Scorsese e o dinheiro como droga pesada

No cinema

24.01.14

Não deve ser por aca­so que os fil­mes mais recen­tes de vári­os cine­as­tas impor­tan­tes de nos­so tem­po têm como pro­ta­go­nis­tas mag­na­tas sem escrú­pu­los do mer­ca­do finan­cei­ro: Cosmópolis, de Cronenberg, O capi­tal, de Costa-Gavras, e ago­ra O lobo de Wall Street, de Martin Scorsese — sem con­tar o per­so­na­gem de Alec Baldwin em Blue Jasmine, de Woody Allen. Cada um à sua manei­ra, eles ten­tam dar um ros­to a esse mal impal­pá­vel e difu­so cha­ma­do capi­tal finan­cei­ro glo­bal.

A “manei­ra” de Scorsese em O lobo de Wall Street é a mes­ma que carac­te­ri­za seu melhor cine­ma, mar­ca­do por his­tó­ri­as de ascen­são meteó­ri­ca, que­da ver­ti­gi­no­sa e reden­ção pos­sí­vel de per­so­na­gens que, por um moti­vo ou por outro, “saí­ram da casi­nha” e embar­ca­ram numa espi­ral de auto­des­trui­ção. Não é isso, afi­nal, o que apro­xi­ma per­so­na­gens tão dís­pa­res quan­to os anti-heróis de Taxi dri­ver, Touro indo­má­vel, O rei da comé­dia, Os bons com­pa­nhei­ros, Cassino e até, de modo mais oblí­quo, A ida­de da ino­cên­cia e A últi­ma ten­ta­ção de Cristo?

http://www.youtube.com/watch?v=PoSCUsNQVtw

Pouco impor­ta que o Jordan Belfort vivi­do por Leonardo DiCaprio seja base­a­do na “his­tó­ria real” de um cor­re­tor da Bolsa de Nova York. No fil­me, ele é o homo scor­se­si­ens por exce­lên­cia, encar­na­ção da “húbris” (exces­so ou des­co­me­di­men­to), dese­jo huma­no de ir além das limi­ta­ções impos­tas pela natu­re­za e/ou pela divin­da­de. Que lugar mais indi­ca­do para exer­cer essa ambi­ção des­me­di­da de poder e rique­za do que a bol­sa de valo­res da mai­or eco­no­mia do mun­do?

Na sel­va do mer­ca­do

Como em outros de seus bons fil­mes, Scorsese divi­de dra­ma­ti­ca­men­te essa tra­je­tó­ria em três atos: a eufo­ria, a res­sa­ca e a con­va­les­cen­ça ou renas­ci­men­to, mar­ca­do pela autoi­ro­nia e pelo reco­nhe­ci­men­to das limi­ta­ções.

Aqui, des­de as pri­mei­ras ima­gens — o comer­ci­al da empre­sa de Belfort, em que um leão pas­seia pelo escri­tó­rio de uma cor­re­to­ra -, é evi­den­te o retra­to do mer­ca­do finan­cei­ro como uma sel­va, mas há tam­bém a asso­ci­a­ção entre a acu­mu­la­ção capi­ta­lis­ta, o vício em dro­gas (álco­ol, cocaí­na, anfe­ta­mi­nas), a vio­lên­cia e a por­no­gra­fia. A cer­ta altu­ra, tudo se con­den­sa numa ima­gem ines­que­cí­vel: Belfort colo­can­do cocaí­na no vale da bun­da de uma pros­ti­tu­ta. Não será por fal­ta de ênfa­se que Scorsese será cri­ti­ca­do.

Brutalidade e humor

Isso tudo se dá numa nar­ra­ti­va vigo­ro­sa, com aque­la mon­ta­gem bru­tal de Thelma Schoonmaker, aque­la tri­lha sono­ra ner­vo­sa (pop, rock, blu­es, jazz) típi­ca de Scorsese e com um humor mais inso­len­te do que de hábi­to na obra do dire­tor. A sequên­cia da bad trip de Belfort com Quaalude de vali­da­de ven­ci­da é dig­na de uma anto­lo­gia da comé­dia.

Um pro­ce­di­men­to for­mal recor­ren­te é o tra­vel­ling em que o pro­ta­go­nis­ta avan­ça em dire­ção à pla­teia, dizen­do dire­ta­men­te a ela o que, numa nar­ra­ti­va rea­lis­ta clás­si­ca, seria dito em off. Isso acen­tua a sen­sa­ção de eufo­ria e poder asso­ci­a­da ao per­so­na­gem.

Como sem­pre, depois da orgia vem o rever­té­rio, que não é o caso de des­cre­ver aqui, mas que colo­ca por ter­ra a tola acu­sa­ção de que Scorsese gla­mo­ri­zou a figu­ra de Belfort. A cena em que, alu­ci­na­do, ele ten­ta fugir com a filha peque­na e bate o car­ro den­tro da pró­pria casa ecoa uma pas­sa­gem pare­ci­da de Os bons com­pa­nhei­ros, em que o per­so­na­gem de Ray Liotta bate na mulher dian­te do olhar assus­ta­do da filhi­nha do casal. A moral cris­tã do dire­tor mar­ca pre­sen­ça aqui como ali.

Interpretações bio­grá­fi­cas são sem­pre peri­go­sas, mas é impos­sí­vel dei­xar de ver, nes­te e em outros fil­mes, duas cir­cuns­tân­ci­as cen­trais da expe­ri­ên­cia de vida de Scorsese: sua for­ma­ção cató­li­ca e o vício em cocaí­na que o levou a uma gra­ve cri­se nos anos 70. O lobo de Wall Street não é o “refle­xo” dis­so, mas é um retra­to de nos­so tem­po por um gran­de artis­ta que pas­sou por isso.

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