Receber e reconhecer Judith Butler no Brasil

Colunistas

29.07.15

Problemas de gêne­ro – femi­nis­mo e sub­ver­são da iden­ti­da­de, o pri­mei­ro livro da filó­so­fa nor­te-ame­ri­ca­na Judith Butler tra­du­zi­do no Brasil, mar­cou épo­ca. Lançado nos EUA em 1990 como uma com­pi­la­ção de tra­ba­lhos que vinham sen­do desen­vol­vi­dos pela auto­ra des­de o final dos anos 1980, teve sua pri­mei­ra edi­ção bra­si­lei­ra em 2003, quan­do o ques­ti­o­na­men­to dos pres­su­pos­tos até então esta­be­le­ci­dos na teo­ria femi­nis­ta foram pos­tos em ques­tão por Butler. Tratava-se prin­ci­pal­men­te de pen­sar como fazer um femi­nis­mo que não tives­se ape­nas as mulhe­res como sujei­to da eman­ci­pa­ção, ao mes­mo tem­po des­cons­truin­do a cate­go­ria mulher e ampli­an­do a polí­ti­ca femi­nis­ta para toda for­ma de subal­ter­ni­da­de.

A filósofa Judith Butler

Durante mais de 10 anos, Problemas de gêne­ro foi o úni­co títu­lo em por­tu­guês da auto­ra que desem­bar­ca no Brasil no come­ço de setem­bro para par­ti­ci­par de um con­gres­so aca­dê­mi­co (Desfazendo gêne­ro, UFBA), de um semi­ná­rio aber­to ao públi­co pro­mo­vi­do pela revis­ta Cult, e encon­tra­rá um cam­po fér­til de lei­tu­ra de sua obra no Brasil. Infelizmente, sob o mono­pó­lio da lei­tu­ra de Problemas de Gênero, que – feliz­men­te, depois de anos esgo­ta­do –  ganha sua oita­va edi­ção pela Civilização Brasileira. Com visu­al repa­gi­na­do e capa com foto da Divine, a drag que­en icô­ni­ca cuja ima­gem, embo­ra refor­ce a ideia de gêne­ro como per­for­man­ce, tam­bém dá a ideia do quan­to Problemas de gêne­ro é trans­gres­sor. O títu­lo vol­ta às livra­ri­as ao lado de Quadros de guer­ra — quan­do a vida é pas­sí­vel de luto, pela mes­ma edi­to­ra, e pode vir a ampli­ar a lei­tu­ra de Butler em outras áre­as, como a filo­so­fia polí­ti­ca, a comu­ni­ca­ção ou os estu­dos de ima­gem.

Quadros de guer­ra reú­ne um con­jun­to de tex­tos vol­ta­dos para o deba­te sobre a guer­ra EUA x Iraque, a tor­tu­ra dos pri­si­o­nei­ros da pri­são de Guantánamo, e tem como pano de fun­do o deba­te sobre que vidas têm o direi­to a serem reco­nhe­ci­das – e por­tan­to são pas­sí­veis de luto – e que vidas podem ser des­car­ta­das. Sua atu­a­li­da­de no Brasil pode ser cons­ta­ta­da todos os dias nas pági­nas do noti­ciá­rio, onde se pode ler a dife­ren­ça entre vidas que são pas­sí­veis de luto e as que não são. Butler se ocu­pa tan­to do enqua­dra­men­to da cober­tu­ra de guer­ra quan­to do uso da foto­gra­fia, reto­man­do os argu­men­tos de Susan Sontag em “Diante da dor dos outros”. É nes­se con­tex­to que a auto­ra dis­cu­te a con­di­ção de reco­nhe­ci­men­to do homos­se­xu­al, a tor­tu­ra como polí­ti­ca de esta­do, e a bio­po­lí­ti­ca como uma for­ma enge­nho­sa de con­tro­le de cor­pos sub­me­ti­dos aos mais diver­sos tipos de poder. 

