Bianca Aun

Risco e controle

No cinema

14.02.17

Estão em car­taz dois belos fil­mes bra­si­lei­ros que, por seus con­tras­tes, mos­tram a diver­si­da­de de cami­nhos que o cine­ma pode seguir, sem que um deles seja neces­sa­ri­a­men­te mais cor­re­to ou opor­tu­no do que outro. Estou falan­do de Redemoinho, estreia cine­ma­to­grá­fi­ca do acla­ma­do dire­tor de minis­sé­ri­es tele­vi­si­vas José Luiz Villamarim (Justiça, Amores rou­ba­dos), e de A cida­de onde enve­lhe­ço, pri­mei­ro lon­ga-metra­gem de fic­ção de Marília Rocha, conhe­ci­da por ensai­os poé­ti­co-docu­men­tais como Aboio e A fal­ta que me faz.

Redemoinho, base­a­do em livro de Luiz Ruffato, é ambi­en­ta­do em Cataguases, cida­de do inte­ri­or de Minas Gerais atra­ves­sa­da por uma estra­da de fer­ro. Ali, a roti­na do ope­rá­rio têx­til Luzimar (Irandhir Santos), de sua mulher (Dira Paes), de sua irmã (Cyria Coentro) e de outros per­so­na­gens de seu bair­ro é aba­la­da pela che­ga­da de um velho ami­go de infân­cia, Gildo (Júlio Andrade), que mora em São Paulo e veio visi­tar a mãe (Cássia Kis). A pre­sen­ça de Gildo traz à tona memó­ri­as lite­ral­men­te sub­mer­sas, em espe­ci­al um acon­te­ci­men­to trau­má­ti­co da infân­cia dos dois ami­gos – situ­a­ção dra­má­ti­ca que lem­bra vaga­men­te o con­tex­to de Sobre meni­nos e lobos, de Clint Eastwood.

Precisão e con­tro­le

Com uma estru­tu­ra expo­si­ti­va pre­ci­sa, qua­se um meca­nis­mo de relo­jo­a­ria, Villamarim con­cen­tra o tem­po nar­ra­ti­vo em algu­mas horas, entre o final de uma tar­de e o iní­cio de uma noi­te. Nessa uni­da­de, que simu­la o tem­po real, a alter­nân­cia de pon­tos de vis­ta (o de Luzimar, o de sua mulher, o da mãe de Gildo etc.) e os frag­men­tos de con­ver­sas e de atos vão con­fi­gu­ran­do uma rea­li­da­de não dita, ou antes inter­di­ta, que só se reve­la ple­na­men­te no final.

Há mui­ta habi­li­da­de na mani­pu­la­ção des­ses ele­men­tos e na cons­tru­ção de uma atmos­fe­ra ao mes­mo tem­po melan­có­li­ca (o tem­po que pas­sou, a vida que pode­ria ter sido) e ten­sa (as feri­das não cura­das, as ame­a­ças pen­den­tes). Para isso con­tri­bu­em: um bom apro­vei­ta­men­to da pai­sa­gem e dos ambi­en­tes, em espe­ci­al da rua que mar­geia a fer­ro­via e do rio que cor­ta a cida­de; um con­tro­le abso­lu­to da luz (foto­gra­fia de Walter Carvalho); elip­ses esper­tas, que suge­rem sem­pre que algo impor­tan­te ficou de fora; uma uti­li­za­ção expres­si­va dos ruí­dos (o trem, as máqui­nas da tece­la­gem, a chu­va etc.).

Tudo é tão “redon­do” e bem encai­xa­do que che­ga às rai­as de uma cer­ta arti­fi­ci­a­li­da­de, acen­tu­a­da pela pro­só­dia minei­ra que os ato­res de pro­ve­ni­ên­ci­as diver­sas (Pernambuco, Rio Grande do Sul, Pará, São Paulo) pro­cu­ram mime­ti­zar. O sufo­co psi­co­ló­gi­co e moral dos per­so­na­gens pare­ce encon­trar ana­lo­gia numa espé­cie de sufo­co esté­ti­co, num deter­mi­nis­mo nar­ra­ti­vo que apri­si­o­na a ação, veda os espa­ços para a res­pi­ra­ção, blo­queia as linhas de fuga. Decerto é inten­ci­o­nal.

A cida­de como per­so­na­gem

Em con­tras­te com a de Redemoinho, a for­ma de A cida­de onde enve­lhe­ço pare­ce­rá flui­da, tênue, menos uma estru­tu­ra do que um esbo­ço. Há uma situ­a­ção bási­ca: Francisca (Francisca Manuel), jovem por­tu­gue­sa que mora no cen­tro de Belo Horizonte, hos­pe­da em seu apar­ta­men­to uma anti­ga ami­ga, Teresa (Elizabete Francisca), que aca­ba de che­gar de Portugal. Em tor­no des­se fia­po de enre­do acom­pa­nha­mos um retra­to do dia a dia das per­so­na­gens em sua rela­ção com a cida­de, com uns pou­cos ami­gos, com o tra­ba­lho, com a diver­são.

É nes­ses ins­tan­tâ­ne­os de “tem­pos mor­tos”, nes­ses diá­lo­gos per­me­a­dos de silên­ci­os e de ges­tos inter­rom­pi­dos, que se expõem os dile­mas, angús­ti­as e aspi­ra­ções das pro­ta­go­nis­tas. Há humor invo­lun­tá­rio, hesi­ta­ções, fra­ses das quais só cap­ta­mos uma par­te, elip­ses drás­ti­cas, ações ina­ca­ba­das. Em mui­tas das cenas uma par­te do qua­dro está obs­truí­da por algum obje­to, por uma par­te de um cor­po, por uma pare­de, pelo movi­men­to das ruas. Um exem­plo são as pri­mei­ras ima­gens: numa ave­ni­da movi­men­ta­da, vemos se des­ta­car na mul­ti­dão de tran­seun­tes um col­chão sen­do car­re­ga­do por duas pes­so­as, só depois vemos essas pes­so­as, que são Francisca e um cole­ga de tra­ba­lho. Os per­so­na­gens não se dis­so­ci­am da cida­de à sua vol­ta.

Prevalece sem­pre uma aber­tu­ra para as imper­fei­ções e os impre­vis­tos, para os ruí­dos e impu­re­zas dos ambi­en­tes. A dire­ção de foto­gra­fia de Ivo Lopes Araujo e o dese­nho de pro­du­ção de Thaís de Campos pare­cem que­rer fazer-se invi­sí­veis, dei­xar a vida entrar na tela sem fil­tros. (Claro que é, em gran­de medi­da, uma ilu­são, mas o efei­to é esse.)

O que há de mais boni­to nes­se exer­cí­cio é, de cer­to modo, ade­rir ao olhar das pro­ta­go­nis­tas, que estão aber­tas às bele­zas miú­das do coti­di­a­no: uma por­que aca­bou de che­gar e acha tudo inte­res­san­te, até mes­mo o aca­ba­men­to por­co dos apar­ta­men­tos para alu­gar; a outra por­que sen­te sau­da­des de sua ter­ra e está pres­tes a par­tir. Um liris­mo ine­ren­te à con­di­ção tran­si­tó­ria impreg­na cada foto­gra­ma des­se fil­me sen­sí­vel, femi­ni­no, minei­ro e uni­ver­sal.

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