Rastros dos trópicos

Música

16.10.12

Tom Zé, no fil­me Tropicália (Divulgação)

1. Prólogo ? Não se pode negli­gen­ci­ar um aspec­to geral e ine­gá­vel do fenô­me­no tro­pi­ca­lis­ta, de cer­ta for­ma rea­vi­va­do pelo lan­ça­men­to do docu­men­tá­rio Tropicália, diri­gi­do por Marcelo Machado, e por Tropicália lixo lógi­co, novo álbum de Tom Zé. Está cer­to dizer que, com a for­ça de um sobres­sal­to, ser­viu de epí­lo­go para um país que ficou para trás, mas que de cer­ta for­ma con­ti­nu­ou nos habi­tan­do. Se pode­mos atri­buir a Euclides da Cunha, Sérgio Buarque e Josué de Castro a dis­se­mi­na­ção de uma per­cep­ção agu­da da misé­ria bra­si­lei­ra, tor­nan­do incon­tor­ná­vel a ques­tão da for­ma­ção, o tro­pi­ca­lis­mo exi­biu, para o cha­ma­do gran­de públi­co, e não raro sob a for­ma de um pro­du­to pop, a cons­ci­ên­cia agu­da do con­teú­do trá­gi­co de uma cul­tu­ra ? trá­gi­co aqui no sen­ti­do nietzs­chi­a­no, isto é, como uma for­ma de vida e pen­sa­men­to depo­si­ta­da sobre a ins­ta­bi­li­da­de, pas­sí­vel de aco­lher tan­to o pra­zer como a dor, a cri­a­ção e a des­trui­ção, vida e mor­te em eter­na trans­fi­gu­ra­ção. De manei­ra seme­lhan­te ao pre­sen­te con­tem­po­râ­neo, tex­tu­ri­za­do pelas tona­li­da­des do pas­sa­do e do futu­ro, alguns seto­res da inte­li­gên­cia e do públi­co de clas­se média pas­sa­ram a enxer­gar a rea­li­da­de bra­si­lei­ra per­me­a­da por con­fli­tos. Em subs­ti­tui­ção à luta do bem con­tra o mal, do ori­gi­nal con­tra a cópia, do naci­o­nal con­tra o estran­gei­ro, a Tropicália expôs e pro­vo­cou flu­xos, con­fluên­ci­as, ade­sões, dis­sen­sos, mais ou menos gui­a­dos por uma dinâ­mi­ca polí­ti­co-cri­a­ti­va que se reno­va a cada dia. Defesa de tese no pro­gra­ma do Chacrinha, fes­ta funk na Igreja da Penha, car­na­val na obra, batu­que na cozi­nha e na sala de jan­tar, pou­co impor­ta o que sinhá quei­ra?

2. Identidade dinâ­mi­ca ? Em sua ver­ti­gi­no­sa emprei­ta­da crí­ti­co-poé­ti­ca cha­ma­da Tropicália lixo lógi­co, Tom Zé afir­ma que a Tropicália nos tirou da “era medi­e­val”, e que com o sur­gi­men­to de Gil e Caetano o Brasil teria final­men­te ingres­sa­do na segun­da revo­lu­ção indus­tri­al. Não se tra­ta ape­nas de uma iro­nia com a pre­ca­ri­e­da­de mate­ri­al e as “difi­cul­da­des téc­ni­cas” que nos pre­ga­vam a pecha do sub­de­sen­vol­vi­men­to, mas com a expres­são de um estra­nho fenô­me­no cole­ti­vo: a aqui­si­ção da cons­ci­ên­cia de seu pathos, sob o fogo cru­za­do de uma dita­du­ra pós-guer­ra. Porém, esta toma­da de cons­ci­ên­cia não se con­fi­gu­rou com a uni­for­mi­da­de triun­fan­te que dese­ja­vam os seto­res da esquer­da pre­do­mi­nan­tes da épo­ca. A Tropicália afir­mou, pelo con­trá­rio, a con­fli­tu­o­sa e frag­men­tá­ria toma­da de cons­ci­ên­cia da antro­po­fa­gia como vene­no e antí­do­to, a con­so­li­da­ção do ideá­rio coti­di­a­no como iden­ti­da­de dinâ­mi­ca (ou o cru­za­men­to de mui­tas “desi­den­ti­da­des”, “poli­den­ti­da­des”, “pro­toi­den­ti­da­des” e outras pala­vras mons­tru­o­sas). Conflituosa por­que foi de encon­tro ao puri­ta­nis­mo da cons­ci­ên­cia esquer­dis­ta e cris­tã, fazen­do fren­te, por exem­plo, às noções de “povo” e “ori­gem” que per­du­ram e sus­ten­tam ide­o­lo­gi­ca­men­te mani­fes­ta­ções cul­tu­rais como o sam­ba cari­o­ca (o “sam­ba de raiz”). Mas tam­bém por­que rea­li­zou a expo­si­ção radi­cal do “Brasil pro­fun­do”, mar­ca­do por dis­pu­tas de poder, pela ter­rí­vel desi­gual­da­de soci­al e pelo con­ser­va­do­ris­mo dos diver­sos extra­tos soci­ais, por par­te dos seto­res produtivos/especulativos, e até mes­mo da indús­tria cul­tu­ral. Por não se per­mi­tir a petri­fi­ca­ção ide­o­ló­gi­ca, por não se redu­zir ao “tro­pi­ca­lis­mo musi­cal”, o lega­do tro­pi­ca­lis­ta ain­da se espraia pela cul­tu­ra bra­si­lei­ra dos últi­mos 40 anos e vai além.

