Sem tempo de devaneio

Correspondência

25.04.11

Rita:

Se essa cor­res­pon­dên­cia não fos­se públi­ca, eu diria: “rebar­ba­ti­vo Gullar”, uma ova! E pron­to. Resposta abrup­ta assim por­que a ami­za­de tão pro­fun­da e sen­ti­da, de mais de 30 anos, que temos um pelo outro sem­pre per­mi­tiu os “con­tras­tes e con­fron­tos”, expli­ci­ta­men­te decla­ra­dos e deba­ti­dos, sem que isso a afe­tas­se. Mas como escre­ve­mos a céu aber­to, ao ar livre como dois BBs no pare­dão vir­tu­al e ele­trô­ni­co, com gen­te len­do por cima dos nos­sos ombros, devo uma decla­ra­ção a essa gale­ra anô­ni­ma que bafe­ja nas nos­sas nucas: des­de os meus 16 anos “pra­ti­co” Ferreira Gullar. No lon­gín­quo ano de 1956, copi­ei seu livro A luta cor­po­ral à mão (naque­la épo­ca não havia os recur­sos de hoje), com espan­to e alum­bra­men­to. Foi for­mi­dá­vel ter a sen­sa­ção de que era eu quem escre­via aque­le livro-bom­ba! Ainda não conhe­cia “Pierre Menard, autor do Quixote”, de Borges. Sem saber fui um Menard II. Anos mais tar­de escre­vi um tex­to sobre as minhas influên­ci­as em poe­sia; saiu na Folha com o títu­lo de “Três Mosqueteiros”: Bandeira, Drummond, Cabral. Quem era o quar­to? Quem era D’ Artagnan?  Gullar, é cla­ro. Ele tem até o phy­si­que du rôle para o per­so­na­gem.

Durante toda a minha vida, da ado­les­cên­cia à velhi­ce, o admi­rei por sua inte­gri­da­de com­ba­ten­te e pelos seus livros. A pos­si­bi­li­da­de que ele abriu, des­de 1954,   com A luta cor­po­ral, para os poe­tas moços come­ça­rem a escre­ver, foi vital e ines­que­cí­vel. O livro Em algu­ma par­te algu­ma, lan­ça­do ano pas­sa­do é fun­da­men­tal, como sua obra é fun­da­men­tal para poe­sia bra­si­lei­ra de hoje e de sem­pre. Como dei­xei cla­ro na minha car­ta ante­ri­or, que ante­ce­de a sua, a suces­são “monár­qui­ca” que se faz com os poe­tas não me agra­da nem um pou­co nem me moti­va. Afinal, quem não sabe ain­da que os bons poe­tas não mor­rem nun­ca? Que eles são con­tra a mor­te? Ou o seu antí­do­to infa­lí­vel?

Você me dá razão numa coi­sa que eu não afir­mei. Eu, ape­nas, per­gun­tei se é mais fácil para o júri do Prêmio São Paulo jul­gar pro­sa do que poe­sia, e a razão dis­so, e o porquê da exclu­são da poe­sia nes­sa pre­mi­a­ção. De minha par­te, eu não acho que seja mais difí­cil jul­gar poe­sia do que pro­sa. Como pode­ria achar isso, sen­do poe­ta? Para mim seria mais difí­cil jul­gar os volu­mo­sos volu­mes da pro­sa. Mais tra­ba­lho­so, sem dúvi­da. Também não acho que seja mais difí­cil jul­gar a boa poe­sia. Muito pelo con­trá­rio, a sin­to de lon­ge, ins­tan­ta­ne­a­men­te, pelo chei­ro. Ando, isso sim, abor­re­ci­do de ver a poe­sia ser can­ta­da em pro­sa e ver­so, às vezes até melo­dra­ma­ti­ca­men­te, da boca para fora, e não ter o sta­tus da pro­sa. Na hora de pre­mi­ar o poe­ta, com 200 milhas no caso, nem um cen­ta­vo. E nem a pos­si­bi­li­da­de de con­cor­rer! Só pos­so encon­trar uma razão extra­li­te­rá­ria, mise­rá­vel, de mer­ca­do: a poe­sia não ven­de, a pro­sa pode ven­der alguns cara­min­guás.

Sim, só temos “um cor­po e uma fatia do tem­po”. A melhor manei­ra que tenho para lhe res­pon­der  isso é a de citar três poe­mas. O pri­mei­ro é de 1960, que está no meu pri­mei­ro livro Palavra, de 1963, se cha­ma “Corpo”, e diz assim:

Acrobata enre­da­do

em clau­su­ra de pele

sem nenhu­ma rup­tu­ra

para onde me leva

sua estru­tu­ra?

