Rio, cidade ausente, cidade em chamas

No cinema

28.03.14

Rio 2, de Carlos Saldanha,é um des­ses casos em que é ine­vi­tá­vel falar não ape­nas do fil­me, mas sobre­tu­do do que está em tor­no dele. E o que está em tor­no dele é o Brasil, nada mais nada menos.

Do pon­to de vis­ta da téc­ni­ca e da lin­gua­gem have­ria pou­ca coi­sa a obs­tar nes­sa ani­ma­ção extre­ma­men­te com­pe­ten­te, inven­ti­va e diver­ti­da. A boa amar­ra­ção dos vári­os focos nar­ra­ti­vos, os núme­ros musi­cais de um delí­rio geo­mé­tri­co à manei­ra de Busby Berkeley, o rit­mo con­ta­gi­an­te, o humor sagaz, as refe­rên­ci­as joco­sas que vão de Shakespeare a Gloria Gaynor (“I will sur­vi­ve”), a exu­be­rân­cia da luz e das cores, tudo fun­ci­o­na qua­se à per­fei­ção para con­fi­gu­rar um entre­te­ni­men­to hones­to e efi­caz.

 

E o eixo cen­tral da his­tó­ria — a desas­tra­da ten­ta­ti­va do urba­no Blu de se adap­tar à vida sel­va­gem com sua poche­te, seu GPS e seu cani­ve­te suí­ço — garan­te o inte­res­se e a diver­são.

Qual o pro­ble­ma, então? O pro­ble­ma é o Brasil. Vou ver se me expli­co.

Festa ofi­ci­al

Nesta con­ti­nu­a­ção, que se pas­sa qua­se toda na sel­va amazô­ni­ca, o Rio de Janeiro só apa­re­ce no come­ço, duran­te as come­mo­ra­ções do Réveillon e a pre­pa­ra­ção para o Carnaval. Aí come­ça a encren­ca. Como vocês tal­vez se lem­brem, hou­ve uma gran­de con­tro­vér­sia no últi­mo Réveillon cari­o­ca, pelo fato de toda a deco­ra­ção e pro­gra­ma­ção visu­al da fes­ta ofi­ci­al em Copacabana ter fica­do a car­go da Fox e gira­do jus­ta­men­te em tor­no de… Rio 2, o fil­me, numa pro­mis­cui­da­de no míni­mo desa­gra­dá­vel entre coi­sa públi­ca e inte­res­ses pri­va­dos.

Três meses depois da polê­mi­ca, Rio 2 entra em car­taz em nada menos que 1.270 salas, ou seja, exa­ta­men­te meta­de de todo o mer­ca­do exi­bi­dor bra­si­lei­ro. Um ver­da­dei­ro rolo com­pres­sor.

Claro que o fil­me em si não tem nada a ver com isso. Ou tal­vez tenha, de uma manei­ra indi­re­ta. Pois, se o pri­mei­ro Rio (2011) já tra­zia um cer­to gos­to turís­ti­co-pito­res­co que fazia lem­brar o Alô, ami­gos (1942) de Disney e a polí­ti­ca da boa vizi­nhan­ça EUA-América Latina, o segun­do refor­ça essa voca­ção ao abra­çar a mata tro­pi­cal e elu­dir as com­pli­ca­ções da rea­li­da­de urba­na.

Em outras pala­vras: depois de meses a fio de mani­fes­ta­ções, con­fron­tos vio­len­tos e dila­ce­ra­ção soci­al, seria mui­to mais difí­cil man­ter uma ima­gem idí­li­ca do Rio como ter­ra de um povo sor­ri­den­te e cor­di­al. Não que os rea­li­za­do­res tenham pla­ne­ja­do pre­vi­a­men­te essa saí­da pela tan­gen­te. Afinal, uma pro­du­ção como essa deve ter come­ça­do a ser con­ce­bi­da bem antes das pri­mei­ras mani­fes­ta­ções e con­fron­tos, em junho pas­sa­do. Mas essa fuga para a sel­va aca­bou sen­do pro­vi­den­ci­al.