3. Uma cena ? Zona nor­te do Rio de Janeiro, vira­da dos anos 1980 para os 1990. Pelas ruas da Tijuca, jovens de clas­se média bai­xa dis­cu­tem um tema de suma impor­tân­cia, ain­da que para mui­tos não fizes­se o menor sen­ti­do: qual o melhor gru­po de rock, Beatles ou Mutantes? Discussão que de tão sim­pló­ria nem sequer se apro­xi­ma­va das reda­ções dos gran­des jor­nais e revis­tas, me intri­ga­va a for­ma sub­ser­vi­en­te com que se admi­tia de saí­da ora o absur­do da ques­tão, ora a evi­den­te supe­ri­o­ri­da­de dos Beatles. Na com­pa­ra­ção, ambos situ­a­vam-se na mes­ma pers­pec­ti­va crí­ti­co-cri­a­ti­va dos anos 1960, com uma cer­ta van­ta­gem para Os Mutantes, deten­to­res de uma pale­ta sono­ra deve­ras mais rica. Ao assis­tir ao docu­men­tá­rio Tropicália, não pude evi­tar a sur­pre­sa dian­te da cena em que o maes­tro Rogério Duprat diz algo pare­ci­do: “Mutantes era melhor que Beatles!”.

4. Tristes tró­pi­cos ? Alguns fenô­me­nos recen­tes vêm des­mis­ti­fi­can­do e vivi­fi­can­do cer­tas idei­as e prá­ti­cas liga­das à pre­sen­ça e ao mito tro­pi­ca­lis­ta. Não só a rea­bi­li­ta­ção de Tom Zé, a refor­çar as fra­tu­ras do gru­po bai­a­no, mas a redes­co­ber­ta dos Mutantes no cená­rio estran­gei­ro tam­bém des­lo­cou a abor­da­gem do movi­men­to: da for­ma­ção do Brasil às deman­das atu­ais da esté­ti­ca e da polí­ti­ca mun­di­al. Há dois anos, len­do o The Wire Primers, espé­cie de guia para a músi­ca moder­na edi­ta­do pela revis­ta bri­tâ­ni­ca Wire, notei a inclu­são da Tropicália entre os movi­men­tos mais rele­van­tes do cha­ma­do “avant rock”. A coi­sa ficou ain­da mais intri­gan­te quan­do repa­rei que, da lis­ta dos dis­cos “tro­pi­ca­lis­tas”, cons­ta­vam tra­ba­lhos que no âmbi­to naci­o­nal jamais seri­am assim con­si­de­ra­dos. Cantiga de lon­ge, de Edu Lobo, e Clube da esqui­na, de Milton Nascimento e Lô Borges, são dois des­ses dis­cos. Edu Lobo, den­tro das pola­ri­za­ções fic­ci­o­nais da polí­ti­ca cul­tu­ral bra­si­lei­ra, ali­a­ria-se supos­ta­men­te ao gru­po do rea­lis­mo polí­ti­co de esquer­da. O que teria a ver com a Tropicália? Com ouvi­dos aber­tos, des­pi­do de pos­tu­ras ide­o­ló­gi­cas, o crí­ti­co Ben Ratliff per­ce­beu ecos tro­pi­ca­lis­tas na ins­tru­men­ta­ção ousa­da e na diver­si­da­de rít­mi­ca de Cantiga de lon­ge. Para aumen­tar o estra­nha­men­to, o guia ain­da inclui Tucumã, de Vinicius Cantuária, e Barulhinho bom, de Marisa Monte. Fora de seu habi­tat natu­ral, o fenô­me­no tro­pi­ca­lis­ta se mos­tra maleá­vel, abun­dan­te, e, even­tu­al­men­te, mais pobre tam­bém, des­lo­ca­do de seu pano de fun­do polí­ti­co-cul­tu­ral.