Doce máqui­na

com engre­na­gem de mús­cu­lo

sus­pi­ro e ran­gi­do

o espa­ço devo­ra

seu movi­men­to

(bra­ços e per­nas

sem explo­são).

Engenho de febre

sono e lem­bran­ça

que arma

e desar­ma minha mor­te

em arma­du­ra de tre­va.

O outro, escri­to em 1991, e publi­ca­do em 94 em Números anô­ni­mos, é sobre a sen­sa­ção que tive ao ouvir os pri­mei­ros sinais de vida do meu filho Carlos:

Você é todo cora­ção, extre­mo.

Ultrassonográfico e estre­me­ci­do

a 155 p/minuto

e daqui para fren­te, bate até o fim.

No iní­cio, indi­vi­so, pro­fis­si­o­nal

somen­te por si mes­mo

sem tem­po de deva­neio

no meio da está­ti­ca, da tem­pes­ta­de

do outro cor­po

que o guar­da ago­ra, coe­so

e que depois o expul­sa­rá

quan­do você qui­ser fugir.

E o ter­cei­ro, publi­ca­do em Raro mar, em 2006, ten­ta mos­trar a estra­nha mis­tu­ra de vida e sui­cí­dio, ou do sui­cí­dio ine­ren­te à vida :

O reló­gio é a bom­ba que o dese­jo

dos pais deram cor­da des­de

o pri­mei­ro bati­men­to, ain­da

sob o deles, soto­pos­to, soter­ra­do.

Depois, pau­la­ti­no e dis­cer­ní­vel

des­gar­ran­do-se, embo­ra

sem­pre depen­den­te daque­la

liga­ção ori­gi­nal, orgâ­ni­ca.

Agora, a cor­da encur­ta na mão

de quem a segu­ra, no pul­so do cor­po

sem o cal­ço do dese­jo expres­so

na con­ta­gem da estro­fe ini­ci­al.

Mas que con­ti­nua, puro impul­so

cabo-de-guer­ra, vida e mor­te

que vai puxar até par­tir, em cima

do que pode ser mina ou fon­te.

Para dizer a ver­da­de, creio que tenho o mes­mo tem­po que todo mun­do tem para escre­ver. Não escre­vo a par­tir da con­tem­pla­ção. Escrevo no meio da casa em fun­ci­o­na­men­to, no meio da rua, e, antes de me apo­sen­tar, no meio do tra­ba­lho, no meio do pão de cada dia. O que pos­so ter é um mai­or inves­ti­men­to inte­ri­or que cria um tem­po extra­or­di­ná­rio, um espa­ço, onde só cabe a mão do escri­tor, assim:

CINQUENTA E TANTOS ANOS

Escrevo por­que escre­vo.

Quando dei por mim, escre­via.

Escrever não tem come­ço nem fim.

Me man­te­nho escre­ven­do.

Luto con­tra meu cor­po des­de o iní­cio.

Me tenho, escre­ven­do.

No tecla­do, ou com a cane­ta, o lápis.

Mas devi­do à rapi­dez

com que pen­so e esque­ço

devia usar a pena de dois sécu­los atrás

que casa melhor com o ges­to inci­si­vo

que ima­gi­no, pre­ci­so

com sua penu­gem de asa, com o bico

de um pás­sa­ro agu­do qual­quer, de rapi­na

mer­gu­lhan­do, veloz e voraz, repe­ti­da­men­te

no gar­ga­lo, na gar­gan­ta do tin­tei­ro

para pegar, pes­car, a voz úmi­da, sub­mer­sa

con­tí­nua e escu­ra, que não pode secar.

Ou assim:

Corpo fei­to no gri­to. De um gri­to.

Por um gri­to. Pelo gri­to úmi­do

e escu­ro, con­fi­gu­ra-se na emis­são

e na escu­ta: no cir­cui­to de si mes­mo.

Na escri­ta. Por um fei­xe de gri­tos

amar­ra­dos tão jun­tos que pare­cem ser

a soma cer­ta e alta de um só — sumo.

Corpo de porquês. Que levan­ta

da cadei­ra, do pen­sa­men­to

e vai pegar o que se diz em pé:

(senão o sen­ti­do esca­pa pelos

sen­ti­dos afo­ra), e vai bus­car

sem garan­tia de rece­ber ou de sequer

encon­trar o que pen­sou exis­tir

para ano­tar logo em peda­ço de papel

bei­ra de jor­nal, no canho­to, na pal­ma

da mão, em qual­quer zine que pas­se.

Cliqui aqui para ler a car­ta ante­ri­or

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