Sem pena e os corpos fora do lugar

No cinema

03.10.14

Sem pena” no cine­ma do IMS-RJ, em ses­sões de 9 a 15 de outu­bro.

Um docu­men­tá­rio como Sem pena, de Eugenio Puppo, pode­ria se jus­ti­fi­car ape­nas pela situ­a­ção para­do­xal que expõe e dis­cu­te: a popu­la­ção car­ce­rá­ria bra­si­lei­ra, ter­cei­ra mai­or do mun­do (atrás só da China e dos EUA), cres­ce ver­ti­gi­no­sa­men­te, e nem por isso nos­sa soci­e­da­de está mais segu­ra ou menos vio­len­ta. Numa épo­ca em que can­di­da­tos a car­gos ele­ti­vos só falam em botar mais gen­te na cadeia, o fil­me nos mos­tra que é todo o sis­te­ma penal que está fali­do, em seus prin­cí­pi­os e em seu fun­ci­o­na­men­to.

Pois bem. Sem pena – que ganhou o prê­mio do públi­co no recen­te Festival de Cinema de Brasília – não se apoia na mule­ta da per­ti­nên­cia de seu tema, como faria um docu­men­tá­rio buro­crá­ti­co, jor­na­lís­ti­co, tele­vi­si­vo ou pan­fle­tá­rio, mas o des­trin­cha por mei­os espe­ci­fi­ca­men­te cine­ma­to­grá­fi­cos, ou seja, por um arran­jo deter­mi­na­do de pala­vra, ima­gem e som.

Descompasso e des­con­for­to

Há no fil­me depoi­men­tos de uma por­ção de gen­te – advo­ga­dos, pro­mo­to­res, pre­si­diá­ri­os, padres, poli­ci­ais, juí­zes, paren­tes de pre­sos –, mas não vemos essas tal­king heads (a não ser na sequên­cia dos cré­di­tos finais), pois seu dis­cur­so ver­bal se sobre­põe a ima­gens diver­sas do uni­ver­so judi­ci­al e pri­si­o­nal, de celas api­nha­das e cozi­nhas infec­tas de pre­sí­di­os ao faus­to dos fóruns e tri­bu­nais, das filas de fami­li­a­res de deten­tos aos cor­re­do­res inter­mi­ná­veis de estan­tes abar­ro­ta­das de pro­ces­sos.

Não há redun­dân­cia entre o que se diz e o que se mos­tra, mas sim atri­to, fric­ção, des­com­pas­so. Frequentemente as ima­gens são par­ci­ais, frag­men­ta­das, numa com­po­si­ção que alu­de ao sis­te­ma por meio da meto­ní­mia. Algemas pen­du­ra­das numa bar­ra, o fuzil de um poli­ci­al fazen­do ron­da na mura­lha de um pre­sí­dio, uma toga de juiz no encos­to de uma pol­tro­na, pin­tu­ras mul­ti­co­lo­ri­das fei­tas por um pre­so – tudo isso enquan­to se fala de outra coi­sa. A sen­sa­ção é de estra­nhe­za: idei­as e cor­pos fora do lugar.

Um exem­plo sin­ge­lo e sig­ni­fi­ca­ti­vo: a cer­ta altu­ra vemos, do joe­lho para bai­xo, uma mulher tro­can­do de saia num cer­ca­di­nho de pano que não che­ga até o chão. Só vári­os minu­tos depois será dado o sen­ti­do des­sa ima­gem frag­men­ta­da, quan­do a mãe de um pre­si­diá­rio con­tar que as kaf­ki­a­nas exi­gên­ci­as para as visi­tas de paren­tes mudam a cada sema­na, obri­gan­do-os mui­tas vezes a com­prar ou alu­gar rou­pas “per­mi­ti­das” no mer­ca­do para­le­lo for­ma­do dian­te da pri­são.

A fic­ção do real

O efei­to des­se tipo de pro­ce­di­men­to, real­ça­do pelos silên­ci­os, pelo som ambi­en­te e pela músi­ca (uma peça de John Cage para “pia­no pre­pa­ra­do” que se apro­xi­ma mui­to dos ruí­dos secos e cor­tan­tes do uni­ver­so pri­si­o­nal), é de des­con­for­to e incom­ple­tu­de, obri­gan­do o espec­ta­dor a bus­car os nexos, mon­tar seu pró­prio que­bra-cabe­ças.

Nesse con­tex­to, duas cenas – tal­vez as úni­cas – em que as falas e as ima­gens se cor­res­pon­dem dire­ta­men­te pare­cem até ence­na­das, de tão sig­ni­fi­ca­ti­vas. Numa delas, mora­do­res de rua pro­vo­cam ver­bal­men­te o dono de uma Ferrari ver­me­lha no lar­go São Francisco, em São Paulo, e quan­do a câme­ra sobe um pou­co lemos a ins­cri­ção no edi­fí­cio: “Faculdade de Direito”. A outra cena é, de cer­to modo, a cul­mi­nân­cia dra­má­ti­ca da nar­ra­ti­va, e ao mes­mo tem­po a demons­tra­ção prá­ti­ca de sua dis­cus­são, ao mos­trar uma audi­ên­cia em que uma senho­ra negra e pobre é inter­ro­ga­da por um juiz por­que uma cer­ta quan­ti­da­de de dro­ga foi encon­tra­da per­to da por­ta do seu bar­ra­co.

Dizer que o fil­me não é pan­fle­tá­rio é reco­nhe­cer que ele não sim­pli­fi­ca de modo mani­queís­ta o seu assun­to para defen­der uma ban­dei­ra, mas não sig­ni­fi­ca que ele seja des­com­pro­me­ti­do ou “neu­tro”. Longe dis­so. Coproduzido pelo IDDD (Instituto de Defesa do Direito de Defesa), o docu­men­tá­rio de Eugenio Puppo, ao des­nu­dar a lógi­ca per­ver­sa do sis­te­ma penal, aca­ba por expor seus con­di­ci­o­na­men­tos soci­ais e sua injus­ti­ça intrín­se­ca. É o país intei­ro, em toda a sua bru­tal ini­qui­da­de, que apa­re­ce ali. Não é um pan­fle­to, mas tal­vez seja um libe­lo, no sen­ti­do jurí­di­co do ter­mo.

Sem pena” no cine­ma do IMS-RJ, em ses­sões de 9 a 15 de outu­bro.

, , ,