Resposta à crítica sobre o Brasil na Bienal de Veneza

Arquitetura

22.12.14

O tex­to abai­xo é uma res­pos­ta à crí­ti­ca de Ana Luiza Nobre sobre o pavi­lhão bra­si­lei­ro na Bienal de Arquitetura de Veneza.

 

Ana Luiza,

Achei inte­res­san­te o seu tex­to sobre a Bienal de Arquitetura de Veneza. Acompanho sua obra e car­rei­ra, e nos­sos per­cur­sos che­ga­ram a se cru­zar quan­do ambos par­ti­ci­pa­mos, cada qual com seu tex­to, para o livro orga­ni­za­do pela Claudia Estrela Porto sobre o Lelé (Olhares, visões sobre a obra de João Filgueiras Lima, Ed. UnB, 2010) e, tam­bém, para o livro orga­ni­za­do por Kykah Bernardes e Lauro Cavalcanti sobre Sergio Bernardes (Artviva Editora, 2010).

É nor­mal que não tenha­mos a mes­ma opi­nião sobre vári­os temas e estou cer­to de que só há deba­te inte­res­san­te se hou­ver visões dife­ren­tes. Alguns de seus comen­tá­ri­os são crí­ti­cas a esco­lhas que fiz cons­ci­en­te­men­te, como cura­dor do Pavilhão do Brasil, na bus­ca de uma nar­ra­ti­va que achei inte­res­san­te dian­te do tema pro­pos­to por Rem Koolhaas (“Absorvendo a moder­ni­da­de: 1914–2014”).

Brazil: Modernity as Tradition” / 14.Mostra Internazionale di Architettura, Fundamentals, la Biennale di Venezia / Photo By Andrea Avezzù / Courtesy la Biennale di Venezia

Os cura­do­res dos pavi­lhões naci­o­nais, ao esco­lher suas pri­o­ri­da­des, sabem que qual­quer outro crí­ti­co abor­da­ria de manei­ra bem dife­ren­te o tema. Uma expo­si­ção pode pro­vo­car curi­o­si­da­de ou deba­te, pode sur­pre­en­der, divul­gar, infor­mar… Mas não con­se­gui­rá fazer tudo isso jun­to, pois, como você bem sabe, no caso da Bienal de Veneza a média de per­ma­nên­cia dos visi­tan­tes nos pavi­lhões é cur­ta, e a quan­ti­da­de de pavi­lhões e expo­si­ções visi­ta­das é enor­me.

Tinha a opção de fazer um pavi­lhão mais “con­cei­tu­al”, mas tenho ple­na cons­ci­ên­cia de que, dado o limi­ta­do conhe­ci­men­to do públi­co inter­na­ci­o­nal sobre o Brasil, só pes­so­as mui­to infor­ma­das sobre nos­sa arqui­te­tu­ra enten­de­ri­am; as demais, pro­va­vel­men­te, sai­ri­am com uma visão redu­zi­dís­si­ma da nos­sa extra­or­di­ná­ria con­tri­bui­ção no perío­do entre 1914 e 2014. Minha ideia era a de, em um mar de infor­ma­ções que é uma bie­nal com duas mega­ex­po­si­ções e mais de 60 repre­sen­ta­ções naci­o­nais, con­tri­buir para que a arqui­te­tu­ra de qua­li­da­de seja mais conhe­ci­da. Não há deba­te sem conhe­ci­men­to. As infor­ma­ções a par­tir da sele­ção crí­ti­ca de obras, fotos, tex­tos etc. pode­ri­am pro­vo­car curi­o­si­da­de e conhe­ci­men­to. Não que­ria que se dis­ses­se “vá ao pavi­lhão do Brasil por­que está bri­lhan­te”, e sim “vá ao pavi­lhão do Brasil por­que a arqui­te­tu­ra bra­si­lei­ra é bri­lhan­te”.

Adorei o pavi­lhão do Japão e o da França, mas fun­ci­o­nam por­que pelo menos 70% dos visi­tan­tes têm amplo conhe­ci­men­to da rele­vân­cia inter­na­ci­o­nal da arqui­te­tu­ra des­ses paí­ses. No caso do Brasil, no entan­to, há idei­as pre­con­ce­bi­das sobre nos­so país e enor­me – repi­to, enor­me – relu­tân­cia em atri­buir à nos­sa arqui­te­tu­ra a rele­vân­cia e a influên­cia para o sécu­lo XX que ele, como você e eu con­cor­da­mos, mere­ce­ria. Você mes­ma comen­ta o quan­to o Brasil está ausen­te da expo­si­ção geral (“Fundamentals”). Não me sur­pre­en­de, uma vez que é só folhe­ar os livros de arqui­te­tu­ra do sécu­lo XX para se ver que esta­mos incri­vel­men­te sub-repre­sen­ta­dos.