Foto de Paulo Salomão/Editora Abril

5. Questão de ordem ? O fil­me Tropicália se ofe­re­ce como expres­são e sin­to­ma de um inte­res­se estran­gei­ro pela esté­ti­ca mul­ti­fa­ce­ta­da dos tro­pi­ca­lis­tas, aco­mo­da­da sobre o rótu­lo “avant rock”. Com tal apro­xi­ma­ção em dire­ção ao “tro­pi­ca­lis­mo musi­cal”, é pro­vá­vel que o públi­co estran­gei­ro alme­je sim­ples­men­te a frui­ção do rom­pan­te esté­ti­co pro­pos­to por esses artis­tas, o gozo de uma “fami­li­a­ri­da­de remo­ta” depo­si­ta­da sobre o pra­zer pura­men­te esté­ti­co, des­vin­cu­la­do de qual­quer con­di­ção ou pers­pec­ti­va polí­ti­ca ou crí­ti­ca. Limitado por esse inte­res­se espe­cí­fi­co, o fil­me evi­ta enca­rar o fato de que, por vezes, o enfo­que estran­gei­ro adqui­re um viés polí­ti­co, par­ti­cu­lar­men­te no que diz res­pei­to à ques­tão raci­al. Curiosamente, entre os bra­si­li­a­nis­tas, esta pare­ce ser a pedra de toque da his­tó­ria bra­si­lei­ra, o que se com­pro­va já nos anos 1960 atra­vés do inte­res­se de Thomas Skidmore acer­ca das rela­ções entre raça e naci­o­na­li­da­de no Brasil do sécu­lo XX. O mes­mo se apli­ca ao tra­ba­lho do ame­ri­ca­no Christopher Dunn, que em Brutalidade jar­dim inves­ti­ga a rela­ção dos tro­pi­ca­lis­tas com a cul­tu­ra afri­ca­na e dias­pó­ri­ca, res­sal­tan­do um apa­ren­te para­do­xo: por que a ques­tão raci­al foi dei­xa­da de lado por pra­ti­ca­men­te todos os inte­lec­tu­ais bra­si­lei­ros que se debru­ça­ram sobre o fenô­me­no? Dunn rela­ta que, ves­ti­do com uma indu­men­tá­ria dashi­ki da África Ocidental, Gil subiu ao pal­co para defen­der a can­ção “Questão de ordem” nas eli­mi­na­tó­ri­as do Festival Internacional da Canção de 1968. Recebeu a seguin­te crí­ti­ca do pro­du­tor Nelson Motta: “Gilberto Gil par­tiu para uma nova linha, mais na base do sen­so­ri­al e da emo­ção do momen­to (?) Gil deri­vou para uma linha mais afri­ca­na, mais iden­ti­fi­ca­da com a moder­na músi­ca negra inter­na­ci­o­nal, mas não está sen­do enten­di­do nem pelo públi­co, nem por mim (?)” (Brutalidade jar­dim: a Tropicália e o sur­gi­men­to da con­tra­cul­tu­ra bra­si­lei­ra, p. 154). Para o pro­du­tor, a inves­ti­da afri­ca­na pre­co­ni­za­da por Gil impli­ca­ria na asso­ci­a­ção à sen­so­ri­a­li­da­de e à espon­ta­nei­da­de de um “gri­to desor­de­na­do”, ino­por­tu­na­men­te con­trá­rio à obje­ti­vi­da­de comu­ni­ca­ti­va da pop music. Ora, tal como na dinâ­mi­ca antro­po­cên­tri­ca ine­ren­te aos gran­des cen­tros capi­ta­lis­tas dos sécu­los XIX e XX ? dinâ­mi­ca denun­ci­a­da por Lévi-Strauss em Raça e his­tó­ria ? a incor­po­ra­ção da temá­ti­ca afri­ca­na, segun­do Motta, deno­ta­ria as carac­te­rís­ti­cas da irra­ci­o­na­li­da­de e do impro­vi­so. Diante des­se cur­to-cir­cui­to entre posi­ções antagô­ni­cas, demons­tra-se que a Tropicália com­por­tou dis­pu­tas que, mes­mo estra­te­gi­ca­men­te esca­mo­te­a­das, sobre­vi­ve­ram e come­çam a dar as caras.

