Robocop vai, Eles voltam

No cinema

07.03.14

É hora de falar do Robocop recau­chu­ta­do de José Padilha, que em duas sema­nas de exi­bi­ção já foi vis­to por dois milhões de bra­si­lei­ros. Refilmagem de um gran­de suces­so, pro­du­ção cara, com astros de pri­mei­ro time (Michael Keaton, Gary Oldman, Samuel Jackson) e dire­tor… bra­si­lei­ro.

http://www.youtube.com/watch?v=koQ6b7jU4PE

O que José Padilha está fazen­do ali? É evi­den­te que ele foi con­vi­da­do para o pro­je­to (eu qua­se dizia “o pro­du­to”) devi­do ao êxi­to inter­na­ci­o­nal de seus dois Tropa de eli­te (2007 e 2010), e mui­ta gen­te já notou que alguns dos temas envol­vi­dos no novo Robocop têm tudo a ver com os dois lon­gas que ser­vi­ram de car­tão de visi­ta do dire­tor: os dile­mas do com­ba­te ao cri­me, a cor­rup­ção poli­ci­al, o poder das cor­po­ra­ções, a pro­mis­cui­da­de da mídia com inte­res­ses polí­ti­cos e econô­mi­cos.

Mas há duas obser­va­ções a fazer. A pri­mei­ra é de que o rotei­ro onde estão con­ti­das essas ques­tões não é de Padilha, mas de Joshua Zetumer, que por sua vez par­tiu do rotei­ro de Edward Neumeier e Michael Miner para o pri­mei­ro Robocop (Paul Verhoeven, 1987). Ou seja, o dire­tor bra­si­lei­ro pegou o bon­de do robô andan­do.

Dois fil­mes sobre­pos­tos

A segun­da obser­va­ção é mais com­ple­xa e sujei­ta a mal-enten­di­dos. Vou ten­tar ser cla­ro. Vejo no novo Robocop como que uma sobre­po­si­ção de dois fil­mes. No pla­no dos diá­lo­gos, do dis­cur­so ver­bal, há a dis­cus­são de assun­tos como a imbri­ca­ção entre a “guer­ra ao cri­me” e a “guer­ra ao ter­ror”, a éti­ca da ciên­cia, a res­pon­sa­bi­li­da­de da mídia, os limi­tes entre o papel do Estado e os direi­tos huma­nos indi­vi­du­ais etc.

Mas a par des­se blá-blá-blá, que aliás nun­ca vai mui­to fun­do, há uma espé­cie de dis­cur­so puro da vio­lên­cia, sequên­ci­as intei­ras em que se ape­la não à razão e nem mes­mo à emo­ção do espec­ta­dor, mas a suas pul­sões mais pri­má­ri­as. Cito três casos óbvi­os: o tes­te em que o Robocop (Joel Kinnaman) enfren­ta robôs “puros” num gran­de gal­pão; a sequên­cia em que o herói vai bus­car o che­fão do cri­me em sua toca; e o con­fron­to final, que não con­vém ante­ci­par aqui.

Nos três casos, a “lin­gua­gem” ado­ta­da é a dos vide­o­ga­mes de ação vio­len­ta, em que o que impor­ta é atin­gir o mai­or núme­ro de “alvos” e dri­blar os peri­gos. Até a pro­gres­são em “níveis” de difi­cul­da­de e ame­a­ça é evi­den­te.

Violência como solu­ção

É nes­se pon­to que tal­vez se expli­que a esco­lha de José Padilha para uma pro­du­ção que, for­çan­do um pou­co a bar­ra, pode­ria ser diri­gi­da por um robô. Se bem obser­va­dos, os Tropas de eli­te — o pri­mei­ro, qua­se pavlo­vi­a­na­men­te, o segun­do de modo um pou­co mais refi­na­do — já tra­zi­am essa sobre­po­si­ção de enun­ci­a­dos: de um lado (ou em cima), uma dis­cus­são supos­ta­men­te séria dos pro­ble­mas da segu­ran­ça públi­ca; de outro lado (ou por bai­xo), uma apo­te­o­se da vio­lên­cia pura e sim­ples como meio de reso­lu­ção de ten­sões. (Para quem se inte­res­sar, eis aqui o que escre­vi sobre Tropa 2 à épo­ca do seu lan­ça­men­to).

