Saint Laurent e a subversão da biografia

No cinema

20.11.14

A expres­são bio­pic (ou sua ver­são em por­tu­guês, cine­bi­o­gra­fia) deve ser dei­xa­da de lado dian­te de um fil­me como o extra­or­di­ná­rio Saint Laurent, de Bertrand Bonello.

O esti­lis­ta fran­cês Yves Saint Laurent (Gaspard Ulliel) apa­re­ce ali, antes de tudo, como cata­li­sa­dor de uma série de idei­as que inte­res­sam ao cine­as­ta: as rela­ções entre arte e comér­cio, entre impul­so eró­ti­co e tra­ba­lho cri­a­ti­vo, entre a tra­di­ção cul­tu­ral euro­peia e a ener­gia pop, entre esplen­dor e deca­dên­cia. Do mes­mo modo, o meio de expres­são de Saint Laurent, a moda, é vis­to em suas múl­ti­plas inter­fa­ces: com a pin­tu­ra, a músi­ca, a lite­ra­tu­ra, o com­por­ta­men­to, a polí­ti­ca, as finan­ças.

Assim sen­do, a bio­gra­fia de Saint Laurent é um subs­tra­to mis­tu­ra­do a inú­me­ros outros ele­men­tos, e modu­la­do por eles. A Bonello inte­res­sa menos a ver­da­de fac­tu­al do que o sen­ti­do geral que ele encon­tra (e nos dá a ver) no sig­no Saint Laurent e em sua inser­ção no mun­do con­tem­po­râ­neo.

Gaspard Ulliel em cena do filme

Para se ter uma ideia, enquan­to as cine­bi­o­gra­fi­as vul­ga­res bus­cam fazer com que seus ato­res mime­ti­zem os bio­gra­fa­dos, tor­nan­do-os “iguai­zi­nhos” ao ori­gi­nal, Bonello con­si­de­rou qua­se um pro­ble­ma o fato de Gaspard Ulliel ser fisi­ca­men­te mui­to pare­ci­do com Yves Saint Laurent. Mas aca­bou desen­ca­nan­do.

Fulgor e pre­ci­são

A pri­mei­ra ima­gem – a facha­da de um hotel de luxo, sob ilu­mi­na­ção for­te­men­te dou­ra­da – é pura radi­ân­cia. Poucos pla­nos depois, fun­ci­o­ná­ri­as do ate­liê de Saint Laurent tiram meti­cu­lo­sa­men­te as medi­das de uma mode­lo. Essas duas idei­as con­tra­pos­tas – o ful­gor e a pre­ci­são – estão no cer­ne da lei­tu­ra que Bonello faz de seu per­so­na­gem e tam­bém no modo de cons­tru­ção de seu pró­prio fil­me.

Ao con­cen­trar-se no perío­do mais fér­til e efer­ves­cen­te da vida de Saint Laurent, entre 1967 e 1977, com rápi­das remi­nis­cên­ci­as de infân­cia e um sal­to para a velhi­ce do esti­lis­ta, o fil­me osci­la con­tro­la­da­men­te entre o fre­ne­si (a cri­a­ti­vi­da­de febril, as dro­gas, o sexo pro­mís­cuo) e a melan­co­lia, que aca­ba por impreg­nar o con­jun­to.

Nessa déca­da cru­ci­al dá-se a expan­são pla­ne­tá­ria da mar­ca YSL, por meio da ação empre­sa­ri­al de Pierre Bergé (Jérémie Renier), com­pa­nhei­ro de Saint Laurent por mui­tos anos. Ocorrem tam­bém no perío­do a cri­se do casal, o uso des­con­tro­la­do de dro­gas pesa­das e o envol­vi­men­to sexu­al do pro­ta­go­nis­ta com o dân­di Jacques de Bascher (Louis Garrel), que abre novas por­tas de expe­ri­men­ta­ção e per­ver­são sexu­al.

