Retrato do artista quando jovem

Cinema

06.06.13

O Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro pro­mo­ve entre 7 e 13 de junho o Ciclo Ken Loach, com a exi­bi­ção de cin­co fil­mes do acla­ma­do dire­tor bri­tâ­ni­co, den­tre eles A par­te dos anjos.

Ken Loach

No olhar aten­to e sor­ri­den­te do dire­tor dian­te da cena, ele então como pri­mei­ro espec­ta­dor do fil­me que está diri­gin­do, uma ima­gem-sín­te­se de The angel’s sha­re (ao pé da letra A par­te dos anjos, títu­lo com que se exi­be entre nós; tam­bém pode­ría­mos usar como títu­lo A dose do san­to). Na foto, uma per­fei­ta sinop­se do fil­me. Não um resu­mo da his­tó­ria, mas uma sín­te­se do modo de con­tá-la. Não uma apre­sen­ta­ção do per­so­na­gem do fil­me, mas uma pro­je­ção ante­ci­pa­da do espec­ta­dor a quem ele se diri­ge em pri­mei­ro lugar. No fil­me como um todo, um retra­to do cine­ma de Ken Loach.

A par­te dos anjos, como Meu nome é Joe, Apenas um bei­jo, À pro­cu­ra de Eric (para citar ape­nas os fil­mes que com­põem a mos­tra do Instituto Moreira Salles) e qual­quer outro fil­me do dire­tor, con­ta com intér­pre­tes não pro­fis­si­o­nais. Paul Brannigan, que faz o papel de Robbie, por exem­plo, não é ator: tra­ba­lha num pro­je­to de com­ba­te à vio­lên­cia num subúr­bio de Glasgow. Não pro­fis­si­o­nais e um bom espa­ço para a livre inven­ção dos diá­lo­gos e ges­tos dos per­so­na­gens no ins­tan­te da cena, que, a rigor, ocor­re uma úni­ca vez, qual ação viva e real, sem inter­fe­rên­cia da câme­ra, sem inter­rup­ções para a mudan­ça de pon­to de vis­ta, sem novas toma­das para dife­ren­tes rea­ções dos ato­res. Filma-se como num docu­men­tá­rio. Não há lugar para repe­ti­ções. O tra­ba­lho se apoia numa boa dose de impro­vi­sa­ção, como se o nar­ra­dor esti­ves­se dian­te de fatos não conhe­ci­dos. Nada mui­to ensai­a­do, e qua­se sem tem­po para pen­sar regis­tra-se um frag­men­to da ação, pois a cena se escon­de e foge em vez de se orga­ni­zar para a obje­ti­va da câme­ra. A ação como coi­sa viva e impre­vi­sí­vel, e o pri­mei­ro a se sur­pre­en­der e se diver­tir com ela é o pró­prio rea­li­za­dor, ali, meio den­tro e meio fora, qui­e­to num can­to, mão no quei­xo, sor­ri­den­te, como se fos­se não o dire­tor, mas um espec­ta­dor diri­gi­do pelo fil­me.

Desse modo, apoi­a­do sem­pre no mes­mo esque­ma de tra­ba­lho, Loach con­ti­nua a se dei­xar sur­pre­en­der duran­te a rea­li­za­ção de seus fil­mes (e com eles na tela, a sur­pre­en­der o espec­ta­dor) e a man­ter o entu­si­as­mo jovem da des­co­ber­ta depois de 47 fil­mes em 46 anos de cine­ma — sua pri­mei­ra rea­li­za­ção, A lágri­ma secre­ta (Poor cow), é de 1967. Na foto, por­tan­to, um cha­ma­do para o espec­ta­dor com­por­tar-se como o dire­tor. A par­te dos anjos soli­ci­ta do espec­ta­dor uma ale­gre cum­pli­ci­da­de com sor­ri­so do espec­ta­dor pri­mei­ro des­sa ane­do­ta crí­ti­ca da cri­se do desem­pre­go.

