Sabadoyle: o último salão literário

Literatura

10.11.14

No dia 25 de dezem­bro de 1964 nas­cia, de manei­ra curi­o­sa, no Rio de Janeiro, o últi­mo salão lite­rá­rio do Brasil. Curiosa por­que, con­tra­di­zen­do as vai­da­des que cos­tu­mam ali­cer­çar esse tipo de agre­mi­a­ção, o Sabadoyle sur­giu de um aca­so: foi quan­do, no dia de Natal, Carlos Drummond de Andrade tele­fo­nou ao ami­go e biblió­fi­lo Plínio Doyle, pedin­do-lhe para fazer uma con­sul­ta na sua bibli­o­te­ca.

Não hou­ve raba­na­da que impe­dis­se Doyle, apai­xo­na­do por doces, de rece­ber o poe­ta no final da tar­de daque­le dia em que o mun­do pen­sa mais em fes­ta do que em livros.

Verdadeiro homo cor­di­a­lis, res­pei­ta­do e ama­do por pes­qui­sa­do­res do Brasil e do mun­do, Plínio Doyle come­çou sua prá­ti­ca de cole­ci­o­na­dor de manei­ra não menos casu­al: len­do um livro de Machado de Assis, de quem seria, por toda a vida, lei­tor devo­ta­do, encon­trou refe­rên­cia elo­gi­o­sa a uma peça de José de Alencar inti­tu­la­da Mãe. Passou, então, a pro­cu­rar a obra nos sebos do Rio de Janeiro, cida­de onde nas­ceu e morou a vida intei­ra. Sem suces­so na bus­ca para com­pra, aca­bou len­do a peça na Biblioteca Nacional, mas con­ti­nu­ou a fre­quen­tar os sebos da cida­de. Nasceu aí o biblió­fi­lo, que vinha se somar ao advo­ga­do bem-suce­di­do.

A visi­ta de Drummond no dia do Natal foi tão agra­dá­vel que no sába­do seguin­te lá esta­va nova­men­te o poe­ta. Aos pou­cos, a ele foram-se jun­tan­do outros escri­to­res, sedu­zi­dos pelos mes­mos atra­ti­vos: os livros, a boa con­ver­sa e o caris­ma do anfi­trião. As reu­niões, des­pre­ten­si­o­sas e infor­mais, con­ti­nu­a­ram a se rea­li­zar todos os sába­dos. Eram ape­nas as “reu­niões na casa do Plínio”, até que, dez anos depois, o poe­ta Raul Bopp, que pas­sa­ra a fazer par­te do gru­po, cunhou o neo­lo­gis­mo Sabadoyle para desig­nar os encon­tros, aos sába­dos, na casa de Plínio Doyle.

Uma reu­nião do Sabadoyle. Entre os ami­gos, encon­tram-se Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade (res­pec­ti­va­men­te o 7º e o 8º, da esquer­da para direi­ta, de pé). Plínio Doyle é o 6º da esquer­da para direi­ta entre os que se encon­tram sen­ta­dos.

Grêmio lite­rá­rio? Academia para­le­la? Pasárgada lite­rá­ria, como quis Joaquim Inojosa? Cercle choi­si, como pen­sou o prof. Mário Carelli?  Ninguém melhor que Drummond, o fun­da­dor invo­lun­tá­rio, para defi­nir as reu­niões “em que se esque­cem pre­o­cu­pa­ções e tédi­os, no exer­cí­cio des­ta coi­sa que se vai tor­nan­do rara ou impos­sí­vel na cida­de de hoje: a con­ver­sa — a pura, sim­ples, fan­ta­sis­ta, des­com­pro­mis­sa­da con­ver­sa entre ami­gos e des­co­nhe­ci­dos ou mal-conhe­ci­dos, que se tor­nam ami­gos por for­ça das apro­xi­ma­ções aqui esta­be­le­ci­das” – escre­ve­ria o poe­ta.

Atraídos pela boa con­ver­sa aí foram assí­du­os, além de Drummond, Pedro Nava, Mário da Silva Brito, Paulo Berger, Homero Senna, Cyro dos Anjos, Homero Homem, Américo Lacombe, Alvarus, além dos bis­sex­tos, como Di Cavalcanti, Rachel de Queiroz, Mario Quintana, e dos visi­tan­tes estran­gei­ros.

