Rio 2016: o dia seguinte

Arquitetura

22.08.16

Chegamos ao dia seguin­te. E o Rio per­de o sen­ti­do de exis­tên­cia que o moveu pelos últi­mos seis anos e meio. A aná­li­se his­tó­ri­ca, de tão repe­ti­da, já se bana­li­zou: des­de que a cida­de pas­sou a ser uma ex-capi­tal da República, foram déca­das titu­be­an­do em lon­gos perío­dos de deca­dên­cia, até o belo 2 de outu­bro de 2009 quan­do nós, incré­du­los cari­o­cas, vimos que acon­te­ce­ria o até então impro­vá­vel – sedi­a­ría­mos as Olimpíadas. E sedi­a­mos.

Nos meses após o anún­cio, os Jogos Olímpicos eram pro­pa­gan­de­a­dos como a gran­de pana­ceia a redi­mir o Rio de Janeiro de seus pro­ble­mas crô­ni­cos (e qui­çá os do país em ple­no “espe­tá­cu­lo do cres­ci­men­to”). Meia dúzia de anos depois, às vés­pe­ras do rega­bo­fe glo­bal, a expres­são mais usa­da era “opor­tu­ni­da­de per­di­da” – um neo­cli­chê apro­pri­a­do até pelo alcai­de taga­re­la. Vale duvi­dar se de fato essa era uma opor­tu­ni­da­de ou, ao menos, refle­tir sobre que tipo de opor­tu­ni­da­de era essa.

Foi a chan­ce de divi­dir um trem da Central do Brasil com fin­lan­de­ses, que­ni­a­nos, japo­ne­ses e ven­de­do­res de sal­ga­dos e bali­nhas. A rara oca­sião em que vi entra­rem no metrô da Saens Peña, pelas 8 da manhã, duas irmãs com cami­sas bre­gas repro­du­zin­do a ban­dei­ra dos Estados Unidos, para logo depois, ain­da no Estácio, che­gar uma famí­lia de come­di­dos ale­mães tam­bém em dire­ção à esta­ção General Osório. Em um ôni­bus lota­do cor­tan­do a ave­ni­da das Américas, uma tor­ce­do­ra com jaque­ta do time rus­so e outra enro­la­da à ban­dei­ra da Ucrânia se esbar­ra­vam sem o menor con­fli­to.

É neces­sá­rio reco­nhe­cer que o que se pas­sou aqui nas últi­mas duas sema­nas foi mui­to diver­ti­do e impor­ta de ver­da­de. Prova dis­so é a judo­ca do Kosovo ou o nada­dor de Cingapura que apre­sen­ta­ram suas meda­lhas aqui con­quis­ta­das para mul­ti­dões orgu­lho­sas nas pra­ças públi­cas de paí­ses com popu­la­ção mui­to menor que a cida­de do Rio. Contudo, ao mes­mo tem­po em que o Engenhão pre­pa­ra­va-se para rece­ber um jamai­ca­no que viria a pro­ta­go­ni­zar os qua­se dez segun­dos mais impor­tan­tes da exis­tên­cia do está­dio, a pou­cos quilô­me­tros dali o cor­po de um jovem mor­to em uma ope­ra­ção poli­ci­al era esten­di­do em pro­tes­to no meio de uma ave­ni­da.

O Rio de Janeiro mudou e não mudou. Na pre­sen­te déca­da, hou­ve mui­ta cons­tru­ção, demo­li­ção, desa­pro­pri­a­ção, des­lo­ca­men­to. Há uma frag­men­ta­ção de pro­je­tos e obras, con­clu­sos e incon­clu­sos, alguns mui­to rele­van­tes, outros que são pura espe­cu­la­ção imo­bi­liá­ria tem­pe­ra­da com mar­que­ta­gem. E mui­tas áre­as man­ti­ve­ram-se tal como esta­vam há 10 anos, tal­vez com um pou­co mais de degra­da­ção: melhor exem­plo dis­so é o pro­gra­ma Morar Carioca, que sele­ci­o­nou 40 escri­tó­ri­os de arqui­te­tu­ra para pro­mo­ver inter­ven­ções urba­nas em fave­las da cida­de, porém a mai­o­ria dos arqui­te­tos nem come­çou a pro­je­tar, e pra­ti­ca­men­te não se fez obra urba­nís­ti­ca nes­sas comu­ni­da­des. Quando não hou­ve as tan­tas remo­ções.