6. O que não é meu ? Evidentemente, não se tra­ta aqui de com­pre­en­der a Tropicália como um pro­gra­ma de supe­ra­ção tele­o­ló­gi­ca das con­tra­di­ções naci­o­nais, mas de subli­nhar a capa­ci­da­de de impro­vi­so, trans­fi­gu­ra­ção e cri­a­ção da cha­ma­da “cul­tu­ra bra­si­lei­ra”, de tal modo que até mes­mo essa noção se dis­sol­ve­ria dian­te de nos­sos mais caros para­do­xos. A Tropicália com­por­ta­va o empre­sá­rio Guilherme Araújo e o “desem­pre­sá­rio” Rogério Duarte, inser­ção capi­ta­lis­ta e sobre­co­di­fi­ca­ção soci­a­lis­ta, mas tam­bém sobre­vo­a­va esses dile­mas, tor­na­va-os rela­ti­vos e, mui­tas vezes, con­si­de­ra­va-os como sub­pro­du­tos da mio­pia naci­o­nal. Cabe subli­nhar o papel cen­tral da fra­se de Oswald de Andrade “Só me inte­res­sa o que não é meu”, pois ela abre um hori­zon­te cog­ni­ti­vo apto, se não a deco­di­fi­car, a ao menos enca­mi­nhar os enig­mas tro­pi­ca­lis­tas.

7. Tropicália sell out ? Um outro aspec­to dei­xa­do de lado pelo fil­me, mas pre­sen­te de algu­ma for­ma na pers­pec­ti­va estran­gei­ra, é a rela­ção com o capi­ta­lis­mo. Ao apon­tar para o limi­te entre a sen­si­bi­li­da­de e o opor­tu­nis­mo, entre a crí­ti­ca e a inte­gra­ção no fenô­me­no tro­pi­ca­lis­ta, Roberto Schwarz suge­re a ade­são indi­re­ta do gru­po bai­a­no aos “ven­ce­do­res da dita­du­ra mili­tar”, não somen­te por que com­par­ti­lha­ram, no que diz res­pei­to à sim­pa­tia pela cul­tu­ra nor­te-ame­ri­ca­na, os pon­tos de vis­ta e o dis­cur­so dos dita­do­res, mas tam­bém pela posi­ção ambí­gua, “sim­pa­ti­zan­do dis­cre­ta­men­te com a luta arma­da de Guevara e Marighella, sem pre­juí­zo de defen­der a ?liber­da­de econô­mi­ca’ e a ?saú­de do mer­ca­do’” (Martinha ver­sus Lucrécia: ensai­os e entre­vis­tas, p. 80). A trom­be­ta do anti­a­me­ri­ca­nis­mo aca­ba por indi­car as ten­sões intrín­se­cas aos emba­tes que se deli­ne­a­vam, ou, como o pró­prio Schwarz tra­tou de defi­nir: “o fun­do ambí­guo da moder­ni­za­ção” (“Cultura e polí­ti­ca 1964–1969”, p. 75). Absteve-se, porém, de indi­car com pre­ci­são a fir­me­za “apo­lo­gé­ti­ca” das pos­tu­ras denun­ci­a­das, se não apon­tan­do para os limi­tes ima­nen­tes ao dis­cur­so pro­vo­ca­dor dos tro­pi­ca­lis­tas. Assim, ele afir­ma que “a sime­tria na recu­sa dos dois esta­blish­ments (o da direi­ta e o da esquer­da) não era per­fei­ta.” (Martinha ver­sus Lucrécia: ensai­os e entre­vis­tas, p. 82), e com­ple­ta, irô­ni­co:

A incon­gruên­cia, no entan­to — aí a sur­pre­sa -, é um acha­do esté­ti­co, e não uma defi­ci­ên­cia da com­po­si­ção. O con­tras­te estri­den­te entre as par­tes des­com­bi­na­das agri­de o bom gos­to, mas ain­da assim, ou por isso mes­mo, o seu absur­do se mos­tra fun­ci­o­nal como repre­sen­ta­ção da atu­a­li­da­de do Brasil, de cujo des­con­jun­ta­men­to inter­no, ou moder­ni­za­ção pre­cá­ria, pas­sa a ser uma ale­go­ria das mais efi­ca­zes. (Martinha ver­sus Lucrécia: ensai­os e entre­vis­tas, p. 94)

Por outro lado, seguin­do a tri­lha aber­ta por Augusto de Campos em O balan­ço da bos­sa, Ratliff admi­te a ambi­gui­da­de das ima­gens e do dis­cur­so tro­pi­ca­lis­ta enquan­to cata­li­sa­do­ra de seu aspec­to pro­pri­a­men­te crí­ti­co. Isto impli­ca na admis­são da iro­nia ao capi­ta­lis­mo, pre­sen­te em diver­sas can­ções tro­pi­ca­lis­tas, ain­da que des­pro­vi­das da “ira san­ta” carac­te­rís­ti­ca da crí­ti­ca de Schwarz e dos cha­ma­dos com­po­si­to­res enga­ja­dos. Ao ana­li­sar o pri­mei­ro álbum de Caetano (1967), Ratliff nota que, em con­tras­te com a iro­nia triun­fa­lis­ta des­ti­la­da em The Who sell out, álbum lan­ça­do pelo quar­te­to inglês The Who no mes­mo ano, “Superbacana” e “Baby” soam “auda­ci­o­sa­men­te poé­ti­cas e vul­ne­ra­vel­men­te hones­tas”. Esta hones­ti­da­de, entre­tan­to, não con­du­ziu os tro­pi­ca­lis­tas à resig­na­ção (como supo­ria o pro­tes­tan­tis­mo anglo-saxão) ou à ade­são cega aos pres­su­pos­tos da luta de clas­ses e da orga­ni­za­ção popu­lar (como supo­ria os seto­res orga­ni­za­dos da esquer­da uspi­a­na), se não que se encar­nou em uma pos­tu­ra leve, atra­en­te e par­ti­cu­lar­men­te crí­ti­ca, que fus­ti­ga­va seto­res à esquer­da e à direi­ta. Aos mitos ine­ren­tes à con­cep­ção repres­si­va do poder (o “povo”, a “revo­lu­ção”), oriun­da do prag­ma­tis­mo mar­xis­ta da épo­ca, os tro­pi­ca­lis­tas opu­nham uma hones­ti­da­de radi­cal, detec­tan­do as fis­su­ras do “Brasil pro­fun­do”, ide­o­lo­gi­ca­men­te desa­li­nha­do e até cer­to pon­to con­des­cen­den­te com os des­man­dos dita­to­ri­ais. Se se pode, à luz da pers­pec­ti­va mar­xis­ta, iden­ti­fi­car a pos­tu­ra “ali­e­na­da” dos artis­tas mais popu­la­res como Caetano e Gil, por outro lado tor­na-se incon­tor­ná­vel a assun­ção da expres­são fran­ca e libe­ra­do­ra de suas obras de arte.

8. Tropicália/Tropicalismo ? A iden­ti­fi­ca­ção do “tro­pi­ca­lis­mo musi­cal” com a Tropicália difi­cil­men­te pode­rá ser subs­ti­tuí­da no ima­gi­ná­rio cor­ren­te, mas con­vém aten­der à manu­ten­ção da con­di­ção essen­ci­al­men­te aber­ta à con­tri­bui­ção uni­ver­sal, carac­te­rís­ti­ca do segun­do ter­mo: a uni­ver­sa­li­da­de da Tropicália, assim, apon­ta para o ethos impro­vá­vel de uma cul­tu­ra pato­ló­gi­ca e con­fli­tu­o­sa. Ao ela­bo­rar um valo­ro­so estu­do acer­ca da cul­tu­ra mar­gi­nal, tida por mui­tos como “pós-tro­pi­ca­lis­ta”, o ensaís­ta e escri­tor Frederico Coelho arti­cu­la esta per­cep­ção de for­ma abran­gen­te em seu livro, Eu, bra­si­lei­ro, con­fes­so minha cul­pa e meu peca­do, de onde extraio o tre­cho a seguir:

A Tropicália vai além dos mar­cos tem­po­rais ofi­ci­ais do tro­pi­ca­lis­mo musi­cal (outu­bro de 1967 a dezem­bro de 1968); vai além dos seus par­ti­ci­pan­tes (músi­cos bai­a­nos e pau­lis­tas, além de Nara Leão, Jorge Ben, Capinam e Torquato Neto); e vai além das suas inten­ções (rege­ne­rar o teci­do cul­tu­ral bra­si­lei­ro, cri­ti­car o popu­lis­mo naci­o­na­lis­ta, reto­mar a linha evo­lu­ti­va da músi­ca bra­si­lei­ra, inte­grar a músi­ca bra­si­lei­ra no mer­ca­do pop etc.). Surgindo por outros cami­nhos — que tam­bém pas­sa­ram pela músi­ca popu­lar -, a Tropicália che­ga em 1967 como um momen­to de radi­ca­li­za­ção cul­tu­ral que defi­niu o que viria a ser fei­to depois pela mar­gi­ná­lia. Nesse sen­ti­do, o tro­pi­ca­lis­mo musi­cal, ape­sar de ter um papel impor­tan­te, não desem­bo­ca neces­sa­ri­a­men­te na mar­gi­ná­lia; a tro­pi­cá­lia, sim. (Eu, bra­si­lei­ro, con­fes­so minha cul­pa e meu peca­do: Cultura mar­gi­nal no Brasil das déca­das de 1960 e 1970, pp. 117–118)

Esta dis­tin­ção res­soa na decla­ra­ção fun­da­men­tal de Gilberto Gil, asse­ve­ran­do que “a Tropicália era uma uto­pia, um ter­ri­tó­rio; já o Tropicalismo, o ?ismo’ mes­mo já diz, era o momen­to?”. Reiterando a pers­pec­ti­va de Coelho, Gil favo­re­ce uma per­cep­ção do fenô­me­no tro­pi­ca­lis­ta enquan­to sín­te­se dos esfor­ços em dire­ção ao pen­sa­men­to sobre a “desi­den­ti­da­de naci­o­nal”, envol­to por todos os lados pelo binô­mio revolução/reação, mas even­tu­al­men­te cap­tu­ra­do pela ascen­são de uma nova bur­gue­sia, a rebo­que do ciclo desen­vol­vi­men­tis­ta pro­mo­vi­do pelo gover­no JK. Considera-se assim a Tropicália como uma “uto­pia”, tin­gi­da inclu­si­ve por tona­li­da­des dis­tó­pi­cas, ou ain­da, como um “ter­ri­tó­rio” até cer­to pon­to suce­dâ­neo da pró­pria “ques­tão naci­o­nal”, que dis­pu­nha artis­tas, inte­lec­tu­ais, polí­ti­cos e o homem comum sob um mes­mo con­tex­to, tur­bu­len­to e cri­a­ti­vo.

9. Mal dos tró­pi­cos ? Confirma-se, assim, a per­cep­ção stan­dard de que os escri­tos de Oswald de Andrade e a hipó­te­se antro­po­fá­gi­ca cons­ti­tu­em-se como a refe­rên­cia cen­tral do fenô­me­no tro­pi­ca­lis­ta. Contudo, se con­si­de­rar­mos tal fenô­me­no como uma cha­ve inter­pre­ta­ti­va ao mes­mo tem­po mito­ló­gi­ca e con­fli­tu­o­sa sobre o Brasil, com­por­tan­do a frag­men­ta­ção e a dila­ta­ção de seus pro­ces­sos e pers­pec­ti­vas, abre-se inclu­si­ve o expe­di­en­te para que a poli­ma­teia de Mário de Andrade se tor­ne uma refe­rên­cia igual­men­te rele­van­te. Do mes­mo modo, pen­san­do em retros­pec­to, vale elen­car a sáti­ra de Gregório de Matos, os expe­ri­men­tos avant-gar­de de Machado de Assis, o roman­tis­mo bar­ro­co de Sousândrade e a lira dio­ni­sía­ca de Álvares de Azevedo como com­po­nen­tes do pro­ble­ma. E depois, o con­cre­tis­mo e o neo­con­cre­tis­mo, a gera­ção de 45, as ale­go­ri­as de Glauber Rocha, a “tro­pi­cá­lia” de Hélio Oiticica, o tea­tro de José Celso Martinez, a “pana­mé­ri­ca” de José Agrippino de Paula, o “vam­pi­ro” de Jorge Mautner (can­ção que já devo­ra­va os mitos bos­sa­no­vis­tas, com­pos­ta em 1958!), a ori­gi­na­li­da­de e as solu­ções cul­tu­rais de Jorge Ben, o rock da Jovem Guarda?