Difícil seria ima­gi­nar que Plínio Doyle, aman­te do docu­men­to e dedi­ca­do cole­ci­o­na­dor de manus­cri­tos, dei­xas­se esca­par regis­tro do que acon­te­cia em sua bibli­o­te­ca todos os sába­dos. Assim, em 1972 ele ins­ti­tuiu a prá­ti­ca de se fazer uma ata em cada reu­nião. Escritas em livro gran­de, de capa bran­ca, fei­to sob enco­men­da, as atas, redi­gi­das ante­ci­pa­da­men­te por par­ti­ci­pan­tes do gru­po, home­na­ge­a­vam um escri­tor, uma obra, ou tra­ta­vam de outro assun­to rele­van­te.

No Natal daque­le mes­mo ano de 1972, cou­be a Drummond fazer a ata inau­gu­ral, em que se lê:

Dezembro, 23. Pelas estan­tes

Flui um rumor de vozes dia­lo­gan­tes.

Esta, inde­ci­sa, em tom des­con­fi­a­do,

é, vê-se logo, do bru­xo Machado:

Mudaria o Natal ou mudei eu?”

Não sei, Mestre, res­pon­de-lhe Dirceu

(o de Marília). Vale per­gun­tar

ao nos­so pre­za­dís­si­mo Alencar.”

Também não sei. Vidrado em Iracema,

só pen­so nela, que é o mai­or poe­ma.”

Perdão, pro­tes­ta Rosa, pois enfim

joia, mas joia mes­mo, é Diadorim.”

Os regis­tros segui­ram impla­cá­veis, até que, em 1983, che­gou o sába­do de se fazer a ata n. 500, cuja auto­ria foi dada ao anfi­trião e a Drummond. Plínio Doyle apre­sen­tou uma bem-humo­ra­da esta­tís­ti­ca do núme­ro de bis­coi­tos e cafe­zi­nhos con­su­mi­dos duran­te as reu­niões, e Drummond, mais uma ata-poe­ma:

 

500 tar­des… Plínio rece­ben­do

com o mes­mo jei­tão paci­en­te gre­gos e goi­a­nos:

o vas­to bigo­du­do que vem da Bahia,

o dou­to soció­lo­go que vem de Brasília,

o vago poe­ti­nha que vem de Deus-me-Livre

e traz na algi­bei­ra um infa­me poe­ma

que não ousa mos­trar.

Quanto a mim, conhe­ci Plínio Doyle em 1991, quan­do che­guei ao Arquivo-Museu de Literatura da Fundação Casa de Rui Barbosa para fazer pes­qui­sa sobre Ribeiro Couto, cujo acer­vo havia sido cole­ta­do por Francisco de Assis Barbosa e con­fi­a­do à Casa. Sem a orga­ni­za­ção ade­qua­da, os docu­men­tos ain­da não se encon­tra­vam dis­po­ní­veis para con­sul­ta naque­la épo­ca. Mesmo assim, con­ti­nu­ei a ir lá. Além de ter outros temas para inves­ti­gar, eu que­ria mos­trar que não desis­tia de Ribeiro Couto.

Uma vez ou outra, quan­do Dr. Plínio entra­va, eu ia até sua sala, infor­ma­va-lhe sobre o anda­men­to da pes­qui­sa geral e depois saía, tris­te por não ter aces­so ao arqui­vo do autor de Cabocla. Passou-se um ano até que ele me cha­mas­se para dizer que eu podia exa­mi­nar o acer­vo de Ribeiro Couto. Era uma exce­ção. Exceção que ocul­ta­va lá seus inte­res­ses. É que em maio daque­le ano de 1993 fazia trin­ta anos da mor­te do poe­ta-embai­xa­dor e dr. Plínio então con­vi­da­va-me para redi­gir a ata de home­na­gem. Ora, eu conhe­cia a tra­di­ção do Sabadoyle, e fiquei inti­mi­da­da com a ideia de me apre­sen­tar lá, mas eu mes­ma não admi­tia a covar­dia de recu­sar o con­vi­te.