A desi­gual­da­de soci­al cari­o­ca per­ma­ne­ceu e, na ver­da­de, o Comitê Olímpico nun­ca quis resol­vê-la. Para os que tive­ram a ilu­são da sal­va­ção soci­al, sedi­ar Olimpíadasé uma pés­si­ma estra­té­gia. Os Jogos pro­por­ci­o­nam trans­for­ma­ções para que a cida­de seja capaz de abri­gar uma quan­ti­da­de enor­me (e atí­pi­ca) de visi­tan­tes, ofe­re­cen­do a quem fica uma con­vi­vên­cia rica (e atí­pi­ca) com pes­so­as de lite­ral­men­te todo o mun­do. Com gran­de par­te dos grin­gos ten­do retor­na­do pelo Galeão, deve-se ava­li­ar que mudan­ças serão ou não incor­po­ra­das ao coti­di­a­no cari­o­ca. O que foi fei­to para o even­to é uma intrin­ca­da tota­li­da­de. Importa-nos ago­ra, nes­ses dias seguin­tes, o que fica e como fica.

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Duas que­das

O mês de abril de 2016 ficou mar­ca­do pelo desa­ba­men­to da recém-inau­gu­ra­da ciclo­via da ave­ni­da Niemeyer. Para além da fata­li­da­de, o fato expli­ci­ta os pro­ble­mas endê­mi­cos da cons­tru­ção civil bra­si­lei­ra – o des­re­gu­la­do pên­du­lo entre o lucro e o dese­nho – e os méto­dos equi­vo­ca­dos de con­tra­ta­ção de pro­je­to pelo poder públi­co.

Se, por um lado, tive­mos essa absur­da que­da fatal, há outra que­da que mere­ce des­ta­que. Nesse caso, uma que­da pro­gra­ma­da. A demo­li­ção da Perimetral é a prin­ci­pal obra olím­pi­ca e o gran­de pro­je­to urba­no fei­to no país no pre­sen­te sécu­lo. É o pon­to de infle­xão para a mudan­ça de um para­dig­ma naci­o­nal.

Desde os anos 1950, as cida­des bra­si­lei­ras cres­cem com uma ênfa­se rodo­vi­a­ris­ta. Para dar rapi­dez ao trans­por­te indi­vi­du­al no Rio, cons­truiu-se uma via expres­sa ele­va­da que sobre­pu­ja­va o teci­do urba­no do núcleo his­tó­ri­co, estra­gan­do sua rela­ção com a Baía de Guanabara que o cir­cun­da. Para mui­tos muni­cí­pi­os e esta­dos, a ima­gem de pro­gres­so ain­da é essa mul­ti­pli­ca­ção de auto­pis­tas, enquan­to até hoje o gover­no fede­ral dá incen­ti­vos sin­gu­la­res à indús­tria auto­mo­bi­lís­ti­ca.

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O des­mon­te da Perimetral per­mi­tiu a rea­pro­pri­a­ção do solo urba­no pelo pedes­tre. Foi ine­gá­vel o suces­so da Orla Conde em seus dias de “Boulevard Olímpico”, quan­do gran­des mas­sas popu­la­res reo­cu­pa­ram a bor­da do cen­tro da cida­de. Aproveitou-se a chan­ce de rever a mar­gem da Baía de Guanabara a par­tir da pra­ça Mauá, poden­do de lá andar até a Praça Quinze, con­tor­nar o mor­ro de São Bento e pas­sar pela Candelária, que vol­ta a estar de fren­te para a água. Ou seja, as vir­tu­des devem-se mais a pre­dis­po­si­ções natu­rais do lugar do que a um dese­nho espe­cí­fi­co do cal­ça­men­to. Pode-se até deba­ter o novo dese­nho urba­no, o piso, seus mate­ri­ais e o espa­ça­men­to entre árvo­res e can­tei­ros de plan­tas, porém o fun­da­men­tal, em ter­mos urba­nos, é a pri­ma­zia do pedes­tre, coa­bi­tan­do aque­le espa­ço ape­nas com novos bon­des (ou sua chi­que sigla, VLT) em tran­qui­la velo­ci­da­de.

Poderia-se elo­gi­ar a Orla Conde como a reto­ma­da de uma cul­tu­ra arqui­tetô­ni­ca cari­o­ca de excep­ci­o­nais pro­je­tos de espa­ços públi­cos, como o cal­ça­dão da praia de Copacabana e o Aterro do Flamengo. Contudo, bas­ta olhar para a área olím­pi­ca da Barra da Tijuca (isto é, Jacarepaguá) e cons­ta­ta­re­mos que pri­o­ri­zar pedes­tres – o que sig­ni­fi­ca, aci­ma de tudo, a valo­ri­za­ção da vivên­cia e da con­vi­vên­cia no espa­ço públi­co – não é uma poli­ti­ca para toda a cida­de.

