Rússia, Japão e Bahia em três grandes filmes

No cinema

16.01.15

Três belís­si­mos fil­mes estão entran­do em car­taz nas prin­ci­pais capi­tais: o japo­nês O segre­do das águas, de Naomi Kawase, o rus­so Leviatã, de Andrey Zvyagintsev, e o bra­si­lei­ro Depois da chu­va, de Claudio Marques e Marília Hughes. Falei sobre o pri­mei­ro aqui quan­do foi exi­bi­do na Mostra Internacional de São Paulo. Vamos, por­tan­to, aos outros dois.

Densidade huma­na, rigor for­mal

O melhor cine­ma rus­so tem uma den­si­da­de huma­na e polí­ti­ca – sem falar no rigor for­mal – difí­cil de encon­trar em outras cine­ma­to­gra­fi­as. Leviatã é um legí­ti­mo repre­sen­tan­te des­sa estir­pe. Resumindo gros­sei­ra­men­te, é a his­tó­ria do emba­te entre o mecâ­ni­co Kolya (Aleksey Serebryakov) e o pre­fei­to cor­rup­to (Roman Madyanov) de uma cida­de lito­râ­nea do nor­te da Rússia, que quer tomar sua casa para cons­truir no lugar um empre­en­di­men­to turís­ti­co.

Mas esse esbo­ço dra­má­ti­co se com­pli­ca enor­me­men­te com a entra­da em cena de outros per­so­na­gens: o advo­ga­do Dmitriy (Vladimir Vdovichenkov), ami­go de juven­tu­de de Kolya, que vem de Moscou para defen­der sua cau­sa; a jovem Lilya (Elena Lyadova), atu­al mulher do mecâ­ni­co; o filho ado­les­cen­te (Sergey Pokhodaev) do pri­mei­ro casa­men­to de Kolya.

Uma teia de atri­tos, ciú­mes e res­sen­ti­men­tos vai se for­man­do sobre o pano de fun­do do con­fron­to cen­tral, minan­do as for­ças de Kolya con­tra uma estru­tu­ra injus­ta e cor­rom­pi­da.

O que tor­na Leviatã um fil­me úni­co e pre­ci­o­so, porém, não é sua mera tra­ma, mas a manei­ra como Zvyagintsev a apre­sen­ta ao espec­ta­dor, man­ten­do do iní­cio ao fim uma ten­são qua­se insu­por­tá­vel, por for­ça de suas elip­ses pre­ci­sas e do uso argu­to do extra­cam­po. Um exem­plo elo­quen­te é a sequên­cia em que Kolya vai com a mulher e o filho a um pique­ni­que de tiro ao alvo jun­to com ami­gos poli­ci­ais e suas famí­li­as. A cer­ta altu­ra acon­te­ce uma cena de adul­té­rio, um entre­ve­ro, uma sarai­va­da de tiros. Só que tudo isso se pas­sa fora do qua­dro, sem que sai­ba­mos o que acon­te­ceu. Só aos pou­cos, ao lon­go de vári­as sequên­ci­as, jun­ta­mos os cacos e mon­ta­mos uma inter­pre­ta­ção. Também o acon­te­ci­men­to mais trau­má­ti­co e cru­ci­al do fil­me per­ma­ne­ce obs­cu­ro: sui­cí­dio, assas­si­na­to ou aci­den­te?

Do cós­mi­co ao polí­ti­co

Essa dubi­e­da­de deli­be­ra­da con­tras­ta com a cla­re­za com que se retra­ta a estru­tu­ra de opres­são e cor­rup­ção da Rússia atu­al, em que tudo – o Judiciário, a polí­cia, a buro­cra­cia esta­tal – pare­ce domi­na­do pela tría­de do poder polí­ti­co, econô­mi­co e reli­gi­o­so, cuja união é cele­bra­da jus­ta­men­te numa mis­sa orto­do­xa.

Leviatã come­ça (e ter­mi­na) no mar, nas ondas que batem vio­len­ta­men­te nos roche­dos de um lito­ral deso­la­do. Aos pou­cos sur­gem res­tos de navi­os nau­fra­ga­dos e umas vagas ruí­nas à bei­ra-mar. Só depois vem a pre­sen­ça huma­na e cen­tra-se o foco em Kolya. Esse trân­si­to do natu­ral para o his­tó­ri­co-soci­al, e daí para o indi­vi­du­al, per­pas­sa todo o fil­me. Nunca se per­de de vis­ta qual­quer des­sas três dimen­sões. A psi­co­lo­gia, a éti­ca, a polí­ti­ca, a meta­fí­si­ca – está tudo mis­tu­ra­do, como cos­tu­ma acon­te­cer nas gran­des obras de arte.

Depois da chu­va

Muitos cine­as­tas bra­si­lei­ros, dos mais jovens aos mais vete­ra­nos, debru­ça­ram-se sobre o perío­do da dita­du­ra mili­tar e da resis­tên­cia a ela. A pri­mei­ra ori­gi­na­li­da­de de Depois da chu­va é abor­dar o perío­do que veio logo em segui­da: o movi­men­to das Diretas, a elei­ção indi­re­ta de Tancredo, a ago­nia e mor­te do pre­si­den­te elei­to.

Mas o inte­res­san­te é que esse perío­do naci­o­nal de espe­ran­ça e frus­tra­ção é vis­to pelos olhos de um ado­les­cen­te bai­a­no de clas­se média, Caio (Pedro Maia), mui­to mais iden­ti­fi­ca­do com uma comu­ni­da­de anar­quis­ta que man­tém uma rádio pira­ta num casa­rão aban­do­na­do do que com seus cole­gas de esco­la. Entre estes, a exce­ção é a encan­ta­do­ra Fernanda (Sophia Corral), rebel­de e inqui­e­ta como ele.

Desse modo, Marilia Hughes e Cláudio Marques fun­dem enge­nho­sa­men­te o qua­dro his­tó­ri­co e o roman­ce de for­ma­ção. Uma espé­cie de A edu­ca­ção sen­ti­men­tal em esca­la menor.

Espírito de épo­ca

São mui­tos os acer­tos e vir­tu­des do fil­me: a defi­ni­ção dra­má­ti­ca mui­to cla­ra dos espa­ços (o casa­rão anar­quis­ta, o colé­gio, a casa de Caio, a usi­na aban­do­na­da onde acon­te­ce uma rave liber­tá­ria), a cap­ta­ção de um “espí­ri­to de épo­ca” (com a aju­da do punk rock e da van­guar­da pau­lis­ta, devi­da­men­te cani­ba­li­za­dos pelos bai­a­nos), a recu­sa em mos­trar uma Salvador pito­res­ca ou fol­cló­ri­ca e, sobre­tu­do, a apos­ta cora­jo­sa nos jovens pro­ta­go­nis­tas.

A cha­ma­da “quí­mi­ca” entre Pedro e Sophia pro­duz momen­tos subli­mes, como aque­le em que os dois estão num píer aban­do­na­do, falan­do sobre Salvador, e ela de repen­te diz que está com calor e se joga no mar, de rou­pa e tudo. Ele tem um ins­tan­te de per­ple­xi­da­de e depois sal­ta atrás dela. Ali esta­va uma garo­ta por quem valia a pena ir até o fim do mun­do. Poucas vezes o amor ado­les­cen­te se tor­nou tão visí­vel na tela.

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