Comecei a redi­gir a ata. Ao mes­mo tem­po, lia o livro de Homero Senna, História de uma con­fra­ria lite­rá­ria: o Sabadoyle, que, em 2000, seria ree­di­ta­do pela Casa da Palavra com o títu­lo: O Sabadoyle: his­tó­ri­as de uma con­fra­ria lite­rá­ria. Assim, ao che­gar ao len­dá­rio salão, eu já sabia exa­ta­men­te onde esta­va pisan­do.

Ali encon­trei a atmos­fe­ra fra­ter­na des­cri­ta por Homero Senna, que se tor­na­ria meu que­ri­do ami­go. Nunca mais dei­xei de ir ao Sabadoyle. Costumava brin­car com o Dr. Plínio dizen­do que ele leva­ra um ano me assun­tan­do, antes de me con­vi­dar para ade­rir ao gru­po. Ele con­tes­ta­va, rin­do, mas a ver­da­de é que me obser­vou lon­ga­men­te para só depois fazer a con­vo­ca­ção.

Em pé: Maximiliano de Carvalho e Silva, Olimpio José Garcia Matos, Silvio Meira, Elvia Bezerra, Gilberto Mendonça Telles. Sentados: Silvia Jacintho, Donato Melo Junior. Foto de 1993.

Estava cer­to Vinicius quan­do dis­se que “a vida é a arte do encon­tro”. Meu encon­tro com Plínio Doyle foi mui­to feliz. Se, num sába­do, por algu­ma razão, eu tele­fo­nas­se de manhã avi­san­do que teria um almo­ço mais lon­go naque­le dia, e por esse moti­vo não iria à reu­nião, ele insis­tia para que eu des­se um jei­to de che­gar, ain­da que fos­se no final da tar­de. E eu dava o jei­to mes­mo.

As reu­niões eram mar­ca­das pelo res­pei­to, mas um res­pei­to ale­gre, des­te­mi­do. Quantas vezes deti­ve-me a obser­var aque­le homem de noven­ta anos, admi­ran­do-lhe a auto­ri­da­de fra­ter­na. Como era for­te a sua pre­sen­ça! Em nada a limi­ta­ção físi­ca – usa­va ben­ga­la – lhe dimi­nuía a for­ça. Pelo con­trá­rio, com­pu­nha-lhe a figu­ra de patri­ar­ca, de “Patriarca em Flor”, na expres­são feliz e, para mim, defi­ni­ti­va, de Antônio Carlos Villaça.

Muitos ten­ta­ram defi­ni-lo: Plínio o Jovem, dis­se um; Plínio o Bom, cha­mou outro; Abade da con­fra­ria, ensai­ou alguém; Pedro Nava nome­ou-o Bâtonnier; e hou­ve até mes­mo quem o cha­mas­se de Babalorixá.

Independentemente do títu­lo, o anfi­trião man­ti­nha um olhar zelo­so duran­te as reu­niões. Atentíssimo, ele ouvia as lei­tu­ras das atas, fei­tas habi­tu­al­men­te às cin­co horas, pre­ce­di­das de cafe­zi­nho e bis­coi­tos, já can­ta­dos em pro­sa e ver­so. A tro­ca que se fazia entre os saba­doy­li­a­nos era diver­ti­da e rica, e o des­po­ja­men­to, uma mar­ca vigo­ro­sa do salão. As vai­da­des indi­vi­du­ais enco­lhi­am-se por fal­ta de pla­teia. Reinava um espí­ri­to mui­to sin­gu­lar. Conversava-se sobre qual­quer assun­to, em gru­pos de três, qua­tro pes­so­as que se apro­xi­ma­vam pelas afi­ni­da­des natu­rais.

Assídua, como já decla­rei, pude pre­sen­ci­ar situ­a­ções curi­o­sas. Uma delas foi na reu­nião em que se home­na­ge­a­ria San Tiago Dantas. Nessa tar­de, con­tou-se com a pre­sen­ça de Edméa de San Tiago Dantas, viú­va do pro­fes­sor e polí­ti­co. Sentada per­to de mim, ela aguar­da­va, sole­ne, o iní­cio da pro­gra­ma­ção. Certamente espe­ra­va um dis­cur­so ou outro tipo de pom­pa, e como as pes­so­as che­gas­sem des­con­traí­das e come­ças­sem a con­ver­sar den­tro da mais abso­lu­ta espon­ta­nei­da­de, a senho­ra incli­nou-se para o meu lado e sus­sur­rou: “Que horas come­ça esse negó­cio aqui?.” Voltando-me para ela, res­pon­di, no mes­mo tom de voz: “Esse negó­cio aqui já está come­ça­do”. Ela riu, enten­den­do de ime­di­a­to que a sim­pli­ci­da­de só per­mi­tia a lei­tu­ra da ata, os bis­coi­tos e o cafe­zi­nho.