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O pro­je­to olím­pi­co bipo­lar

Na cerimô­nia de aber­tu­ra, o belo voo ima­gi­ná­rio do 14-bis curi­o­sa­men­te não che­gou até o Parque Olímpico da Barra, nem mes­mo atra­ves­sou o mor­ro Dois Irmãos. A região que mais rece­beu inves­ti­men­tos e com o mai­or núme­ro de ins­ta­la­ções espor­ti­vas não esta­va na apre­sen­ta­ção vir­tu­al da “Cidade Maravilhosa” pelo alto. Será que a área olím­pi­ca, às mar­gens da lagoa de Jacarepaguá, fica lon­ge demais até para um avião fic­tí­cio?

Como qua­se tudo que con­cer­ne o Rio atu­al, a com­ple­xi­da­de ten­de a reve­lar con­tra­di­ções.

O Parque Olímpico e a Vila dos Atletas ficam na Zona Oeste, a região mais popu­lo­sa do Rio de Janeiro e com as áre­as de pior índi­ce de desen­vol­vi­men­to huma­no. Também é ver­da­de que Lucio Costa per­ce­beu há meio sécu­lo que o cen­tro geo­grá­fi­co do muni­cí­pio (para lá ide­a­li­zou um novo Centro Metropolitano) é mui­to pró­xi­mo do Parque Olímpico.

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O erro des­se pro­je­to não é o local em si. Mas o fato de que sua esco­lha se deu por um dese­jo imo­bi­liá­rio de valo­ri­za­ção da ter­ra, como o Guardian e a BBC bem escan­ca­ra­ram nas cons­tran­ge­do­ras maté­ri­as com o dono da cons­tru­to­ra Carvalho Hosken. É o raci­o­cí­nio retró­gra­do do esprai­a­men­to das cida­des em uma inter­pre­ta­ção tupi­ni­quim da subur­ba­ni­za­ção ame­ri­ca­na.

Se a demo­li­ção da Perimetral e a cons­tru­ção da Orla Conde pare­cem sim­bo­li­zar o dese­jo por uma cida­de den­si­fi­ca­da, mais com­pac­ta, que apro­vei­ta seu patrimô­nio cons­truí­do e a infra­es­tru­tu­ra exis­ten­te, vemos o opos­to na Barra da Tijuca: áre­as deso­cu­pa­das até pouquís­si­mos anos atrás, per­ten­cen­tes a incor­po­ra­do­res ávi­dos por rea­li­zar lucros estra­tos­fé­ri­cos com enor­mes gle­bas com­pra­das há déca­das por pre­ços irri­só­ri­os.

Uma das manei­ras de ana­li­sar o papel do poder públi­co nes­se caso é obser­var o sis­te­ma de BRT (ôni­bus em fai­xa exclu­si­va), solu­ção inte­li­gen­te e bara­ta para ampli­ar a malha do trans­por­te de alta capa­ci­da­de. O eixo Transcarioca, mui­to posi­ti­va­men­te, aten­de e requa­li­fi­ca vári­os bair­ros do subúr­bio dei­xa­dos em segun­do pla­no duran­te qua­se todo o sécu­lo pas­sa­do. Já os eixos Transolímpica e Transoeste escan­ca­ram a lógi­ca do des­bra­va­men­to de ter­ras, com diver­sas esta­ções em áre­as ermas (mas com pro­pri­e­tá­ri­os no car­tó­rio).

E, por mais que os BRTs tenham sis­te­ma­ti­za­do o trans­por­te públi­co, o que aumen­tou mes­mo na Zona Oeste foram o núme­ro de fai­xas para car­ros e os engar­ra­fa­men­tos. Nos últi­mos anos, foi cons­truí­do um núme­ro con­si­de­rá­vel de peque­nas “peri­me­trais” nes­sa região.

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Soma-se a isso o fato de que as dis­tân­ci­as entre os pré­di­os recen­tes con­ti­nu­am gran­des demais para serem per­cor­ri­das em cami­nha­das coti­di­a­nas. O bom fun­ci­o­na­men­to do trans­por­te para o públi­co dos Jogos, que se des­lo­ca­va expres­sa­men­te da Zona Sul ao Parque Olímpico, deve-se a uma con­di­ção exclu­si­va em que um bilhe­te diá­rio cus­ta­va 25 reais e a entra­da na nova linha de metrô depen­dia da apre­sen­ta­ção de ingres­so para algu­ma com­pe­ti­ção. No dia a dia, este será um des­lo­ca­men­to pen­du­lar que con­su­mi­rá uma quan­ti­da­de enor­me de tem­po e ener­gia dos pas­sa­gei­ros.

Devido à matriz do dese­nho urba­no da Barra que foi rati­fi­ca­da nes­sa pre­pa­ra­ção olím­pi­ca, diri­gir um car­ro con­ti­nu­a­rá a ser mais atra­ti­vo ali do que usar o trans­por­te públi­co ou cami­nhar e apro­vei­tar a vida de uma cal­ça­da (isto é, do espa­ço públi­co). A demo­li­ção da Perimetral para dar espa­ço à Orla Conde e a esco­lha do local de implan­ta­ção do Parque Olímpico são ple­na­men­te antagô­ni­cos. Tivemos um pro­je­to olím­pi­co bipo­lar.