O que se dis­cu­te é uma ques­tão dra­má­ti­ca — o desem­pre­go, os jovens ingle­ses con­de­na­dos à impos­si­bi­li­da­de de um empre­go fixo e está­vel — mas o dra­ma se dis­cu­te em tom de comé­dia ligei­ra. Jovens sem empre­go rou­bam gar­ra­fas de um uís­que mui­to anti­go e raro para ven­der a um cole­ci­o­na­dor por um pre­ço espe­ci­al: o com­pra­dor deve con­se­guir tra­ba­lho regu­lar para o ladrão. A atra­ção mai­or não está nes­te epi­só­dio, nar­ra­do da meta­de para o fim do fil­me, mas nas aven­tu­ras con­ta­das na pri­mei­ra meta­de, o dia a dia de per­so­na­gens con­de­na­dos a pres­tar ser­vi­ços comu­ni­tá­ri­os depois de peque­nos (ou nem tan­to) deli­tos. “Quais os efei­tos da fal­ta de pers­pec­ti­va de tra­ba­lho na auto­es­ti­ma dos jovens?” per­gun­tam-se o dire­tor e seu rotei­ris­ta, Paul Laverty. “Apresentamos não uma res­pos­ta, mas uma ima­gem da ques­tão na his­tó­ria de uma inte­li­gên­cia des­per­di­ça­da e do esfor­ço para um reco­me­ço. Fizemos uma fusão de duas situ­a­ções dra­má­ti­cas for­tes. O jovem sem pers­pec­ti­va de tra­ba­lho é mos­tra­do no ins­tan­te em que, com o nas­ci­men­to de seu pri­mei­ro filho, se vê obri­ga­do a fazer pla­nos para o futu­ro”.

Para os jovens sem tra­ba­lho de hoje, o futu­ro aca­bou. “Nos meus fil­mes ante­ri­o­res os per­so­na­gens jovens tinham um pro­je­to, que­ri­am fazer algo pre­ci­so, luta­vam obri­ga­dos a um enor­me esfor­ço para sobre­vi­ver em meio a ruí­nas e con­cre­ti­zar seus sonhos. Agora lida­mos com per­so­na­gens impe­di­dos até mes­mo de sonhar um pro­je­to. Não que­ro dizer que con­se­guir um empre­go seja um remé­dio para todos os males, mas um tra­ba­lho regu­lar solu­ci­o­na­ria gran­de par­te do pro­ble­ma de toda a popu­la­ção, não só dos jovens. Qualquer tra­ba­lho, o que pare­ce impos­sí­vel hoje. E a pes­soa desem­pre­ga­da dei­xa de exis­tir soci­al­men­te, per­de a iden­ti­da­de, pas­sa a ser vigi­a­da como um cri­mi­no­so em poten­ci­al. Nesse con­tex­to, como cri­ar uma auto­es­ti­ma entre os jovens?”.

"A parte dos anjos" (Ken Loach)

A estra­té­gia de Robbie e seus ami­gos para con­se­guir um empre­go e recu­pe­rar um lugar na soci­e­da­de, por sua iro­nia radi­cal e sim­ples, traz à memó­ria a solu­ção ado­ta­da cer­to dia por um outro desem­pre­ga­do de Glasgow, Joe Kavanagh, em Meu nome é Joe, para melho­rar melho­rar o ren­di­men­to de seu fraquís­si­mo de seu time de fute­bol no cam­pe­o­na­to dos que estão sem tra­ba­lho. Pega numa loja de mate­ri­al espor­ti­vo cami­sas da sele­ção bra­si­lei­ra de 1970 e a equi­pe entra em cam­po super­mo­ti­va­da, com a cami­sa núme­ro 10 de Pelé, a 11 de Rivelino, a 7 de Jairzinho, para se impor aos adver­sá­ri­os. O olhar jovem de Loach acom­pa­nha Robbie e Joe com igual cum­pli­ci­da­de, soli­dá­rio com a luta diá­ria do tra­ba­lha­dor sem tra­ba­lho para recu­pe­rar a auto­es­ti­ma.

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