça entre a boa escri­ta e a obra de arte, aí a angús­tia é com­ple­ta e nun­ca mais aca­ba. É sem­pre o mes­mo, nun­ca se está segu­ro do seu tra­ba­lho, nun­ca se sabe se é bom ou não.” A devo­ção de Antunes à sua obra é tan­ta que jus­ti­fi­cou o seu úni­co envol­vi­men­to dire­to com a polí­ti­ca. Nos anos 80, foi can­di­da­to ao Parlamento pelo Partido Comunista Português — não por con­vic­ção ide­o­ló­gi­ca (lon­ge dis­so), mas por­que somen­te  os crí­ti­cos lite­rá­ri­os liga­dos ao PCP tinham elo­gi­a­do seus pri­mei­ros roman­ces. Nunca mais repe­tiu a expe­ri­ên­cia: “Não gos­to da dis­ci­pli­na de nenhum par­ti­do e a do PCP era hor­rí­vel. A mai­o­ria dos polí­ti­cos são pes­so­as odi­o­sas, que gos­tam dos subs­tan­ti­vos abs­tra­tos.”

Ao lon­go dos seus até ago­ra 31 volu­mes, a obra de Lobo Antunes evo­luiu no sen­ti­do de uma decan­ta­ção qua­se alquí­mi­ca da lin­gua­gem, do nó entre a expres­são, a memó­ria e o incons­ci­en­te do autor. Para inú­me­ros lei­to­res, seus roman­ces foram se tor­nan­do cada vez mais her­mé­ti­cos — embo­ra con­ti­nu­em ven­den­do como pipo­ca em mati­nê. Claro que Antunes, como qual­quer artis­ta ama­du­re­ci­do e ain­da por cima con­sa­gra­do, con­fia no seu taco. Quando um ou outro lei­tor mais per­ple­xo lhe per­gun­ta afi­nal de que tra­ta deter­mi­na­da obra sua, ele cita infa­li­vel­men­te a répli­ca epi­gra­má­ti­ca de um escri­tor por­tu­guês do sécu­lo XVIII, D. Francisco Manuel de Melo: “O livro tra­ta do que está escri­to nele.”

Os dois pri­mei­ros títu­los de Lobo Antunes — Memória de ele­fan­te e Os cus de Judas — são aque­les em que os seus temas ubí­quos (o trau­ma da guer­ra e a per­da do seu gran­de amor) des­pon­tam de modo mais explí­ci­to e auto­bi­o­grá­fi­co. “Quando foi que eu me fodi?”, inter­ro­ga-se o psi­qui­a­tra-pro­ta­go­nis­ta-nar­ra­dor de Memória de ele­fan­te, numa quei­xu­me que lem­bra outro, pra­ti­ca­men­te igual, do pro­ta­go­nis­ta de Vargas Llosa em Conversa na cate­dral.

Já em Conhecimento do infer­no e Esplendor de Portugal o autor inau­gu­ra outro ciclo, eti­que­ta­do como “epo­peia líri­ca”. Passa a inte­res­sar-lhe menos o enre­do do que a lin­gua­gem, menos a nar­ra­ti­va do que a expres­são. “Creio que Dumas tinha razão quan­do dizia dos seus livros que a intri­ga era ape­nas o pre­go onde se pen­du­ra o qua­dro.” Por outro lado, Antunes cen­su­ra em James Joyce pre­ci­sa­men­te a piro­tec­nia lin­guís­ti­ca: “A piru­e­ta pela piru­e­ta, o mos­truá­rio fan­tás­ti­co de uma imen­sa capa­ci­da­de de inven­ção ver­bal, fica um pou­co no vazio, por­que não aju­da a his­tó­ria no sen­ti­do da efi­cá­cia nar­ra­ti­va.” Bem, feliz­men­te há livros mais inte­li­gen­tes dos que os seus auto­res.

Em segui­da, asso­ma a “tri­lo­gia sobre a mor­te” (que o escri­tor pre­fe­re cha­mar de “O Ciclo de Benfica”, o bair­ro onde mora­vam os seus pais e onde pas­sou a infân­cia): A mor­te de Carlos Gardel, A ordem natu­ral das coi­sas e Tratado das pai­xões da alma. Este últi­mo foi escri­to duran­te uma esta­dia de Lobo Antunes em Berlim, onde era vizi­nho do com­po­si­tor ita­li­a­no Luigi Nono e da sua mulher Nuria Schonberg, filha de Arnold Schonberg. Por cau­sa do verão excep­ci­o­nal­men­te tór­ri­do, Antunes escre­via com­ple­ta­men­te pela­dão.

Pouco a pou­co, Lobo Antunes urde uma cons­tru­ção polifô­ni­ca, engas­ta­da numa estru­tu­ra con­tra­pon­tís­ti­ca, que enre­da e escoa múl­ti­plas marés de tem­po, espa­ço, vozes. Introduz pará­gra­fos que come­çam com letras minús­cu­las, monó­lo­gos inte­ri­o­res, nar­ra­do­res sobre­pos­tos, con­fluên­cia da rea­li­da­de com o delí­rio, o sonho e a vigí­lia. E as pro­ver­bi­ais metá­fo­ras tor­nam-se mais críp­ti­cas, até abs­tru­sas: em Manual dos inqui­si­do­res, uma lune­ta é des­cri­ta como “um tubo de inven­tar pla­ne­tas.” O tom geral é de claus­tro­fia e para­noia, como um labi­rin­to her­me­ti­ca­men­te fecha­do ou a famo­sa esca­da de Penrose, que, liga­da a si mes­ma, nun­ca ces­sa de subir e des­cer. A lei­tu­ra dos roman­ces de Lobo Antunes exi­ge cada vez mais esfor­ço do lei­tor. Por vezes, nos sen­ti­mos a avan­çar atra­vés de um pân­ta­no com lama até à cin­tu­ra — e, no pró­xi­mo capi­tu­lo, tem areia move­di­ça à nos­sa espe­ra… Há títu­los que deve­ri­am vir com um GPS.