Ilhas puras

Nos dias que ante­ce­de­ram as Olimpíadas, as man­che­tes foram ocu­pa­das pelos pro­ble­mas na cons­tru­ção da Vila dos Atletas. Esportistas dei­xa­ram os pré­di­os e pedrei­ros, ele­tri­cis­tas e enca­na­do­res che­ga­ram para con­ser­tos de últi­ma hora. Terminada a Paralimpíada, depois de abri­gar pes­so­as de mais de 200 paí­ses, a Vila Olímpica assu­mi­rá seu ver­da­dei­ro nome: Ilha Pura. Um nome racis­ta, segre­ga­ci­o­nis­ta e antiur­ba­no, porém coe­ren­te com seu pro­je­to.

O Ilha Pura não é nada ino­va­dor. Mais um con­do­mí­nio-clu­be, envol­to por lon­gos muros que estra­gam a cal­ça­da do lado de fora (caso ela exis­ta), rela­ci­o­nan­do-se com a cida­de por uma por­ta­ria reple­ta de segu­ran­ças para pro­te­ger mora­do­res de apar­ta­men­tos com varan­das-gour­met. Propagandas de edi­fí­ci­os como esses são majo­ri­tá­ri­as nos cader­nos de imó­veis dos jor­nais bra­si­lei­ros. Com 31 pré­di­os de qua­se duas deze­nas de anda­res, que tota­li­zam 3.604 uni­da­des habi­ta­ci­o­nais, o Ilha Pura mere­ce des­ta­que por de fato se trans­for­mar numa ilha apar­ta­da de qual­quer vin­cu­lo de urba­ni­da­de com seus arre­do­res. Afinal, segun­do Carlos Carvalho, ali “pre­ci­sa­va ser mora­dia nobre, e não mora­dia para os pobres”.

Tal infe­liz opção de abri­go para os atle­tas olím­pi­cos des­con­si­de­ra uma opor­tu­ni­da­de óbvia numa cida­de com um bru­tal défi­cit habi­ta­ci­o­nal. O Ilha Pura segue o mode­lo mais dano­so às das malhas urba­nas bra­si­lei­ras.

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Já no Parque Olímpico, o cur­vi­lí­neo eixo prin­ci­pal tem um dese­nho gra­ci­o­so, cor­re­to na des­ti­na­ção pri­o­ri­tá­ria aos pedes­tres e, sobre­tu­do, nas suas pro­por­ções (por ali pas­sa­ram con­for­ta­vel­men­te 100 mil pes­so­as por dia). Depois das Paralimpíadas, difi­cil­men­te essa lar­ga aleia rece­be­rá um públi­co pró­xi­mo ao de seus dias de gló­ria. Por isso, serão neces­sá­ri­as adap­ta­ções, como aumen­tar a arbo­ri­za­ção e cri­ar mais núcle­os de lazer, isto é, trans­for­má-lo em algo mais pare­ci­do a um par­que comum. O bom dese­nho ori­gi­nal facil­men­te incor­po­ra tais alte­ra­ções e, de cer­to modo, já pre­vê isso. Basta que o exe­cu­tem sem que o COI cobre cons­tan­te­men­te.

Por sua vez, os novos giná­si­os do Parque Olímpico são pro­je­tos que, em pri­mei­ra ins­tân­cia, cum­prem as mui­tas regras que comi­tês e con­fe­de­ra­ções espor­ti­vas impõem em ter­mos de dimen­são de área de jogo, núme­ro de assen­tos nas arqui­ban­ca­das, apa­re­lha­men­tos para cum­prir par­ti­cu­la­ri­da­des ambi­en­tais. Tendo isso em vis­ta, há uma cer­ta padro­ni­za­ção com as con­fi­gu­ra­ções inter­nas de Olimpíadas ante­ri­o­res. Arquitetos aca­bam ten­do cer­ta liber­da­de em algu­mas defi­ni­ções estru­tu­rais e, sobre­tu­do, na sua pele. Nesses enve­lo­pa­men­tos das are­nas per­ma­nen­tes foram usa­dos mate­ri­ais de catá­lo­go – isto é, nada de extra­or­di­ná­rio, nem de ruim. Pequenos pro­ble­mas na cir­cu­la­ção do públi­co nas Arenas Cariocas e no está­dio de tênis têm a gêne­se nos seus res­pec­ti­vos pro­je­tos, sem mai­or gra­vi­da­de. Mais uma vez, a mai­or falha está no aca­ba­men­to de pés­si­ma qua­li­da­de das cons­tru­to­ras: é visí­vel a ausên­cia de esme­ro da cons­tru­ção civil. Nesse aspec­to, somos real­men­te sub­de­sen­vol­vi­dos.