Gosto de defen­der, por exem­plo, a visão de que até mes­mo um autor como José Ramos Tinhorão se encon­tra essen­ci­al­men­te inse­ri­do em uma dinâ­mi­ca inte­lec­tu­al de pes­qui­sa e pen­sa­men­to por assim dizer “tro­pi­ca­lis­ta”, a jul­gar por sua obra, e não a par­tir das fami­ge­ra­das polê­mi­cas com a tur­ma da bos­sa e da Tropicália. Sua aná­li­se da “músi­ca de bar­bei­ros”, a des­pei­to de gri­tan­tes con­tra­ções ide­o­ló­gi­cas (bár­ba­ro x civi­li­za­do, téc­ni­ca x emo­ção, naci­o­nal x estran­gei­ro), cul­mi­na com a des­cri­ção minu­ci­o­sa de um cal­de­a­men­to entre os “pre­tos retin­tos” e a con­tri­bui­ção da músi­ca euro­peia:

Para essa ori­gi­na­li­da­de da músi­ca dos bar­bei­ros ? que o pin­tor Debret apon­ta­ria no Rio de Janeiro ao regis­trar que toca­vam val­sas e con­tra­dan­ças fran­ce­sas “em ver­da­de arran­ja­das do seu modo” ? havia con­tri­buí­do em mui­to a espon­ta­nei­da­de da for­ma­ção musi­cal de tais músi­cos popu­la­res. (História Social da Música Popular Brasileira, p. 161)

Tinhorão explo­ra a cons­ti­tui­ção de uma músi­ca espe­ci­fi­ca­men­te desen­vol­vi­da em ter­ras cari­o­cas, gui­an­do o lei­tor atra­vés dos ras­tros de pelo menos três aspec­tos entre­la­ça­dos: os músi­cos popu­la­res que exe­cu­ta­vam a “músi­ca de bar­bei­ros”; Debret, a pre­sen­ça euro­peia como “tri­bu­nal” e tes­te­mu­nha ocu­lar; e, subrep­ti­ci­a­men­te, a pre­sen­ça das “val­sas e con­tra­dan­ças fran­ce­sas”, a indi­car neces­sa­ri­a­men­te a mes­ti­ça­gem sono­ra. Evidentemente, esta con­clu­são não o tor­na um pen­sa­dor ali­nha­do ao fenô­me­no tro­pi­ca­lis­ta, mas demons­tra que, em fazen­do par­te des­te con­tex­to frag­men­tá­rio, difi­cil­men­te pode­ria se des­ven­ci­lhar de cer­tas dinâ­mi­cas inter­pre­ta­ti­vas essen­ci­al­men­te mis­ci­ge­na­do­ras. Vinculando lia­mes até então des­co­nhe­ci­dos pela mai­o­ria dos pes­qui­sa­do­res da músi­ca bra­si­lei­ra, ilu­mi­nou a devo­ra­ção cul­tu­ral dos tem­pos idos, cons­ti­tuin­do seu pró­prio ter­ri­tó­rio “antro­po­fá­gi­co”. Assim o demons­tra a obje­ti­vi­da­de, por vezes lumi­nar, de seu méto­do mar­xis­ta-hege­li­a­no à bra­si­lei­ra, com­bi­nan­do a efi­cá­cia da pes­qui­sa à ful­gu­ra­ção da des­co­ber­ta.