Os defen­so­res do fil­me dirão que ele cri­ti­ca a ide­o­lo­gia impe­ri­a­lis­ta nor­te-ame­ri­ca­na, sobre­tu­do ao iro­ni­zar o dis­cur­so do ânco­ra encar­na­do por Samuel Jackson. Mas essa cari­ca­tu­ra um tan­to pesa­da gira no vazio quan­do o fil­me vali­da e cor­ro­bo­ra a ideia cen­tral de “guer­ra ao cri­me”, dis­cu­tin­do ape­nas as fili­gra­nas de como esse com­ba­te deve ser tra­ta­do (por homens, por máqui­nas, por homens-máqui­nas?). A pers­pec­ti­va mani­queís­ta bási­ca, de que há seres intrin­se­ca­men­te maus a ser exter­mi­na­dos, segue fir­me e for­te.

Há em Robocop, isto é, na ideia ori­gi­nal tra­zi­da à tela por Paul Verhoeven, um núcleo dra­má­ti­co pode­ro­so e fecun­do, que pode­ria ser desen­vol­vi­do em vári­as fren­tes.

Uma delas é a fran­kens­tei­ni­a­na rela­ção cri­a­dor-cri­a­tu­ra, que no fil­me de Padilha é ape­nas aflo­ra­da nas cri­ses e hesi­ta­ções do dou­tor Dennett Norton (Gary Oldman), figu­ra que não exis­tia no pri­mei­ro fil­me e que pode­ria ser o gran­de per­so­na­gem trá­gi­co aqui. Outra ver­ten­te inte­res­san­te a ser mais explo­ra­da em pro­fun­di­da­de seria a pró­pria sim­bi­o­se homem-máqui­na repre­sen­ta­da — e sofri­da — pelo pro­ta­go­nis­ta. Podemos ima­gi­nar o que essa situ­a­ção ren­de­ria nas mãos de um David Cronenberg. Mas evi­den­te­men­te não era essa a inten­ção dos pro­du­to­res que inje­ta­ram US$ 150 milhões nes­se pro­du­to, digo, pro­je­to. Para o que eles que­ri­am, José Padilha está mais do que bom.

Pernambuco, de novo

Com alar­de infi­ni­ta­men­te menor, ou antes sem alar­de nenhum, entrou em car­taz hoje (7 de mar­ço) em algu­mas capi­tais bra­si­lei­ras uma peque­na joia, Eles vol­tam, lon­ga-metra­gem de estreia de Marcelo Lordello.

http://www.youtube.com/watch?v=A4X1wozH9Bs

O fil­me, que ven­ceu o Festival de Brasília de 2012, é defi­ni­do por seu dire­tor como “uma fábu­la do nos­so tem­po”. De fato, há algo de Alice no país das mara­vi­lhas na his­tó­ria de Cris (a exce­len­te Maria Luiza Tavares, tam­bém pre­mi­a­da em Brasília), meni­na de 12 anos aban­do­na­da com um irmão à bei­ra de uma estra­da pelos pais,  por moti­vos que só sabe­re­mos mui­to depois. Só que em vez das mara­vi­lhas sur­re­ais de Alice, ela se depa­ra com os peri­gos e sur­pre­sas do “mun­do real” exis­ten­te fora da sua peque­na redo­ma de pré-ado­les­cen­te de clas­se média.

Com cora­gem e deli­ca­de­za, Lordello cons­trói esse per­cur­so man­ten­do sem­pre o equi­lí­brio entre o que Cris vê do mun­do e o que vemos de Cris, sem sacri­fi­car o fun­do pela figu­ra e nem o con­trá­rio. Mais um belo fru­to do pujan­te e mul­ti­fa­ce­ta­do cine­ma per­nam­bu­ca­no. Veja antes que saia de car­taz.

, , , , , , , , , , , ,