Ray Bradbury (1920–2012)

Literatura

06.06.12

A mor­te de Ray Bradbury é, de algu­ma for­ma, a mor­te do sécu­lo XX. De todos os escri­to­res de fic­ção cien­tí­fi­ca — um gêne­ro que exis­te, na prá­ti­ca, há pou­co mais de cem anos, Bradbury deu mais ênfa­se à prá­ti­ca lite­rá­ria do que aos deva­nei­os futu­ris­tas. Não foi visi­o­ná­rio como Arthur C. Clarke, nem prag­má­ti­co como Isaac Asimov — e, dife­ren­te des­tes, pou­co tinha de cien­tis­ta. Não aspi­rou ao gênio trans­cen­den­tal de Philip K. Dick ou ao vór­tex des­cen­den­te de William Burroughs — e, dife­ren­te des­tes, pou­co tinha de artis­ta. Encarava a escri­ta como uma prá­ti­ca, a lite­ra­tu­ra como sacra­men­to e dedi­ca­va seu suor a melho­rar esta ati­vi­da­de dia­ri­a­men­te, reli­gi­o­sa­men­te. Tanto que em boa par­te de suas foto­gra­fi­as ele apa­re­ce na fren­te de uma estan­te cheia de livros ou atrás de uma máqui­na de escre­ver por­tá­til.

Queria estar ao lado de Herman Melville (que adap­tou para o cine­ma quan­do John Huston diri­giu Moby Dick, em 1956) e Alfred Hitchcock (para quem escre­veu no seri­a­do Alfred Hitchcock Presents, que no Brasil foi tra­du­zi­do como Suspense): mes­tres da nar­ra­ti­va e da ora­tó­ria. Se clas­si­fi­ca­va como um “cole­ci­o­na­dor de metá­fo­ras” e para tal reco­men­da­va uma prá­ti­ca diá­ria monás­ti­ca: ler, sem­pre antes de dor­mir, um ensaio, um con­to e um poe­ma. “Deixem um pou­co a inter­net de lado, ela é uma gran­de por­ca­ria”, esbra­ve­ja­va em tom irô­ni­co, encar­nan­do o velho mes­tre qua­se cen­te­ná­rio que havia se tor­na­do em entre­vis­tas e pales­tras nos últi­mos anos. “Visitem mais bibli­o­te­cas, puxem livros ale­a­to­ri­a­men­te”.

Seus livros eram pedes­tres, mun­da­nos e usa­vam a fic­ção cien­tí­fi­ca como des­cul­pa para comen­tar a vida coti­di­a­na. Sua obra mais reco­nhe­ci­da, As crô­ni­cas mar­ci­a­nas, pode­ria se pas­sar em qual­quer outro pla­ne­ta, inclu­si­ve na Terra, e cen­tra­va-se mais nas ações dos per­so­na­gens do que no cená­rio inter­ga­lá­ti­co. Seu livro mais conhe­ci­do, Fahrenheit 451, é um 1984 menos épi­co, um Admirável Mundo Novo mais ime­di­a­tis­ta. É, prin­ci­pal­men­te, uma pesa­da crí­ti­ca ao MacCarthyismo que asso­la­va os EUA quan­do foi escri­to (1953).

Estranhamente oti­mis­ta num uni­ver­so lite­rá­rio pre­do­mi­nan­te­men­te pes­si­mis­ta, Bradbury cele­bra­va a lite­ra­tu­ra como a arte do encon­tro e o pra­zer da acei­ta­ção, quan­do o lei­tor des­co­bre o livro que, como dizia, “é você mes­mo”, que lhe dá uma sen­sa­ção de per­ten­ci­men­to e não de iso­la­men­to. Resta saber se tais sen­ti­men­tos irão aos pou­cos para os museus como as máqui­nas de escre­ver e os livros de papel ou se sobre­vi­ve­rão ao digi­tal ine­vi­tá­vel. É melhor, como pre­fe­ria Ray Bradbury, ser oti­mis­ta.

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