Os pavi­lhões do Chile e da Coreia são ambos mui­to bons, mas aca­bam refor­çan­do a per­cep­ção de que esses paí­ses, entre 1914 e 2014, se limi­tam cada um a uma ques­tão cen­tral já conhe­ci­da do gran­de públi­co: Allende, no Chile, e a divi­são entre Coreias do Norte e do Sul. Ambos os fenô­me­nos afe­ta­ram a arqui­te­tu­ra, mas não são arqui­te­tu­ra.

O Brasil, na minha opi­nião, não devia seguir esse cami­nho, pois teve papel infi­ni­ta­men­te mai­or na arqui­te­tu­ra moder­na. Não pre­ci­sa­va se des­vi­ar do tema de Koolhaas. A con­cen­tra­ção sobre duas ou três ques­tões cen­trais era ten­ta­do­ra, mas achei que era des­per­di­çar uma opor­tu­ni­da­de de recor­dar a nos­sa real influên­cia e o quan­to esti­ve­mos inte­gra­dos à cor­ren­te domi­nan­te (mains­tre­am) da evo­lu­ção da arqui­te­tu­ra mun­di­al em perío­do fun­da­men­tal de sua evo­lu­ção. Minha pri­mei­ra deci­são, por­tan­to, foi de não ser “con­cei­tu­al”, e sim de ser mais infor­ma­ti­vo e cheio de pro­vo­ca­ções para quem qui­ses­se ler os tex­tos e obser­var com mais deta­lhe o que era apre­sen­ta­do. Essa pri­mei­ra deci­são pode­ria tor­nar o pavi­lhão – e sabia dis­so – qua­se redun­dan­te para quem, como você, conhe­ce pro­fun­da­men­te o que está sen­do apre­sen­ta­do, a não ser que hou­ves­se uma nar­ra­ti­va mui­to cla­ra do quan­to pas­sa­mos de peri­fé­ri­cos a cen­trais no deba­te inter­na­ci­o­nal a par­tir dos anos 1930 e de como seto­res da crí­ti­ca inter­na­ci­o­nal deci­di­ram com­ba­ter a rele­vân­cia da nos­sa arqui­te­tu­ra a par­tir de 1954.

Diante de tan­tas dimen­sões que podi­am ser apre­sen­ta­das, pro­cu­rei:

- Respeitar o tema esco­lhi­do por Rem Koolhaas, “Absorvendo a moder­ni­da­de: 1914–2014”, pois o tema nos favo­re­ce e, como digo no tex­to intro­du­tó­rio, o Brasil é um dos paí­ses que absor­ve­ram os prin­cí­pi­os da arqui­te­tu­ra moder­na da manei­ra mais inte­res­san­te, e pode-se dizer, inclu­si­ve, que a arqui­te­tu­ra moder­na con­tri­buiu para o for­ta­le­ci­men­to da iden­ti­da­de naci­o­nal bra­si­lei­ra; daí o títu­lo: “Modernidade como Tradição”.

- Informar, com sele­ção crí­ti­ca de obras e tex­tos, sobre a evo­lu­ção e os deba­tes da nos­sa absor­ção da moder­ni­da­de, ten­do em con­ta que 99% do públi­co não é bra­si­lei­ro;

- Apresentar, sem­pre que pos­sí­vel, fotos de gran­de qua­li­da­de, reve­lan­do as obras da melhor manei­ra;

- Mostrar que há mui­tos pro­je­tos e mui­tos arqui­te­tos de qua­li­da­de, para acen­tu­ar que não é um país com alguns pou­cos talen­tos e sem con­ti­nui­da­de, como tan­to se diz nas publi­ca­ções inter­na­ci­o­nais;

- Criar um per­cur­so em cor­re­dor que impe­di­ria o públi­co de ape­nas atra­ves­sar sem aten­ção o pavi­lhão e sair sem nenhu­ma infor­ma­ção, ape­nas ten­do uma “sen­sa­ção”;

- Permitir que hou­ves­se vári­as lei­tu­ras da expo­si­ção: a) uma rápi­da, com a cons­ta­ta­ção da quan­ti­da­de e da qua­li­da­de da nos­sa pro­du­ção, b) outra com novas infor­ma­ções e focos espe­cí­fi­cos, como a Casa Fontes do Lucio Costa (com uma asso­no­me­tria e recons­ti­tui­ção das plan­tas des­se pro­je­to essen­ci­al e sub­va­lo­ri­za­do) e as super­qua­dras de Brasília (inclu­si­ve com a cri­a­ção das plan­tas Nolli que, acre­di­to, aju­dam a mos­trar o quão bri­lhan­tes são as super­qua­dras).

- Textos adi­ci­o­nais para cada pai­nel aces­sí­veis por qual­quer celu­lar, em três lín­guas (por­tu­guês, inglês e ita­li­a­no) por códi­go QR.

- Uma sele­ção de tre­chos de tex­tos impor­tan­tes sobre a arqui­te­tu­ra bra­si­lei­ra por diver­sos auto­res, bra­si­lei­ros e estran­gei­ros.