O fenô­me­no tro­pi­ca­lis­ta encer­ra uma per­cep­ção do cará­ter essen­ci­al­men­te mis­ci­ge­na­dor e car­na­va­li­zan­te da cha­ma­da “cul­tu­ra bra­si­lei­ra”. Contudo, é pre­ci­so não bana­li­zar este ter­ri­tó­rio: a músi­ca do Pará e de Recife não são “tro­pi­ca­lis­tas” sim­ples­men­te por­que mis­tu­ram influên­ci­as bra­si­lei­ras e estran­gei­ras, mas foram os tro­pi­ca­lis­tas os pri­mei­ros a tema­ti­zar de for­ma ampla, no âmbi­to da cul­tu­ra, as téc­ni­cas e estra­té­gi­as de sín­te­se, impro­vi­sa­ção e com­bi­na­ção empre­ga­das por nós, bra­si­lei­ros, mira­cu­lo­sa­men­te encer­ra­dos em um ter­ri­tó­rio de pro­por­ções con­ti­nen­tais e par­ti­lhan­do a mes­ma lín­gua.

10. Epílogo ? Hoje a ques­tão naci­o­nal se con­cen­tra mais dire­ta­men­te sobre a eco­no­mia (os dile­mas do “fun­do públi­co” e demais con­tra­di­ções do capi­ta­lis­mo), nos pro­ble­mas do esta­do e na polí­ti­ca em geral. Porém, em rela­ção à cul­tu­ra tor­na-se cada vez mais difí­cil defi­nir iden­ti­ta­ri­a­men­te matri­zes e con­tex­tos, pois estes se des­lo­cam e recon­fi­gu­ram dia­ri­a­men­te, em modo wire­less. Os ema­ra­nha­dos, os cru­za­men­tos, as bre­chas, a hiper­va­lo­ri­za­ção do encon­tro, da dis­so­lu­ção, da com­po­si­ção e da recom­po­si­ção, ates­tam a sobre­vi­vên­cia do dile­ma antro­po­fá­gi­co, “deci­fra-me ou devo­ro-te”, impul­si­o­na­do para além das ques­tões naci­o­nais. Fala-se há anos em um “pós-tro­pi­ca­lis­mo”, ou, como Dunn, em “tra­ços do tro­pi­ca­lis­mo” ? alguns ain­da se refe­rem aos “esti­lha­ços”… Prefiro dizer: são ras­tros dos tró­pi­cos, ou, com Celso Favaretto, “um inces­san­te movi­men­to de devo­ra­ção que recu­sa anco­rar-se em sig­ni­fi­ca­dos já fixa­dos”. Não se resu­min­do à con­ti­nui­da­de do pro­je­to moder­nis­ta, mas tam­bém não se dei­xan­do codi­fi­car pelo aca­de­mi­cis­mo dos “movi­men­tos”, a Tropicália per­du­ra por­que demons­tra que, como pers­pec­ti­va cul­tu­ral, pode ter uma insó­li­ta sobre­vi­da a par­tir da pers­pec­ti­va de outras cul­tu­ras. Porque se pres­tou a com­por­tar nos­sos mais ter­rí­veis para­do­xos, extra­po­lou o domí­nio das maze­las naci­o­nais e ini­ci­ou uma tro­ca de mão dupla com nos­sa épo­ca: de um lado, nos empres­ta uma pers­pec­ti­va libe­ra­do­ra, em vis­tas de um por­vir tão nebu­lo­so quan­to pro­mis­sor; de outro, bene­fi­cia-se pelas dinâ­mi­cas polí­ti­cas e cul­tu­rais da épo­ca, frag­men­ta-se, vivi­fi­ca-se. Uma pre­o­cu­pa­ção com a ques­tão do “novo” defi­ni­ria o impul­so tro­pi­ca­lis­ta, ou, como decla­ra Hélio Oiticica em uma cena de Tropicália, tra­ta-se, em suma, de “uma visão sobre as coi­sas”.

* Bernardo Oliveira é filó­so­fo, crí­ti­co e ensaís­ta. Doutor em Filosofia pela PUC-Rio, pós-dou­to­ran­do pela UFRJ e edi­tor asso­ci­a­do da revis­ta Trágica: Estudos sobre Nietzsche. Assina o blog Matéria, dedi­ca­do à crí­ti­ca musi­cal.

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