Rio, eu te amo, entre o cinema e o turismo

No cinema

12.09.14

O Rio de Janeiro con­ti­nua lin­do. Sobretudo quan­do mos­tra­do em pla­no geral, do alto, na con­tra­luz de um ama­nhe­cer ou de um cre­pús­cu­lo. É essa a ima­gem pre­fe­ri­da de Rio, eu te amo, novo pro­du­to da fran­quia “Cities of love”, que já tinha home­na­ge­a­do Paris (em 2006) e Nova York (em 2008). 

A cida­de real, com sua pul­sa­ção, sua huma­ni­da­de úni­ca e con­tra­di­tó­ria, só apa­re­ce aqui e ali, qua­se por aci­den­te, nos dez seg­men­tos diri­gi­dos por cine­as­tas do Brasil e do exte­ri­or. No todo, é um pou­co mais que um fil­me super­fi­ci­al e turís­ti­co.

Produções cole­ti­vas, assi­na­das por dire­to­res mui­to dife­ren­tes entre si, cos­tu­mam ter altos e bai­xos. A ten­ta­ção é dizer que em Rio, eu te amo só exis­tem bai­xos, mas isso seria sacri­fi­car a jus­ti­ça para não per­der a pia­da. Há pelo menos três momen­tos de cine­ma em meio aos car­tões pos­tais, situ­a­ções-cli­chê e diá­lo­gos tolos.

Vampiro bra­si­lei­ro

O mais inte­res­san­te deles é, de lon­ge, o seg­men­to “Vidigal”, cen­tra­do num gar­çom (Tonico Pereira) que vira vam­pi­ro e ata­ca as boa­zu­das da região onde vive e tra­ba­lha. Dirigido pelo sul-core­a­no Im Sang-soo, pou­co conhe­ci­do por aqui, curi­o­sa­men­te é o mais “bra­si­lei­ro” dos epi­só­di­os, por seu humor chan­cha­des­co, seu ero­tis­mo maro­to, seu pen­dor pelo trash. Poderia ter sido fei­to por um Ivan Cardoso.

Vincent Cassel no papel do escultor de areia

Mas há gra­ça tam­bém em “Musa”, de Fernando Meirelles, um cur­ta sem pala­vras pro­ta­go­ni­za­do por um escul­tor de areia da praia (Vincent Cassel) que se apai­xo­na por uma garo­ta de quem só vemos a par­te infe­ri­or das per­nas. As ima­gens frag­men­ta­das, em sua mai­o­ria em plon­gée ver­ti­cal, com inter­ven­ções musi­cais e sono­ras inven­ti­vas, con­fi­gu­ram um balé de seres e obje­tos que fazem pen­sar em Jacques Tati, se me per­do­am o sacri­lé­gio.

Por fim, tem seu inte­res­se tam­bém, pela estra­nhe­za bru­tal, o seg­men­to “Texas”, do mexi­ca­no Guillermo Arriaga, his­tó­ria de um boxe­a­dor (Land Vieira) que per­deu o bra­ço num aci­den­te, mas mes­mo assim par­ti­ci­pa de lutas clan­des­ti­nas para cus­te­ar a ope­ra­ção que pode fazer sua espo­sa para­plé­gi­ca (Laura Neiva) vol­tar a andar. O pró­prio local onde se rea­li­zam as lutas – uma pis­ci­na olím­pi­ca vazia trans­for­ma­da em are­na sel­va­gem – é um dos acha­dos do fil­me.

Panfleto e con­for­to

O mais cons­tran­ge­dor dos seg­men­tos tal­vez seja o de José Padilha, no qual um homem (Wagner Moura) que aca­bou de per­der a namo­ra­da sobre­voa o Rio de asa-del­ta e tem uma con­ver­sa dura com o Cristo Redentor, a quem acu­sa de igno­rar a misé­ria e a vio­lên­cia que rei­nam “lá embai­xo” na cida­de. É de um pri­ma­ris­mo de pan­fle­to cole­gi­al.

No mais, é um des­fi­le de pai­sa­gens, alguns ato­res famo­sos (Harvey Keitel, Fernanda Montenegro, Rodrigo Santoro) e belas can­ções de Tom Jobim, Wilson Batista, Cartola, Luiz Gonzaga e Gilberto Gil. Em suma, até pela pre­sen­ça do dire­tor de foto­gra­fia Ricardo Della Rosa em todos os epi­só­di­os (exce­to “Texas”, foto­gra­fa­do por Adrian Teijido), pre­do­mi­na o padrão Conspiração Filmes, ou seja, agra­dá­vel, bem aca­ba­do e fre­quen­te­men­te insos­so.

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