Ecos de Visconti

Há ele­gân­cia, dis­cri­ção e um cer­to dis­tan­ci­a­men­to no modo como Bonello fil­ma esse tur­bi­lhão de acon­te­ci­men­tos. A ence­na­ção é sem­pre cri­a­ti­va, apro­vei­tan­do cada ele­men­to dos cená­ri­os e ambi­en­tes para cri­ar cama­das suple­men­ta­res de lei­tu­ra e dei­xar o olhar (e a audi­ção) do espec­ta­dor via­jar à von­ta­de. Em espe­ci­al os espe­lhos, oni­pre­sen­tes nos ate­li­ês e mora­di­as do esti­lis­ta, são uti­li­za­dos para des­do­brar o qua­dro e os pon­tos de vis­ta.

O sen­so “vis­con­ti­a­no” de pas­sa­gem ine­xo­rá­vel do tem­po, de declí­nio ou auto­des­trui­ção da for­ça vital (seja ela de um homem ou de toda uma cul­tu­ra), de oca­so de uma noção subli­me de bele­za e ele­gân­cia, tudo isso con­flui para uma cena admi­rá­vel, aque­la em que o Saint Laurent velho, repre­sen­ta­do por Helmut Berger, con­tem­pla na TV uma cena de Os deu­ses mal­di­tos, de Visconti, pro­ta­go­ni­za­da pelo mes­mo Berger no auge da bele­za e da juven­tu­de.

O fil­me é pon­tu­a­do por esses jogos de refe­rên­ci­as, poten­ci­a­li­za­dos pela mon­ta­gem e pela tri­lha sono­ra. Assim como a cri­a­ti­vi­da­de de Saint Laurent se ali­men­ta­va da lite­ra­tu­ra de Proust, do can­to líri­co de Maria Callas e da pin­tu­ra de Matisse, a arte de Bonello é igual­men­te oní­vo­ra e gene­ro­sa. Assim, uma car­ta de Andy Warhol a Saint Laurent é lida em off sobre ima­gens de novas cri­a­ções do esti­lis­ta e sob o som de “Venus in furs”, a can­ção do Velvet Underground, ban­da par­cei­ra de Warhol.

Tela divi­di­da

A divi­são da tela em vári­os qua­dros é usa­da de manei­ra enge­nho­sa para fins diver­sos. Numa deter­mi­na­da sequên­cia, repar­te-se o qua­dro em dois: de um lado, ima­gens docu­men­tais do que ocor­ria no mun­do (mani­fes­ta­ções de maio de 68, guer­ra do Vietnã, movi­men­to pelas liber­da­des civis nos EUA etc.); na outra meta­de, flashes de des­fi­les das cole­ções Saint Laurent nas tem­po­ra­das cor­res­pon­den­tes.

Um cine­as­ta mais con­ven­ci­o­nal ou menos desen­vol­to intro­du­zi­ria a his­tó­ria con­tem­po­râ­nea na die­ge­se, por meio de noti­ciá­ri­os de tele­vi­são ou diá­lo­gos expli­ca­ti­vos (do tipo: “Você viu ontem as mani­fes­ta­ções no Quartier Latin?”).

Mais adi­an­te, ao mos­trar um des­fi­le cru­ci­al para o esti­lis­ta, a tela se divi­de em qua­dra­dos e retân­gu­los à manei­ra de um qua­dro de Mondrian, prin­ci­pal ins­pi­ra­ção para aque­la fase de Saint Laurent. Em cada um dos qua­dri­lá­te­ros, um aspec­to da imen­sa engre­na­gem do des­fi­le, cap­tan­do a ten­são do momen­to e ao mes­mo tem­po os inú­me­ros talen­tos con­ju­ga­dos para a cons­tru­ção do espe­tá­cu­lo: arqui­te­tu­ra, ilu­mi­na­ção, core­o­gra­fia, músi­ca.

É pos­sí­vel sen­tir ali o quan­to Bonello se iden­ti­fi­ca com Saint Laurent. Ambos lidam com mei­os de expres­são atra­ves­sa­dos por todas as artes e dis­ci­pli­nas; ambos tra­vam “o incan­sá­vel com­ba­te em defe­sa da bele­za e da ele­gân­cia”, como diz o pro­ta­go­nis­ta a cer­ta altu­ra, jus­ti­fi­can­do sua vida – e, de que­bra, o pró­prio fil­me.

, , , , ,