Situação atí­pi­ca acon­te­ceu de uma outra vez, com a visi­ta do edi­tor Massao Ohno, que, che­gan­do de São Paulo, seguiu dire­to para a casa de Plínio Doyle. Ao entrar, e depois de cum­pri­men­tar o anfi­trião, diri­giu-se ao escri­tó­rio, sala menor e mais ínti­ma da casa. Sentou-se à escri­va­ni­nha do ami­go, abriu a bol­sa de via­gem, tirou uma gar­ra­fi­nha de uís­que e con­vi­dou mais uns três ami­gos que esta­vam na mes­ma sala para acom­pa­nhá-lo.

Como per­fei­to anfi­trião que era, Plínio Doyle dei­xou que os visi­tan­tes per­ma­ne­ces­sem em seu escri­tó­rio, ain­da que não escon­des­se um cer­to desa­pon­ta­men­to: gos­ta­va de ver todos no salão onde cos­tu­ma­va rece­ber os que o visi­ta­vam. Mas o ami­go tinha deci­di­do per­ma­ne­cer na outra sala… Paciência!

Por vol­ta das 19h30, quan­do a mai­o­ria dos pre­sen­tes já tinha ido embo­ra, Massao vol­tou à sala de visi­tas, sen­tou-se na cadei­ra ao lado do anfi­trião e deu-lhe um afe­tu­o­so e esta­la­do bei­jo na face. Plínio Doyle, sem jei­to, cir­cuns­pec­to, incli­nou a cabe­ça para a fren­te, reve­ren­ci­ou o visi­tan­te e pro­nun­ci­ou um edu­ca­dís­si­mo “mui­to obri­ga­do”.

Por mais que a demons­tra­ção afe­ti­va de Massao lhe fos­se inco­mum, rece­beu-a com a sua insu­pe­rá­vel capa­ci­da­de de enten­der os ami­gos. Compreendeu a espon­ta­nei­da­de do ges­to amo­ro­so. Olhou Massao com doçu­ra. Sua fisi­o­no­mia era toda com­pre­en­são, ami­za­de. Havia uma ter­nu­ra imen­sa no olhar de Plínio Doyle. Reconhecia a ami­za­de e enten­dia — é pre­ci­so que se diga — o efei­to do uís­que.

Massao, então, levan­tou-se e per­ma­ne­ceu alguns minu­tos de pé, em fren­te ao ami­go. Enquadrou-lhe o ros­to com as mãos, como se o esti­ves­se dis­pon­do no visor de uma câma­ra foto­grá­fi­ca. Observava a bele­za de sua ter­nu­ra, aos 91 anos de ida­de: – “Eu amo esse homem” —, dis­se Massao Ohno, segu­ran­do a cabe­ça de Plínio Doyle. Mais um bei­jo, des­pe­diu-se, e saiu.

Tal amor, tal vida” é o que eu diria, citan­do Murilo Mendes, como sín­te­se da pes­soa de Plínio Doyle. É assim que eu defi­ni­ria esse homem cuja vida foi exten­são do seu amor ao livro.

* Lista com­ple­ta de pes­so­as na foto em pre­to e bran­co; da esquer­da para direi­ta, em pé: Péricles Madureira de Pinho, Severo da Costa, Maximiano de Carvalho e Silva, Homero Homem, Peregrino Júnior, Esmeralda Doyle, Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade, Joaquim Inojosa, Bernardo Élis, Jesus Belo Galvão, Américo Jacobina Lacombe, Paulo Berger, Mário da Silva Brito, Olímpio Monat; sen­ta­dos: Fernando Monteiro, Raul Lima, Álvaro Cotrim, Sonia Doyle, Gilberto Mendonça Telles, Plínio Doyle, Murilo Araújo, Rita Moutinho Botelho, Alphonsus de Guimarães Filho, Horácio de Almeida e Raul Bopp.

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