Ecologia e fute­bol

Afinal, exce­to por alguns madei­rei­ros e pecu­a­ris­tas desal­ma­dos, quem pode ser con­tra a defe­sa da natu­re­za, das ara­ras azuis (ou ver­me­lhas, ou ver­des), das caca­tu­as, taman­duás e bichos-pre­gui­ça? (Note-se, a esse pro­pó­si­to, que no fil­me todos os ani­mais ini­ci­al­men­te ini­mi­gos e/ou vilões aca­bam se reve­lan­do “do bem”, pois estão todos no mes­mo bar­co, ou melhor, no mes­mo ecos­sis­te­ma ame­a­ça­do.)

Curiosamente, a úni­ca pas­sa­gem de Rio 2 em que há uma visí­vel for­ça­ção de bar­ra tal­vez tenha a ver com esse con­tex­to polí­ti­co-cul­tu­ral extra­fíl­mi­co. Estou me refe­rin­do à dis­pu­ta de ter­ri­tó­rio entre ara­ras ver­me­lhas e azuis que se dá por meio de… uma par­ti­da de fute­bol.

Ora, o fute­bol hoje vol­tou a ser sinô­ni­mo de Brasil, por con­ta da Copa do Mundo (e não deve ser casu­al que, na sua zigue­za­gue­an­te tra­je­tó­ria para a mata, os pro­ta­go­nis­tas pas­sem por vári­as cida­des-sede). Mas o fute­bol tam­bém está hoje no cen­tro da dis­cór­dia: a pala­vra de ordem “Não vai ter Copa” res­soa em vári­as capi­tais, por con­ta de pri­o­ri­da­des naci­o­nais que esta­ri­am sen­do rele­ga­das a segun­do pla­no dian­te da orgia de inves­ti­men­tos e des­vi­os visan­do ao Mundial.

Nada dis­so tira os méri­tos de Rio 2, mas é sem­pre bom ter em con­ta que os fil­mes não sur­gem nem se desen­vol­vem no vácuo, mas em cir­cuns­tân­ci­as his­tó­ri­cas e soci­ais bem defi­ni­das, e com elas dia­lo­gam.

Rio em cha­mas

Se a cida­de do Rio de Janeiro está qua­se ausen­te de Rio 2, ela trans­bor­da por todos os lados de Rio em cha­mas, lon­ga-metra­gem cole­ti­vo com­pos­to por uma cola­gem de seg­men­tos, sob a coor­de­na­ção geral do cine­as­ta, crí­ti­co e pro­fes­sor Daniel Caetano.

É uma obra híbri­da, urgen­te e irre­gu­lar, que entre­la­ça mate­ri­al docu­men­tal, tre­chos ence­na­dos, depoi­men­tos, ensaio, inter­ven­ção expe­ri­men­tal, repor­ta­gem etc. Em meio a uma mas­sa impres­si­o­nan­te de som e fúria da cida­de con­fla­gra­da, mate­ri­al sem dúvi­da neces­sá­rio para res­ga­tar e dis­cu­tir um momen­to de infle­xão na his­tó­ria cari­o­ca, o que mais me agra­da é tal­vez o que está nas bor­das, a lou­cu­ra e a diver­si­da­de coti­di­a­nas, a vida tor­ta e con­tra­di­tó­ria que pul­sa nas ruas com ou sem mani­fes­ta­ções dire­ta­men­te polí­ti­cas. A cida­de como labo­ra­tó­rio de expe­ri­ên­ci­as soci­ais, cul­tu­rais, exis­ten­ci­ais.

De res­to, Rio em cha­mas é em tudo o opos­to de Rio 2: em con­tras­te com os milhões de dóla­res des­te, deve ter cus­ta­do uns pou­cos milha­res de reais; em vez das 1.270 salas que exi­bem a ani­ma­ção, será vis­to nas bre­chas de um cir­cui­to mais do que alter­na­ti­vo. Será mos­tra­do em 28 de abril no cine Odeon, na Cinelândia, oca­sião em que cada espec­ta­dor ganha­rá um DVD do fil­me. Antes, tre­chos serão pro­je­ta­dos ao ar livre, em fren­te à Câmara Municipal. Depois, Rio em cha­mas irá para a inter­net e será exi­bi­do em ten­das cul­tu­rais, cine­clu­bes, asso­ci­a­ções de bair­ro etc.

Em tem­pos de asso­ci­a­ção pro­mís­cua entre o poder polí­ti­co, o poder econô­mi­co e a mídia, a guer­ri­lha cul­tu­ral é qua­se uma impo­si­ção.

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