Não podia fazer a expo­si­ção diri­gi­da a aca­dê­mi­cos ou arqui­te­tos bra­si­lei­ros: não é o obje­ti­vo de um pavi­lhão em Veneza. A expo­si­ção, a meu ver, devia favo­re­cer pri­o­ri­ta­ri­a­men­te o seu pos­sí­vel impac­to sobre o públi­co estran­gei­ro inte­res­sa­do em arqui­te­tu­ra, boa par­te do qual não tem a míni­ma ideia da impor­tân­cia da arqui­te­tu­ra bra­si­lei­ra. Além do mais, como você comen­ta, na expo­si­ção de Koolhaas o Brasil é rele­ga­do a ter­cei­ro pla­no, o que levou um dos visi­tan­tes a me per­gun­tar se sabia que esta­ría­mos tão mal repre­sen­ta­dos na mos­tra geral, e se tinha sido isso que me havia leva­do a ter tan­tos pro­je­tos que pro­va­vam a rique­za e vari­e­da­de de obras de qua­li­da­de bra­si­lei­ras. Não sabia, mas era pre­vi­sí­vel para quem acom­pa­nha as publi­ca­ções inter­na­ci­o­nais de mai­or impac­to. Ouvi de vári­os visi­tan­tes que esta­vam impres­si­o­na­dos – alguns enver­go­nha­dos – por não saber que a arqui­te­tu­ra do Brasil pudes­se ser tão rica.

O design da expo­si­ção sem­pre pode­ria ser mais ori­gi­nal e ino­va­dor, é cla­ro, mas acho tam­bém que a nos­sa arqui­te­tu­ra bem foto­gra­fa­da (Cristiano Mascaro, Nelson Kon, Leonardo Finotti e outros talen­to­sos fotó­gra­fos bra­si­lei­ros) não pre­ci­sa­va de arti­fí­ci­os.

Quanto a alguns comen­tá­ri­os espe­cí­fi­cos seus, enten­do que se pos­sa achar que havia mui­ta coi­sa, em ordem e por cate­go­ri­as com as quais você não con­cor­de. Quanto a divi­dir por tipos de cons­tru­ções, gos­to mui­to de Aldo Rossi, mas temo que seus bri­lhan­tes escri­tos – tão influ­en­tes dos anos 1960 aos 80 – não con­se­gui­ram abo­lir a clas­si­fi­ca­ção por tipo de cons­tru­ção. Aliás, qua­se todos os arqui­te­tos (inclu­si­ve Koolhaas) em seus web­si­tes clas­si­fi­cam suas obras por tipos.

Apresentei um mapa Nolli de Brasília, pois con­si­de­rei que usar essa téc­ni­ca de repre­sen­ta­ção reve­la­va qua­li­da­de adi­ci­o­nal das super­qua­dras. E acho que cabia, sim, um lem­bre­te sobre sua ori­gem, ape­sar de ser um íco­ne para a lite­ra­tu­ra arqui­tetô­ni­ca e urba­nís­ti­ca. Quanto a fazer isso na Itália, a expo­si­ção é na Itália mas não é para ita­li­a­nos ape­nas: Veneza rece­be 365 turis­tas por habi­tan­te, a mai­o­ria estran­gei­ros, sobre­tu­do nos meses da Bienal.

Discordar de minhas pri­o­ri­da­des e do aspec­to geral da expo­si­ção é per­fei­ta­men­te com­pre­en­sí­vel. A crí­ti­ca arqui­tetô­ni­ca dá espa­ço para amplas dife­ren­ças, e ado­ro ser con­ven­ci­do por outro de que esta­va ven­do algo por um ângu­lo limi­ta­do ou incom­ple­to. Posso ter peca­do por minhas opções, mas não por “des­con­si­de­rar o enor­me esfor­ço crí­ti­co e his­to­ri­o­grá­fi­co que tem sido fei­to no país nas últi­mas déca­das” ou por “ima­tu­ri­da­de crí­ti­ca” ou fal­ta de pes­qui­sa. Não creio que cai­ba na crí­ti­ca arqui­tetô­ni­ca mani­fes­ta­ção de des­pre­zo quan­do se pro­cu­rou hones­ta­men­te con­tri­buir para a divul­ga­ção da qua­li­da­de da nos­sa arqui­te­tu­ra e acen­tu­ar o quan­to a melhor pro­du­ção bra­si­lei­ra mere­ce ter uma pre­sen­ça infi­ni­ta­men­te mai­or na his­tó­ria da arqui­te­tu­ra mun­di­al.

Para regis­tro, segue o tex­to de intro­du­ção da expo­si­ção, que esta­va na entra­da do pavi­lhão. O con­jun­to de tex­tos do pavi­lhão pode ser encon­tra­do nes­te link.

Atenciosamente,

André Corrêa do Lago

* Crédito da ima­gem de capa des­te post: Brazil Pavilion, Giardini. Foto: Markus Bachmann

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