Temendo uma repe­ti­ção de Atenas 2004, mui­tos veí­cu­los da impren­sa ques­ti­o­nam a pre­fei­tu­ra sobre o que será fei­to dos giná­si­os e está­di­os. Há que se per­gun­tar isso mes­mo, porém não é o fun­da­men­tal. A vita­li­da­de do Parque Olímpico depen­de mais do que se fará nas áre­as ocu­pa­das por monu­men­tais pla­nos asfal­ta­dos, seja para esta­ci­o­na­men­to, seja para lojas tem­po­rá­ri­as e pra­ças de ali­men­ta­ção. Como foi fei­ta uma par­ce­ria públi­co-pri­va­da (PPP) para exe­cu­tar o Parque Olímpico, esses ter­re­nos de ocu­pa­ção pro­vi­só­ria duran­te os Jogos esta­rão nas mãos dos mes­mos entes do setor pri­va­do que fize­ram o Ilha Pura.

Ou seja, cons­truiu-se um enor­me espa­ço com qua­li­da­des sufi­ci­en­tes para ser um bom par­que públi­co, porém as áre­as a cons­truir após o even­to estão nas mãos de quem fez o mais absur­do con­do­mí­nio-clu­be. Daí se enten­de o moti­vo da bru­tal remo­ção da Vila Autódromo. Se repro­du­zi­da a lógi­ca pro­je­ti­va de pra­ti­ca­men­te todo pré­dio habi­ta­ci­o­nal da bai­xa­da de Jacarepaguá, o lega­do do Parque Olímpico irá para o lixo. Diante do ris­co de ele se trans­for­mar em mais um con­do­mí­nio fecha­do, cabe­rá à popu­la­ção cari­o­ca fazer o que não se fez há sete anos: um deba­te de ver­da­de para cobrar o que será rea­li­za­do ali. Será mes­mo um par­que públi­co? Esse par­que terá gra­des com con­tro­le de aces­so? Onde pre­ten­dem colo­car os muros que sepa­ra­rão os pré­di­os do eixo cur­vi­lí­neo? A boa res­pos­ta para a últi­ma per­gun­ta é que não haja muro algum. Se hou­ver, o Parque Olímpico esta­rá fada­do a virar um Ilha Pura 2.

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É pre­ci­so retor­nar à aná­li­se da Zona Portuária, mais espe­ci­fi­ca­men­te ao dito “Porto Maravilha”. Afinal, se a Orla Conde mere­ce elo­gi­os, não se pode dei­xar de notar que os bair­ros da Gamboa, Saúde e Santo Cristo têm par­te con­si­de­rá­vel de seus gran­des ter­re­nos e gal­pões sem uso. Andamos por quar­tei­rões na bela via de pedes­tres e bon­des e, por enquan­to, vemos muros com gra­fi­tes inte­res­san­tes, mas não há lojas, bote­cos, casas de suco ou res­tau­ran­tes. E pode ser que nun­ca haja.

Mudam as cons­tru­to­ras, mas a men­ta­li­da­de é simi­lar. Os mag­na­tas do con­sór­cio Porto Maravilha têm em men­te repro­du­zir ali o pior da arqui­te­tu­ra pau­lis­ta­na: uma neo-Berrini com tor­res espe­lha­das chei­as de lajes cor­po­ra­ti­vas, com tér­re­os sem qual­quer ati­vi­da­de urba­na, numa rela­ção eli­tis­ta à la Ilha Pura. Não é difí­cil encon­trar rela­tos de agres­si­vas ações da PM e da guar­da muni­ci­pal nes­sa região, já em bus­ca de tal “pure­za”. Assim, ape­sar dos esfor­ços dos órgãos de patrimô­nio, a gen­tri­fi­ca­ção (silen­ci­o­sa­men­te dese­ja­da pelos exe­cu­ti­vos-pro­pri­e­tá­ri­os) colo­ca em ris­co de extin­ção, a médio e lon­go pra­zo, a cul­tu­ra sin­gu­lar dos mor­ros da Providência e da Conceição,além do Valongo e da Pedra do Sal. Até o momen­to, outro pro­ble­ma des­sa PPP “Maravilha” é a fal­ta de mis­tu­ra de usos, em espe­ci­al de habi­ta­ções. Em suma, a manu­ten­ção da nova vita­li­da­de da Orla Conde pare­ce depen­der do fra­cas­so do Porto Maravilha.

