Roteiro? Pra que roteiro?

No cinema

18.11.11

O pro­ble­ma bra­si­lei­ro é a fal­ta de bons rotei­ros.” Quantas vezes você ouviu essa fra­se?

A for­mu­la­ção tem déca­das de exis­tên­cia, mas de quan­do em quan­do é requen­ta­da, como quan­do se faz a ine­vi­tá­vel com­pa­ra­ção entre fil­mes argen­ti­nos e bra­si­lei­ros e se che­ga à con­clu­são de que a supe­ri­o­ri­da­de deles está nos rotei­ros.

É até pos­sí­vel que seja ver­da­de, mas des­con­fio que se tra­te de uma fal­sa ques­tão. Um fil­me que sus­ci­ta uma dis­cus­são inte­res­san­te a pro­pó­si­to do tema é o fas­ci­nan­te O céu sobre os ombros, pre­mi­a­do lon­ga de estreia do minei­ro Sérgio Borges, que aca­ba de entrar em car­taz. Mas, antes de che­gar a ele, peço licen­ça para con­tar uma his­to­ri­nha.

 

Wilder e Godard

Billy Wilder uma vez encon­trou Godard, e este lhe dis­se que esta­va pres­tes a fazer um fil­me nos EUA (que aca­bou não acon­te­cen­do). Wilder então lhe per­gun­tou se o rotei­ro já esta­va pron­to. “Roteiro? Pra que rotei­ro?”, retru­cou Godard, expli­can­do que fil­ma­ria o que lhe ocor­res­se na hora. Wilder, con­tan­do o caso anos depois, mos­trou-se indig­na­do: “Como assim? Eu tra­ba­lho ardu­a­men­te meses a fio para fazer um rotei­ro decen­te, e esse sujei­to vem me dizer que rotei­ro não ser­ve para nada?”. Cito de memó­ria; se não me enga­no, li isso num livro de entre­vis­tas de Michel Ciment.

Quem tinha razão, Wilder ou Godard? A res­pos­ta é: ambos. E isso não sig­ni­fi­ca ficar em cima do muro, mas reco­nhe­cer que não exis­te ape­nas um cine­ma pos­sí­vel, mas mui­tos. Para Wilder, um dos dire­to­res mais bri­lhan­tes do cine­ma nar­ra­ti­vo clás­si­co ame­ri­ca­no, o rotei­ro era qua­se um meca­nis­mo de relo­jo­a­ria. Para Godard, empe­nha­do em rom­per fron­tei­ras, are­jar o cine­ma com a vida das ruas e inven­tar novas for­mas de expres­são audi­o­vi­su­al, o rotei­ro podia ser uma cami­sa de for­ça.

 

Ditadura do rotei­ro

Do mes­mo modo, não exis­te um cine­ma bra­si­lei­ro, mas vári­os. Para um deter­mi­na­do tipo de pro­du­ção, empe­nha­da em “con­quis­tar o públi­co”, o que se con­ven­ci­o­nou cha­mar de “um bom rotei­ro” pas­sou a ser, a par­tir de um deter­mi­na­do momen­to, um impe­ra­ti­vo bási­co.

Os rotei­ris­tas tarim­ba­dos pas­sa­ram a ser valo­ri­za­dos e bem pagos (antes, no cine­ma novo e no cine­ma dito mar­gi­nal, eram geral­men­te os pró­pri­os dire­to­res que escre­vi­am seus rotei­ros), cri­a­ram-se cur­sos, ofi­ci­nas, labo­ra­tó­ri­os, hos­pi­tais, pron­tos-socor­ros de rotei­ros. Os manu­ais nor­te-ame­ri­ca­nos, como o do fami­ge­ra­do Syd Field, entra­ram em voga. Nunca se falou tan­to em “cur­va dra­má­ti­ca”, “pon­to de vira­da”, “tra­ma secun­dá­ria”, “jor­na­da do herói” e coi­sas do tipo. Buscava-se “o bom rotei­ro” como quem bus­ca a fór­mu­la da feli­ci­da­de eter­na.

