Salvando os originais de Angústia

Por dentro do acervo

04.07.13

Não é len­da. Se não fos­se a rapi­dez de Heloísa Ramos, a segun­da mulher de Graciliano Ramos, que cor­reu à lixei­ra para res­ga­tar os ori­gi­nais de Angústia, e o empe­nho de Rachel de Queiroz, que lutou pela publi­ca­ção des­se roman­ce lan­ça­do em 1936, a  lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra teria per­di­do aque­la que é para mui­tos a obra-pri­ma do escri­tor ala­go­a­no.

Rachel con­tou o epi­só­dio em entre­vis­tas e na crô­ni­ca “Centenário de Graciliano”, publi­ca­da em O Estado de S. Paulo de 17 de maio de 1992 e repro­du­zi­da nes­te post. Abre-se aqui um parên­te­se para o final do tex­to, quan­do Rachel, refe­rin­do-se aos “bons tem­pos”, con­fes­sa que 1935 foi o pior ano da sua vida. O lei­tor pode estra­nhar a infor­ma­ção dada assim, sem jus­ti­fi­ca­ti­va e um pou­co fora do assun­to. É que naque­le ano ela per­de­ra a úni­ca filha, Clotilde, que viveu ape­nas um ano e meio. Rachel não teria mais filhos.

Voltando a Angústia, se alguém duvi­dar da ver­são dada por ela na crô­ni­ca, bas­ta ler a dedi­ca­tó­ria do autor no exem­plar do roman­ce per­ten­cen­te a ela, con­ser­va­do em  sua bibli­o­te­ca, sob a guar­da do Instituto Moreira Salles:

Reprodução da dedicatória

Rachel: este livro não é meu: é nos­so. O seu tra­ba­lho para arran­cá-lo foi pelo menos igual ao meu, sem exa­ge­ro. Diga-me uma coi­sa: por que é que você não trans­for­ma em roman­ce o “Retrato de um bra­si­lei­ro”? Seria admi­rá­vel. Abraços Graciliano. Rio, 1947.

“Retrato de um bra­si­lei­ro”, men­ci­o­na­da por Graciliano na dedi­ca­tó­ria, é uma crô­ni­ca de Rachel de Queiroz publi­ca­da em O Jornal, em junho de 1945. Traça o per­fil de um mora­dor da Ilha do Governador, dono de uma cri­a­ção de fran­gos e de vida afe­ti­va mui­to movi­men­ta­da. Foi escri­ta no mes­mo ano em que a auto­ra se mudou para a ilha onde escre­veu seu pri­mei­ro roman­ce urba­no, O galo de ouro, publi­ca­do em folhe­tim em O Cruzeiro, em qua­ren­ta edi­ções, e só em 1985 em for­ma­to de livro.

Elvia Bezerra é coor­de­na­do­ra de lite­ra­tu­ra do IMS.

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