Riocorrente, Pauliceia incendiada

No cinema

27.09.13

Riocorrente

O Festival de Brasília que ter­mi­nou na últi­ma ter­ça-fei­ra (24 de setem­bro) pre­mi­ou como melhor lon­ga de fic­ção Exilados do vul­cão, de Paula Gaitán. O júri da crí­ti­ca, do qual fiz par­te, esco­lheu Avanti popo­lo, de Michael Wahrmann, e o voto popu­lar foi para Os pobres dia­bos, de Rosemberg Cariry. Três óti­mos fil­mes, sem dúvi­da, mas o que mais me impres­si­o­nou foi outro: Riocorrente, de Paulo Sacramento, pre­mi­a­do “ape­nas” por foto­gra­fia e mon­ta­gem.

A exem­plo de O som ao redor, de Kleber Mendonça, Riocorrente é um fil­me per­fei­ta­men­te sin­to­ni­za­do com sua épo­ca e lugar. Mais que isso: é uma obra que expres­sa uma lei­tu­ra des­sa épo­ca e des­se lugar numa nar­ra­ti­va audi­o­vi­su­al poten­te e ori­gi­nal.

Paulistano até a medu­la, o fil­me de Paulo Sacramento con­den­sa a pul­sa­ção da metró­po­le, seu hor­ror e mara­vi­lha, no dra­ma de três per­so­na­gens: o ex-ladrão de auto­mó­veis Carlos (Lee Taylor), o jor­na­lis­ta cul­tu­ral Marcelo (Roberto Audio) e a inqui­e­ta Renata (Simone Iliescu), que osci­la entre os dois e inci­ta ambos a saí­rem do meca­nis­mo vici­a­do de seu coti­di­a­no.

Há um quar­to per­so­na­gem, o meni­no negro Exu (Vinicius dos Anjos), uma espé­cie de filho ado­ti­vo de Carlos. São dele o pri­mei­ro e o últi­mo atos do fil­me: um, apa­ren­te­men­te gra­tui­to (o ris­co fei­to com esti­le­te na lata­ria de um car­ro); o outro, ple­no de sig­ni­fi­ca­ção (que não vou ante­ci­par aqui para não pre­ju­di­car seu impac­to).

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Impacto sen­so­ri­al

Riocorrente se anco­ra, por um lado, numa sóli­da cons­tru­ção dra­má­ti­ca, em que a libi­do da per­so­na­gem femi­ni­na é uma for­ça cata­li­sa­do­ra que huma­ni­za a bru­ta­li­da­de de Carlos e espi­ca­ça a pas­si­vi­da­de inte­lec­tu­al e moral de Marcelo. Essa estru­tu­ra fir­me per­mi­te que a ima­gi­na­ção audi­o­vi­su­al do dire­tor pos­sa se expres­sar livre­men­te, em metá­fo­ras cru­as e impac­tan­tes, em sua mai­o­ria liga­das ao fogo: uma cabe­ça que explo­de, um car­ro que se incen­deia em alta velo­ci­da­de, o Tietê que se trans­for­ma num rio em cha­mas.

Há nes­sas ima­gens uma qua­li­da­de de cul­tu­ra pop, de comu­ni­ca­ção ime­di­a­ta, sen­so­ri­al, a enfa­ti­zar o sen­ti­men­to de urgên­cia que per­meia o fil­me.

Violência e ter­nu­ra

A pró­pria cida­de de São Paulo é per­so­na­gem cen­tral de Riocorrente, não ape­nas por­que sua caó­ti­ca geo­gra­fia é o labi­rin­to por onde erram os pro­ta­go­nis­tas, não ape­nas por­que seus ruí­dos oni­pre­sen­tes são exa­cer­ba­dos na tri­lha sono­ra, não ape­nas por­que se con­tras­tam na tela a ele­gân­cia moder­na dos pré­di­os da Paulista e os becos sór­di­dos da peri­fe­ria, mas tam­bém pela pre­sen­ça de figu­ras icô­ni­cas da cul­tu­ra pau­lis­ta­na, como a Patife Band de Paulo Barnabé, o artis­ta plás­ti­co Marcelo Grassmann (que mor­reu antes de ver o fil­me pron­to) e o músi­co Arnaldo Baptista. Este últi­mo, can­tan­do ao pia­no num show pre­sen­ci­a­do por Renata, sin­te­ti­za num momen­to subli­me a vio­lên­cia e a ter­nu­ra amal­ga­ma­das de for­ma inex­tri­cá­vel na cida­de. O cos­mo san­gren­to e a alma pura, como no ver­so de Mario Faustino.

Essas aparições/homenagens, assim como as refe­rên­ci­as ao jor­nal O Estado de S. Paulo, não são nada for­ça­das, exte­ri­o­res, mas inte­gram-se orga­ni­ca­men­te à nar­ra­ti­va, acres­cen­tan­do-lhe espes­su­ra. Por fim, cabe lem­brar que foi esse o últi­mo fil­me foto­gra­fa­do por Aloysio Raulino (1947–2013), que amou, viveu e retra­tou essa cida­de como pou­cos.

Há mui­to a ser dito ain­da sobre Riocorrente, à medi­da que seu impac­to for sen­do assi­mi­la­do e seus sen­ti­dos, deci­fra­dos. Desde já, arris­co dizer que se tra­ta do gran­de fil­me bra­si­lei­ro da tem­po­ra­da.

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