Hora de des­mon­tar

Aliás, não teria sido melhor cons­truir a Vila dos Atletas na Zona Portuária? Ou pelo menos trans­fe­rir algu­mas ins­ta­la­ções espor­ti­vas do Parque Olímpico para os ter­re­nos deso­cu­pa­dos em ruas reur­ba­ni­za­das pró­xi­mas ao por­to? Como, por exem­plo, o óti­mo pro­je­to arqui­tetô­ni­co da are­na de han­de­bol, inte­res­san­te duran­te o even­to e ain­da mais notá­vel quan­do sua estru­tu­ra der ori­gem a qua­tro esco­las públi­cas.

A pre­fei­tu­ra quis bati­zar como “arqui­te­tu­ra nôma­de” tais estru­tu­ras des­mon­tá­veis que serão con­ver­ti­das para fun­ções mais coti­di­a­nas. Independente do nome dado, o que é inte­res­san­te na teo­ria não resul­ta neces­sa­ri­a­men­te em bom pro­je­to.

Em fren­te à are­na de han­de­bol, o está­dio de nata­ção cole­ci­o­na bizar­ri­ces. Se a remon­ta­gem do pri­mei­ro equi­pa­men­to é de fácil com­pre­en­são, o caso do segun­do é mais duvi­do­so. Nessa are­na aquá­ti­ca está o mais gro­tes­co erro arqui­tetô­ni­co das Olimpíadas: o con­jun­to de qua­tro pila­res pas­san­do no meio da arqui­ban­ca­da. Mesmo com a vis­ta extre­ma­men­te pre­ju­di­ca­da para a pis­ci­na, ain­da colo­ca­ram cadei­ras atrás das par­ru­das colu­nas. Não há jus­ti­fi­ca­ti­va de cus­to ou cál­cu­lo estru­tu­ral para esse erro cras­so de pro­je­to. Se já não fos­se o bas­tan­te, optou-se pela lógi­ca do gal­pão deco­ra­do: as facha­das foram reco­ber­tas com finas telas impres­sas com uma repro­du­ção do “Celacanto pro­vo­ca mare­mo­to” de Adriana Varejão, per­ma­nen­te­men­te expos­to em Inhotim. Parece-me ques­ti­o­ná­vel um tra­ba­lho artís­ti­co virar ban­ner publi­ci­tá­rio para escon­der as estra­nhas entra­nhas de um está­dio de nata­ção, tan­to quan­to uma arqui­te­tu­ra se apro­pri­ar de uma obra exis­ten­te a fim de bus­car algu­ma rele­vân­cia. O uso deco­ra­ti­vo é tão duvi­do­so que ven­tos for­tes ras­ga­ram a lona em pelo menos duas oca­siões, e isso não fez dife­ren­ça algu­ma.

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As arqui­te­tu­ras pre­sen­tes na Olimpíada apre­sen­ta­vam com frequên­cia algo omi­ti­do em todas as pers­pec­ti­vas ele­trô­ni­cas antes do even­to. Em fren­te a qual­quer zona espor­ti­va havia ten­das, lonas ten­si­o­na­das, gaze­bos plás­ti­cos para abri­gar apa­re­lhos de detec­ção de metal, guar­das de con­tro­le de aces­so e volun­tá­ri­os com máqui­nas por­tá­teis de veri­fi­ca­ção de ingres­so. Estes são polui­do­res das fotos e sel­fi­es tão caras a um even­to midiá­ti­co na pre­sen­te era.Na mes­ma toa­da sim­pló­ria esta­vam os qui­os­ques metá­li­cos para ven­da de ali­men­tos e as gift shops. Fato é que arqui­te­tos (e sua res­pec­ti­va aca­de­mia) pre­ci­sam assu­mir que essas negli­gen­ci­a­das estru­tu­ras de apoio tam­bém são sujei­tas a pro­je­to.

Isso tam­bém não quer dizer que os stands das empre­sas patro­ci­na­do­ras no Parque Olímpico são exem­plos posi­ti­vos: piro­tec­nia colo­ri­da gra­tui­ta para atrair novos cli­en­tes e ten­tar com­pe­tir com a arqui­te­tu­ra dos giná­si­os. É o mal daqui­lo que está entre a arqui­te­tu­ra e a publi­ci­da­de em bus­ca de resul­ta­dos pre­ten­sa­men­te cri­a­ti­vos.

Essa miría­de de ins­ta­la­ções pro­vi­só­ri­as é a essên­cia da arqui­te­tu­ra olím­pi­ca. Pelo pla­no ori­gi­nal, qua­se tudo ain­da deve­ria ser ves­ti­do com o look of the games. Vigas, pos­tes, pare­des-cegas, guar­da-cor­pos, mesas de árbi­tros e impren­sa rece­be­ri­am ban­ners e pai­néis com o design grá­fi­co a dar uma iden­ti­da­de aos Jogos do Rio. Tudo isso é fei­to mais para os espec­ta­do­res da tele­vi­são do que para o públi­co pre­sen­te. Entretanto, notou-se uma fal­ta de fôle­go no fim da orga­ni­za­ção cari­o­ca, e vári­as vigas com con­cre­ta­gens tor­tas per­ma­ne­ce­ram des­nu­das. Caso isso não expli­ci­tas­se mais uma vez a pés­si­ma cons­tru­ção civil já aqui cri­ti­ca­da, a fal­ta da “ima­gem dos jogos” até pode­ria ser uma vir­tu­de: a arqui­te­tu­ra das are­nas espor­ti­vas falan­do por si, sem badu­la­ques efê­me­ros.

