Scola, síntese do cinema italiano

No cinema

22.01.16

O cine­ma de Ettore Scola (1931–2016) é o lugar em que se encon­tram três tra­di­ções mui­to for­tes do cine­ma ita­li­a­no: o neor­re­a­lis­mo (mais da ver­ten­te de De Sica do que da de Rosselini), a comé­dia soci­al de cos­tu­mes (Monicelli, Risi, Steno, Germi) e o cine­ma pro­pri­a­men­te polí­ti­co, ou de “impeg­no civi­le” (Francesco Rosi, Elio Petri, Gillo Pontecorvo).

Ettore Scola no set de fil­ma­gem

Sua obra nas­ce no iní­cio dos anos 1960, quan­do o cine­ma ita­li­a­no era tal­vez o melhor do mun­do, com pelo menos três gêni­os em seu apo­geu (Visconti, Antonioni e Fellini) e o sur­gi­men­to de uma nova gera­ção (Bertolucci, Bellochio), sem con­tar gêne­ros como o gial­lo, o faro­es­te espa­gue­te e “lobos soli­tá­ri­os” como Pasolini e Zurlini.

Scola não che­gou a cri­ar um uni­ver­so esté­ti­co pró­prio, incon­fun­dí­vel, a exem­plo de Antonioni ou Fellini. Como o ame­ri­ca­no Woody Allen e o bra­si­lei­ro Jorge Furtado, ele faz par­te da linha­gem dos cine­as­tas-rotei­ris­tas, tal­vez mais rotei­ris­tas do que cine­as­tas, no sen­ti­do em que dão mais aten­ção ao rotei­ro do que pro­pri­a­men­te à cons­tru­ção de ima­gens, à orga­ni­za­ção do espa­ço e do movi­men­to.

Seus melho­res fil­mes, a meu ver, são aque­les em que a inten­ção de cri­ar um afres­co crí­ti­co da soci­e­da­de ita­li­a­na não aba­fa os per­so­na­gens, não os tor­na meros tipos ou sím­bo­los. Penso em Nós que nos amá­va­mos tan­to (1974), Feios, sujos e mal­va­dos (1976), Um dia mui­to espe­ci­al(1977) e A famí­lia (1987). Embora em todos eles se pos­sa detec­tar um cer­to esque­ma­tis­mo, este é ampla­men­te com­pen­sa­do pela viva­ci­da­de dos diá­lo­gos e situ­a­ções, sem falar da cate­go­ria excep­ci­o­nal dos ato­res (Vittorio Gassman, Marcello Mastroianni, Nino Manfredi, Sophia Loren etc.).

Em Casnova e a revo­lu­ção (1982), um rotei­ro enge­nho­so, ins­pi­ra­do leve­men­te no con­to “Bola de sebo”, de Maupassant, e um elen­co inter­na­ci­o­nal extra­or­di­ná­rio con­se­guem tor­nar envol­ven­te e diver­ti­do o que, sem essas qua­li­da­des, pode­ria ser uma ale­go­ria pesa­da sobre os des­ti­nos da Europa bur­gue­sa.

Realismo calo­ro­so

Onde a inten­ção ale­gó­ri­ca pesa mes­mo é em O bai­le (1983), que me pare­ce uma exi­bi­ção frus­tra­da de vir­tu­o­sis­mo ao bus­car retra­tar toda a his­tó­ria do sécu­lo XX numa sequên­cia de dan­ças, sem um úni­co diá­lo­go – arti­fi­ci­a­lis­mo com­pa­rá­vel ao do fran­cês O artis­ta (Michel Hazanavicius, 2011). Onde eu vejo afe­ta­ção, porém, há quem veja sen­si­bi­li­da­de, ori­gi­na­li­da­de e ima­gi­na­ção cri­a­do­ra. É um dos fil­mes mais ama­dos por cer­tos fãs de Scola.

Para o meu gos­to e tem­pe­ra­men­to, o cine­ma do dire­tor ganha mais sen­ti­do e con­sis­tên­cia quan­do man­tém um pé no rea­lis­mo calo­ro­so, ter­ra a ter­ra, da comé­dia soci­al de onde sur­giu, em vez de ten­tar emu­lar a fase mais exu­be­ran­te de Fellini (seu prin­ci­pal mes­tre e ins­pi­ra­dor).

Um exem­plo elo­quen­te tal­vez seja esta cena enga­no­sa­men­te sim­ples de Nós que nos amá­va­mos tan­to em que dois ami­gos se reen­con­tram por aca­so depois de déca­das num esta­ci­o­na­men­to de Roma. Um deles, Gianni (Vittorio Gassman), casou com uma rica­ça e se abur­gue­sou, aban­do­nan­do o ide­a­lis­mo da juven­tu­de. O outro, Antonio (Nino Manfredi), segue sen­do um modes­to padi­o­lei­ro de hos­pi­tal – e comu­nis­ta.

A situ­a­ção equí­vo­ca faz com que Antonio jul­gue que o ami­go ago­ra é um guar­da­dor de car­ros. As muta­ções no ros­to de Gassman, bem como o afe­to calo­ro­so de Manfredi, valem por um cur­so de atu­a­ção. É um gran­de momen­to de Ettore Scola e do cine­ma ita­li­a­no.

Corpo estra­nho

Uma peque­na joia cor­re o ris­co de ser soter­ra­da pelos block­bus­ters de verão e pelos “fil­mes do Oscar”. Estou falan­do de Body, da polo­ne­sa Malgorzata Szumowska, ven­ce­dor do prê­mio de dire­ção no fes­ti­val de Berlim de 2015.

Trata-se, resu­mi­da­men­te, da his­tó­ria de um pro­mo­tor da polí­cia téc­ni­ca (Janusz Gajos) e sua filha ano­ré­xi­ca (Justina Suwala), que vivem na mes­ma casa mas mal se falam des­de que a mulher do pro­mo­tor (e mãe da moça) mor­reu.

Com um humor absur­do típi­co do les­te euro­peu e uma aten­ção aos deta­lhes que tor­na chei­os de vida os “tem­pos mor­tos”, a dire­to­ra tran­si­ta com desen­vol­tu­ra na cor­da bam­ba entre o ceti­cis­mo do pro­ta­go­nis­ta e o mis­ti­cis­mo de uma tera­peu­ta da filha (Maja Ostaszewska), que diz ter o poder de se comu­ni­car com os mor­tos (em sua casa há até retra­tos de Chico Xavier). O fil­me todo é mui­to bom, mas a sequên­cia ini­ci­al, em que o pro­mo­tor com­pa­re­ce ao local onde um homem se enfor­cou, é dig­na de anto­lo­gia.

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