Os roman­ces mais recen­tes expur­ga­ram os adje­ti­vos, as ima­gens, as com­pa­ra­ções. No final do ano pas­sa­do, lan­çou um novo títu­lo: Não é meia-noi­te quem quer, que se desen­ro­la em três dias, cada um com dez capí­tu­los. A pro­ta­go­nis­ta é uma cin­quen­to­na e uma encar­na­ção da lei de Murphy: já não tem um seio, o irmão mais velho se matou, o mais novo é sur­do-mudo e o pai um cacha­cei­ro, a casa dela vai ser ven­di­da por uma mixa­ria e o sui­cí­dio já pare­ce uma alter­na­ti­va sim­pá­ti­ca…

O autor diz que escre­veu o livro a ouvir uma voz femi­ni­na, que lhe dita­va as coi­sas tão depres­sa que ele por vezes mal a acom­pa­nha­va, e duran­te a escri­ta só que­ria estar com ela, para ela. Lançou a obra no fes­ti­val lite­rá­rio Escritaria, na cida­de de Penafiel, no nor­te de Portugal. Todo mun­do ficou embas­ba­ca­do, pois esse Lobo tru­cu­len­to foi um doci­nho de côco — che­gou até a decla­mar poe­sia na rua, para a gale­ra que o acom­pa­nha­va: “Agarrem aí um Álvaro de Campos!”

Há um mês, ver­teu o pon­to final em mais um roman­ce, que será publi­ca­do em 2014 e já tem nome: Caminho como uma casa em cha­mas. Numa crô­ni­ca na revis­ta Visão, suges­ti­va­men­te inti­tu­la­da Adeus, anun­ci­ou que esta­va pen­du­ran­do as chu­tei­ras enquan­to roman­cis­ta. “O meu tra­ba­lho está pra­ti­ca­men­te ter­mi­na­do. Após isso (o novo roman­ce), nin­guém mais lerá uma pala­vra pos­ta por mim num peda­ço de papel. Escrevi os livros que que­ria, da manei­ra como que­ria, dizen­do o que que­ria: não alte­ro uma linha ao que fiz e, se me des­sem mais cem anos de vida em tro­ca deles, não acei­ta­va. Era exa­ta­men­te isso que ambi­ci­o­na­va fazer. Não escre­vi  a fim de tra­zer paz a nin­guém. Não me inte­res­sou agi­tar bichos de pelú­cia dian­te de pes­so­as adul­tas. Há uns dez dias aca­bei o últi­mo. É a mão que escre­ve mas o cor­po paga caro, e o can­sa­ço físi­co de cada dia de escri­ta é imen­so. Olho o mon­te de pági­nas que fica­rá no meu lugar na paz de um cam­po que tra­tei sozi­nho: res­ta-me vol­tar para casa e fechar a por­ta.”

Como o mun­do é peque­no, o ame­ri­ca­no Philip Roth (com quem o por­tu­guês par­ti­lhou tan­tas lis­tas de favo­ri­tos ao Nobel) anun­ci­ou sua apo­sen­ta­do­ria lite­rá­ria pre­ci­sa­men­te na mes­ma sema­na. Tudo bem: em Portugal há quem duvi­de que esse Lobo dei­xa­rá de ron­dar suas musas-Chapeuzinhos Vermelhos. Afinal, para ele escre­ver é res­pi­rar. Olhos nos olhos da fera, tam­bém não ponho minha mão no fogo por esse pon­to final (leva mais jei­to de pon­to e vír­gu­la).

Em 2007, diga­nos­ti­ca­ram a Lobo Antunes um cân­cer nos intes­ti­nos. Desde então, dizem que ficou mais man­si­nho (ape­sar de, às vezes ain­da pen­sar em sui­cí­dio). O arran­ca-rabo com os mili­ta­res sus­ci­ta dúvi­das sobre essa tal nova doci­li­da­de. Mas quem sabe? Talvez ago­ra, se alguém gri­tar “É o Lobo, é o Lobo!”, já nin­guém sai­rá cor­ren­do nem cha­ma­rá os caça­do­res (nem os órfãos de Saramago). Já era tem­po de dei­xá-lo em paz com sua guer­ra. Afinal, ele sabe onde pisa: “Tenho a sen­sa­ção de que escre­vo coi­sas mai­o­res do que eu. Porque se o que faço é mui­to bom, então estou adi­an­ta­do em rela­ção ao meu tem­po e nem toda a gen­te pode me com­pre­en­der.”  Ora, então vai ver que foi por isso que Deus fez os paler­mas.

* Paulo Nogueira é escri­tor e crí­ti­co, autor do roman­ce O amor é um lugar comum.

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