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No fim, a boa “arqui­te­tu­ra nôma­de” do giná­sio de han­de­bol aca­ba por ser uma exce­ção. Uma tos­ca pas­sa­re­la fei­ta de andai­mes numa orga­ni­za­ção qua­se iló­gi­ca liga o novís­si­mo (e decen­te) ter­mi­nal de ôni­bus de Jacarepaguá ao Parque Olímpico. Por que não se con­tra­tou alguém para fazer uma estru­tu­ra pro­vi­só­ria que pelo menos demons­tras­se cer­to esfor­ço na con­cep­ção? Aqui não cabe acei­tar jus­ti­fi­ca­ti­va de fal­ta de ver­ba: a fal­ta foi de inte­li­gên­cia para a solu­ção decen­te. Fato é que essa mam­bem­be pas­sa­gem ele­va­da tem­po­rá­ria era o pri­mei­ro e o últi­mo look of the games na visi­ta ao Parque Olímpico.

Mobilidade desi­gual

O per­cur­so de trans­por­te públi­co entre a Zona Sul e o Parque Olímpico rece­beu elo­gi­os por seu bom fun­ci­o­na­men­to no perío­do do even­to. Apesar de inau­gu­ra­da na sema­na da cerimô­nia de aber­tu­ra, o metrô ope­rou bem, impres­si­o­nan­do por rea­li­zar a antes impro­vá­vel che­ga­da à Barra. No Jardim Oceânico, ôni­bus arti­cu­la­dos saíam a cada minu­to. Para todos os por­ta­do­res de ingres­sos e bilhe­tes de 25 reais, o trans­por­te olím­pi­co fun­ci­o­nou às mara­vi­lhas.

Contudo, a desi­gual­da­de de tra­ta­men­to era explí­ci­ta quan­do, de den­tro do ôni­bus olím­pi­co, pas­sa­va-se pelo ter­mi­nal Alvorada – que coa­bi­ta o anti­go Cebolão com a Cidade das Artes – e via-se as gigan­tes­cas filas de espe­ra dos ôni­bus de quem não fez par­te das Olimpíadas.

Isso não é uma exclu­si­vi­da­de do BRT. Embora seja mui­to sim­pá­ti­co andar no novo bon­de pelo Centro (para pegar a pon­te aérea no Santos Dumont é estu­pen­do), quem usar o metrô da Cinelândia em dire­ção à Central con­ti­nu­a­rá sen­do tra­ta­do como sar­di­nha enla­ta­da no horá­rio do fim do expe­di­en­te. Tal como acon­te­ce há mais de uma déca­da.

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Foi óti­mo ir ao Engenhão ver Usain Bolt ou um mara­vi­lho­so clás­si­co do fute­bol entre Argélia e Honduras. Os vagões são novís­si­mos. As esta­ções de Engenho de Dentro, Maracanã e São Cristóvão têm novos pro­je­tos cor­re­tos. Entretanto, a edi­fi­ca­ção da Central do Brasil per­ma­ne­ce deca­den­te e com sina­li­za­ção iló­gi­ca. E dói ver a con­di­ção de mui­tos trens que rumam, por exem­plo, a Belford Roxo.

O Rio de Janeiro teve avan­ços no trans­por­te públi­co nos últi­mos anos. Apesar de sobre­car­re­ga­do, o BRT Transcarioca é uma sis­te­ma­ti­za­ção neces­sá­ria. Apesar de mui­to úteis à espe­cu­la­ção imo­bi­liá­ria, os BRTs Transoeste e Transolimpica tam­bém con­tem­plam regiões caren­tes. Apesar dos cus­tos estra­tos­fé­ri­cos e dos exa­ge­ros das esta­ções de Ipanema e Leblon, a liga­ção do metrô à Barra da Tijuca é impres­cin­dí­vel.