Quadros de guer­ra tam­bém con­tri­bui para incluir o deba­te sobre iden­ti­da­de de gêne­ro em um con­tex­to polí­ti­co mais amplo e para des­fa­zer a ideia de que os estu­dos de gêne­ro são um cam­po secun­dá­rio na epis­te­mo­lo­gia em geral, e na filo­so­fia, em par­ti­cu­lar.  Políticas edi­to­ri­ais de tra­du­ção – ou a fal­ta delas – influ­en­ci­am a recep­ção da obra dos pen­sa­do­res estran­gei­ros no Brasil. De uma bibli­o­gra­fia de mais de 12 títu­los indi­vi­du­ais publi­ca­dos, Butler tem ape­nas três títu­los em edi­ção bra­si­lei­ra (o ter­cei­ro é O cla­mor de Antígona, lan­ça­do ano pas­sa­do pela Edusc). Anos de mono­pó­lio de Problemas de gêne­ro em por­tu­guês pode ter cri­a­do a fal­sa impres­são de que Butler é uma auto­ra exclu­si­va­men­te inte­res­sa­da em valo­ri­zar a per­for­ma­ti­vi­da­de da drag que­en como ques­ti­o­na­men­to da nor­ma­ti­vi­da­de de gêne­ro, abor­da­gem hegemô­ni­ca nos estu­dos sobre sexu­a­li­da­de.

Equívoco que se jus­ti­fi­ca pelo fato de que a recep­ção de seu pen­sa­men­to na área aca­dê­mi­ca tem se dado com as reve­rên­ci­as de pra­xe, sinal da nos­sa sub­ser­vi­ên­cia colo­ni­al ao saber que vem de fora, capaz de trans­for­mar em câno­ne até mes­mo auto­ras que sur­gi­ram para con­tes­tar o câno­ne. Suas lei­to­ras crí­ti­cas – como Beatriz Preciado e Gloria Anzaldúa – ficam à mar­gem do deba­te, sin­to­ma de que na cul­tu­ra aca­dê­mi­ca bra­si­lei­ra é de mau gos­to dis­cor­dar. Perde-se, assim, a dimen­são polí­ti­ca mais ampla do pen­sa­men­to da auto­ra e de cer­ta for­ma se reduz os pro­ble­mas de gêne­ro à afir­ma­ção de novas iden­ti­da­des.

A vin­da de Butler ao Brasil pode ser uma chan­ce de des­fa­zer alguns des­ses equí­vo­cos, como o de redu­zir seu pen­sa­men­to à crí­ti­ca ao bina­ris­mo de gêne­ro, sem tomar como polí­ti­co os ter­mos em que a ques­tão se colo­ca.  Seu deba­te em tor­no do tema da iden­ti­da­de de gêne­ro é atra­ves­sa­do pelas con­di­ções de ser reco­nhe­ci­do enquan­to sujei­to polí­ti­co – não ape­nas den­tro do bina­ris­mo masculino/feminino, mas em todas as pos­si­bi­li­da­des de iden­ti­fi­ca­ção de gêne­ro que não este­jam atre­la­das ao cor­po bio­ló­gi­co, ques­tão can­den­te dian­te do imen­so núme­ro de cirur­gi­as de mudan­ça de sexo, da medi­ca­li­za­ção da sexu­a­li­da­de e da recen­te ado­ção, no DSM V, da dis­fo­ria de gêne­ro como doen­ça men­tal.

Desde sua tese de dou­to­ra­do, Subjects of desi­re — Hegelian Reflections in Twentieth-Century France, edi­ta­da em 1987, Butler tra­ba­lha com os temas polí­ti­cos da filo­so­fia fran­ce­sa da segun­da meta­de do sécu­lo XX, espe­ci­al­men­te os apon­ta­dos por Michel Foucault e Jacques Derrida. Direito à dife­ren­ça, reco­nhe­ci­men­to, cons­tru­ção de sub­je­ti­vi­da­des e des­cons­tru­ção da iden­ti­da­de são alguns dos pon­tos de con­ta­to entre a auto­ra e o pós-estru­tu­ra­lis­mo fran­cês, a par­tir dos quais ela abor­da o tema do gêne­ro, mas não ape­nas. Nesse sen­ti­do, a vin­da de Butler pode ser­vir para que se reco­nhe­ça que fazer polí­ti­ca é tomar como polí­ti­co os pró­pri­os ter­mos em que se esta­be­le­ce o que é obje­to da polí­ti­ca.

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