O resul­ta­do dis­so, com as exce­ções de pra­xe, foi uma enxur­ra­da de fil­mes cor­re­tos, bem fei­ti­nhos e insí­pi­dos, sem alma, sem vida, que na ânsia de agra­dar todo mun­do aca­bam não agra­dan­do nin­guém.

 

Acidentes de per­cur­so

Tudo isso para dizer que, de alguns anos para cá, sur­giu como que uma con­tra­ten­dên­cia, da qual O céu sobre os ombros me pare­ce um dos repre­sen­tan­tes mais feli­zes. Falo de fil­mes como Apenas o fim, Transeunte, A fuga da mulher gori­la, A ale­gria, Os mons­tros, Bollywood Dream etc. São obras mui­to dife­ren­tes entre si e de qua­li­da­de desi­gual, mas que tra­zem em comum nar­ra­ti­vas menos fecha­das, mais dis­ten­di­das, aber­tas aos aci­den­tes do per­cur­so.

Em todas elas há, em algum grau, uma con­ta­mi­na­ção da fic­ção pelo docu­men­tá­rio, já que as cir­cuns­tân­ci­as das fil­ma­gens entram no qua­dro por todos os lados.

No caso de O céu sobre os ombros, a con­ta­mi­na­ção é com­ple­ta, a tal pon­to que não sabe­mos se esta­mos dian­te de uma fic­ção com aspec­tos docu­men­tais ou de um docu­men­tá­rio orga­ni­za­do como nar­ra­ti­va de fic­ção.

Estranhos ímpa­res

Sobrou pou­co espa­ço para falar sobre o fil­me antes que você come­ce a boce­jar, mas bas­ta dizer que ele acom­pa­nha alter­na­da­men­te as tra­je­tó­ri­as de três habi­tan­tes anô­ni­mos de Belo Horizonte ao lon­go de uns pou­cos dias. Há um devo­to Hare Krishna que tra­ba­lha de ope­ra­dor de tele­mar­ke­ting e par­ti­ci­pa de uma vio­len­ta tor­ci­da orga­ni­za­da do Atlético Mineiro; um escri­tor negro que tem um filho excep­ci­o­nal e está em desa­ven­ça com o mun­do; e um tra­ves­ti que à noi­te se pros­ti­tui nas ruas e de dia faz mes­tra­do sobre ques­tões de gêne­ro.

São ato­res repre­sen­tan­do per­so­na­gens fic­tí­ci­os? São “pes­so­as reais” fil­ma­das no seu dia-a-dia? O fil­me dei­xa essas ques­tões em aber­to, e é isso o que ele tem de mais esti­mu­lan­te, até por­que se tra­ta de per­so­na­gens mul­ti­di­men­si­o­nais, que não cabem em nenhum este­reó­ti­po (e em nenhum manu­al de rotei­ro). Como escre­veu outro minei­ro, Drummond, “todo ser huma­no é um estra­nho ímpar”.

O modo como o dire­tor Sérgio Borges orga­ni­za a expo­si­ção (e a ocul­ta­ção) des­sas exis­tên­ci­as sin­gu­la­res demons­tra uma sen­si­bi­li­da­de e uma segu­ran­ça admi­rá­veis. As três his­tó­ri­as são mos­tra­das em frag­men­tos, alter­na­da­men­te, numa decu­pa­gem de docu­men­tá­rio, qua­se sem con­tra­cam­po. A jus­ta­po­si­ção das tra­je­tó­ri­as dos per­so­na­gens, que nun­ca che­gam a se cru­zar, cau­sa um efei­to dra­má­ti­co curi­o­so: apro­xi­ma-os secre­ta­men­te em sua soli­dão irre­du­tí­vel, por assim dizer.

É como se o fil­me dis­ses­se a cada um: cer­to, você é úni­co em seu dra­ma, mas exis­tem outros soli­tá­ri­os da mes­ma estir­pe vagan­do por aí, no ôni­bus, na arqui­ban­ca­da do está­dio, na sala de aula, no bar da esqui­na. Assim como a neve do con­to de Joyce, que cai igual­men­te sobre os vivos e os mor­tos, o céu é o mes­mo sobre os ombros deles, seus, nos­sos.

 

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: cena de O céu sobre os ombros, pre­mi­a­do lon­ga de estreia do minei­ro Sérgio Borges 

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