Porém, as melho­ri­as de cer­to modo ampli­a­ram a desi­gual­da­de entre os cari­o­cas. Durante as últi­mas duas sema­nas, quem tinha a pas­sa­gem olím­pi­ca teve direi­to a uma con­di­ção espe­ci­al­men­te melhor: trens supe­ri­o­res, linha de metrô exclu­si­va, ôni­bus expres­so, em suma, um tra­ta­men­to dis­tin­to. O pro­ble­ma é que nos pró­xi­mos dias, meses e anos, os novos eixos de trans­por­te não equa­li­za­rão tais dese­qui­lí­bri­os na pres­ta­ção de ser­vi­ços. Afinal, ligar a Zona Sul ao Jardim Oceânico é apro­xi­mar duas regiões ricas. Por sua vez, a Transcarioca não tem tri­lhos, nem ôni­bus na frequên­cia neces­sá­ria. E a his­tó­ria indi­ca o quão difí­cil é acre­di­tar na melho­ra de todos os trens para Belford Roxo. Contudo, o caso do metrô tam­bém ser­ve de indi­ca­ti­vo: para supe­rar a desi­gual­da­de, é pre­ci­so cada vez mais per­fu­rar os mor­ros, mas ago­ra cri­an­do liga­ções entre bair­ros no eixo nor­te-sul do Rio.

Belos pati­nhos fei­os

Um dos pro­je­tos mais bem suce­di­dos do Rio olím­pi­co nada tem a ver com as com­pe­ti­ções da Olimpíada. O Parque de Madureira é um caso ain­da subes­ti­ma­do por crí­ti­cos pau­lis­to­cên­tri­cos e pes­qui­sa­do­res de arqui­te­tu­ra no Brasil. Mesmo sem um dese­nho arqui­tetô­ni­co rele­van­te, a apro­pri­a­ção do par­que pelas pes­so­as deve ser com­pa­ra­da ao caso do Sesc Pompeia de Lina Bo Bardi. Justifica-se isso pela sede por opções de lazer da gigan­tes­ca popu­la­ção de Madureira e dos arre­do­res do ain­da mal tra­ta­do subúr­bio cari­o­ca. Eles dei­xa­ram de ter que pegar um ôni­bus cheio e demo­ra­do para ir à praia nos bair­ros chi­ques aos fins de sema­na. A água para se banhar e refres­car está na vizi­nhan­ça. A qua­li­da­de dos equi­pa­men­tos inver­te o flu­xo de cari­o­cas em bus­ca de diver­ti­men­to. Todavia, não nos ilu­da­mos: os mora­do­res de Madureira per­ma­ne­cem seden­tos por outros ser­vi­ços bási­cos que estão lon­ge de ser satis­fa­tó­ri­os. Sedentos por serem tra­ta­dos como cida­dãos.

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Deodoro tam­bém mere­ce des­ta­que posi­ti­vo, mais pelo impon­de­rá­vel do que pelo pla­no ori­gi­nal. Da lis­ta de absur­das deman­das olím­pi­cas, des­ta­ca­va-se o reser­va­tó­rio com cer­ca de 25 mil m3 de água para as cor­re­dei­ras arti­fi­ci­ais da cano­a­gem sla­lom. Milhões de reais gas­tos para 5 dias de uso e um núme­ro peque­no de atle­tas.

Contudo, no verão de 2015, em dias de calor incle­men­te, os mora­do­res do pobre bair­ro vizi­nho de Ricardo de Albuquerque come­ça­ram a inva­dir a área do não inau­gu­ra­do Parque Radical, fazen­do do tan­que de cano­a­gem um monu­men­tal “pis­ci­não”. A pre­fei­tu­ra per­ce­beu o jus­to poten­ci­al e abriu o espa­ço ao públi­co antes mes­mo da Olimpíada. Nessa apro­pri­a­ção for­tui­ta, o des­co­nhe­ci­do equi­pa­men­to olím­pi­co aca­bou por se tor­nar a mais popu­lar das áre­as de com­pe­ti­ção.

 

Passado o pra­zo de vali­da­de do que moti­va­ra tan­tas trans­for­ma­ções no Rio de Janeiro, a cida­de entra nos dias mais rele­van­tes para quem aqui per­ma­ne­ce.

Parte do lega­do é a decre­ta­ção do esta­do de cala­mi­da­de públi­ca do gover­no flu­mi­nen­se, os milha­res de ser­vi­do­res sem salá­ri­os em dia, a UERJ e o sis­te­ma de saú­de em fran­ga­lhos. Além dis­so, a Baía de Guanabara per­ma­ne­ce poluí­da. A segu­ran­ça públi­ca con­ti­nua ocu­pan­do man­che­tes e pos­ta­gens. E, como era pre­vi­sí­vel, a desi­gual­da­de entre os cari­o­cas não foi solu­ci­o­na­da com o ciclo olím­pi­co.

Em meio ao que foi cons­truí­do de bom e ruim para os Jogos, a cida­de pre­ci­sa lidar com as con­tra­di­ções e inco­e­rên­ci­as. Há ain­da mui­to em jogo no teci­do urba­no cari­o­ca. Apagar a pira olím­pi­ca não quer dizer que che­ga­mos a uma con­clu­são.

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