Samba e a estética da simpatia

No cinema

10.07.15

Uma coi­sa não se pode negar a Samba, de Olivier Nakache e Eric Loredano: é um fil­me per­fei­ta­men­te sin­to­ni­za­do com o momen­to. Seu tema é a imi­gra­ção ile­gal na França e sua cons­tru­ção esté­ti­ca e nar­ra­ti­va pare­ce fei­ta sob medi­da para agra­dar a um públi­co que quer um tan­to de rea­lis­mo (mas não mui­to), um tan­to de crí­ti­ca soci­al (mas não mui­to) e um tan­to de novi­da­de (mas não mui­to).

Simpático” pare­ce ser o adje­ti­vo que mais se apli­ca ao fil­me. A come­çar do títu­lo, tudo nele é sim­pá­ti­co: o pro­ta­go­nis­ta, as situ­a­ções, a tri­lha sono­ra. Assim como o lon­ga-metra­gem ante­ri­or da dupla, IntocáveisSamba é pro­ta­go­ni­za­do pelo caris­má­ti­co ator negro Omar Sy, aqui no papel do imi­gran­te sene­ga­lês Samba Cissé, às vol­tas com a neces­si­da­de de um vis­to para per­ma­ne­cer em Paris, onde vive há dez anos lavan­do pra­tos e fazen­do outros tra­ba­lhos sem qua­li­fi­ca­ção.

Se em Intocáveis o con­tra­pon­to a Omar Sy era o mili­o­ná­rio para­plé­gi­co vivi­do por François Cluzet, aqui esse papel cabe à ado­rá­vel Charlotte Gainsbourg, no papel de uma esta­ba­na­da volun­tá­ria de ONG de apoio aos imi­gran­tes.

Cena de Samba

Para quem espe­ra uma abor­da­gem mais con­se­quen­te ou ori­gi­nal do assun­to, o mais frus­tran­te são as linhas que o fil­me esbo­ça mas dei­xa de seguir até o fim, apa­ren­te­men­te pelo temor de des­fa­zer o cal­cu­la­do equi­lí­brio entre a quo­ta de humor, a quo­ta de roman­ce, a quo­ta de pito­res­co, de crí­ti­ca, de turis­mo etc. Para não dei­xar de ser “sim­pá­ti­co”, em suma.

Falsas iden­ti­da­des

Por exem­plo: a ques­tão das fal­sas iden­ti­da­des e até naci­o­na­li­da­des, que os imi­gran­tes ile­gais emba­ra­lham para ilu­dir auto­ri­da­des e empre­ga­do­res. O caso mais diver­ti­do, sobre­tu­do para nós, é o do arge­li­no Walid (Tahar Rahim), que se apre­sen­ta como o bra­si­lei­ro Wilson, por­que, segun­do ele, “os bra­si­lei­ros têm mais chan­ce de arran­jar empre­go e pegar mulher”. As pos­si­bi­li­da­des dra­má­ti­cas e cômi­cas des­sa cir­cuns­tân­cia são imen­sas, mas os dire­to­res a dei­xam de lado para poder encai­xar suas cenas român­ti­cas, seus dra­mas fami­li­a­res, seus diá­lo­gos de auto­a­ju­da, seus cli­pes musi­cais.

Neste últi­mo depar­ta­men­to, a músi­ca bra­si­lei­ra bri­lha nas vozes de Gilberto Gil e Jorge Benjor. A cena em que Wilson e Samba, num andai­me, lim­pam os vidros de um pré­dio comer­ci­al e fler­tam com as moças de um escri­tó­rio ao som de Palco, não só é ins­pi­ra­da “pela pro­pa­gan­da da Coca-Cola”, como diz Wilson, mas pare­ce, ela mes­ma, um comer­ci­al, com sua mon­ta­gem cli­pa­da e sua eufo­ria arti­fi­ci­al.

Para não estra­gar o cli­ma sym­pa, as agru­ras da vida de imi­gran­te pobre são bas­tan­te ame­ni­za­das (com­pa­re-se, por exem­plo, com O silên­cio de Lorna, dos irmãos Dardenne, ou com Coisas belas e sujas, de Stephen Frears, ou ain­da com os fil­mes de Fatih Akin), ape­sar de uma ou outra vio­lên­cia oca­si­o­nal. Bons sen­ti­men­tos, boas inten­ções e bom astral não fazem neces­sa­ri­a­men­te bom cine­ma.

Com tan­tas res­sal­vas, esta crí­ti­ca decer­to será tacha­da de anti­pá­ti­ca, mal-humo­ra­da, estra­ga-pra­ze­res. Talvez com razão. Quem não tiver gran­des exi­gên­ci­as e qui­ser pas­sar um par de horas agra­dá­veis e indo­lo­res faz bem em igno­rar estas linhas e cor­rer para o cine­ma mais pró­xi­mo.

A tra­ves­sia de Neruda

Já Neruda – Fugitivo, de Manuel Basoalto, cor­re o ris­co de desa­gra­dar até mes­mo aos fãs do poe­ta chi­le­no. O fil­me nar­ra um epi­só­dio cen­tral na vida de Neruda (José Secall): sua fuga para a Argentina, com docu­men­tos fal­sos, em 1948, quan­do, na qua­li­da­de de sena­dor comu­nis­ta, era per­se­gui­do pelo des­pó­ti­co pre­si­den­te González Videla.

A nar­ra­ti­va come­ça em 1971, com o dis­cur­so de acei­ta­ção do Nobel de lite­ra­tu­ra, na Academia Sueca. Neruda evo­ca então sua fuga de 1948 e o fil­me é nar­ra­do em flash­back. O tom ver­bor­rá­gi­co, sole­ne e auto­ce­le­bra­tó­rio do dis­cur­so con­ta­gia todo o fil­me. Segue-se um sus­pen­se frou­xo (não só por­que conhe­ce­mos de ante­mão o final feliz, mas por­que a fil­ma­gem care­ce de pul­so e de vibra­ção), enqua­dra­do por belas pai­sa­gens chi­le­nas e pon­tu­a­do por decla­ma­ções com voz impos­ta­da de ver­sos do Canto geral, livro que o poe­ta escre­via na épo­ca.

Se explo­ras­se mais o apren­di­za­do sobre o Chile pro­fun­do expe­ri­men­ta­do por Neruda em sua tra­ves­sia, o fil­me ganha­ria em inte­res­se his­tó­ri­co e dra­má­ti­co. Mas o dida­tis­mo dos diá­lo­gos, a engo­ma­da recons­ti­tui­ção de épo­ca e a dra­ma­tur­gia tele­vi­si­va enges­sam um epi­só­dio tão rico de pos­si­bi­li­da­des.

E o pró­prio Neruda, que no “sim­pá­ti­co” O car­tei­ro e o poe­ta tinha se con­ver­ti­do qua­se num autor de auto­a­ju­da, aqui apa­re­ce como um homem meio alu­a­do e pas­si­vo, que não pode ver um pás­sa­ro que come­ça a reci­tar odes ao con­dor e à águia e trans­for­ma tudo em sím­bo­lo da “gran­de­za de nues­tra América”.

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